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O pregoeiro

Poluição sonora em Kumasi
Bruna Tiussu
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

Eram quatro e meia da manhã e o galo nem havia cantado, mas Kofi Frimpong já estava a postos em seu estúdio. Com os olhos bem abertos e mirando um papelzinho iluminado por uma luz fraca azulada, ele segurava o microfone com intimidade. Raspou a garganta, apertou o play e soltou a voz anunciando um remédio para problemas estomacais.

A vizinhança está acostumada ao vozeirão de Frimpong: anúncios como aquele são o despertador involuntário dos moradores do bairro de Afrancho, um subúrbio de Kumasi, segunda maior cidade de Gana. Os reclames ressoam por quatro alto-falantes instalados no topo de uma torre de 8 metros e conectados por cabos ao estúdio do locutor, do outro lado da rua de terra esburacada. Indiferente ao sono alheio, o empresário de 34 anos mantém no máximo o volume do amplificador.

Os anúncios são uma espécie de noticiário à moda antiga, com informes e serviços do bairro. São o ganha-pão de Frimpong, que batizou seu negócio de Rabbi Centro de Informações.

Ocorre que Frimpong não é o único na vizinhança com um amplificador potente. A 500 metros de seu estúdio, uma mesquita ameaça sua supremacia sonora no bairro. Antes do raiar do dia, os alto-falantes do templo difundem diariamente aos quatro ventos a gravação em que um muezim conclama os muçulmanos da redondeza – eles são 15% dos moradores do bairro – a glorificar Alá.

Bom cristão que é, Frimpong evita atrito com os decibéis do islã. Indagado sobre se a mesquita atrapalha seu negócio, desconversou com meio sorriso. “Há espaço para todos.” Mas basta o som recomeçar para o empresário caprichar na entonação e checar se o botão do amplificador está mesmo no máximo.

O locutor levou a melhor numa quarta-feira de setembro. Enquanto a convocação islâmica durou poucos minutos, ele emplacou sete anúncios até as oito da manhã. Depois disso, só voltou ao microfone ao fim da tarde, e fez anúncios das 17h30 às 20 horas. Quem determina os horários e a duração das jornadas de trabalho é o governo, que concede uma licença aos centros de informações como o de Frimpong. Os horários que lhe cabem são oportunos, pois cobrem períodos em que os ouvintes estão em casa – não necessariamente despertos.

 

Após anunciar o remédio estomacal, Frimpong informou em claro e bom twi – língua oficial da região de Kumasi, assim como o inglês – que um pediatra estava no bairro. Em tom ríspido, o pregoeiro avisou que fiscalizaria pessoalmente quais mães fugiram de seu dever.

Na sequência, colocou uma música e enxugou o suor que fazia brilhar a pele negra de seu rosto. Logo começou a ler outro papelzinho. Raspou novamente a garganta, sorriu mostrando os dentes brancos e separados e recomendou a Jesus Is All My Fashion, uma loja de roupas recém-aberta na Main Road.
O informe seguinte anunciou as datas para matrícula da Furman Foundation School, instituição onde lecionam professores voluntários obronis (ou brancos, em twi). “Deixe que seu filho aprenda com um obroni e ele falará inglês melhor do que eu, você e toda a vizinhança juntos.”

 

Frimpong pertence a uma geração de ganenses que pouco estudou inglês. Ele mesmo nunca teve uma aula e se limita a falar os básicos Hi, Good morning e Thank you. Teve uma alfabetização capenga também em twi, e por isso não escreve textos muito elaborados para ler seus anúncios – os papeizinhos que ele usa como guia incluem apenas as informações essenciais. A desenvoltura para falar é um dom que ele traz desde a infância, quando costumava ser eleito para apresentações em público na escola.

Ao anunciar uma nova loja, Frimpong escreve só o nome e endereço; se o assunto é algum pertence extraviado, toma nota do nome e telefone do azarado. Para participar um casamento, basta ler o nome dos noivos e dos pais, a data e o local da festa. Fica mais complicado quando se trata de um funeral, cerimônia importantíssima na cultura local. “É o anúncio mais difícil e chato”, disse o locutor, que nesses casos precisa recorrer a um papel maior onde caibam os nomes de todos os parentes e amigos do falecido. “Aqui em Gana as famílias são enormes!”

Frimpong notou que havia um nicho de mercado a ser explorado três anos atrás. “Afrancho já tinha três centros de informação, mas nenhum aqui, na porção norte do bairro”, contou. Ele tratou então de achar o local ideal: um espaço de 6 metros quadrados que divide com um alfaiate. Resgatou a poupança e investiu em equipamentos e num ruidoso ventilador. Com 23 cabos e fios percorrendo o lugar de cima a baixo, usou o jeitinho ganense para ligar tudo isso na rede elétrica. O toque final na decoração ficou por conta dos pôsteres de Jesus com que forrou as paredes. “Quando Ele está do nosso lado tudo dá certo”, disse, apontando para o céu.

Pelo visto, a reza vem surtindo efeito. O Rabbi Centro de Informações transmite doze anúncios por dia em média. O preço de cada um é 10 cedis (algo como 7 reais) – para efeito de comparação, o salário mínimo de um ganense é de 8 cedis por dia. Mas o empresário ressaltou que nem todos são pagos: avisos como o do pediatra de passagem pelo bairro e informes de achados e perdidos são feitos de cortesia.

Quase ao fim do expediente daquele dia, às 19h30, Frimpong tinha um último anúncio gratuito a fazer. Soltou o gogó no microfone para pedir aos vizinhos que parassem de jogar lixo na construção ao lado do mercado a&b. No meio do informe, os alto-falantes da mesquita invadiram a paisagem sonora para convocar os muçulmanos para mais uma de suas cinco orações diárias. Acabou roubando o protagonismo do locutor, que manifestou certa contrariedade. “Acho que preciso de um amplificador melhor.”

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