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O patriota

Um advogado espalha bandeiras do Brasil pela cidade de São Paulo
Armando Antenore
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ILUSTRAÇÃO:CAIO BORGES_2017

Quer reclamar do Brasil? Então suba num banquinho. Não ouse desancar o país com os pés cravados em solo pátrio. A advertência é de José Marcelo Braga Nascimento, um próspero advogado paulistano, que sempre se inflama quando toca no assunto, mas sem perder os modos cavalheirescos. “Você me desculpe… Quem fala mal de uma terra abençoada como a brasileira não merece pisá-la.” À semelhança dos “coxinhas” que reivindicavam o impeachment de Dilma Rousseff, Nascimento gosta de proclamar que “a nossa bandeira jamais será vermelha”. “Nada vai suplantar o verde-amarelo! Me perdoe… Deixe o vermelho para a China e a Coreia do Norte.”

Num sábado de setembro, o advogado – que costuma salpicar as frases com pedidos de desculpas, mesmo se dispensáveis – teve a alegria de ver as cores nacionais tremularem sobre o Largo da Batata, em Pinheiros, um dos bairros mais caros de São Paulo. Desde 2013, após passar por uma reforma demorada e radical, que lhe conferiu um jeitão de parque, a área abriga sucessivas manifestações políticas, principalmente de esquerda. Naquela manhã, hasteou-se ali uma gigantesca bandeira do Brasil. O pavilhão exibia as dimensões de um quarto e sala: 56 metros quadrados. Não bastasse, encarapitava-se no topo de um mastro tão alto quanto um prédio de dez andares. Foi o próprio Nascimento quem doou tudo à cidade. Bandeira, mastro e as fundações para sustentar o conjunto lhe custaram em torno de 100 mil reais. “Perdão, mas ficou espetacular.”

O prefeito João Doria, do PSDB, que inaugurava um playground, equipamentos de ginástica e outras melhorias no largo, participou do hasteamento. “Aqui não tem bandeira vermelha do PT, não. Aqui a bandeira é do povo”, discursou, enquanto adversários o vaiavam e gritavam “Fora, Temer!”. Em resposta, defensores do tucano agitavam várias das 1 500 flâmulas do Brasil que o advogado disseminara pouco antes da cerimônia.

Contrariando as evidências, Nascimento se diz apartidário. “Votei no Doria em 2016, mas também já dei meu voto para o Eduardo Suplicy, um petista extremamente honesto.” O advogado de cavanhaque farto e calva eloquente, que evita revelar a idade, nunca ocupou cargo no Legislativo ou Executivo e almeja continuar assim. “Não sou político nem pretendo ser”, repete à exaustão, como se propagasse um slogan… de candidato! “Advogo há 45 anos. Movi incontáveis processos, ganhei dinheiro, casei quatro vezes e gerei sete filhos, que me brindaram com nove netos. Preciso arranjar mais sarna para me coçar? Só desejo difundir o amor à pátria. A nação está acima das diferenças ideológicas, econômicas ou sociais. Se ensinássemos o patriotismo à população, você acha que haveria tantos corruptos, tantos vândalos entre nós? No fundo, o brasileiro tem boa índole. Carece apenas de mais consciência, mais educação.” Para provar que não falta gente respeitável no país, cita os próprios parentes: “Uma de minhas filhas é procuradora da República. Um filho é delegado federal. Um genro é juiz. E um sobrinho é comandante da Polícia Militar.”

Paladino do liberalismo, considera-se de centro-direita. “O Estado deve zelar pelo essencial, como a saúde, e não se meter com petróleo, energia, minério… Olhe a Petrobras. ‘Ah, não pode privatizá-la porque é dos brasileiros.’ Mentira! Hoje a Petrobras é dos piratas que a lotearam, não dos brasileiros.”

Embora se declare “católico apostólico romano” e devoto de são Judas Tadeu, padroeiro das causas impossíveis, ele nem sempre reza pela cartilha do Vaticano. Crê, por exemplo, que não existe nada de imoral nas uniões homossexuais e que cabe somente à mulher decidir se vai abortar.

 

O patriotismo do advogado vem do berço. “Meu pai, médico, já adorava o nosso país. Meu avô, idem.” Quando menino e adolescente, Nascimento estudou num tradicional colégio público de São Paulo, o Caetano de Campos. Lá, todos os dias, antes da primeira aula, os alunos entoavam o hino brasileiro. “Eu tocava trombone e, por isso, pertencia à fanfarra da escola. Nos feriados cívicos, desfilávamos pelas ruas sob aplausos. Era maravilhoso.”

Mais tarde, o advogado – um filantropo de carteirinha – presidiu uma creche, onde capitaneava ritual parecido com o do Caetano de Campos. “Às quintas-feiras, levávamos a bandeira nacional para o pátio e 350 crianças, perfiladas, cantavam as duas partes do hino. Tão bonito…” Em 2014, com o intuito de “aprimorar a sociedade”, resolveu criar a associação Eu Amo o Brasil. Sem fins lucrativos e patrocinada exclusivamente pelo fundador, a EAB reúne “mil e poucos” sócios. Entre os pleitos que defende, sobressaem a redução da maioridade penal e o resgate do civismo. Daí a bandeirona no Largo da Batata. Nascimento a doou por meio da instituição.

Distribuir bandeiras, aliás, é uma prática que o idealizador da EAB cultiva há três décadas. Ele faz questão de regalar clientes e amigos com um diminuto pedestal de madeira em que se equilibram flâmulas do país, do estado e do município de São Paulo. Não à toa, logo que João Doria assumiu a prefeitura, o advogado lhe ofereceu ajuda para embandeirar a metrópole. Os dois se conheceram num hotel, durante um almoço organizado pelo Grupo de Líderes Empresariais, o Lide. O escritório de Nascimento integra a entidade, que funciona como promotora de eventos e cujo controle acionário cabe à família do prefeito. Naquela altura, Doria já manifestara a intenção de “valorizar o sentimento pátrio” entre os paulistanos e implantara o programa Nossas Bandeiras. A iniciativa visa justamente espalhar pela cidade o “lindo pendão da esperança”, o “símbolo augusto da paz”, sempre em parceria com o setor privado.

Foi assim que a EAB conseguiu instalar não só o portentoso estandarte no Largo da Batata como outro idêntico às margens do Parque Ibirapuera. Também colocou 29 lábaros menores ao longo da avenida Brasil e mais um sobre o túnel Ayrton Senna. “Agora vamos botar 260 nas pontes que cortam as Marginais”, promete o advogado. O que ganhará em troca? “Rigorosamente nada! Quantas vezes preciso enfatizar que não tenho ambições políticas ou financeiras? Me desculpe… ‘Ah, você está puxando o saco do prefeito para levar alguma vantagem lá na frente.’ Errado! Por que ninguém acredita mais em patriotas?”

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