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O leilão onde fizemos um bom negócio

Compramos uma virgem de abdômen desenvolvido
Tatiana Bandeira
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

Entre mordiscadas num pão de mel, o empresário José Corrêa da Cunha, de 55 anos, não vê a hora em que os 220 inscritos no 8o Workshop de Apicultura do Rio Grande do Sul meterão a mão no bolso e, movidos por um desejo irrefreável, substituirão suas velhas rainhas por outras, novinhas. Oriundo de uma linhagem de apicultores que já se estende por três gerações, Cunha teve a idéia de organizar o 1o Leilão de Abelhas-Rainhas e agora acalenta a esperança de que os seus himenópteros – nome da ordem de insetos a que pertencem as abelhas – sejam arrematados em lances dignos dos grandes leilões.

O leilão aconteceu em maio, em Cachoeira do Sul, cidade a 200 quilômetros de Porto Alegre, na Ulbra, uma universidade local. O município é mais conhecido como capital nacional do arroz, produtor de noz-pecã e berço de polêmicas fomentadas pelo prefeito e médium Marlon Arator Santos da Rosa, de cuja plataforma de governo consta a tentativa de obrigar legalmente todos os ocupantes de cargo de confiança a ler um livro por mês.

“A gente ouve falar em leilão de gado, leilão de ovinos. Por que não de abelha?”, elabora Cunha, que preside da Confederação Brasileira de Apicultura e prepara uma robusta monografia sobre as rainhas. Sessenta e quatro delas – todas nascidas “de material selecionado, de alta genética” – estarão em disputa no final do dia. Entre elas, há 22 princesas, ou seja, abelhas não-fecundadas.

Cunha é alto (foi jogador de basquete na juventude), usa óculos e está sempre de sapatos pretos lustrosos. Com ar formal, quase severo, ele informa que as rainhas “são as tops das abelhas”. Cada colméia tem cerca de mil zangões e 80 mil operárias que gravitam em torno de uma única monarca. “Os apicultores poderão substituir as rainhas velhas para renovar os enxames”, explica Cunha.

Com cuidado, ele instala as bichinhas em caixas de madeira de 10 centímetros cobertas com uma tela. Em cada caixinha há uma pintada de branco com uma caneta marca-texto, para facilitar a identificação. Fazendo-lhe companhia, pelo menos quatro operárias. É o bônus track do pequeno lote: quem arrematar uma rainha levará para casa pelo menos quatro abelhinhas de lambuja.

O leiloeiro Silvio Lengler, tem 61 anos, é professor universitário aposentado e apicultor apaixonado. Veio da vizinha Santa Maria para animar a turma e levantar o preço das rainhas. Ele acredita que, se ultrapassar os 1 000 reais, vai ser um estouro. Conhecido pela alcunha de “Doutor Abelha”, Lengler começou a mexer com os insetos em 1968. “Tenho técnicas de motivação”, confidencia enigmático, enquanto coça a barriga proeminente.

O leilão de abelhas-rainha reúne apicultores do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Uruguai. Eles se distribuem pelas palestras e oficinas, que discutem as boas práticas do apiculturismo. Alguns se vestem com abrigos de tactel preto-e-amarelo, homenagem ao inseto do qual retiram o sustento. Numa feira de artesanato, a ApisArte, os presentes podem admirar esculturas em formato de colméia e telas a óleo que retratam abelhas diferentes.

 

Por volta das 18 horas, com o sábado gelado, metade dos 220 apicultores já havia ido embora. Os produtores que sobram se acomodam num auditório de grandes poltronas arroxeadas. É a hora das rainhas. A tática motivacional de Lengler inclui uma fala arrebatada sobre a exuberância do primeiro inseto a ir para o prego. O pessoal reage com frieza. “Eu ouvi alguma coisa? Ouvi? Ouvi, sim. Quem dá mais de 6? É uma rainha virgem, uma não-fecundada, minha gente! Oito pela primeira, 8 pela segunda. Não pode se coçar: levantou a mão, paga!”, brada Lengler com uma das mãos em concha na orelha e a outra segurando firme o microfone. Os primeiros lances são feitos. O clima é festivo. Inconscientes do próprio valor, as abelhas ocupam o tempo voando em suas caixinhas enfileiradas ao longo da mesa do leiloeiro. Em menos de quarenta minutos, todas já têm destino certo, nenhuma ficou para tia. Algumas irão para Santa Maria no carro de Lengler, arrematadas pelo próprio leiloeiro.

Como leilão de abelhas é novidade, José Corrêa da Cunha teve de inventar um sistema da sua própria cabeça para cotar as rainhas. Ele resolveu adotar uma escala de estrelas. Estranhamente, contudo, quanto menos estrelas, melhor. As abelhas uma-estrela, aquelas que, se gente fossem, apareceriam na capa da Vogue, mereceram lances em torno de 50 reais, enquanto as duas-estrelas alcançaram 35. Mas as de três, coitadas, mal chegaram a 25, se tanto. Ninguém questionou os critérios de Cunha. As abelhas eram dele, e todas traziam o selo de qualidade que se esperaria de um presidente de confederação.

Saldo final: 662 reais. Um pouco aquém da expectativa, mas ninguém se lamentou. O maior lance partiu de Aldo Machado dos Santos, proprietário de duas mil colméias em São Gabriel: 118 reais por seis rainhas duas-estrelas que, segundo ele, valem no mínimo 1 200 reais. Sobre o menor lance da noite – 13 reais por uma rainha virgem arrematada por piauí –, Santos comenta: “Foi bom negócio. Tem o abdômen bem desenvolvido”.

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