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O operário

Jesus dá a volta por cima
Ricardo Lessa
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

Em abril de 1974, nos anos de chumbo, o operário Jesus Paredes Soto estava encarcerado no DOI-Codi da rua Tutoia, em São Paulo. Lá, os presos eram despertados com cinco metódicas pancadas de cassetete nos rins. “Comunista tem que mijar e cagar sangue”, rugia Pedro Antônio Mira Grancieri, o Pedro Marinheiro, também conhecido como “Capitão Ramiro”, um dos assassinos de Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho.

Franzino, Soto mal andava depois das porradas – foram onze meses que o deixaram praticamente demente, sem saber onde estava nem reconhecer os amigos. “Eu sentia que ia morrer, como meus companheiros”, comenta hoje, aos 69 anos.

Foi graças à intervenção do cardeal Paulo Evaristo Arns que Soto escapou com vida. O operário, porém, só saberia disso anos depois, já no presídio político do Barro Branco. Certo dia dom Paulo foi visitar os presos, que se amontoaram para recebê-lo. Em dado momento, perguntou: “Quem é Jesus?” Vinda de quem vinha, a questão poderia soar como brincadeira ou desafio teológico. “Sou eu”, respondeu o próprio, relutante, com a voz baixa de sempre. E então o cardeal lhe contou da visita ao DOI-Codi, quando fez saber aos torturadores que tinha conhecimento de que o operário estava lá, e que botaria a boca no trombone caso ele desaparecesse.

Filho de espanhóis que lutaram contra o franquismo e fugiram para o Brasil com os seis filhos, Jesus, o caçula, deve seu nome por ter nascido num dia de Corpus Christi e para homenagear um tio, apelidado Cristo Rosso, combatente comunista na Guerra Civil Espanhola.

Desde os 16, Soto já militava nas organizações de esquerda em Porto Alegre. Num dia de 1969, na funilaria onde trabalhava com o pai e os irmãos, foi procurado por um rapaz e uma moça de sua organização, que o encarregaram de uma missão fora do estado. (A jovem, então com o codinome “Wanda”, viria a ser presidente do Brasil, 42 anos depois.)

Só descobriu sua tarefa ao chegar ao Rio de Janeiro no dia seguinte: queriam que ele arrombasse um cofre. Desconhecendo técnicas de arrombamento, os companheiros recorreram ao rapaz – familiarizado com maçaricos e martelos, ele saberia como agir.

Mas Soto não sabia. Empenhado na causa, porém, passou a noite matutando. O maçarico, pensou, poderia não cortar o aço e ainda por cima queimar todo o dinheiro, mas seria complicado prescindir dele. A solução que bolou previa o uso de brocas e de uma mangueirinha para jogar água dentro do cofre enquanto o maçarico estivesse em ação.

No dia 18 de julho, uma dúzia de militantes tomou de assalto uma casa em Santa Teresa. Era onde morava Ana Capriglione, amante do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros, que a tratava por “dr. Rui” quando se falavam ao telefone. Na casa havia mais de 2 milhões de dólares guardados, conforme souberam por um sobrinho dela.

O cofre pesadíssimo foi retirado da casa graças a um sistema de pranchas que cobriam a escadaria, engenhoca inventada por Soto, e transportado até uma casinha preparada para parecer uma gráfica de subúrbio. Chegada a hora de agir, primeiro furaram o cofre com a broca para encaixar a mangueira. Ainda com a broca, cortaram então o aço que contornava o segredo, cujas traves ficaram expostas, ao alcance do maçarico. A água, retida entre as muitas camadas de metal, pouco molhou as cédulas – eram cerca de 2,5 milhões de dólares.

A partir dessa operação, Soto passou a ser buscado pela polícia, com sua foto afixada em locais públicos (o que não o impediu de, no ano seguinte, participar do sequestro de um embaixador). Mas Soto não admite ser chamado de terrorista. “Somos humanistas”, protesta com voz calma e gestos contidos.

 

Ao sair da cadeia, em 1979, Soto fez a autocrítica: “A via que escolhemos não tinha como dar certo. Só haveria mudança junto com as massas de trabalhadores.” Ele procurou na época os metalúrgicos de São Bernardo, onde as coisas começavam a fervilhar. Mas ele e outros militantes não podiam entrar no sindicato, à época presidido por Lula, por não exercerem o ofício – problema resolvido quando alguns artistas emprestaram dinheiro para a aquisição de uma mecânica em São Bernardo.

Sob a direção de Soto, a oficina prosperou. Mas o sucesso foi também sua desgraça. Enxergando no negócio uma fonte de dinheiro, a direção do MR-8, organização de resistência à ditadura que Soto começara a frequentar, passou a meter a mão no caixa, em nome da causa. Sócio principal, Soto teve que quitar as dívidas da mecânica com a ajuda do sogro.

Chateado com os malfeitos dos ex-companheiros e sem grana, foi vender cerveja nas praias do Rio. Seis meses depois, foi reconhecido por uma moça que costumava visitar presos na cadeia em São Paulo: “Você não é o Jesus?” Já era a época da abertura, o ex-militante não tinha o que temer: sim, era ele mesmo. “Meu pai está começando um negócio no ramo farmacêutico e precisa de uma pessoa como você”, ela disse.

O pai era Pedro Figueiredo, um engenheiro que em 1982 abriu no Rio de Janeiro a Nova Era, farmácia homeopática que mais tarde se tornou uma grande rede. Soto disse à ex-militante que nada entendia do assunto, mas Figueiredo queria alguém de confiança – como o desajeitado ambulante.

Jesus trabalhava das oito às oito e ainda encontrava tempo para estudar (formou-se em farmácia). Observando o funcionamento da máquina que fabricava os glóbulos de açúcar com os quais são veiculados os remédios homeopáticos, percebeu que havia um modo mais eficiente de fazer a mesma coisa. Acabou abrindo sua própria fábrica.

O antigo mecânico amealhou um bom dinheiro, o bastante para comprar um apartamento e educar dois filhos e uma filha em bons colégios. Chegou a exportar seus glóbulos para cinco países. Com dezesseis funcionários, a fábrica reinou sozinha na sua especialidade por dez anos e continua rentável. Mas o empresário não perdeu de vista a luta de classes. “Converse com meus funcionários: três se formaram em farmácia e ajudo todos que querem estudar”, diz, orgulhoso.

Soto hoje é um senhor entre tantos da Zona Sul carioca. Perdeu um dos rins para um câncer causado pelos múltiplos cistos decorrentes da tortura (o outro está periclitante). Três vezes por semana, vai a uma clínica fazer sessões de hemodiálise.

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