: “A imprensa viveu seu ano do pensamento mágico”, disse Margaret Sullivan, crítica de mídia do Post. “Quem fala o que ele fala, quem faz o que ele faz, era óbvio que não iria ganhar”
Ver dados da foto : “A imprensa viveu seu ano do pensamento mágico”, disse Margaret Sullivan, crítica de mídia do Post. “Quem fala o que ele fala, quem faz o que ele faz, era óbvio que não iria ganhar” FOTO: DANIELA PINHEIRO_2016

O jornalismo pós-Trump

A perplexidade, a autocrítica e os desafios da imprensa americana diante do novo presidente
Daniela Pinheiro
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: “A imprensa viveu seu ano do pensamento mágico”, disse Margaret Sullivan, crítica de mídia do Post. “Quem fala o que ele fala, quem faz o que ele faz, era óbvio que não iria ganhar” FOTO: DANIELA PINHEIRO_2016

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Por volta das sete da noite, fachos de luz que passavam do roxo ao prata e do prata ao pink iluminavam o salão no 4º andar do edifício, podendo causar certa tontura aos que ainda chamam balada de discoteca. Televisões descomunais estavam distribuídas pelas paredes, sintonizadas em canais de notícias abafadas pela música alta e pelas conversas duas oitavas acima do normal – entre gente que havia investido um bom tempo na frente do espelho antes de sair de casa. Um exército de garçons com bandejas de canapés e bebidas trançava pelo ambiente que cheirava levemente a fritura. Parecia lançamento de perfume da moda, mas era a festa organizada pelo Washington Post, no prédio da redação do jornal, na noite de terça-feira, dia 8 de novembro. Cerca de mil pessoas haviam sido convidadas para a apuração dos votos da eleição presidencial que definiria a democrata Hillary Diane Rodham Clinton ou o republicano Donald John Trump como o próximo ocupante da Casa Branca.

Ao contrário do New York Times, que cobrou 250 dólares por cabeça, garantindo que, como num evento pós-Oscar, os convivas esbarrariam em celebridades – no caso, o diretor do jornal, Dean Baquet, e os principais editores e repórteres –, a festa do Post foi gratuita e custeada por patrocinadores. O maior deles era a MGM, que estava para inaugurar um empreendimento imobiliário. Em uma época em que os maiores veículos de imprensa passaram a contar com um departamento de eventos, a iniciativa era uma estratégia para, como se diz no jargão comercial, “bombar a marca”. No dia seguinte, selfies de gente bonita e de opinião bem estabelecida, que teriam sorrido em frente à logomarca de letras góticas do jornal, estariam pululando pelas redes sociais. Como dizia uma propaganda de cartão de crédito, “isso não tem preço”.

Em uma sala de vidro, um doceiro famoso preparava uma balinha puxa-puxa nas cores da bandeira americana; em outra, onde havia uma miniatura do Salão Oval, as pessoas posavam para fotos; mais adiante, podiam testar óculos de realidade virtual. Por toda a parte, estações de restaurantes da moda distribuíam o melhor de sua comida – ostras, galinha frita, ceviche, camarão – para pessoas que esperavam em fila conversando platitudes. Entre os convidados, embaixadores, estrategistas políticos, congressistas, chefs e muita gente da burocracia de Washington. Passou por lá a prefeita de D.C., Muriel Bowser, e a chefe do staff de Michelle Obama, Tina Tchen.

O ambiente estava decorado com sofás de couro branco, cadeiras transparentes com jeito de Philippe Starck – o espaldar ilustrado por retratos de políticos americanos de uma época longínqua –, mesas de pôquer e roletas de cassino. O DJ PhilipZ tocava música apropriada ao pessoal do tempo da discoteca. Por volta das oito da noite, a movimentação no Twitter sob a hashtag #WPElectionNight dava o tom da balada: “Noite promete”, “Muito boa festa”.

A orientação do editor-executivo do jornal, Martin Baron, era para que os jornalistas da casa passassem longe do regabofe. E eles obedeceram. Ao que tudo indicava, a presença ou ausência deles não faria a menor diferença para os comensais.

 

Três andares acima, a redação do Post estava cheia e silenciosa. Boa parte dos jornalistas escrevia, tuitava, checava e-mails em suas mesas. Havia um bufê de comida asiática e os televisores estavam ligados na CNN, MSNBC e Fox News. O site Upshot, do New York Times, previa que a chance de Clinton vencer era de 87%. Nas redes sociais e na televisão, notava-se certo ar de derrota na equipe de Trump. A porta-voz da campanha, Kellyanne Conway, havia tuitado em tom de lamento que o candidato “não teve o apoio dos republicanos”. Donald Trump Jr., o filho mais velho, tinha dado uma entrevista à CNN reclamando que o sistema eleitoral não era justo. O ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani escreveu aos internautas que havia acabado de deixar o apartamento de Trump – o candidato estava “tranquilo”, bebendo Coca-Cola.

Às 19h45 teve início o primeiro evento da noite: um debate com os embaixadores do México e da Alemanha, mediado por um editor da casa. O fuzuê era tão grande que poucos prestaram atenção – salvo a família do diplomata alemão, na primeira fila de cadeiras. O salão enchia. Uma mulher com um chapéu que simulava um bolo de três andares se abaixava oferecendo bombons equilibrados no topo de seu cocoruto. Outra desfilava pelo salão com uma roupa coberta de guardanapos de papel, que os presentes colhiam de seu peito empinado. Clinton estava na liderança, embora houvesse uma movimentação esquisita nos votos da Flórida.

Às 20h30, quando tocava Black or White, de Michael Jackson, Clinton estava na frente em doze estados. Quando o mapa de votações apareceu na imensa tela do salão, ouviu-se um “Uhuuu!” em uníssono. A segunda atração da noite era uma conversa entre burocratas dos governos Obama e Bush. O clima de boate atrapalhava a concentração. Um senhor à minha frente se inclinava e fazia uma concha com a mão no ouvido. Depois de muito esforço, desistiu. “Vou embora, é inútil continuar aqui”, bradou. A maioria dos presentes se manteve alheia à discussão política. As celebridades da festa exclusiva pareciam ser eles próprios.

Às 20h49, foi projetado o mapa que mostrava os votos na Pensilvânia. Estranhamente, ele começava a se tingir de vermelho, indicando uma virada inesperada dos republicanos. Com o barulho da festa, poucos notaram, mas o senhor que havia ameaçado sair, mas continuava lá, se virou para a mulher – que era a cara da Meryl Streep – e disse, balançando a cabeça: “Que diabo é isso?”

Às 21h05, a CNN mostrou que Trump havia ganhado na Flórida, Georgia e em Ohio. À minha esquerda, um grupo de jovens posava para uma selfie segurando tacinhas de champanhe no ar. À direita, uma mulher vidrada em uma das telas de tevê repetia uma única frase. “Oh, My God! Oh, My God!”, era o que se podia entender com o som de Don’t You Want Me, do grupo Human League, a todo volume. À medida que o mapa eleitoral se avermelhava, o Twitter descorava. “Tentando entender esses números”, “Esse suspense está me matando”.

Às 21h37, Trump tinha 137 dos votos do Colégio Eleitoral e Clinton 104.

Às 21h55, o salão havia se esvaziado pela metade e as paredes reverberavam a música Lucky Star da cantora Madonna. O índice Dow Jones caíra 500 pontos.

 

Na redação do Post, Martin Baron entrava e saía da sala dos editores. Era preciso pensar em reportagens e análises novas, descartar o material que havia sido escrito. Textos sobre a importância de ter uma mulher na presidência, outro explicando por que o povo havia repudiado as ideias trumpistas, também um sobre o voto latino na eleição de Clinton, pelo menos duas dezenas deles foram jogados fora. Entre os jornalistas, não houve um momento de lamento coletivo ou estarrecimento sonoro quando os mapas eleitorais iam ganhando cor de ketchup. “Havia um silêncio quase incômodo”, me disse um editor que, por não ter avisado ao departamento de relações públicas do jornal sobre a nossa conversa, pediu anonimato.

Entre os editores, teve início uma discussão a respeito de terem subestimado a rejeição a Clinton e da surpreendente votação em estados tradicionalmente democratas. Teriam que escrever sobre isso. E também sobre a chocante votação feminina em Trump – cuja campanha foi pontuada por aterrorizantes declarações misóginas. Soube-se que os democratas haviam encomendado fogos de artifício e organizado uma festa para 400 pessoas na sede do comitê de campanha em Nova York. Alguns repórteres tentavam se comunicar com integrantes da equipe de Clinton, mas muitos não respondiam mais às mensagens de texto. Alguém se lembrou de que uma das matérias publicadas na revista a ser encartada na edição de domingo – fechada com antecedência – tratava-a como presidente.

Às dez e quinze da noite, a festa havia terminado antes do resultado final, mas a vitória de Trump estava garantida. Alguns convidados ainda continuaram por um bom tempo no salão, como se não soubessem para onde ir. Eu era uma delas. Havia desembarcado em Washington dez dias antes, preenchido quatro cadernos de apuração com declarações de marqueteiros, professores universitários, gurus de campanha, analistas de pesquisas – dezenove pessoas ao todo – que deveriam apenas me confirmar o óbvio: como “Madame, a presidente” (essa era a manchete pronta do New York Times) havia chegado lá. Eu havia absorvido dezenas de teses sobre os desafios de uma mulher no poder e até já sabia como terminaria a minha reportagem. O final seria mais ou menos assim: “E às XXXX horas, a XXXX anunciou que Hillary Rodham Clinton fora eleita a 45ª presidente dos Estados Unidos.” E, ali, naquele salão com jeito de fim de festa de Réveillon em clube, toda a minha apuração me pareceu um lixo equivocado.

Por volta das onze e meia, eu caminhava pela rua K do Post até a Casa Branca. A cidade estava estranhamente silenciosa, ainda que se visse gente andando a pé, esperando táxi ou Uber, saindo dos restaurantes. Havia um clima de sobressalto e cautela, como se não se tivesse o direito de falar um pouco mais alto ou andar mais rápido. Ninguém comemorava, nenhum carro passou buzinando. Um grupo de adolescentes cruzou o meu caminho. Quando uma das meninas riu, o som reverberou por um tempo como se fosse o único em toda a cidade. Às duas e meia da manhã, a Associated Press anunciou que Donald Trump fora eleito o 45º presidente dos Estados Unidos.

 

O Newseum é o maior museu do mundo dedicado ao jornalismo. São 76 mil metros quadrados distribuídos pelos sete andares de um imponente prédio da avenida Pensilvânia – a principal via de Washington, que liga a Casa Branca ao Capitólio. Por ano, recebe cerca de 800 mil visitantes, a maioria composta de grupos de estudantes de escolas públicas que correm e gritam pelas galerias, numa algaravia que lhe garante também o posto de um dos mais barulhentos do planeta. Em meio ao extenso acervo, vê-se uma prensa tipográfica do século XVIII, crachás de mitos da profissão, capas de jornais de toda sorte e um pedaço considerável do Muro de Berlim. Também o terno marrom usado pelo ator O. J. Simpson quando foi julgado pelo assassinato da mulher, e até as pantufas de uma famosa blogueira de política.

Quatro dias depois da eleição mais sombria, turbulenta, caricata, agressiva, polarizada, controversa, virulenta e vulgar da história dos Estados Unidos, Margaret Sullivan, a crítica de mídia do jornal The Washington Post, falava para uma plateia ainda atônita com o resultado. Em um auditório no 3º andar do Newseum, num misto de mea-culpa e autoanálise, ela discorria sobre uma questão premente: como a imprensa pôde ter errado tão feio?

Como a maioria dos jornalistas americanos, europeus, africanos, asiáticos – e qualquer outro ser que estivesse de passagem pela Terra –, ela também acreditou na vitória de Clinton, que durante todo o tempo apareceu nas pesquisas com uma vantagem de quatro pontos, em média, sobre Trump. Quando se tratava da probabilidade de ela ocupar a Casa Branca, as estatísticas planavam acima dos 70%. Tanto que Sullivan já tinha pronto um artigo sobre a importância do voto latino para a eleição da candidata (um dos que ganharam um toque na tecla delete depois do resultado). Por volta das dez e meia da noite, quando era claro que ele sairia vencedor, ela escreveu outro lamentando a cegueira dos meios de comunicação e, na madrugada, um terceiro em que incitava os jornalistas a serem mais combativos do que nunca para recuperar a credibilidade.

“Acho que a imprensa viveu seu ano do pensamento mágico”, disse, evocando o livro da escritora americana Joan Didion sobre o luto. “É aquilo: você vê a coisa diante dos olhos, mas pensa que é óbvio que aquilo não vai acontecer. Quem fala o que ele fala, quem faz o que ele faz, era óbvio que não iria ganhar. E passamos o ano assim”, afirmou.

A mesma perplexidade dominava o noticiário, os editoriais, as mesas-redondas na tevê, as redes sociais, os blogs especializados. Na livre associação do divã coletivo, dizia-se que a imprensa teria sido tendenciosa, elitista e mercantilista. Teria atribuído ao malfeito menor de uma o mesmo peso que conferiu às barbaridades do outro; encarado a candidatura dele como uma piada e não como um fato consumado; transformado a corrida eleitoral em um circo; confiado em gráficos e estatísticas em vez de sujar a sola do sapato tentando entender o real anseio do eleitorado nos rincões do país; dado a ele um palanque livre porque lhe trazia audiência; teria sido engolida pelas redes sociais; consentido em ser manipulada. Ou simplesmente não soubera entender, lidar e escrever sobre um personagem tão diferente do mundo político convencional. “Estamos vivendo momentos de autoflagelação”, disse Sullivan. “É a hora de refletir sobre o que fizemos de certo e de errado. Não vamos nos deixar enganar, fizemos coisas certas. Basta ver o Post”, emendou.

 

Dos três grandes furos publicados na reta final da campanha, um foi a investigação do New York Times sobre como Trump explorou as lacunas da legislação fiscal e deixou de pagar impostos por quase vinte anos. Outro revelou que sua atividade filantrópica não passava de propaganda furada, já que ele usava o dinheiro das doações em causa própria. E o último foi o vazamento de um vídeo em que ele, ao final de uma entrevista, jactava-se de suas investidas sexuais e praticamente ditava o bê-á-bá da misoginia. As duas últimas reportagens, do Washington Post, foram escritas pelo mesmo repórter, David Fahrenthold.

Desde que foi comprado por Jeff Bezos, dono da Amazon, o Post (como o chamam os leitores e profissionais do ramo) vivia seu momento de fênix. Em pouco mais de três anos, retomou a excelência da reportagem, reinventou-se na internet e recobrou sua relevância mundial. A equação de sucesso não teria sido possível sem o comando de Martin Baron, considerado um dos melhores editores em atividade do mundo e cuja carreira inclui uma retumbante passagem pelo Boston Globe – onde liderou a investigação sobre pedofilia na Igreja Católica, que resultou no filme Spotlight. Com Bezos e Baron, a nova encarnação do Post combinou a velha escola do jornalismo puro-sangue com as firulas da tecnologia digital.

Dinheiro, faro jornalístico e o prestígio de uma marca centenária fizeram do Post uma exceção. Ao contrário do resto da imprensa que passava por demissões coletivas e fechamento de escritórios, o jornal aumentou o número de funcionários em 30%. No último ano, chegou a ultrapassar o New York Times em acessos pela internet. Foi laureado como a publicação mais inovadora do mundo pela Fast Company, uma das mais importantes fontes de informação do mercado digital. Também colecionou quatro prêmios Pulitzer – e a matéria de Fahrenthold é, desde já, forte candidata a levar o quinto. A reportagem que a piauí faria nos Estados Unidos dizia respeito à vitória de Clinton sob a perspectiva do trabalho dos repórteres do Post.

A pouco mais de uma semana das eleições, a notícia quente era que o FBI havia reaberto as investigações sobre os e-mails de Hillary Clinton, acusada de usar um servidor privado para tratar de assuntos públicos quando secretária de Estado do governo Obama. O caso tinha se tornado o assunto preferido da oposição para mostrar a desonestidade e pouca confiabilidade da candidata, que também tinha que se explicar sobre as controversas doações para a fundação que leva o nome da família. Pelo Twitter, Trump disse que se tratava do “maior escândalo desde Watergate”.

A redação do Post ocupa seis andares de um imponente prédio no Centro de Washington. Os cerca de 700 funcionários (o New York Times tem 1 300) estão espalhados por um vão livre lotado de mesas brancas (poucas exibem bichinhos ou fotos de familiares) e cadeiras ergonômicas pretas. O lugar é silencioso, amplo e iluminado. Há cozinhas abertas montadas em corredores, com bancadas impecáveis que parecem nunca ter sido tocadas por um alimento sólido. Máquinas de café estão à disposição, mas cada funcionário tem que levar o próprio pó para preparar a bebida. O mobiliário de poltronas e bancos obedece ao estilo escandinavo. Pelo menos 250 monitores de televisão ocupam parte das paredes, dividindo espaço com painéis com frases de jornalistas e a coleção de medalhas dos mais de cinquenta prêmios Pulitzer. Nos anos 80, um deles teve que ser devolvido, quando se soube que a repórter Janet Cooke havia inventado a história de uma criança de 8 anos viciada em heroína. (O caso está bem contado numa ala do Newseum.)

 

A dez dias das eleições, por volta das três da tarde, Steven Ginsberg, editor de Política do Post, já havia ido a três reuniões para definir a estratégia de cobertura do caso do FBI sobre os e-mails. Ele acreditava que ninguém mudaria o voto por causa do episódio, mas, em todo caso, havia incumbido cinco repórteres de acompanhar a história. O Post tinha 44 jornalistas com dedicação exclusiva para cobrir a campanha; o New York Times, 22.

Aos 44 anos – 22 deles dedicados ao jornal –, Ginsberg tem cabelo e barba arruivados, fala mansa e jeito de professor de química. Em sua pequena sala na redação do Post, ele discorria sobre os desafios de cobrir uma eleição tão polarizada e com um elemento sui generis: Donald Trump. “Nunca um candidato mentiu tanto”, disse. “Antes, os políticos ficavam numa área nebulosa da verdade e era mais fácil escrever sobre isso. Já ele inventa, tem uma realidade própria sem qualquer compromisso com a verdade. Tudo tem que ser checado e desmentido imediatamente porque senão viramos parte da propaganda política dele”, afirmou.

Ginsberg se orgulhava de o jornal ter levado Trump “a sério” desde o começo, o que permitiu investigá-lo antes da concorrência. “Qualquer disparate que dizia aumentava sua popularidade nas pesquisas. Óbvio que isso queria dizer algo.” Boa parte da imprensa enxergou nele apenas um bufão oportunista, que já havia ameaçado concorrer ao cargo em outras cinco ocasiões. O Huffington Post, por exemplo, publicava as matérias sobre ele na seção de entretenimento. O editor-chefe da revista New Yorker, David Remnick, chegou a escrever que Trump estava se candidatando apenas para promover seus negócios e que “tudo ia acabar bem” antes mesmo das primárias.

“Inclusive, riram de nós”, contou Ginsberg. Segundo ele, colegas de profissão postaram piadas no Twitter quando o Post escreveu – um ano e dois meses antes de Trump anunciar sua candidatura – que ele era um forte concorrente. “Depois apagaram. Pegou mal”, disse.

 

Além de trazer para a cena eleitoral a chamada era da pós-verdade – quando na formação da opinião pública a realidade é menos importante do que a emoção e a crença pessoal –, Trump também rompeu com os padrões de cobertura política até então conhecidos. Tinha uma secretária de imprensa de 27 anos que não retornava as ligações; ninguém sabia quem coordenava sua campanha; como um adolescente, usava o Twitter para dar bronca nos jornalistas, reclamar e xingar; proibia que repórteres viajassem em seu avião durante a campanha; confiscou credenciais daqueles de quem não gostava (inclusive do Post); disse que ia flexibilizar as leis de liberdade de expressão para melhor processar a imprensa. Nos comícios, chamava os repórteres pelo nome para criticá-los em público. Muitas vezes apontava o dedo para os jornalistas, “esse bando de desonestos”. “Tínhamos recursos e estrutura para reagir a isso”, comentou Ginsberg. “Quando ele proibiu a entrada do Post nos comícios da campanha – muitas vezes ocorriam três no mesmo dia, em diferentes estados –, o jornal precisou dobrar o número de repórteres para que sempre tivesse um a postos na fila, para ter acesso como qualquer um.”

“A rejeição à imprensa virou parte importante da estratégia de campanha dele”, continuou Ginsberg. E funcionou. Segundo um levantamento recente do Gallup, apenas um em três americanos dizia acreditar “totalmente” no que era publicado pela imprensa. Era o pior percentual desde 1972, quando a pesquisa começou a ser feita. De acordo com os autores do estudo, parte do resultado se deveu ao “agressivo discurso anti-imprensa propalado por Donald Trump e outros republicanos”, à “explosão das redes sociais” e ao “baixo nível do jornalismo”.

A crise de credibilidade da imprensa coincidiu com o enxugamento das redações e a crescente importância das redes sociais, hoje a principal fonte de distribuição de notícias no mundo. Um estudo do Pew Research Center mostrou que 62% dos americanos se informam pelas mídias sociais, sobretudo o Facebook. Nos Estados Unidos, o número de jornalistas caiu drasticamente. Em 1990, havia 56 900 profissionais na ativa, segundo a Sociedade Americana de Editores de Notícias. No ano passado, eram 32 900. Houve um grande baque nas publicações locais de circulação modesta e nas sucursais de grandes jornais que, por décadas, funcionaram como a fonte do que se passava no longínquo Capitólio e na vida do cidadão comum. E vice-versa. Era a partir do relato de seus correspondentes locais que os jornalões tinham o pulso do que ocorria na América profunda.

Com ar grave, Ginsberg se disse preocupado com a ascensão de sites de notícias falsas e sensacionalistas, que serviram para desestabilizar o embate político. Havia exemplos gritantes. O papa Francisco teria anunciado apoio a Trump (960 mil compartilhamentos), um investigador do caso dos e-mails de Clinton teria sido encontrado morto (567 mil compartilhamentos). Um levantamento do BuzzFeed revelou que das vinte notícias falsas mais compartilhadas pelo Facebook durante as eleições, dezessete eram pró-Trump ou anti-Hillary. E havia um agravante. A própria equipe de campanha e familiares do candidato replicavam o boato – caso de Eric Trump, que retuitou escrevendo “Finalmente, a verdade!” a lorota de que Clinton teria pago 3 500 dólares para manifestantes perturbarem os comícios de seu pai.

“Como se lida com isso? É uma coisa séria, de consequências imprevisíveis a longo prazo”, disse Ginsberg. Ele contou que haviam acabado de publicar uma reportagem sobre como o Facebook se tornara repositório de mentiras na internet. Ele temia que, com base no que acontecia nessa eleição, outros políticos guiassem seus eleitores para embustes como o conservador InfoWars, que se diz uma “fonte de notícias alternativas”, mas que publica conteúdo falso e pró-Trump. “As pessoas passaram a desconfiar da imprensa tradicional. Será que vai ser assim daqui para a frente?”, indagou. Para ele, veículos como o Post tinham que ser implacáveis na exposição da farsa dia após dia. Perguntei se acreditava ser possível voltar a um estado pré-Trump no jornalismo. “O resultado da eleição vai dar o tom do que vai acontecer.”

 

Deixei a sala de Ginsberg e fui me encontrar com Dana Milbank, um dos principais editorialistas do Post, que gravava uma entrevista para a tevê num canto da redação. Ele é um sujeito vigoroso, com olhar afiado e tom de voz de apresentador de televisão. Três dias antes, quando ainda faltavam quase duas semanas para as eleições, ele havia escrito uma coluna feroz sobre outro assunto que dizia respeito à imprensa: a falsa equivalência. Na ânsia de se mostrar imparcial, os jornalistas teriam tentado igualar o espaço dado à cobertura dos escândalos de Trump e de Clinton. “E a consequência disso foi tratar esse assunto idiota dos e-mails com a mesma gravidade e extensão com que foram tratadas as barbaridades de Trump”, comentou ele, que fazia hora para ir ao médico.

Caminhávamos pelos corredores vazios da redação. “Minha coluna de terça ficou tendenciosa, não? E daí? Devia ter ficado há muito mais tempo”, afirmou. Segundo ele, a imprensa deveria aprender uma lição urgente a ser absorvida para sempre: como se deve tratar um mentiroso e/ou racista demagogo nas páginas do jornal. Ele defendia que, com certo tipo de gente – no caso, de candidato –, não existe parcialidade política. “É uma questão de democracia”, afirmou. Seria justificável gastar uma edição inteira só criticando Trump. Não faltava assunto: seu plano de expulsar 11 milhões de imigrantes ilegais do país; construir um muro na fronteira do México com os Estados Unidos; proibir a entrada de muçulmanos; rever as leis de meio ambiente, o acordo sobre o programa nuclear iraniano e a ameaça ao sistema universal de saúde conhecido como Obamacare. Sem falar no declarado desprezo pelas mulheres, nas acusações de assédio sexual, no antissemitismo e na relação promíscua com a Rússia. “Nada do que ele fala é democrático. Como pode alguém achar que isso tem o peso do uso de um e-mail, que o FBI já disse que não tem nada e ninguém sabe o que tem lá de verdade?”, indagou.

Ao mesmo tempo, todas as vezes em que havia mais reportagens críticas a ele, Trump alegava parcialidade para atacar a imprensa. Quando o Center for Public Integrity publicou que 430 jornalistas haviam doado quase 400 mil dólares para Clinton, ele – que havia recebido 14 mil dólares de apenas cinquenta deles –, foi à forra fermentando o discurso de vítima de uma conspiração: da imprensa, dos poderosos de Washington, dos institutos de pesquisa, dos bancos.

O assunto deixava Milbank visivelmente incomodado. “Isso é coisa de república de bananas”, ele disse. Eu ri. “Não fazendo uma alusão ao Brasil. Isso não acontece lá, né?” Eu ri de novo. Em sua avaliação, a imprensa havia se acovardado. “E aí você tem uma ameaça, um sujeito que quer ser ditador e você simplesmente publica uma matéria falando: ‘Obrigado, senhor Hitler, pelo seu ponto de vista, e agora vamos ao outro ponto de vista.’ Não se trata de um debate do tipo ‘Ele disse isso, ela disse aquilo’. É sobre o certo e o errado.”

Milbank era absolutamente cético sobre o sucesso de Trump. Ainda nas primárias, escreveu uma coluna dizendo que se o empresário fosse escolhido, ele engoliria as próprias palavras – literalmente. Em maio, ele o fez. O Post publicou o vídeo em que, em companhia do crítico gastronômico do jornal e de um chef que preparou tudo, Milbank degustou um ceviche com um purê feito com a página do jornal e um taco mexicano recheado com pedacinhos de papel. Brindaram com Cabernet Trump (ele tem uma vinícola no estado da Virgínia). O vídeo teve milhares de acessos.

Quando nos despedíamos, Milbank confessou estar farto da eleição. No começo do ano, chegou a pedir ao editor que o dispensasse de escrever sobre o assunto. “É grotesco. A vulgaridade dessa campanha mata qualquer alma”, disse. O chefe, óbvio, negou. “Se ele ganhar, não me culpem. Eu estava no lado do bem.”

 

A relação de Trump com a imprensa sempre foi promíscua e tumultuada. E era antiga: há quase quatro décadas ele já estampava capas de tabloides e jornais, e estava na televisão por diferentes razões. Astro de reality show, magnata da cafonice, empreiteiro de luxo com uma metralhadora desgovernada na língua, era um ímã natural para a audiência. Quando passou a falar de política, sobretudo na tevê, não poderia ser diferente.

Ainda nas primárias, era figurinha fácil nos programas de entrevistas, muito populares nas manhãs de domingo. As emissoras o entrevistavam até por telefone, prática incomum, permitindo-lhe falar o que quisesse. Os debates eleitorais se tornaram um programa de entretenimento assistido por milhares de pessoas. “Pode não ser bom para os Estados Unidos, mas está sendo uma maravilha para a CBS”, disse, à época, o presidente da emissora, Les Moonves. Uma pesquisa do Pew Research Center mostrou que os canais a cabo deram duas vezes mais espaço a Trump do que a Clinton – e dezesseis vezes mais do que a Bernie Sanders.

Estima-se que a CNN tenha faturado 100 milhões de dólares a mais só na cobertura das eleições. Segundo o instituto de pesquisa Nielsen, a Fox News aumentou em mais de 1 000% o valor dos trinta segundos de uma propaganda nos intervalos dos debates presidenciais. Não era privilégio das tevês. O comScore divulgou que, em outubro, o Post teve 99,6 milhões de visitantes únicos em seu site – um aumento de 49% em relação ao ano passado (o New York Times teve 101,4 milhões de acessos). De acordo com um estudo da mediaQuant, Trump se beneficiou do equivalente a 5,2 bilhões de dólares em mídia espontânea durante toda a campanha eleitoral.

E o mais surpreendente: enquanto Clinton havia despendido cerca de 60 milhões de dólares em propaganda, Trump não tinha desembolsado um tostão. O levantamento foi feito pela revista Fortune, que num artigo ressaltou como, agindo de improviso e testando o eleitorado sem qualquer estratégia política, o candidato havia contrariado a opinião corrente dos analistas de plantão e exposto a bobajada do que se sabia sobre propaganda eleitoral até então.

“Parte da imprensa aceitou ser manipulada porque isso gerou boas histórias”, disse o professor Robert Entman, em sua sala no Departamento de Mídia da Universidade George Washington, a uma semana das eleições. “Viam aquele teatro do absurdo e pediam mais. As tevês, sobretudo.” A atitude teria permitido a Trump ditar o tom da cobertura midiática, gerando distorções como incompetência da imprensa em explicitar a diferença entre os candidatos e não ter mergulhado em assuntos sérios. “Ele tem centenas de processos por sonegação, fraude, calote em funcionários. E a candidata mais corrupta, segundo as pesquisas, é Clinton? É claro que isso é culpa da má cobertura da imprensa”, afirmou.

Ainda que Clinton liderasse as pesquisas, Entman enxergava uma sucessão de falhas por parte dos jornalistas. Um dos maiores erros teria sido tratar o Trump político como o Trump celebridade. “Controlando a imprensa, ele pavimentou seu caminho para a Casa Branca”, continuou o professor. Como todo dia ele produzia um fato novo – fosse com uma frase polêmica ou absurda –, a imprensa pulava de assunto em assunto sem se aprofundar em nenhum. Não foi por acaso, ele tinha um roteiro.

No livro Trump: A Arte da Negociação – meio autobiografia, meio autoajuda empresarial –, publicado em 1987, Trump revela como manipulou jornalistas a seu favor e tirou proveito até de notícias ruins, e como se deve conduzir uma conversa com repórteres para construir uma narrativa própria. Ali, tem-se um aperitivo de como ele agiu durante a campanha.

 

  • A imprensa está sempre atrás de uma boa história e quanto mais sensacionalista, melhor. Se você for um pouco diferente, ou um pouco ofensivo, ou se você fizer coisas meio audaciosas ou polêmicas, eles vão escrever sobre você. […]

 

  • Se eu for pagar um anúncio de página inteira no New York Times, isso vai me custar 40 mil dólares e ninguém liga para anúncio. Mas se o jornal escrever uma coluninha sobre um negócio meu, mesmo que seja mais ou menos positiva, me sai de graça e vale muito mais do que os 40 mil. […]

 

  • Qualquer história, mesmo negativa, é boa para o seu negócio. Uma vez eu disse que ia construir o prédio mais alto do mundo numa área de Nova York. Virou um evento midiático. Mas nenhum repórter quis saber os detalhes do projeto. Só olharam o lado sensacionalista. […]

 

  • Se me perguntam qual o lado negativo de construir o maior prédio do mundo, eu mudo o discurso para o lado positivo, dizendo que Nova York merece o prédio mais alto do mundo, que vai bombar a cidade e recuperar o prestígio do passado. Se me perguntam por que só faço obra para rico, eu digo que não é só para rico. Meus empreendimentos beneficiam milhares de pessoas que poderiam estar desempregadas, mas estão trabalhando na construção, e isso faz com que eu pague mais impostos para a cidade. […]

 

  • Eu mexo com a fantasia das pessoas. Elas não costumam pensar grande sobre si mesmas, mas adoram quem se comporta assim. É por isso que um exagero nunca faz mal. Elas querem acreditar no grande, no maravilhoso, no espetacular. Chamo isso de hipérbole verdadeira. É uma forma inocente de exagero, mas muito boa para autopromoção.

 

Eugene Meyer, um bilionário da área financeira, e sua mulher, a escritora Agnes Ernst, amiga de artistas, celebridades e políticos, viviam como nos livros de Scott Fitzgerald. Em 1933, Meyer resolveu ampliar os negócios e comprou – num leilão de massa falida – um jornal fundado em 1877, que tinha quatro páginas e era vendido a 3 centavos de dólar: o Washington Post.

Depois de treze anos à frente da publicação, Meyer passou o bastão para seu genro, o advogado Philip Graham que, depressivo e alcóolatra, suicidou-se em 1963. Foi quando sua mulher, Katherine, a filha de Meyer, que nutria um real interesse pelo jornalismo, assumiu a operação familiar.

Ela contratou Ben Bradlee, intrépido repórter da Newsweek. Eram o oposto um do outro: ela, delicada e hesitante; ele, um fio desencapado. À frente do Post, Bradlee, com o sinal verde financeiro da dona do jornal, revolucionou o modelo de cobertura do diário. Espalhou correspondentes por diversos países, abriu sucursais em várias cidades e criou novas editorias.

A dupla Graham–Bradlee funcionava em perfeita sintonia, explicitada sobretudo em situações-limite, como quando o Post teve acesso aos papéis secretos do Pentágono sobre a Guerra do Vietnã ou quando os repórteres Bob Woodward (que ainda hoje trabalha no Post) e Carl Bernstein (um profícuo analista político e escritor) passaram a investigar a estranha invasão do escritório do Partido Democrata. O que parecia um crime comum se mostrou um caso escandaloso de espionagem política e culminou na renúncia do presidente Richard Nixon, em 1974. O Post firmou sua marca na história do jornalismo com fama e prestígio.

Donald Graham, filho de Katherine, substituiu a mãe no cargo. Ele era uma unanimidade: generoso, ético, educado, justo, mas sem qualquer visão estratégica sobre o futuro do jornal. Ainda que o Post publicasse grandes reportagens, a repercussão era cada vez mais tímida. Por décadas, imperou a ideia de que o New York Times era o principal diário do país; o Wall Street Journal, a melhor publicação econômica; o USA Today, o que se entrega na porta dos hotéis. Ao Post cabia a classificação de ser um grande jornal local, com ênfase na cobertura de educação, cidades e esportes e anúncios de supermercados e lojas da capital. Era lido pela Casa Branca, mas também pelos motoristas de táxi da cidade.

O barco foi sendo tocado na mesma toada, até que com a crise financeira de 2008 as finanças do Post despencaram. Fecharam-se muitas das sucursais e escritórios internacionais, ocorreram demissões em massa, a circulação estava em queda livre e repórteres talentosos migravam para outros veículos. Pegou mal quando foi ventilado que a sobrinha de Graham, Katharine Weymouth (então publisher do jornal), planejava cobrar 250 mil dólares de lobistas para conversas “em off” com políticos e jornalistas em jantares em sua casa, numa malfadada tentativa de fazer caixa para o jornal. Ficou só na ideia, não houve encontro nenhum. Nos quatro anos seguintes, os repórteres sentiram o ônus da decadência.

 

No começo de 2013, Martin Baron, o célebre editor-chefe do Boston Globe, assumiu o comando do Post. Dele se fala que é determinado, ético, inteligente e meticuloso. “Ele melhora meu trabalho”, dizem aqueles que ele chefiou. Com Baron não há conversinha fiada ou piadinha. Quatro repórteres me contaram que sempre saem da sala dele com a impressão de que ele os odeia – ainda que o editor jamais tenha levantado a voz ou sido rude.

Para ele, jornalismo não é dizer que uma casa está pegando fogo. É saber por que a casa está pegando fogo. É denunciar a pedofilia na Igreja Católica, mas ainda mais importante é entender por que as autoridades encobrem esse fato. Se algo de ruim aconteceu, alguém está por trás. Ele quer saber quem fez, de quem é a culpa e por que fez.

Logo nas primeiras semanas, ele já mostrou a que viera. Foi o único editor americano a topar investir numa reportagem sobre um ex-técnico da cia chamado Edward Snowden, que revelava que a Agência Nacional de Segurança do governo invadia servidores da internet, como Yahoo e Google, para espionar dados de usuários. O repórter Barton Gellman havia oferecido o material para vários jornais e revistas, que recusaram alegando se tratar de um assunto arriscado e polêmico. Com a chancela de Baron, a reportagem ganhou o Pulitzer meses depois.

 

Em agosto de 2013, os editores do Post foram convocados à redação, mesmo aqueles que estavam de férias. Diante de uma centena de funcionários, com a voz embargada, Donald Graham anunciou que estava vendendo o jornal por 250 milhões de dólares para Jeff Bezos, dono da Amazon, cuja fortuna é estimada em 72 bilhões de dólares. (Em um e-mail educado, Graham recusou ser entrevistado pela piauí, alegando que não fala mais publicamente sobre jornalismo desde que se afastou do negócio). Para entregar a empresa que se perpetuava por quatro gerações na família, ele escolheu Bezos a dedo. Considerava-o engajado, inteligente, apartidário, mas sobretudo alguém que entendia a importância da pluralidade do jornalismo para a democracia. E mais: tinha certeza de que ele não iria se meter na área editorial do Post.

Em uma entrevista recente ao programa do apresentador Charlie Rose, Bezos confirmou a avaliação de Graham. “Eu não poderia entrar na sala de cirurgia onde meu filho está sendo operado e dar palpite, ou comprar um restaurante e querer cozinhar”, argumentou. “Jornalismo tem que ser feito por profissionais do jornalismo.” Também disse que seu plano no Post era “gastar menos dinheiro e atingir mais gente”. E isso seria possível com uma avassaladora operação digital, muito mais barata do que a impressa. Produz-se conteúdo, joga-se na rede e ele se multiplica sem custo. Em uma das primeiras reuniões, Bezos disse que uma das matérias de que mais havia gostado era “Nove questões sobre a Síria que você não tem coragem de perguntar”, porque reunia conteúdo denso apresentado de forma leve. Os princípios empresariais da Amazon foram emulados pelo jornal: “O cliente primeiro. Invente. Seja paciente.” Bezos costuma dizer que para entender sua estratégia basta substituir “cliente” por “leitor”. Outra máxima foi a total confidencialidade sobre qualquer cifra da empresa. Não se divulga número de assinaturas, faturamento, prejuízo ou gastos.

 

À diferença do que ocorria antigamente, quando o departamento de fotografia, por exemplo, ficava numa área à parte, no novo Post cada editoria tem, ao lado de repórteres e editores, sua equipe de foto, áudio, redes sociais, vídeo e programadores. Só de engenheiros de tecnologia há oitenta. Muitos migraram da Amazon. Por dia, são publicados 1 200 diferentes conteúdos na internet.

Há três estúdios de televisão e dois de rádio. No átrio principal, uma gigantesca tela de LED mostra riscos coloridos que lembram um eletrocardiograma e tijolinhos horizontais azuis. Eles mostram em tempo real como as notícias estão sendo lidas – as que têm maior ou menor interesse, quanto tempo é gasto em cada uma delas, em que momento do texto é abandonada pelo leitor, qual o horário de pico de acesso ao site, quais os temas mais procurados na busca online, quais as hashtags mais populares ligadas ao jornal, os vídeos que viralizaram nas redes sociais.

Além de reportagens de fôlego, como os bastidores do Estado Islâmico, o Post também publica vídeos de gatinhos fofos e matérias do tipo “Como não brigar com os parentes por causa de política na noite de Natal”, que lhe trazem enorme audiência. Não existe pudor em parecer frívolo ou vendável. A estratégia tem funcionado. Em outubro de 2015, o Post ultrapassou o New York Times em número de acessos no site. Atualmente o Times voltou à liderança.

 

Em uma tarde de outubro, antes das eleições, o repórter David Fahrenthold respondia e-mails sentado em sua mesa, que surpreendentemente, tinha pouquíssimos papéis e tralhas. Ele preparava versões de matérias a serem publicadas na noite da apuração dos votos: se ele ganhasse, se ela ganhasse, se ele contestasse o resultado, como seria a análise da votação em cada estado. Aos 38 anos – dezesseis deles no Post, o único lugar em que trabalhou na vida –, Fahrenthold escreveu sobre o Congresso, a administração federal e questões de meio ambiente antes de ser deslocado para a equipe que cobriria a corrida presidencial. Ele é alto, magro, tem o cabelo aloirado e o rosto coberto de micropintinhas visíveis à luz do sol. Usa óculos de aro escuro e retangular, tem o cabelo cortado rente e fala sem pausa para um respiro. Lembra um daqueles tipos do Vale do Silício: focado, metódico, organizado, que parece não precisar de sono para sobreviver.

A reportagem de Fahrenthold sobre atividade filantrópica de Trump e como ele usava a fama de benemerente em benefício próprio é brilhante porque, além de inovar na maneira de apresentar a apuração, conseguiu expor o modo como o empresário lida com dinheiro, ética, leis, negócios e o mundo.

 

Desde sempre, Trump alardeava ter doado mais de 100 milhões de dólares do próprio bolso para instituições de caridade. Em janeiro, ele faltou a um debate na Fox News sob o argumento de que participaria de uma atividade da Trump Foundation, que teria arrecadado 6 milhões de dólares para os veteranos de guerra – sendo que 1 milhão de dólares teria saído de seu próprio bolso. O episódio parecia trivial, mas Fahrenthold estranhou. Ainda que entendesse pouco sobre doações de organizações privadas, sabia que havia algo de estranho em misturar política e caridade. Naquela noite, quando deixava o escritório do jornal, esbarrou com Martin Baron no elevador. Como sempre, o chefe foi lacônico. “Acho que você deveria se concentrar a fundo na Trump Foundation.”

Por várias semanas, Fahrenthold pediu detalhes à equipe de Trump, até que o então coordenador de campanha, Corey Lewandowski, telefonou para dizer que as doações eram verdadeiras, mas que ele não teria acesso a nenhuma outra informação. Era preciso investigar a rota do dinheiro, mas o repórter se viu numa encruzilhada: como confirmar as doações, se existiam milhares de entidades ligadas aos veteranos no país? Foi quando teve uma ideia que dificilmente um jornalista da velha guarda ousaria colocar em prática, por receio de revelar a pauta. Fahrenthold publicaria o passo a passo de sua apuração no Twitter e pediria publicamente informações pelas redes sociais sobre as instituições supostamente beneficiadas. “Fiz quase num ato de desespero. Era impossível contatar todas elas”, comentou.

No primeiro dia, mandou cerca de quarenta tuítes marcando a entidade, o próprio Trump (@realDonaldTrump) e outros jornalistas nas mensagens públicas. “Trump vive no Twitter. Eu queria que ele soubesse o que eu estava fazendo”, contou. Perguntava se alguém tinha ouvido falar da organização X, onde ficava a Y, quem era a responsável pela Z. Quando chegou em casa, sem ter recebido qualquer retorno, lamentou com a mulher que havia perdido tempo em uma estratégia inócua. Mas, por volta das oito da noite, o próprio Trump tuitou falando mal da imprensa que o questionava sobre as doações. “É incrível que, com todo o dinheiro que arrecado para os veteranos, a única coisa que recebo é crítica da mídia desonesta”, escreveu.

No dia seguinte, a caixa de mensagens do repórter estava cheia. Havia recebido uma dezena de pistas – algumas etéreas, outras furadas, mas muita informação essencial para seu trabalho vinda de gente que ele nunca vira na vida. A dinâmica era fascinante. Em um momento, deparou-se com uma doação de Trump de apenas 7 dólares feita em 1989. Havia postado na rede social: “Olha que estranho isso, nunca vou conseguir entender.” Dez minutos depois, recebeu uma mensagem de um grupo que, depois de uma troca extensa de e-mails, descobriu que aquele era o valor da inscrição para o clube de escoteiros. Na época, com um filho de 11 anos, Trump havia pago a taxa e declarado a despesa como doação. Bingo.

Em outra ocasião, apurava o paradeiro do maior montante: 265 mil dólares para uma entidade que gerencia o Central Park, em Nova York. Depois de dias no escuro, ele estava num táxi quando tuitou: “Que valor alto. O que será que isso significa?” Quando chegou em casa, um anônimo havia lhe mandado cópias de documentos que batiam com a data e o valor da despesa. Uma das fontes de água do parque precisava de reforma, a cidade não iria pagar e a entidade resolveu pedir dinheiro para todos os prédios que tinham vista para o parque. O maior deles era a Trump Tower. Em vez de usar dinheiro da empresa, Trump pagou a conta com recursos da fundação. Em maio, Fahrenthold localizou a única doação verdadeira feita por Trump até então: entre 5 mil e 10 mil dólares para a Liga Atlética da Polícia de Nova York em 2009. Ele também descobriu que Trump havia pago 12 mil dólares por um capacete de um jogador de futebol americano e outros 20 mil dólares numa pintura que o retratava de corpo inteiro. Tudo declarado como caridade, mas guardado nas propriedades de Trump longe dos olhos do público.

A partir da investigação de Fahrenthold, soube-se que Trump nunca doou um tostão entre 2009 e maio de 2016 (só o fez depois que o repórter passou a investigar o assunto). Também que, embora ele recebesse dinheiro de outros doadores, não repassava às instituições que prometera – como foi o caso do evento de janeiro. Outra revelação é que burlava a lei com o que se chama de “autonegociação” – usando o dinheiro da instituição de caridade em benefício de seus negócios privados. Um processo corre na Justiça americana para apurar o caso.

Em nenhum momento, Fahrenthold temeu ser furado pela concorrência. “Acho que as pessoas não estavam prestando muito atenção nisso. Trump falava tantas coisas diferentes todos os dias que os outros jornalistas estavam sempre ocupados”, respondeu. As matérias eram lidas por advogados antes de serem publicadas. Segundo ele, costumam lhe pedir mais detalhes e fontes. Pelo fato de Trump jamais retornar as ligações, as conversas com a equipe jurídica costumam ser exercícios de imaginação. “Ficávamos perguntando uns para os outros: ‘Se você fosse o Trump, o que você negaria?’”, contou.

 

Em setembro, depois de contatar 420 entidades com alguma ligação com Trump (ou ele havia mencionado em público ou participado de eventos ou estava na prestação de contas da Trump Foundation) e tendo reunido farto material, organizado em dezenas de planilhas Excel e arquivos do Google, Fahrenthold se reuniu com a equipe digital do Post, que já estava bolando gráficos e tabelas interativas para ilustrar a reportagem. Ele veio com uma ideia do século passado: E que tal se eu escrevesse tudo numa folha de papel, usasse três cores de caneta diferentes – o que chamaria a atenção –, fotografasse a papelada e aquilo fosse a única imagem da matéria? O designer não gostou. Ele insistiu e fez. No dia seguinte, as imagens viralizaram nas redes sociais. Era impressionante acompanhar as quinze páginas de anotações feitas à mão com o nome das entidades que teriam sido beneficiadas por Trump e a situação da doação. O que mais se lia era: “Nunca.” Até então, a reportagem mais popular no site do Post havia sido sobre uma mulher na África que havia simulado a sua morte e comparecera ao próprio funeral. O furo de Fahrenthold a ultrapassou por milhares de acessos.

A reboque da repercussão da investigação sobre Trump, Fahrenthold teve outra surpresa. No começo de outubro, dois dias antes do segundo debate presidencial, ele recebeu um telefonema de alguém que lhe oferecia um material “muito interessante”. Era um vídeo com cenas dos bastidores do programa Access Hollywood, da NBC, gravado em 2005. Nele, Trump contava que, como era famoso, conseguia levar para cama quem quisesse e dizia, em linguagem chula, como procedia para tanto. “Eu não acreditava. Era um material muito forte, ainda mais que ele havia sido acusado de assédio sexual, misoginia”, contou.

A reportagem enviou aos assessores de Trump uma cópia da fita, com a ressalva de que o material seria publicado dali a cinco horas, com ou sem resposta do candidato. A dois minutos da expiração do horário combinado, uma assessora ligou minimizando o episódio – “Bobagens que se falam” –, mas dizendo que Trump pedia desculpas. “Eles não tinham ideia do tamanho do escândalo”, Fahrenthold comentou. Quando o vídeo foi distribuído pelas redes sociais do Post, o impacto foi apocalíptico. Dali em diante, durante duas semanas o repórter apareceu diariamente na tevê. Tornara-se uma celebridade. Ele nunca revelou seu “Garganta Profunda”.

 

A pouco mais de uma semana das eleições, Martin Baron, o editor-chefe do Washington Post, trabalhava de pé em frente a duas telas de computador equilibradas numa estante. Um problema na coluna o impedia de passar muito tempo sentado. Usava uma camisa em tons de verde-claro e calça cáqui. Aos 62 anos, Baron fala baixo (muito baixo), usa óculos de armação transparente, tem o cabelo cheio e grisalho, a barba branca rente à pele.

A sala de Baron é apertada. Cabe uma estante, sua mesa de trabalho, uma outra com quatro cadeiras. Na parede do fundo, um totem de papelão do tamanho de um adulto com a foto da estátua do Oscar (em Spotlight, Baron foi interpretado pelo ator Liev Schreiber). Ele folheava um exemplar da piauí que trazia na capa uma ilustração do presidente Michel Temer nu, numa alusão à fábula “A roupa nova do rei”. “Espero que não me retratem assim nessa matéria”, disse em tom amistoso na primeira das duas únicas vezes que esboçou uma nesga de sorriso. A outra foi quando mencionei que um amigo comum, que tinha 70 anos, estivera recentemente no Rio e adorara a cidade – irônico, comentou que pediria asilo político no Brasil. E Trump não havia nem ganhado as eleições.

Naquele dia, Matthew Yglesias, da Vox, seu vizinho de apartamento, havia escrito que o maior escândalo da campanha fora “exatamente ter tratado os e-mails de Clinton como escândalo”. “Não concordo”, disse Baron. “Acho que, se o FBI investiga um caso desses, esse é um assunto relevante”, disse. “Ninguém quer ter uma presidente que lide com informação confidencial de maneira imprudente. Entretanto, houve muitos outros problemas na campanha. E aqui nunca ficamos medindo quanta atenção se deve dar a um ou a outro”, falou.

A ameaça à liberdade de imprensa era um tema que o preocupava – a obsessão do candidato republicano contra os jornalistas, o crescimento do movimento conservador de direita batizado de Alt-Right, a farra das mentiras na internet. “Trump nos chamou de inimigos, de escória, de vagabundos, de ‘forma mais primitiva de vida’. Percebe como isso é sério?”, perguntou.

E havia o precedente de Peter Thiel, o excêntrico bilionário do Vale do Silício, fundador do PayPal, que, movido por uma vingança pessoal, financiara um processo nababesco contra o site de notícias Gawker, que teve de fechar as portas. Anos antes de Thiel sair do armário, o site havia publicado que ele era gay. Thiel era um dos cotados para participar de um eventual governo Trump.

Avaliando a cobertura do Post nas eleições, Baron disse que, se pudesse ter feito algo diferente, teria enviado mais repórteres ao interior do país, para entender os anseios e preocupações da classe trabalhadora. Também tinha a sensação de que poderiam ter explorado melhor Bernie Sanders. O mesmo fenômeno que catapultara o senador democrata, socialista, de 75 anos – que mobilizara milhões de jovens – era o que também havia levado Trump às alturas: insatisfação generalizada por parte da população, discurso totalmente diferente da política tradicional por parte do candidato. Ambos foram mal iluminados pela imprensa.

Ao longo da conversa, Baron manifestava cautela ao falar sobre as eleições. Quando mencionei pesquisas que colocavam Clinton na frente, ele disse que estavam dentro da margem de erro. Quando perguntei se ele tinha uma manchete para a vitória dela, ele disse que também não tinha para a dele. Em certo momento, tive a impressão de que ele pudesse estar realmente cogitando uma vitória de Trump. “Claro que estou”, disse. “Jornalistas são péssimos em previsões. Há muitas variáveis, ninguém sabe o que vai acontecer.”

Segundo Baron, todas as suposições acerca de Trump haviam falhado. A imprensa achou que ele ia derreter quando falou do muro. Quando zombou de um repórter com deficiência física. Quando disse que o senador John McCain – encarcerado por cinco anos e meio durante a Guerra do Vietnã – não era um herói. “Não aconteceu nada. Além de sermos ruins em previsões, somos dados a fazer muitas suposições acerca de tudo. É preciso ter muito cuidado com isso”, observou. Ele se levantou para pegar uma água. “Meu conselho sempre é: deixe-se impressionar. O antídoto de previsões erradas é ir para a rua e apurar. Formule perguntas e as responda objetivamente, não presuma nada.”

 

Toda semana ele conversa com Bezos sobre a situação do jornal. A última vez havia sido na semana anterior, quando discutiram como seria a atualização dos resultados na noite da eleição. Não foram mencionadas estratégias caso um ou outro ganhasse, disse Baron.

Quando perguntei por quanto tempo ele achava que Bezos estaria disposto a perder dinheiro, a resposta foi áspera. “Quem disse que ele está perdendo dinheiro? Não falei que estamos dando lucro ou prejuízo. Sua pergunta foi uma suposição”, disse. Observei que o jornalismo não vinha sendo um negócio lucrativo. “Você fez uma suposição, mas não sabe, não viu nossas planilhas, e tampouco vou mostrá-las. Há instituições jornalísticas que dão lucro. O que posso dizer é que Bezos está satisfeito.” No entanto, se não comentou comigo, pelo menos nos corredores do Post ele comenta. E diz que a operação já é, sim, positiva.

 

Faltando quatro dias para as eleições, Ryan Lizza, o correspondente da revista The New Yorker em Washington, passava os olhos no cardápio de um bar escuro ao lado da CNN, onde também trabalha como comentarista. Havia acabado de gravar uma participação palpitando sobre as eleições. O som das tevês penduradas no teto inviabilizava qualquer conversa. “Vamos sair daqui”, ele me sugeriu. Cruzamos com Wolf Blitzer, o apresentador da emissora, que gritou para o colega, quando atravessávamos a rua: “Tá chegando a hora!”, ao que o outro abanou a mão. Um carro quase nos atropelou e uma menina negra colocou a cabeça para fora da janela: “Ai, meu Deus, é o Ryan Lizza!” Ele percebeu minha cara de espanto. “É a maquiadora da tevê, não sou tão famoso”, riu.

Alto, Lizza usa óculos de armação preta e tem cara de bom moço. É o tipo que uma mulher quer como genro. Entramos numa casa de chá e sentamos a uma mesa perto da janela. Durante a campanha, ele, que é um dos mais respeitados jornalistas políticos do país, escreveu perfis de candidatos republicanos como Ted Cruz e Jeb Bush, mas dedicou pouca tinta a Donald Trump. “Eu não achava que ele fosse crescer”, disse, servindo-se de chá preto. “Não fazia sentido, era mais uma piada política fadada à irrelevância”, afirmou. Tirou o celular do bolso e abriu o site RealClearPolitics, que naquele dia dava uma vantagem de cinco pontos para Clinton.

Lizza me mostrou uma série de gráficos com o desempenho dos candidatos republicanos nas primárias de 2012, 2008 e 2004. “Todas as piadas políticas acabaram saindo no meio da campanha. Ninguém chegou ao final”, disse, com os olhos grudados na tela. “Newt Gingrich, Rick Santorum, Herman Cain…” Deu mais um gole no chá, que havia esfriado. E explicou haver um padrão comum: eles começavam bem, a imprensa investigava e eles caíam. “Mas Trump não é igual aos outros.”

Como gosta de estatísticas, Lizza citou Jonathan Rauch, do Brookings Institution, que elaborou uma hipótese interessante. Em toda a história americana, com apenas cinco exceções, 38 presidentes foram eleitos dentro de um prazo de catorze anos após terem ocupado um cargo de senador, governador ou vice-presidente. A regra era ruim para Clinton, que foi eleita senadora pelo estado de Nova York há dezesseis anos. “Ela está na estrada há muito tempo”, comentou enquanto checava o celular novamente. “Pode ser que a validade de Hillary tenha expirado, mas não é isso que estamos vendo aqui”, disse.

No dia seguinte à eleição, a manchete do Post foi “Trump Triunfa” – exatamente a mesma do New York Times. Hillary Clinton recebeu mais de 2 milhões de votos do que ele, mas pelas regras eleitorais americanas vence quem alcança a maioria absoluta do Colégio Eleitoral – que apoiou em peso o republicano. Pode-se dizer que, de certa maneira, as pesquisas haviam acertado. De fato, ela havia ganhado, mas a pergunta que martelava era se a sondagem mais importante não deveria ter sido feita com os delegados eleitorais e não com a população. Os republicanos também foram eleitos maioria na Câmara e no Senado.

Analistas passaram a aventar hipóteses para a discrepância numérica que engrupiu uma nação: o voto envergonhado de quem não se declarou nas pesquisas, a preferência por Trump no estrato de eleitores brancos e de maior renda na Flórida, a alta rejeição a Clinton – sobretudo entre as mulheres. Mas foram três os fenômenos inéditos que definiram o cenário e embaralharam as projeções finais. Comparada com a última eleição, mais gente saiu de casa para votar em Trump, menos gente se mobilizou para ir às urnas por Clinton. Outro foi a apertadíssima diferença na intenção de votos. E também o fato de ele ter atraído novos eleitores – que votavam pela primeira vez ou que não votavam havia muito tempo ou ainda que moravam em áreas rurais e pequenas cidades. Como o voto é facultativo e esse estrato da população em geral não comparece, ele foi desconsiderado nas pesquisas – e isso afetou toda a metodologia de cálculo de probabilidades.

 

Wilkes-Barre, no condado de Luzerne, na Pensilvânia, é um daqueles lugares que se veem em filmes americanos: casas de madeira com bandeiras penduradas na varanda, gente fazendo churrasco de salsicha no fundo do jardim, centros comercias anódinos rodeados por estacionamentos gigantescos. As escolas fecham no primeiro dia da estação de caça, a parada da primavera é a maior atração local e os restaurantes, mesmo os melhores, sempre têm frango e batata frita no cardápio. Com uma população de 41 mil habitantes, a maioria conservadora, branca, católica, de baixa escolaridade e mais velha do que a média nacional, os moradores são o retrato do eleitorado que elegeu Donald Trump. Ali, o resultado foi surpreendente porque, pela primeira vez em 24 anos, um candidato republicano bateu um democrata nas urnas. Só o condado de Luzerne deu a Trump quase 40% dos votos que viraram do azul (democratas) para o vermelho (republicanos) a Pensilvânia – um dos chamados swing states, que não têm tradição histórica de votar em um único partido como acontece com Iowa, Wisconsin, Ohio e Flórida.

A história de Wilkes-Barre conta parte da saga da decadência industrial americana. Ali, a distopia é sentida de outra maneira, se comparada a Detroit, por exemplo. As ruas em Wilkes-Barre são limpas, a universidade é boa, a cidade não é perigosa. Os magníficos prédios art déco com tijolos escuros, vitrais coloridos e interior de mármore estão bem conservados. Não é uma cidade fantasma nem o próximo destino dos hipsters. Lá o futuro ficou no passado. A cidade é silenciosa, oca, impessoal. Os jovens buscam oportunidades alhures, os velhos são maioria. O desemprego bate quase os 7%, bem acima da média do país. A fé encolheu. Das quatro igrejas luteranas, uma fechou e duas não conseguem contratar um pastor. A maioria dos empregos se concentra em hospitais, escolas, redes de restaurantes e lojas. Subempregos.

Nos anos 20, o triângulo formado por Scranton–Wilkes-Barre–Hazleton era uma proeminente área de trabalhadores de classe média no país. Localizadas no Cinturão da Ferrugem, essas cidades constituíam o epicentro da mineração e da indústria têxtil na região dos montes Apalaches. Tornou-se um enclave importante de imigração de irlandeses, poloneses e italianos, que ainda hoje formam o grosso da população.

A debacle começou logo depois da Segunda Guerra, com o êxodo das indústrias e um desastre que inundou as minas de carvão, inviabilizando-as para sempre. Os empregos sumiram, a população minguou e as perspectivas para a nova geração ficaram sombrias. A decadência se dava a passos lentos, mas a sensação de piora entre a população aumentou depois da crise financeira de 2008. Foi quando os arredores de Wilkes-Barre receberam uma leva de latinos que moravam na região de Nova York (Manhattan fica a apenas duas horas e meia de carro) e buscavam moradia barata. Até hoje, muitos vão e voltam diariamente.

“E com eles vieram mais drogas e mais crime, isso é inegável”, comentou o professor Tom Baldino, do Departamento de Ciência Política da Universidade Wilkes, em sua sala com vista para uma frondosa árvore de paleta outonal. “É fácil entender o fenômeno aqui.” Trump foi cirúrgico ao mexer com o medo, a raiva, os valores, os preconceitos e o ressentimento de um grupo que se via à margem do sistema havia anos. “As pessoas aqui não sabem o que é um latino, um muçulmano, nunca viram, não conhecem”, disse Baldino. “Elas só tinham a forte sensação de que tudo havia piorado. E quando chega Trump e diz que esses imigrantes roubaram os empregos e são o Mal para a vida das pessoas, se o sujeito já está com a vida ruim, como não vai acreditar nisso?”

Todas as vezes que Trump esteve na região, ele prometeu trazer de volta os empregos desaparecidos havia décadas. “É o maior medo da população mais velha, que é a maioria aqui. O que vai ser dos meus filhos, dos meus netos?” Para ele, era curioso o fato de Trump jamais ter dito como, onde e quando. “E, aparentemente, ninguém perguntou.” Na noite da eleição de Trump, Baldino passou a noite acordado em frente à tevê. Quando saiu o resultado, sua mulher chorou.

 

A vinte minutos de Walkes-Barre, Scranton é conhecida por ter sido cenário da série The Office, e também por ser a terra natal do vice-presidente Joe Biden e onde Hillary Clinton passava férias na infância (seu pai está enterrado lá). Ali, Clinton ganhou por uma margem apertada de votos – cerca de 5 mil eleitores –, mas parte dos moradores ainda estava estarrecida com o resultado. Na sede do Sindicato dos Eletricitários, Paul Casparro, presidente da entidade, discorria sobre um tenebroso governo Trump. “Como é que as pessoas no sindicato votaram nele? Ele foi explícito desde o começo, dizendo que iria flexibilizar as leis trabalhistas, e deu o cano em operários que trabalharam para ele”, disse em sua sala abarrotada de papéis e livros. “Isso vai ser um pesadelo.”

Casparro estava preocupado com o aumento da violência nas escolas públicas, motivado pelo discurso de ódio de Trump. Na semana posterior à eleição, o Southern Poverty Law Center já contabilizara mais de 400 episódios de intimidação e agressão física e verbal contra alunos muçulmanos ou de ascendência latina. Na maioria dos casos, os adolescentes xingavam os colegas e repetiam promessas como a construção do muro ou a expulsão dos imigrantes. “É essa raiva que ele espalhou. Isso vai ficar, não vai acabar tão cedo”, observou. Ainda não havia registro de episódios violentos na cidade, mas  ele disse ser uma questão de tempo.

Na avaliação de Casparro, um ponto crucial para a margem apertada de votos foi o conservadorismo da população. “Aborto, porte de armas, aqui tudo isso é muito forte”, disse. Ouvimos uma voz no corredor e ele reconheceu o timbre de Daniel Poirier, um dos sindicalizados que havia votado em Trump. “Ele é o exemplo do que estamos falando”, afirmou. Desempregado havia meses, Poirier estava lá a fim de pegar uma carta de recomendação para um trabalho em Nova Jersey. Aos 49 anos, casado, três filhos, ele aparentava pelo menos dez a mais. Gordo, alto, usava uma touca azul e abrigo de ginástica da mesma cor. Ele tem uma expressão derrotada, de quem não espera muito mais da própria existência. Em que Trump poderia melhorar sua vida? “Emprego”, respondeu, monossilábico.

Poirier não se lembrava em quem tinha votado na eleição anterior, mas comentou que pelo menos Trump era um bom administrador, o oposto de Obama e Clinton, disse. “Se ele soube fazer nas empresas dele, vai saber fazer como presidente”, disse. Quando mencionei que Trump era acusado de sonegar impostos, embolsar dinheiro de doações de caridade e não pagar empregados, ele fez uma cara de muxoxo. “Se criar mais empregos, as outras coisas se resolvem”, disse, enigmático. Os comentários racistas e misóginos de Trump não o incomodavam? “Não. Até porque a gente não sabe se ele falou isso mesmo.” Ele se informa sobre política pela televisão, mas observou que não tem paciência para o assunto. O emprego em Nova Jersey lhe pagaria 11 dólares por hora. “Não dá para viver assim. Ele diz que vai trazer empregos de volta, dar oportunidade para as pessoas. Por que eu não votaria nele?”

 

Fundado em 1870, o Scranton Times-Tribune é o maior jornal da região, com uma tiragem de 38 mil exemplares durante a semana e 60 mil aos domingos. Em 1946, ganhou um prêmio Pulitzer por “serviços prestados à população”. Em eleições passadas, apoiou George W. Bush e Barack Obama. Nessa, fechou com Clinton. Uma visita à redação é como entrar num filme preto e branco estrelado por James Stewart. O elevador de madeira escura com botões dourados já gastos, as paredes revestidas em carvalho com retratos do publisher pintados a óleo, o teto de pé-direito alto de madeira trabalhada, secretárias de cabelo branco que estão na função há mais de três décadas, jornalistas grisalhos de bigode e abotoaduras. No térreo, veem-se as prensas gigantes aposentadas há vinte anos.

Em uma tarde recente, depois da vitória de Trump, Chris Kelly, o principal colunista de política do jornal, com vinte anos de casa, esboçava um artigo sobre como a campanha havia sido virulenta. Cinquentão, com o cabelo escovinha partido de lado e óculos estilo anos 50, ele faz piadas o tempo todo como se estivesse num palco. Poderia ser o chefe do Peter Parker, a persona jornalística do Homem-Aranha. Conversamos sobre a votação inesperada de Trump. “A grande imprensa diz que falhou porque perdeu o contato com o eleitor de lugares como Scranton, por exemplo. Nós sabemos quem é nosso leitor que votou no Trump e escrevemos para ele. Mas esse não é o ponto. O que importa é que esses eleitores não estão nem aí para o que a imprensa escreve”, disse.

Naquela manhã, a primeira página do jornal estampava notícias sobre o comércio local, saúde e esportes. Apenas do lado direito da capa havia uma reportagem mencionando o presidente recém-eleito. Responsável por editar a seção de cartas dos leitores, o editor-executivo Pat McKenna, no emprego há 38 anos, disse que grande parte da correspondência que recebe não diz respeito a matérias publicadas pelo jornal: são insultos e reclamações baseadas em boatos e notícias falsas divulgadas na internet. “Perdemos a conexão com parte da população.” Se isso aconteceu com eles, a situação da “imprensa costeira” – redações em Nova York, Washington, São Francisco – era ainda pior.

 

O jornalista Lee Siegel tratou do assunto num artigo na Columbia Journalism Review. Para ele, haveria um enorme abismo entre “os que escrevem e os que têm a vida descrita”. A pouca diversidade social e econômica entre os jornalistas afetaria a maneira como o país é retratado pela imprensa. “Os repórteres que estão nos grandes jornais e revistas saem da escola particular, vão para uma faculdade de elite, passam a frequentar as altas-rodas. Esse é o mundo que conhecem”, escreveu. Não seria o trabalho de repórter que levaria essa aristocracia jornalística – “que se acha sofisticada, cosmopolita e dona da verdade” – a entender ou se conectar com a classe trabalhadora ou os eleitores de Trump. O problema, segundo ele, é que haveria uma enorme incapacidade de tolerância ao que não está na órbita que frequentam. “Eles não sabem o que não sabem, nem querem saber.”

“A maioria dos jornalistas que esteve aqui durante a campanha chegou, cobriu um comício, escreveu sobre o que se falou e foi embora. Ninguém ficou para ouvir as pessoas depois”, observou o colunista Chris Kelly. “Mas, ainda assim, é verdade: não sei se faria diferença.” Ele observou que a imprensa gastara meses e tinta escrevendo sobre assuntos como as ligações de Trump com Putin, por exemplo. O assunto era grave, mas não fazia qualquer sentido para a vida do cidadão comum. Por isso, era espantoso quando alguém como Trump – que de povão não tem nada, é um milionário arrogante e inconsequente – conseguia falar “direto ao coração” de quem se sentia à margem da vida política.

Ao final da conversa, Kelly quis me mostrar algo que um adolescente de hoje nem sonha que exista. No fundo da sala, centenas de milhares de envelopes pardos recheados de edições antigas do jornal jaziam em estantes de ferro. O lugar tinha cheiro de celulose. “Não é incrível? Há quanto tempo você não sente esse cheiro?”, perguntou. Quando saíamos do prédio, cruzamos com o gerente administrativo, que me cumprimentou com um aperto de mão. “Votou no Trump, olha a cara dele”, disse Kelly, acendendo um cigarro. “Me odeia! Está louco para a internet acabar com o jornal e ele poder me demitir”, emendou numa gargalhada.

 

Em um domingo à noite, no Backyard Ale House – um dos bares mais conhecidos de Scranton –, dois televisores sem som exibiam a partida de futebol americano. Os homens estavam de boné, bebiam cerveja em copos grandes e gritavam a plenos pulmões a cada jogada perdida. Outras três telas projetavam a entrevista que o presidente eleito, Donald Trump, dera ao programa 60 Minutes. Num canto do balcão, o aposentado Bob Guidalini tomava cerveja com um amigo que mora em Los Angeles. Guidalini é baixo, tem o cabelo ralo e o corpo parecido com o do marinheiro Popeye. Aos 58 anos, pela primeira vez na vida havia votado num republicano. “Não acho que Trump seja a melhor coisa do mundo, mas Hillary é uma política profissional. Tudo nela é falso e premeditado.”

Guidalini não está desempregado, não tem baixa escolaridade nem passa necessidade financeira. Ele simplesmente se encheu. “Esse pessoal de Washington chega aqui e acha que tem que nos ensinar a comer com garfo e faca”, disse. “Eu quis pagar para ver”, arrematou, com os olhos fixos no televisor que mostrava em close a cara laranja do próximo presidente. Para ele, a mídia pintou um retrato muito pior do que o republicano realmente é. E citou que, em seu discurso depois do resultado, Trump disse que ia “unir a América”. “Ele tem boa vontade e pulso para mudar as coisas, mas pegam no pé dele por umas besteiras que ele fala.” Guidalini não acredita nas notícias que lê pela internet, mas gosta da conservadora Fox News e da liberal NPR, a rádio pública nacional, que lhe parece “mais verdadeira”. Impressionou-se com Trump ao vivo. “Ele esteve aqui cinco vezes. Cinco! Entendeu bem a situação, falou que vai mudar as coisas. Alguma coisa ele vai fazer aqui.”

Com Clinton era diferente, disse Guidalini. A imprensa a teria protegido. “Quando ela falou que os eleitores de Trump eram ‘um bando de deploráveis’, ninguém achou um absurdo.” E ele havia se ofendido com o comentário? “Sim, me ofendi”, falou, acrescentando que também a imprensa havia tratado o eleitorado de maneira preconceituosa. As fotografias tiradas nos comícios de Trump, ele disse, sempre mostravam “gente gorda, com cara de nazista, de bêbado ou de condenado pela Justiça”. “Será que 61 milhões de americanos têm essa cara? É possível?”, me perguntou, olho no olho. “Deplorável é ela.” O amigo, que morava na Califórnia havia vinte anos, contou que também se incomodava com os estereótipos. “As pessoas só falam de Scranton por causa do The Office e porque a população está fudida, num lugar ferrado”, balbuciou.

Guidalini considera Trump “um pouco radical” na questão do muro, mas partilha a ideia de que a imigração precisa ser controlada. “Essa gente quer vir para cá sem contribuir economicamente. Quem fica ilegal não contribui, mas se beneficia das vantagens produzidas por quem contribui”, disse. A entrevista com Trump havia terminado e o programa seguinte era o desenho The Simpsons. Segurando a garrafinha de cerveja, com os dois cotovelos apoiados no balcão, ele parecia distante quando falou: “Aqui, se você não tem emprego, você tem mais benefícios do que quem tem. Isso é absurdo.”

Filho de italianos que imigraram durante a Primeira Guerra Mundial, Guidalini tem uma visão particular do assunto. “Você sabia que não houve imigração nesse país durante quarenta anos? Sabe por quê? Porque as pessoas precisavam ab-sor-ver”, disse, encompridando cada sílaba. “Precisavam ter um tempo depois de chegar para aprender a língua, aprender o que se come, como se vive e como se trabalha aqui”, continuou com um tom ligeiramente alterado.

A informação sobre imigração era mentira. Guidalini reproduzia exatamente o que se espera na era da pós-verdade: repetia uma informação falsa, sem qualquer base concreta, para provar um ponto de vista utilitário. Não há registro na história americana – nem durante a crise de 30 ou durante as guerras – de que a migração foi proibida. O boato havia tomado corpo no programa de rádio de Rush Limbaugh, patriarca do talk radio reacionário, e se fortalecido nas redes sociais e nos sites conservadores.

Um dos funcionários do bar – com feições mexicanas – cruzou o salão carregando uma lata de lixo. “Por que tem que ter placa em espanhol? Quer morar nos Estados Unidos? Então aprenda inglês. Aqui se fala inglês, essa é a língua do país.” O amigo o escutava em silêncio. “Se continuar assim, em vinte anos, cadê a cultura desse país? Vai ser taco? Vai ser pamonha? Vai ser cobrir a cabeça com véu? Isso não são os Estados Unidos.”

 

Uma semana depois das eleições, almocei com David Fahrenthold num restaurante especializado em hambúrguer perto do jornal. Havia lhe pedido o encontro porque precisava de “um final” para a minha história. “Tudo o que a gente pensou que ia acontecer não aconteceu, não é?”, disse-me à mesa. Coincidentemente, ele também escrevia um final para sua história. Rascunhava um relato em primeira pessoa sobre os bastidores de sua apuração a respeito da filantropia de Trump, a ser publicado em janeiro na revista dominical do Post.

“Fiz as matérias mais importantes da minha vida, elas tiveram um impacto incrível quando foram publicadas, mas ele ganhou a eleição.” E prosseguiu, segurando no ar um sanduíche colossal: “E você se pergunta: E aí?” O lado positivo, ele afirmou, era que havia aprendido como funciona a cabeça de Trump – o que lhe dava uma vantagem na apuração das reportagens que faria sobre o novo presidente nos próximos quatro anos. “Agora eu sei exatamente como ele age, como pensa, como manipula. Fica jogando a bolinha para você ir atrás, te enrolando, achando que te controla. O segredo com ele é simplesmente fazer, apurar. Não esperar dele resposta ou desculpa. É fazer.”

 

Dois dias antes, a equipe de política do Post havia se reunido para um balanço das eleições. Martin Baron agradeceu o trabalho de todos, disse que fariam uma cobertura rigorosa do governo Trump e que era um momento histórico para quem trabalhava no Post. Fahrenthold me disse acreditar que será mais fácil escrever sobre ele agora do que foi na campanha. Não haverá Clinton para dividir o noticiário, Trump não poderá ficar só tuitando, disparando frases polêmicas em comícios, terá de entregar o que prometeu. “Daqui para a frente, as ações dele vão importar mais do que as palavras”, disse.

Comentei com Fahrenthold que ele estava em primeiro lugar nas votações organizadas na internet para escolher a melhor reportagem do ano. “Antes da eleição, eu estava. Agora, vai saber”, disse rindo. E que também era um dos favoritos para o próximo Pulitzer. “Ia ser muito bom ganhar. Eu queria muito que outras pessoas pudessem ver no meu exemplo como é cobrir uma pessoa como ele.” As quinze folhas de papel com sua portentosa apuração – essas sim, uma relevante peça para constar do Newseum – estavam guardadas em uma gaveta de sua mesa. Nos próximos dias, ele sairia de férias. A primeira em meses. Iria visitar os sogros e passar um tempo com os filhos em Boston.

Depois das eleições, as assinaturas de jornais e revistas dispararam no país. A New Yorker registrou 10 mil novos leitores em três dias; o New York Times, 41 mil em seis dias; o Wall Street Journal teve um aumento de 300% nas vendas. A ProPublica, que costuma receber dez doações diárias, contabilizou três por minuto durante dois dias. Os números do Post, como é de praxe, não foram divulgados.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]

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