despedida

O homem da prrrova

Morre um amigo da matemática brasileira

Bernardo Esteves
No Impa, Jean-Christophe Yoccoz tinha um gabinete com vista para a Floresta da Tijuca
No Impa, Jean-Christophe Yoccoz tinha um gabinete com vista para a Floresta da Tijuca FOTO: IMPA

Em 1995, o matemático Carlos Gustavo Moreira mostrou ao colega Jean-Christophe Yoccoz a primeira versão do artigo que vinha preparando. No ano anterior, o francês havia conquistado a Medalha Fields, o maior prêmio da matemática, e convidara o brasileiro para um pós-doutorado na Universidade Paris-Sud (acomodou-o em seu próprio gabinete). Moreira – ou Gugu, como todos costumam chamá-lo – queria provar uma conjectura relativa à especialidade de ambos, os sistemas dinâmicos. Estava convencido de que as dez páginas que escrevera tinham dado conta do problema, mas o colega se revelou cético. Yoccoz – um sujeito bonachão, de cabelos encaracolados e bochechas avermelhadas – examinou o artigo e retrucou num português com sotaque carregado: “Isso aqui não é uma prrrova.

O rigor inegociável constituía um traço do matemático parisiense, falecido em setembro, aos 59 anos, vítima de leucemia. “Argumentos que me pareciam muito convincentes estavam bem longe da precisão que ele achava aceitável”, disse Moreira ao evocar o episódio. O caso virou piada no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, o Impa, onde o brasileiro atua como pesquisador: há provas e prrrovas. O francês aceitava apenas as do segundo tipo. O problema enfrentado por Yoccoz e Gugu só foi resolvido em 2001, num artigo de 51 páginas.

O Impa – centro de pesquisa encravado na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro – era a segunda casa acadêmica de Yoccoz. Ele veio à cidade pela primeira vez em 1981 para uma temporada de dois anos e, desde então, não perdia uma oportunidade de retornar. Em sua sala com vista para a Mata Atlântica, obteve alguns dos resultados que lhe valeram a Medalha Fields na década seguinte. Colaborou com matemáticos brasileiros de várias gerações, cinco dos quais se reuniram numa tarde de setembro, num auditório do instituto, com a intenção de celebrar sua memória. Indecifrável para civis, a homenagem foi povoada por criaturas como difeomorfismos, bifurcações homoclínicas e rotações fracamente misturadoras.

Estudioso dos fenômenos que se alteram com o tempo, Yoccoz interessava-se pela linha tênue que separa o comportamento dos sistemas regulares e o daqueles que evoluem de forma imprevisível. Imagine uma situação em que os planetas em órbita de uma estrela subitamente descambem para trajetórias irregulares: as contribuições do francês ajudaram a caracterizar essa passagem da ordem ao caos.

Yoccoz gostava de atacar os problemas por todos os flancos. Não pegava atalhos nem se intimidava com contas. “Analisava cada detalhe, usava casos concretos e fazia o trabalho de formiguinha que alguns de nós nos julgamos importantes demais para fazer”, atestou Marcelo Viana, diretor do Impa. “Era um rolo compressor.”

 

O veterano Jacob Palis, de 76 anos, foi quem abriu as portas do instituto carioca para Yoccoz. Em 1979, aos 22 anos, o francês estava trabalhando num problema de interesse do brasileiro, que decidiu vê-lo em Paris por indicação de um colega. Os pesquisadores acabaram ficando amigos e, dois anos depois, Yoccoz se transferiu para o Rio num programa do governo que permitia a jovens trocar o serviço militar por um estágio de pesquisa num país em desenvolvimento.

Em 2001, valeu-se de sua influência no Collège de France e criou um posto de pesquisador visitante para o jovem Artur Avila, doutor recém-formado pelo Impa. Em 2013, apesar de hospitalizado e à espera de um transplante de medula óssea, aceitou sem hesitar escrever uma carta ao governo de seu país recomendando que dessem a cidadania francesa a Avila. Era de se esperar que, adoentado e frágil, se desincumbisse da tarefa com rapidez – devia saber que, sendo tão influente e respeitado, bastariam três frases genéricas para dar conta do recado. Mas ele não funcionava assim. Do leito da enfermaria, redigiu duas páginas cerradas, cheias de inteligência e ternura. Nelas discorreu sobre os trabalhos mais importantes de seu jovem coautor e esclareceu como alargavam as fronteiras da matemática. “Yoccoz nunca faria a coisa pela metade”, explicou Avila.

Idealizador da homenagem no Impa, o carioca engasgou ao falar do amigo. O desembaraço só veio quando entrou na parte técnica da apresentação. De giz na mão, dispensou o PowerPoint e palestrou por mais de uma hora. Quem compreendeu apreciou bastante.

Avila e Yoccoz solucionaram alguns problemas em parceria, ainda que nem sempre lado a lado. “Ele acordava às quatro da manhã e começava a trabalhar antes de ser interrompido pelas distrações cotidianas”, relembrou o brasileiro, ele próprio um matemático de hábitos noturnos. “Eu chegava a seu gabinete na hora do almoço e, depois de comermos, o dia já tinha acabado para ele.” O descompasso não impediu que a dupla publicasse três artigos.

 

Yoccoz morou no Alto Leblon, desfilou na Império Serrano e torcia pelo Flamengo. Casou-se com uma maranhense, a quem continuou ligado mesmo depois de se separar – nunca deixou de usar aliança –, e teve um filho. Quando a ex-mulher morreu, o francês e o novo companheiro dela espalharam suas cinzas na Floresta da Tijuca.

A solidão foi o preço que Yoccoz pagou pelo rigor extremo com que exerceu a profissão. Não transigia com a dura disciplina de trabalhar muito e sempre – algo incompatível com o convívio social. Tamanha integridade fez dele quase um asceta. Havia, contudo, espaço para a alegria, encontrada nos amigos e na própria matemática. “Passamos a vida pensando em objetos lindos”, disse certa vez a um conhecido. Seus olhos brilhavam.

Carlos Matheus Santos foi um dos poucos a visitar Yoccoz no hospital nos últimos dias da doença (o francês continuou discutindo matemática mesmo depois de internado). Santos mora em Paris desde 2007. Mudou-se para lá após se formar doutor pelo Impa aos 19 anos, o mais jovem Ph.D. da história do instituto. (Um professor hábil em identificar talentos precoces o descobriu em Sergipe.) Yoccoz foi quase um pai para o rapaz: acompanhou-o ao banco para abrir uma conta, emprestava-lhe livros para aprimorar seu francês e convidava-o para férias na Bretanha, que incluíam jogos de bocha e maratonas de Alfred Hitchcock em DVD.

O sergipano não enfrentou os problemas de fuso horário vividos por Avila. Buscando maximizar seu tempo com Yoccoz, passou a madrugar – acordava às quatro e meia – para pegar o primeiro metrô e chegar ao escritório no mesmo horário do mentor, pouco depois das seis. “Nas raras vezes em que eu chegava antes, ele fazia questão de explicar o atraso.” Além dos quatro artigos que publicaram juntos, deixaram dois papers inacabados. Santos segue trabalhando em ambos – num deles, com Artur Avila; no outro, com Jacob Palis.

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

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