O paciente H.M.

Por trás dessas duas iniciais, a história de um filho de eletricista cujo cérebro recebe cuidados semelhantes aos de Einstein
Ana Carolina G. Pereira
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Em 2 de dezembro de 2008, o cidadão americano Henry Gustav Molaison, recostado numa cama da clínica Bickford, no estado de Connecticut, passou “sua última tarde como ele mesmo”, como escreveu o poeta W.H. Auden num verso de Em Memória de W.B. Yeats. Só que o paciente octogenário, ao contrário do irlandês William Butler Yeats, não sabia o que era ser ele mesmo. Molaison passou dois terços de seus 82 anos sem saber exatamente quem era. Conhecido na comunidade científica apenas pelas iniciais, para ter a privacidade preservada, H.M. ficou preso involuntariamente ao passado devido a uma trágica experiência que lhe sonegou o presente e o futuro. Em compensação, deu à ciência várias chaves do conhecimento da memória.

Após trinta anos acompanhando o paciente, a dra. Brenda Milner ainda tinha que se apresentar a cada vez que o visitava: “Sou a dra. Milner.” E ela sabia que sempre que encontrasse H.M. teria que se identificar novamente.

Aos 9 anos de idade, Molaison sofrera um traumatismo craniano em um acidente de bicicleta que o levou a ter inúmeras e incapacitantes crises epilépticas, intratáveis com medicação. Em 1953, aos 27 anos, foi submetido a uma cirurgia experimental no cérebro, que lhe removeu ambos os hipocampos e regiões adjacentes, responsáveis pela geração das crises.

A epilepsia de Molaison foi parcialmente controlada, mas o paciente sofreu um efeito colateral irreversível: perdeu a capacidade de formar novas memórias. Ele não conseguia, por exemplo, memorizar os espaços da nova casa para onde foi transferido após a cirurgia, mesmo anos depois da mudança. Tampouco recordava o que havia comido no café da manhã. Na idade madura, não se reconhecia no espelho ou em fotografias recentes. Lembrava-se apenas da própria imagem tal como fora antes da cirurgia.

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Nascido em 1929, filho de um eletricista, ele se lembrava dos relatos da Grande Depressão, da origem irlandesa da mãe, do tiro ao alvo com que costumava brincar em uma floresta perto de casa, e de várias passagens da infância. Nunca reconhecia, no entanto, a dra. Milner, professora de neurociência cognitiva no Instituto Neurológico de Montreal, que durante anos atravessou de trem os 420 quilômetros entre a capital do Québec e Hartford, em Connecticut, para aplicar testes de memória em Molaison.

Nasceu, assim, o paciente H.M., cujo caso foi estudado por mais de 100 cientistas ao longo de cinco décadas, e deu origem a uma verdadeira enciclopédia de tratados científicos sobre aprendizagem, memória e esquecimento.

A evolução clínica de H.M. trouxe lições fundamentais. Sobretudo porque a equipe médica que o acompanhou teve o privilégio de dispor de um laboratório vivo para testes e experiências, ao longo de 55 anos. Foi possível concluir que existem diferentes tipos de memórias, e que elas podem ser processadas de modo consciente e inconsciente. Descobriu-se, também, que as memórias não estão dispersas difusamente no cérebro, como se acreditava. Áreas cerebrais distintas e específicas estão envolvidas nos diferentes tipos e estágios da formação e consolidação da memória.

Graças ao estudo do caso H.M., sabemos que o hipocampo – região envolvida na formação e armazenamento da memória, localizado no interior do cérebro – é responsável por codificar conscientemente lembranças relacionadas a pessoas, objetos e espaço. Como associar o nome de uma pessoa a um rosto, por exemplo, ou lembrar-se de uma rua frequentada dias antes. As lembranças mais duradouras, por sua vez, são transferidas e armazenadas na camada mais exterior do cérebro, o córtex cerebral, densamente empacotado por um corpo celular de neurônios. Isso explica como H.M. conseguia recordar seu passado antigo, apesar de ter tido os hipocampos retirados cirurgicamente.

Ele também conseguia memorizar uma sequência de múltiplos números por curtíssimo tempo, o que requer a atividade de outra região do cérebro, o córtex pré-frontal. Ao realizar tarefas motoras aprendidas que se tornaram “automáticas”, e não exigiam atenção consciente, como andar de bicicleta, H.M. revelava que seu cerebelo também não tinha sido afetado. No caso do paciente, sua memória inconsciente foi preservada.

A evolução de sua coordenação motora nos testes revelou-se crucial para demonstrar que áreas distintas do cérebro correspondem ao comando de atividades diferentes. Em um dos exercícios, a dra. Milner aplicou-lhe a tarefa de copiar, durante vários dias, a imagem reflexa de uma estrela. A cada vez, H.M. jurava que jamais havia visto aquela estrela antes. No entanto, seus desenhos provavam o contrário, progredindo dia após dia, no mesmo ritmo de uma pessoa normal.

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Em seu cotidiano paralelo ao de experimento da neurociência, Henri Molaison tinha por passatempos fazer palavras cruzadas, jogar bingo e assistir televisão. Conseguia realizar pequenas tarefas, como recolher o lixo ou preparar uma refeição. Morou inicialmente com os pais, depois se mudou para a casa de um parente, até ser internado em um asilo aos 54 anos de idade.

Sem sofrer grandes alterações de personalidade, Molaison continuou a ser a mesma pessoa afável e divertida que sempre fora. No entanto, passou a registrar os novos episódios de sua vida como em cenas de fotografia instantânea, sem depois conseguir conectar a sequência de fotos em uma narrativa coerente. Vivia o momento presente da forma mais passageira possível. Apesar de continuar com o mesmo nível de inteligência anterior à operação, Henry Gustav Molaison perdeu sua identidade. Como H.M., contudo, jamais perdeu o valor.

Em seus últimos anos, ele vinha sendo acompanhado pela dra. Suzanne Corkin, ex-aluna da dra. Milner. Quando o paciente morreu, ela observou: “Sua falha de memória era ‘pura’, não vinha acompanhada de distúrbios intelectuais ou de personalidade. Por isso, e pelo fato da cirurgia nunca mais ter sido realizada, ele foi o caso mais estudado e famoso de toda a literatura neurocientífica dos séculos XX e XXI. A contribuição de Molaison para o conhecimento da memória foi pioneira, e pesquisadores do mundo todo devem isso a ele.”

Brenda Milner lamentava que H.M. não pudesse ter consciência de seu papel fundamental para o conhecimento da mente: “Prêmios e coisas materiais não significavam nada para ele. Mas todos nós queríamos poder manifestar-lhe gratidão, de alguma forma, pela contribuição e cooperação ao longo da vida”, declarou. Eric Kandel, Prêmio Nobel de Medicina e neurocientista da Universidade de Columbia, disse que o estudo do paciente H.M. feito pela dra. Milner “permanece como um dos maiores marcos da história da neurociência moderna, e proporcionou a base do conhecimento para tudo que veio depois: o estudo da memória humana e seus distúrbios”.

Após a morte de Henry Molaison, pesquisadores passaram a noite escaneando imagens de seu cérebro. Também tomaram providências no sentido da preservação da valiosa massa cinzenta para pesquisas futuras. O último cérebro que mereceu tanto interesse foi o de Albert Einstein.

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