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O monge armado

Como voltar vivo e íntegro

Jacira Cabral da Silveira
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

João Batista Bandeira e o colega de viatura faziam a ronda próximo à Vila Safira, na Zona Norte de Porto Alegre, quando presenciaram o assalto a um mercado. Bandeira jogou-se sobre o criminoso para imobilizá-lo. Ainda no chão, recomendou ao homem que não reagisse e garantiu que nada lhe aconteceria. “Tu deu sorte de ser detido por ele”, o assaltante ouviu de um policial quando chegou algemado à delegacia. “Esse nunca vai bater em ti.”

Evitando fazer mal ao criminoso, Bandeira estava aplicando um preceito central do zen-budismo à sua atuação na Brigada Militar, o equivalente da Polícia Militar no Rio Grande do Sul. Desde que começou a seguir a religião, há quase vinte anos, o policial passou a se pautar por seus princípios. “O budismo me ajudou muito na leitura dos cenários”, afirmou.

Bandeira mudou a sua percepção do tempo – hoje ele considera cada instante como “o universo numa fração de segundo” – e passou a agir em função disso. “Numa profissão como a de policial, muitos equívocos acontecem porque não se tem um tempo de decisão muito grande”, disse. A resolução de dar ou não um tiro, por exemplo, nem sempre vem do exame de todos os aspectos de uma situação. “Poucos comandantes treinam os policiais para enxergar não um alvo, mas todo um contexto.”

Aos 52 anos, Bandeira é um homem de aparência serena e fala suave. De família católica fervorosa, cresceu num bairro militar da capital gaúcha, próximo ao quartel onde seu pai servia. Inspirado na figura paterna, iniciou sua trajetória na polícia aos 19 anos. Durante os primeiros três meses, ficou internado num quartel enquanto recebia a formação militar, “da mesma forma como os monges ficam reclusos para aprender ritualística”, comparou.

Na brigada, foi condicionado a obedecer aos superiores sem questionamentos. “Não precisava pensar muito, eles queriam mão de obra especializada para executar os trabalhos”, afirmou. Ainda jovem, familiarizou-se com a cultura de que o policial precisa recorrer ao uso excessivo da força para sobreviver – e voltar vivo de cada missão. Desde que se iniciou no budismo, enxerga a questão com outros olhos. “Não basta desenvolver a capacidade de voltar vivo”, argumentou. “É preciso voltar íntegro, porque esse voltar vivo às vezes deixa um rastro grande de destruição.”

 

Bandeira entrou pela primeira vez num centro de prática zen-budista no ano 2000, a convite da esposa – uma terapeuta de shiatsu que acabou se tornando monja. Manter-se com as pernas cruzadas na postura de meditação e permanecer assim por intermináveis quarenta minutos não foi fácil para o policial que pesava na época 101 quilos. Não bastasse o incômodo, era preciso ficar com o rosto virado para a parede, aguardando que o monge tocasse a sineta sinalizando o fim da sessão. Saiu convencido de que jamais voltaria ali, mas acabou mudando de ideia, impressionado com o empenho dos outros praticantes.

O zen-budismo praticado pelo casal é da linhagem Sōtō-shū, originária do Japão do século XIII. Além de seguir os preceitos comuns às demais ordens budistas – não matar, não roubar, não abusar da sexualidade, não mentir e não se intoxicar –, o zen também prega a necessidade de viver de forma ética, o que implica fazer o bem sem esperar medalhas ou reconhecimento.

Em 2007, Bandeira foi sondado pela monja Coen, a mais conhecida expoente do zen-budismo no Brasil, sobre a possibilidade de se tornar o representante dela no Rio Grande do Sul. Aceitou o chamado e completou o treinamento para virar monge em 2013. Seu nome monástico é Dengaku, que quer dizer “transmissão da iluminação”. Dentre suas atribuições, estão orientar discípulos e oficiar cerimônias.

Dengaku foi iniciado no Vila Zen, um sítio no município de Viamão, a 40 quilômetros de Porto Alegre, que é a sede da comunidade zen-budista gaúcha. Depois de se aposentar pela Brigada Militar, em 2015, mudou-se para o sítio com a esposa. O dia do casal e dos demais moradores do lugar começa às 5 horas, pouco antes da primeira sessão de meditação e do cerimonial da manhã. Ao longo do dia, todos se dedicam à manutenção do sítio, aos cuidados com a horta e com alguns animais. Às oito e meia da noite, realizam a segunda e última meditação do dia e se recolhem – é quando Bandeira lê as notícias, responde aos e-mails e agenda as próximas orientações.

O monge recebeu a piauí numa manhã chuvosa durante a abertura do retiro que ocorre anualmente na semana do Carnaval. Estava ainda com roupa de trabalho, lenço na cabeça raspada e calças arregaçadas. Conversou com a reportagem numa pequena construção sem luz elétrica, mas com sinal de internet, onde passa parte do dia orientando discípulos de outros estados e países pelo Skype. Antes da entrevista, Dengaku pediu licença e regressou vestindo seu traje monástico com quatro camadas de tecidos finos e grossos. O monge disse sentir muito calor com a indumentária. “Mas com a farda não era diferente”, comentou, sorrindo.

 

À medida que avançava no estudo do budismo, Dengaku percebeu a importância da observação – uma aptidão que ele disse ter desenvolvido graças à timidez – para distinguir o bem do mal. “No meio policial a faixa entre fazer um ou outro é muito tênue”, disse o monge. “Um dia tu podes ser um herói, mas basta uma ação mal pensada e serás um dos seres mais detestáveis da sociedade.”

Por dois anos Dengaku conciliou a atuação na Brigada Militar e no monastério. Não tentou converter os colegas de farda, mas tem a convicção de que a corporação ficaria melhor se todos agissem como ele passou a fazer após a conversão. “Eles poderiam perceber o quanto é importante você não se envolver emocionalmente com a situação”, afirmou o monge.

Dengaku não tem saudade dos tempos de brigada e disse que, hoje, não considera compatíveis as duas atividades. “Enquanto o policial é preparado para reagir sempre e mostrar força desproporcional àquela que realmente tem, no budismo tu aprendes a conhecer teu tamanho real, e nessa descoberta surge um encantamento de saber que isso basta.”

Jacira Cabral da Silveira

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