Eu escrevia cartas para garçonetes e vendedoras que despertavam meu desejo. Acreditava que a escrita poderia ter o efeito que meu corpo não lograva produzir: a sedução. Que uma carta pudesse compensar a falta de musicalidade do corpo, desviando a atenção para a musicalidade da linguagem.
Ver dados da foto Eu escrevia cartas para garçonetes e vendedoras que despertavam meu desejo. Acreditava que a escrita poderia ter o efeito que meu corpo não lograva produzir: a sedução. Que uma carta pudesse compensar a falta de musicalidade do corpo, desviando a atenção para a musicalidade da linguagem. ILUSTRAÇÃO: PEDRO FRANZ_2016

O momento

Quando é que um escritor começa de fato a escrever?
Arnon Grunberg
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Eu escrevia cartas para garçonetes e vendedoras que despertavam meu desejo. Acreditava que a escrita poderia ter o efeito que meu corpo não lograva produzir: a sedução. Que uma carta pudesse compensar a falta de musicalidade do corpo, desviando a atenção para a musicalidade da linguagem. ILUSTRAÇÃO: PEDRO FRANZ_2016

Quando a leitura termina e na sequência vem a inevitável sessão de perguntas e respostas – e até aí, tudo bem –, sempre surge a questão: “Qual foi o momento exato em que você começou a escrever?” Como se fosse possível determinar data e hora, como se faz com o primeiro cigarro ou a perda da virgindade. E quem pergunta em geral assume uma expressão de quem espera uma resposta escrupulosamente detalhada: “Foi no dia 20 de setembro de 1986, logo depois do jantar.” Mas será que uma redação feita em sala de aula, ainda que com pouco entusiasmo, não pode ser considerada a estreia da atividade da escrita? Ou uma canhestra carta de amor? Ou mesmo os versos escritos para as bodas de prata de um tio?

Quando me pedem para indicar o momento preciso em que comecei a escrever, imagino que a melhor resposta seria quando eu – por coação, e bastante precocemente – deixei de frequentar o Vossius Gymnasium, em Amsterdã. Mas nem mesmo isso pode ser definido como “um momento”, porque, como em tantas outras separações, desistir da escola secundária foi um processo longo e arrastado que durou semanas, meses até.

Bem, pode ser que a origem da minha carreira de escritor – com o perdão do tom pretensioso – esteja não tanto na despedida do Vossius Gymnasium, mas na decisão de, na contramão de todos os conselhos, não me matricular numa escola um pouco mais fácil, onde não ensinassem latim nem grego. No final das contas, resolvi que não queria mais estudar. Para mim, o fato de deixar para trás, definitivamente, qualquer possibilidade de carreira acadêmica era apenas a ponta do iceberg. Eu queria ser ator, e para isso ninguém precisa cursar uma universidade.

Em palestras e leituras, costumo dizer que passei 24 horas trancado no banheiro da casa de meus pais – eu ainda morava com eles – a fim de convencê-los da seriedade da minha resolução. Quer dizer, posso estar mistificando um pouco, prática comum a todo escritor. Seria aconselhável, então, olhar para trás e tratar de desmistificar a situação.

Dispostos a me persuadir de que eu ainda era jovem demais para estragar a vida, meus pais exerceram uma considerável pressão emocional sobre mim, e não há dúvida de que respondi exercendo pressão de volta sobre eles, num esforço para fazê-los aceitar que estragar o futuro era, no meu entender, a única maneira de cavar um espaço para uma vida própria. E, se não me falha a memória, no decurso desse exercício de pressão emocional recíproca, eu de fato cheguei a me trancar no banheiro, mas certamente não por 24 horas. Três horas, no máximo – não durou mais do que isso.

Meu pai acabou me convencendo a ir a uma clínica psicológica em Utrecht, a meia hora de Amsterdã, para me submeter a alguns testes vocacionais.

 

A clínica prometia descobrir os talentos de cada um. Não divulgava, porém, que alguns clientes poderiam se mostrar imprestáveis para o que quer que fosse. Àquela altura da vida, eu só me considerava apto a representar, mas meu pai estava determinado a deixar a palavra final para o resultado dos testes.

Os exames tomaram um dia inteiro. Havia alguns jovens na mesma sala que eu, mas a maioria dos presentes consistia em homens na faixa dos 40 que, a despeito de anos de experiência no mercado de trabalho, ainda pareciam não ter ideia de seus pontos fortes. A atmosfera era sombria e um pouco tensa, como, por exemplo, quando se está num crematório.

Quatro semanas mais tarde, chegaram os resultados. Minha aptidão para a aritmética ficava mais ou menos em torno da média; para a escrita, era bem inferior. Já nem lembro mais exatamente o que eles recomendavam que eu fizesse da vida. Só sei que meu pai ficou muito decepcionado com a clínica e sepultou o relatório na gaveta de baixo de sua escrivaninha, da qual só tornaria a emergir depois da morte dele.

Enquanto isso, minhas tentativas de progredir como ator eram sistematicamente frustradas. Nenhuma escola de teatro me aceitou e, no mundo do cinema, só fiz pontas. Mais tarde consegui incorporar algumas dessas experiências ao romance Figuranten [Figurantes], publicado em 1997.

Ao cabo de alguns anos de trabalhos esporádicos em cinema e teatro, dois pontos ficaram claros para mim. Primeiro, quando você é figurante, todo mundo se sente no direito de te humilhar. Segundo (uma conclusão mais pessoal), eu não era ator. Carecia daquela chama que arde no fundo da alma. E talvez, também, de talento. E eu não queria mais atuar como dublê, no meio da noite e em locações gélidas, dando cambalhotas em cenas que no final nem acabavam entrando nos filmes.

Meu pai me disse: “Você pode ser o que quiser, até mesmo engraxate de rua. Mas precisa ser alguma coisa.” E dessa vez, pelo menos, achei que ele tinha razão. Trabalhar como figurante não é uma profissão – na melhor das hipóteses, pode ser visto como um hobby, que é preciso largar antes que seja tarde demais.

Respondi a um anúncio de auxiliar geral de administração, e minha carreira de ator chegou ao fim. Pensando melhor, porém, isso também é uma forma de mistificação. Minha carreira de ator foi simplesmente se extinguindo. Eu não me dava mais ao trabalho de comparecer a testes, e em pouco tempo os produtores de elenco pararam de me procurar. Um vestígio desse sonho, que em retrospecto me parece só mais uma tentativa de afrontar meus pais e as expectativas que eles cultivavam, tomou a forma de aulas de dança. Balé clássico, para ser mais preciso.

Às segundas-feiras, das oito às dez da noite. Uma escola de teatro havia me comunicado em tom cortês mas bem realista que minhas aptidões motoras e a musicalidade de meus movimentos não eram exatamente o meu ponto forte. E mesmo sem qualquer garantia de que fossem me aceitar caso eu cultivasse meu potencial, decidi me aplicar na matéria. Um conhecido, que participava de um espetáculo amador no qual eu também estava, me pôs em contato com a mãe dele: Jolanta Zalewska.

 

Jolanta dava aula de dança. Nascida em Varsóvia, fora parar em Amsterdã por ter fugido dos comunistas. Seu filho contou que chegaram a lhe oferecer o posto de coreógrafa no respeitado Balé Nacional de Amsterdã, mas que na véspera de se apresentar um abalo nervoso incapacitante a acometeu. Esvaziou sozinha duas garrafas de vodca e seguiu para a entrevista num estado deplorável. Fim da carreira de coreógrafa do Balé Nacional de Amsterdã.

Mais tarde se soube que, na verdade, ela não tinha exatamente fugido do comunismo, mas viajara a Amsterdã por amor. Pequenos detalhes. Os escritores, aliás, não são os únicos com talento para a mistificação. E ainda convém lembrar que muitas vezes é extremamente nebuloso o ponto onde começa uma fuga do comunismo (ou seja lá do que for) e termina o amor.

De qualquer maneira, nunca vou esquecer o dia em que conheci Jolanta. Era uma mulher miúda e inconstante. Falava holandês com um sotaque polonês carregado, e fumava com sofreguidão, com gestos abruptos. Parecia sempre se esquecer do cigarro em suas mãos. Daí se lembrava e, com uma irritação mal disfarçada, dava uma tragada.

As aulas de balé para iniciantes eram, na verdade, o seu ofício. Jazz e clássico. E foi pelo clássico que ela recomendou que eu começasse. As sessões das noites de segunda-feira eram frequentadas por diversos alunos, entre os quais um bom número de garotas atraentes – eu as desejava, a todas e a cada uma, igualmente em vão – e alguns tipos de mais idade: um filósofo, um clínico geral, um diretor de teatro.

Nosso pianista, Roman, também era um refugiado polonês, mas à diferença de Jolanta nunca dizia nada. Às oito em ponto ele aparecia, erguia a tampa do piano e começava a tocar. Às dez em ponto parava, fechava o piano e desaparecia sem abrir a boca. Um dia ele morreu, e Jolanta pôs uma rosa em cima do piano. A partir de então ela adotou um gravador cassete.

Não lembro mais com clareza por que insisti no balé clássico mesmo depois de saber que minha carreira de ator estava muito próxima do fim. Talvez sentisse vergonha de admitir para Jolanta que tinha abandonado a esperança. Talvez por considerações mais práticas. Naquele tempo, eu não era exatamente uma pessoa solitária, mas aquelas aulas me proporcionavam um contato social não desprezível. Quando a aula terminava, Jolanta, ao contrário de Roman, sempre ia a um café com alguns alunos.

Talvez agora fosse mais sensato fazer uma pausa e reformular a resposta quanto ao momento em que comecei a escrever: não foi quando larguei a escola, foi no momento em que resolvi tomar aulas de balé clássico, dar um destino àquela musicalidade de que, segundo os especialistas, meu corpo carecia de forma aguda.

Ao final da noite, Jolanta quase sempre me dirigia algumas palavras de conforto, como: “É verdade, suas costas são fracas, mas você tem pernas de touro.” Certo dia ela me disse: “Você é atraente, com esses óculos sempre sujos.” Talvez fosse por isso que eu era um dos últimos a ir para casa. Ou talvez porque simplesmente em casa não havia nada a minha espera. Jolanta sempre voltava tarde para casa. E às vezes nem voltava.

A essa altura é preciso dizer alguma coisa sobre os vendedores de rosas que, naqueles dias, palmilhavam as ruas de Amsterdã. Em geral eram indianos ou paquistaneses, munidos de buquês de qualidade duvidosa e câmeras Polaroid, muitas vezes elas também de qualidade duvidosa. Andavam de café em café na esperança de vender uma rosa e uma fotografia para românticos necessitados.

Quando a noite começava, Jolanta ignorava os rapazes, mas à medida que as horas avançavam ela ia ficando cada vez mais amistosa, até chegar o momento em que dizia: “Me dê aqui todas as suas flores.” Mais tarde, descobriu-se que ela mantinha relações sexuais com vários desses vendedores. Quanto mais bebia, menos exigente ficava – até que, imagino, admitia em seu íntimo: “Calor humano é calor humano.”

Jolanta também tinha um passatempo que foi se expandindo a ponto de se transformar numa ocupação de tempo integral: pegar dinheiro emprestado. Que ela gostasse de tomar dinheiro emprestado tinha a ver com o fato de também amar gastar dinheiro e, de preferência, mais do que ganhava. Sua capacidade de seguir pedindo emprestado só pode ser atribuída a seu charme e seus poderes de persuasão. Havia vários cafés e restaurantes em que ela comia e bebia fiado. E também havia, é claro, estabelecimentos onde esse expediente não funcionava mais. Posto isso, é importante assinalar que ela só pedia dinheiro às pessoas que, na sua opinião, já possuíam o bastante. Naqueles dias eu tinha bem pouco, e ela nunca recorreu a mim.

E ela também era extremamente generosa. Com o dinheiro alheio, é bem verdade – o que não desmerece essa qualidade.

 

Apesar desse campo de interesses tão volátil, poucas coisas ela levava mais a sério que a arte em geral e a dança em particular. Numa conversa de bar sobre política, vinho ou rosas, ela podia empreender uma análise inesperada da linguagem corporal de algum outro frequentador. E também gostava de falar da diferença entre os movimentos corporais de holandeses e poloneses. “Os holandeses caminham de um modo esquisito”, disse certa vez, “porque estão sempre andando de bicicleta.” O filho de Jolanta, Redbad, me apresentou outra expatriada polonesa em Amsterdã: Ewa Mehl.

Ainda bebê, ela havia sido encontrada ao lado de trilhos de trem na Polônia, e portanto era quase indiscutível que fosse judia. Tinha sido criada num lar adotivo em Wroclaw, a antiga Breslau. Era artista, mais precisamente ceramista, e morava numa quitinete no Centro de Amsterdã. Redbad sugeriu que eu a visitasse.

Ewa Mehl me recebeu dizendo: “E aí, você quer ser ator?” “Bem”, respondi, “para dizer a verdade, nem disso eu tenho mais tanta certeza.” “Então, o que você quer ser?” Seguiu-se um breve silêncio. “O que você faz?”, ela quis saber. Respondi que trabalhava como auxiliar administrativo. A próxima pergunta – se eu pretendia continuar a trabalhar como auxiliar administrativo pelo resto da vida – não foi difícil de responder. “Eu também escrevo”, disse.

E não era uma completa mentira. Eu havia escrito umas peças, mais precisamente textos de um ato, movido pela esperança de que eles impulsionassem minha carreira de ator, menos de que me lançassem como dramaturgo. Aos 15 anos, quase por acaso ganhei um prêmio para jovens autores teatrais. Fiquei honrado, mas ainda assim um pouco decepcionado por não ter sido um reconhecimento por meu talento de ator.

Quanto ao resto, eu escrevia cartas. Endereçadas a garçonetes e vendedoras que despertavam meu desejo. Acreditava que a escrita poderia ter o efeito que meu corpo não lograva produzir: a sedução. Que uma carta pudesse compensar a falta de musicalidade do corpo, desviando toda a atenção para a musicalidade da linguagem. Minha confiança na palavra escrita, nesse tempo, devia beirar a loucura. Sobretudo porque eu não me limitava a uma carta só, mesmo que a única resposta a ela fosse o silêncio: não, eu continuava a escrever.

Como autor de cartas, eu levava uma vida de monogamia serial. Primeiro escrevi para a vendedora da mercearia, depois para uma atriz que conheci e tinha começado a falar comigo. A campeã, porém, foi uma garçonete de um restaurante italiano. Ela se chamava Mariëtte, e ainda hoje não consigo pensar nela sem uma pontada de desejo e saudade. Ouvi dizer que teve um filho há pouco tempo.

Mas não disse nada disso a Ewa Mehl. Só respondi: “Eu também escrevo.” Ao que ela retrucou: “Então me mostre algum texto seu.” A primeira pessoa a levar a sério o que eu escrevia e a exercer alguma crítica dos meus textos foi uma imigrante polonesa em Amsterdã cujo holandês era bastante precário.

E suas críticas eram bastante severas. “Escreva sobre gente que você conhece”, ela dizia. “Escreva sobre mim, sobre Jolanta, sobre seus pais. Não fale sobre a revolução, porque você não entende porra nenhuma de revolução.” A partir desse dia, depois de cumprir meus deveres de auxiliar administrativo não especializado, eu pedalava até a quitinete de Ewa Mehl, que me oferecia uma xícara de chá e uma tigela de borscht. E conversávamos sobre arte.

Não teria sido este, então, o momento em que comecei a escrever? Aquele instante na quitinete de Ewa Mehl em que eu disse “Eu também escrevo”? Ewa e Jolanta eram amigas, mas tinham uma relação complicada. Alguém me contou que, quando o filho de Jolanta era criança, ela costumava deixá-lo na casa de Ewa, pedindo: “Cuide dele um pouquinho, está bem? Eu volto daqui a dez minutos.” E desaparecia por dias a fio.

 

Uma tarde Ewa me disse: “Sabe quem você devia ler? Marek Hlasko.” Eu nunca tinha ouvido falar de um escritor polonês chamado Marek Hlasko. Mas admito que, àquela altura, não tinha ouvido falar de praticamente nenhum escritor polonês.

Não havia traduções para o holandês de suas obras, mas na livraria Sie Weisse Rose encontrei um romance vertido para o alemão.

Comecei a ler. Embora o mundo sobre o qual ele escreveu fosse inteiramente distante do meu, tudo me parecia familiar. Hlasko falava da Polônia da década de 50, no auge do stalinismo. Em um de seus contos mais famosos, “O oitavo dia da semana”, duas pessoas buscam um lugar em Varsóvia para fazer amor. Admito que “ponto de vista diante da vida” é uma expressão horrível, mas havia alguma coisa no ponto de vista de Hlasko diante da vida que eu achei que entendia, sentimentos com os quais eu comungava, e nunca antes eu havia encontrado isso no mesmo grau em nenhum outro escritor. O desalento, a raiva, o nojo, a fé ingênua – quem sabe, talvez espúria – no amor.

Sempre que me sentia à beira de me perder enquanto escrevia meu primeiro romance (Amsterdã Blues), eu voltava a Hlasko. Reli há pouco aquele que talvez seja seu melhor livro, Drugie Zabicie Psa [A Morte do Segundo Cão]. Dois poloneses emigram para Israel: um é diretor, o outro é ator. O ator seduz mulheres mais velhas nas praias de Tel-Aviv, na esperança de obter alguma grana. O diretor entra com os textos, o ator recita.

O livro tem lá seus defeitos, mas ainda assim posso recomendá-lo com entusiasmo. Fala da sedução como um jogo, e do fato irônico de que o jogo deixa mais ou menos de ser um jogo a partir do momento em que alguém passa a levá-lo a sério. Fala do poder da palavra e da negação do clichê, no momento em que o clichê é usado com outra finalidade e, assim, adquire uma nova ambiguidade. Talvez fale também de como, se formos examinar com cuidado, quase tudo pode ser reduzido à arte da sedução, muito embora essa arte muitas vezes se apresente sob um outro disfarce.

No final das contas, talvez o que esses três poloneses – Jolanta Zalewska, Ewa Mehl e Marek Hlasko – me ensinaram tenha a ver com o poder de atração da destrutividade. Descobrir esse poder dentro de si, e levá-lo a sério, pode muito bem ser uma pré-condição para a capacidade de construir, de criar.

Mas que ninguém me entenda mal: em termos gerais, não tenho o menor problema com o aparato de uma existência burguesa.

Marek Hlasko se matou no dia 14 de junho de 1969, em Wiesbaden, na Alemanha. Jolanta Zalewska foi encontrada boiando num canal de Amsterdã em meados da década de 90. (Às vezes é difícil determinar onde acaba o alcoolismo e começa o suicídio.) Pouco tempo depois, Ewa Mehl morreu de leucemia.

Em 1995, logo que lancei meu primeiro livro, me mudei para Nova York.

 

Durante os últimos anos de suas vidas, tive pouco contato com Ewa e Jolanta. Posso ter me deixado empolgar um pouco além da conta com o sucesso de meu primeiro romance, e com o sucesso em geral, muito embora já devesse ter aprendido que o sucesso era uma ilusão.

Quando meu segundo romance foi lançado, Ewa Mehl me mandou um pacote de borscht em pó. Sem nenhum bilhete.

Escrevo este texto na Ucrânia, onde estou acompanhando um grupo de americanos em busca de noivas ucranianas. Faço de conta que também procuro uma noiva, mas estou aqui para escrever sobre eles para um jornal. E quem poderá dizer até que ponto vai o faz de conta? Nunca, desde os dias em que depois das aulas de dança eu frequentava os bares com Jolanta, bebi tanta vodca quanto tomo aqui.

Hoje acordei com a cabeça pesando uma tonelada, uma sensação quase física. Estão muito próximos de mim, Jolanta Zalewska, Ewa Mehl e Marek Hlasko.

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