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O mecanógrafo

Uma oficina analógica
Leonardo Pujol
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Numa tarde de 2017, Gustavo Mariot bateu à porta da oficina de Ebanez Flores no Centro de Porto Alegre. Levava a tiracolo um artefato que pertencera a seu bisavô, um austríaco que veio para o Brasil no começo do século passado. Era uma Erika 2, uma máquina de escrever portátil alemã fabricada na década de 1910 pela Seidel & Naumann. Usada pelo patriarca da família para redigir cartas e registrar os negócios de sua oficina mecânica, há anos precisava de um bom conserto. Mariot – um assessor de 41 anos no TRF-4, o tribunal em que são julgados os recursos de segunda instância da Operação Lava Jato – descobrira na internet a oficina de Flores.

O estabelecimento está sediado há mais de três décadas no térreo de um velho prédio comercial. Parece ter parado no tempo, com uma galeria de Remingtons, Olivettis e Underwoods em exposição sob iluminação precária. O fundo da loja abriga carcaças de velhas máquinas, teclados sobressalentes e caixas empoeiradas. Nos balcões de vidro ficam os instrumentos recém-consertados – naquela semana estavam ali um mimeógrafo e uma caixa registradora.

Quem recepcionou Mariot foi o proprietário em pessoa – um senhor afável de 78 anos, bigode branco e óculos de lentes grossas. Flores despacha de uma escrivaninha onde repousam livros de registro e uma Olympia portátil. Que ninguém espere receber um orçamento por e-mail. “O cliente pode vir aqui, telefonar ou receber por fax”, explicou, taxativo.

Mariot pôs a Erika 2 sobre o balcão e disse a Flores que queria um restauro completo. O técnico examinou-a e avaliou que seria preciso limpar e lubrificar as peças. Também trataria de recuperar o preto fosco original da carenagem. Informou ao cliente que o reparo de um aparelho portátil como aquele costuma sair por 800 reais. Como Mariot pretendia manter o teclado original, o serviço lhe custaria 540 reais.

Flores se dedica há 46 anos ao restauro de máquinas de escrever. Seus clientes incluem decoradores, colecionadores e herdeiros como Mariot. Mas o restaurador disse receber também advogados, contadores, tabeliões e outros profissionais que se resguardam de eventuais infortúnios. “Se a energia cair ou o computador estragar, quem é que garante a expedição de um documento?”, indagou, com um sorriso.

 

Nascido em São Pedro do Sul, no interior gaúcho, Ebanez Flores se mudou para Porto Alegre aos 19 anos. Trabalhava como supervisor de uma revendedora de perfumes quando teve sua epifania ao passar em frente a uma assistência para máquinas de escritório em 1972. Encantou-se com o estabelecimento e, num impulso, pediu as contas na firma em que trabalhava. Com o dinheiro da rescisão, fez uma proposta ao dono da oficina e adquiriu o negócio.

O estabelecimento – que leva o nome do proprietário – viveu sua época de ouro entre a metade dos anos 70 e o início dos anos 90. Chegou a ter mais de vinte funcionários e atendeu dezenas de empresas, incluindo uma profusão de agências bancárias e os três principais jornais da capital gaúcha. Orgulhoso, o empresário diz ter assessorado grandes repórteres e escritores como Moacyr Scliar, dono de uma Adler portátil.

Com a popularização dos computadores, porém, o serviço minguou. O estafe de Flores hoje se resume a três técnicos sexagenários. Seus concorrentes fecharam as portas ou mudaram de ramo, mas o dono do negócio jamais deu o braço a torcer. “Acreditei que as máquinas não terminariam, como não terminaram e não terminarão.” A clientela é restrita, mas não tem muitas opções em Porto Alegre. Nas ocasiões em que a piauí visitou a oficina de Flores, não faltaram máquinas chegando para conserto e telefonemas pedindo orçamento. Discreto sobre a saúde financeira do negócio, Flores diz receber de dois a três aparelhos por dia para consertar. “Dá para viver.”

Coerente, o velho mecanógrafo não aceita pagamento em cartão, dispensa computadores e só escuta discos de vinil. Seu carro é um Tipo da safra de 1995, que ele não tem a menor intenção de trocar – “é confortável, econômico e excelente para pescarias”. É verdade que Flores sucumbiu ao celular, mas nunca se rendeu aos smartphones. “É ótimo, atendo em qualquer lugar”, exclamou, ao sacar do bolso um Motorola do tipo flip fabricado em 2004.

 

Quanto mais velha a máquina, mais fácil o restauro”, disse o funcionário que cuidou dos procedimentos iniciais do reparo da Erika 2. Com chave Philips e alicate, ele removeu a prensa que fixa a folha no cilindro de borracha, o marginador e a alavanca de entrelinha, separando-as juntamente com os parafusos – as peças seriam enviadas para cromagem em outra oficina.

Em seguida, o próprio Flores besuntou as peças internas com óleo lubrificante e fez uma faxina geral. Usou alvejante e flanela para limpar tecla por tecla e aplicou solvente nas partes engorduradas da carcaça. Após assegurar-se de que o carro da máquina estava em perfeito estado, ele levantou as barras de tipo – como se todas as teclas fossem batidas ao mesmo tempo – e as isolou com fita, para enfim pintar a máquina. “Não dá para deixar ‘degrau’, tem que estar tudo liso”, ensinou.

Quando a Erika 2 estava seca, alguns dias depois, o técnico que iniciara o reparo reposicionou os acessórios cromados, tomando o cuidado de lixar os parafusos antes de apertá-los. Teve ainda que forjar um carretel que estava faltando. O processo de restauro levou cerca de um mês.

Procurado alguns meses depois, Gustavo Mariot disse que a máquina estava funcionando bem, e que o serviço valera o dinheiro investido. Planeja, inclusive, mandar restaurar uma Smith Corona automática que tem em casa. Mas não vem fazendo uso do artefato recém-consertado: a Erika 2 foi da oficina direto para a sala de estar de Mariot, onde serve de objeto de decoração.

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