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O papa do diabo

Um caso de ostracismo satânico
Antonio Mammi
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

As ruelas do morro do Forte São João, na periferia de Vitória, revelam-se particularmente íngremes e sinuosas. “O negócio é não topar com outro carro descendo a ladeira”, explicou o taxista, temeroso, enquanto fazia uma curva fechada. No alto da quebrada, em meio a árvores de copas largas que parecem brotar do concreto, avista-se o famoso casarão rubro-negro. Ali vive e trabalha José Luiz Howarth Silva, o Papa do Diabo.

A gentil e brejeira figura satânica, um senhor de pouco mais de 70 anos, miúdo, de barba branca, já aguardava diante do imóvel quando o táxi despontou. Estava acompanhado de dois vira-latas magrelos. Não fosse pela roupa, um paletó preto e uma camisa vermelho-sangue, seria impossível identificá-lo como o representante do Capiroto entre nós – ou, pelo menos, entre os que se encontram em Vitória, Vila Velha e adjacências. Sem rodeios, Howarth passou à sala do casarão, espaçosa e mal iluminada. Sentou-se numa cadeira de escritório, com rodinhas nos pés, diante de um altar em que se amontoavam uma peruca loura, algumas taças vazias de vinho, bilhetes de loteria e velas em formato de caveira. Ainda muito conhecido no Espírito Santo, o Papa do Diabo desfrutou de renome nacional nas décadas de 80 e 90, quando tinha programa no rádio e marcava presença na tevê, em jornais e em revistas.

Foi sob os holofotes da mídia, justamente, que o jovem José Luiz Howarth Silva se converteu em procurador do Coisa Ruim. Corria o ano de 1980, e a primeira viagem de João Paulo II ao Brasil se aproximava. Na época, Howarth morava em Aracaju e já trabalhava como radialista. Frequentemente, em seu programa, dizia-se capaz de falar com almas penadas e disseminava crenças muito particulares, que mesclavam o candomblé, o espiritismo e o catolicismo. Parecia talhado para medir forças com o outro papa, o de Deus, aventou o repórter Odilon Coutinho, da TV Globo. Ele rebatizou o rapaz e o apresentou, no programa Fantástico, como o Papa do Diabo. Talvez, naquele instante, agisse sob os conselhos do próprio Maligno, já que o radialista sentia os apelos demoníacos desde a infância.

 

Howarth nasceu em Icapuí, no Ceará, onde o pai mantinha uma mercearia de beira de estrada. Lá costumava ouvir as histórias de ciganos e tropeiros, clientes da bodega, que adoravam descrever fenômenos místicos e narrar causos de assombração. Não raro, o menino acordava de madrugada, impressionado com as imagens oníricas de tochas acesas e porteiras que se abriam para a passagem de uma força tão invisível quanto descomunal. Nesse período, uma mulher voluptuosa, trajando vermelho, o visitou em sonho e o exortou a se libertar das amarras da religião. Era Lúcifer.

Ainda adolescente, levado pela família que fugia da seca, o futuro Papa se mudou para Manaus. Vendia peixes na rua quando, um dia, o circo chegou à cidade. “O maior espetáculo da Terra” era anunciado por meninas que desfilavam quase nuas, de biquíni, pela capital amazonense. O moço quis conferir o show e, diante do picadeiro, achou por bem se juntar à trupe. Tornou-se palhaço, trapezista e, então, ventríloquo, momento em que adotou o nome artístico, Howarth, corruptela de capitão Howard, personagem coadjuvante em quadrinhos de aventura.

Uns bons anos depois, voltaria ao Ceará. Sossegou por um tempo, cavando o pão com a leitura de mãos e cartas. O que o pôs em marcha novamente foi o sonho de viver no Rio de Janeiro. Como o dinheiro acabou no meio do caminho, apresentou-se a uma rádio de Aracaju e desafiou os ouvintes a testarem seus poderes paranormais. Fez sucesso, ganhou seu primeiro programa e, após se fixar na cidade, passou a promover concorridas peregrinações aos cemitérios.

Até aparecer no Fantástico associado Àquele-Que-Veste-Prada, levava uma vida pacata. Mas as autoridades políticas e eclesiásticas sergipanas, bem como parte da população local, não acolheram com bons olhos a novidade de um representante do Tinhoso morando em Aracaju. Houve mesmo quem desejasse apedrejá-lo. Diante da fúria popular, Howarth tratou de pegar a estrada, mais uma vez. Aportou em Vitória e começou a construir sua casa no alto do morro.

 

O novo século não tem sido muito generoso com o Papa do Diabo. Ele não comanda programas de rádio nem aparece “na grande mídia” desde o ano 2000. O 2º andar de sua residência, outrora palco de cultos semanais, está praticamente abandonado, e as paredes carecem de uma mão de tinta. Howarth também precisou encerrar a fabricação de velas, sua principal fonte de renda, depois que um assistente morreu intoxicado por uma das matérias-primas. Mas esporadicamente ainda consegue vender livros de viés demoníaco e continua no ramo do aconselhamento espiritual.

Embora não atribua seu ostracismo ao crescimento dos neopentecostais, gosta de relembrar um episódio conflituoso envolvendo a Universal. Há alguns anos, pastores da igreja mandaram um carro de som parar bem em frente à sua casa e reproduzir ininterruptamente cantos de louvor. “O cabra estacionou logo ali e deixou o som cantando. Vez ou outra, pegava o microfone para me esconjurar.” O endemoniado preferiu não reagir, mas um vizinho tomou suas dores. Certa noite, do casarão, o Papa viu o amigo – “um marujo que passa meses ancorado em Macaé” – subir a viela, de revólver na mão e aparentemente bêbado. “Dizia para o povo largar de arrelia porque o Belzebu – no caso, eu – era chegado dele e nunca tinha lhe feito mal.” E tome tiro para o alto. Não sem razão, os religiosos julgaram mais estratégico deixar o sacerdote do Capeta em paz.

Apesar dos pesares, Howarth não guarda rancor dos adversários espirituais e até sustenta a teoria de que suas práticas obscuras são úteis à fé dos evangélicos. Relaxado, entrelaçando os dedos por trás da cabeça, pontificou: “Na verdade, os crentes gostam da gente. Se não fosse o Diabo, quem é que ia para a igreja? O cabra não vai porque acredita em Deus; vai para que o Diabo não o carregue.”

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