Torcedores ocupam o gramado depois da explosão de bombas nas cercanias do Stade de France, em 2015. Para uma parte dos intelectuais franceses, campanhas de combate a símbolos religiosos, como o véu e o burquíni, e a segregação de jovens pobres nas periferias impulsionam o terrorismo
Ver dados da foto Torcedores ocupam o gramado depois da explosão de bombas nas cercanias do Stade de France, em 2015. Para uma parte dos intelectuais franceses, campanhas de combate a símbolos religiosos, como o véu e o burquíni, e a segregação de jovens pobres nas periferias impulsionam o terrorismo FOTO: FRANCK FIFE_AFP_GETTY IMAGES

O professor e a jihad

Como se formam os terroristas franceses?
Robert F. Worth
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Torcedores ocupam o gramado depois da explosão de bombas nas cercanias do Stade de France, em 2015. Para uma parte dos intelectuais franceses, campanhas de combate a símbolos religiosos, como o véu e o burquíni, e a segregação de jovens pobres nas periferias impulsionam o terrorismo FOTO: FRANCK FIFE_AFP_GETTY IMAGES

O cientista político francês Gilles Kepel estava em casa, escovando os dentes, quando seu celular vibrou em cima da pia. Tinha acabado de receber uma mensagem de um jornalista, seu conhecido: “Lamento ter de lhe dizer isto, mas você está na lista da morte.” Kepel voltou-se para a tevê, que já estava ligada, e o principal item do noticiário daquela manhã, em junho de 2016, dirimiu qualquer dúvida. Um jihadista francês chamado Larossi Abballa havia matado um policial e sua mulher numa cidade a oeste de Paris. Em seguida transmitira ao vivo, pelo Facebook, um discurso sinistro. O filho de 3 anos do casal assassinado ainda se escondia em algum canto da casa enquanto Abballa pedia, pelas redes sociais, a morte de sete personalidades públicas francesas.

A mídia omitiu os detalhes da ameaça, mas não demorou para que um funcionário do Ministério do Interior ligasse para a casa do cientista político, em Paris, confirmando o que seu amigo jornalista dissera: o nome de Kepel aparecia entre os primeiros da lista. “Foi como se o tema que eu venho estudando há 35 anos tivesse se voltado contra mim, para me atacar”, ele diria mais tarde, descrevendo sua primeira reação à notícia. Poucas horas depois, uma equipe de guarda-costas designada pelo governo já havia se encarregado de protegê-lo, dia e noite. Kepel receberia uma outra ameaça de morte naquele mesmo verão, intensificando a sensação de que corria risco.

As ameaças chegaram num momento de mudança na trajetória profissional de Kepel. Figura de destaque no universo intelectual francês, o cientista político de 61 anos é um estudioso cujo rosto – um semblante de elegante sobriedade – pode ser visto com frequência nos noticiários televisivos. Não fazia muito tempo, porém, Kepel passara a adotar uma postura bem mais combativa. Ele postula que boa parte da intelligentsia francesa de tendência esquerdista não compreende a natureza da ameaça que o país enfrenta – não apenas de terroristas estrangeiros, mas também de muçulmanos radicais que moram nas banlieues, as periferias das grandes cidades, que em alguns casos mais parecem guetos. Ao contrário de muitos dos polemistas que fazem críticas ferozes ao islã nas páginas de opinião dos jornais franceses, o cientista político tem uma vida inteira de estudos a sustentar seu ponto de vista. Sempre teve o cuidado de distinguir o islamismo tradicional daquele dos ideólogos linha-dura das banlieues. Sempre se considerou um homem de esquerda, a família de sua mulher é do Norte da África, e ele não tem nenhuma simpatia pelos xenófobos ou pela Frente Nacional, direitista. Acredita, porém, que radicais islâmicos estão tentando romper o tecido social francês e fomentar uma guerra civil – e que muitos esquerdistas, sem se dar conta, acabam fazendo o jogo de ideólogos e terroristas. Um conjunto de opiniões que, no fim das contas, acabou por torná-lo alvo de ataques vindos praticamente de todo lado.

 

A investida de Kepel contra o que chama de islamo-gauchisme fez com que o cientista político ocupasse uma posição singular durante a campanha presidencial francesa, que por vezes mais pareceu um referendo sobre a tormentosa relação do país com seus imigrantes muçulmanos e com o islamismo de maneira geral. A série de ataques terroristas em território francês, intensificada há dois anos, vem alimentando uma corrente de ansiedade nacional. Algo que é agravado pela expectativa de que, aos poucos, centenas de cidadãos franceses que ainda combatem nas fileiras do Estado Islâmico – em número maior que o de qualquer outro país europeu – retornarão ao país, vindos do Iraque e da Síria. Muitos podem acabar, em algum momento, nas prisões francesas – tidas, elas também, como incubadoras de planos terroristas.

A candidata da Frente Nacional, Marine Le Pen, defendeu nos últimos meses um aumento radical no controle de imigração, bem como a expulsão de imigrantes ilegais do país, numa retórica bastante semelhante à do governo de Donald Trump. Com frequência Le Pen invocou o islamismo radical e a globalização como dois males interligados a ameaçar a França. Por seu turno, o candidato da direita tradicional, François Fillon, publicou no final do ano passado um livro que se intitulava Vaincre le Totalitarisme Islamique [Derrotando o Totalitarismo Islâmico]. À esquerda, os candidatos produziram uma mescla confusa de alarmes apavorados contra o terrorismo e denúncias de racismo e islamofobia. Houve momentos em que os postulantes à Presidência do país pareciam sugerir que a própria identidade francesa estaria em jogo. Num livro recente, o veterano político esquerdista Jean-Pierre Chevènement escreveu sobre os ataques e suas consequências: “Não está na essência do problema o fato de não sabermos hoje quem somos ou o que queremos fazer?” Um navio com a bandeira tricolor hasteada, sacudido por uma tempestade, ilustra a capa.

Muitos intelectuais, colegas de Kepel, protestaram contra o clima reinante nas eleições, afirmando que o pleito deveria ser uma oportunidade de olhar para dentro, em vez de culpar os muçulmanos. O cientista político Olivier Roy argumentou que o governo e a sociedade rigorosamente seculares da França – com suas políticas contrárias à manifestação pública de religiosidade – ajudaram a criar um ambiente sufocante que, por sua vez, contribuiu para o florescimento do jihadismo. Roy e outros representantes da esquerda parecem acreditar que a violência terrorista dos últimos dois anos jogou luz sobre problemas graves no cerne da cultura política francesa – que seria demasiado rígida, hierarquizada demais, insistente em demasia em impor uma conformidade cultural a uma população de diversidade crescente. Essa crítica às vezes encontra eco na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, onde analistas afirmam que a França precisa superar seu horror ao communautarisme – isto é, à formação de distintos enclaves étnicos e sociais – e afrouxar sua noção do que significa ser genuinamente francês. Em outras palavras, melhor seria adotar uma abordagem menos intervencionista e mais multicultural em relação ao véu muçulmano (o niqab) e a outros símbolos culturais islâmicos.

Kepel zomba desse argumento e às vezes escarnece de seus proponentes, tratando-os como ingênuos ou mesmo “companheiros de luta” dos radicais. Nesse debate, ele é mais do que um observador. Orgulha-se de ter integrado a comissão que ajudou a criar a controvertida lei de 2004 que proibiu o uso, nas escolas públicas francesas, do niqab e de outros símbolos e trajes religiosos. A seu ver, o afrouxamento do secularismo francês, conhecido como laïcité [laicidade], conduziria a uma “balcanização da Europa, com o acirramento das fronteiras religiosas e étnicas”, ao surgimento de um bloco de eleitores muçulmanos na França, escolas muçulmanas e um endurecimento de comunidades quase separatistas de diversas religiões. Num momento de maturidade em sua carreira, ele tem defendido suas posições com ênfase cada vez maior. Kepel insiste que as alegações de que a sociedade francesa seria em grande medida islamofóbica são inverídicas, afirmando que tal percepção se tornou pouco mais que uma arma retórica empregada por muçulmanos radicais para unificar suas bases.

O termo que Kepel utiliza para caracterizar esse mal-estar cultural é também o título de sua mais recente publicação: La Fracture [A Fratura]. Quando, há pouco tempo, estive com ele em sua sala do Instituto de Estudos Políticos de Paris, também conhecido como Sciences Po, havia um exemplar do livro sobre a mesa. A capa estampa um retrato colorido do autor; sobre um fundo preto, ele fita o observador com uma seriedade quase mórbida. Eu ainda não a tinha visto e fiquei impressionado com a foto, tanto pelo que ela representa de vaidade por parte do autor, quanto pela alusão que ela faz à ameaça de morte feita contra Kepel. Ele me disse que precisaria ser ainda mais cuidadoso com sua segurança, caso o livro obtivesse o sucesso que esperava. “Foi por isso que decidi colocar o meu rosto na capa: se querem me matar, então que me matem”, disse, com os olhos brilhando. “Isso se chama resistência.”

 

O problema da França com os imigrantes muçulmanos provoca tamanha ansiedade porque de certa forma toca em algo que já foi motivo de grande orgulho nacional. Ao longo de boa parte do século xx, a França foi um país receptivo aos imigrantes – ainda que exigisse dos recém-chegados, é verdade, que abrissem mão de sua antiga identidade e esquecessem de onde tinham vindo. Podiam manter sua religião, desde que restrita ao âmbito privado. Em contrapartida, permitia-se que os imigrantes se tornassem tão franceses quanto qualquer outro, ou até mais (Yves Montand, o grande ator e cantor francês, era um imigrante italiano pobre).

A maioria dos imigrantes era composta por católicos europeus, com uma cultura bastante próxima à da França. Mas não todos. Mais de 100 mil refugiados da Indochina chegaram ao país nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, e também eles se adaptaram com facilidade. Os políticos se gabavam dos valores universais do país, que serviriam como um farol para essas hordas de estrangeiros. E a laïcité era vista como um desses valores: aqueles que haviam sido escravos de dogmas religiosos em outras partes do mundo podiam respirar mais livremente na França, onde predominavam os princípios iluministas.

Quando Kepel nasceu, em 1955, essa época feliz de imigração bem-sucedida começava a declinar. Nos anos que se seguiram testemunhou-se a brutal Guerra da Argélia e outras lutas nos antigos territórios franceses do Norte da África. Ao mesmo tempo, milhões de imigrantes muçulmanos começaram a chegar aos espigões de concreto dos conjuntos habitacionais nas banlieues das grandes cidades francesas, trazendo consigo uma cultura menos obediente ao tipo de adaptação que o país sempre exigira.

Kepel cresceu em Paris, filho de um imigrante tcheco, um dramaturgo e ator que traduziu as peças de Václav Havel para o francês. Na juventude, ele chegou a imaginar que se tornaria um especialista na Antiguidade clássica, mas ao fazer uma viagem pelo mundo árabe com um amigo ficou seduzido pela Síria. Ao regressar a Paris, Kepel começou a estudar árabe e acabou por ingressar num programa de pós-graduação do Sciences Po. Mergulhou na cultura árabe e viveu em Damasco e, depois, no Cairo. Em 1982, porém, seu orientador lhe contou que havia visto algo incomum no país: operários em greve prostrados no chão, voltados para Meca. Cinco anos mais tarde, o cientista político publicaria Les Banlieues de l’Islam, um estudo solidário e detalhado da comunidade muçulmana na França, ainda hoje considerado um marco. Por essa época, o racismo contra os árabes costumava ser visto como uma questão social, e não como um problema religioso; o islamismo mal era percebido como fenômeno doméstico. Kepel passou boa parte das duas décadas seguintes escrevendo sobre o Oriente Médio. Suas obras sobre o islamismo político e o mundo árabe, abalizadas mas acessíveis, constituíram valorosas cartilhas para muitos jornalistas (dentre os quais me incluo) que começavam a escrever sobre esses assuntos depois dos ataques de 11 de Setembro.

Em 2010, Kepel voltou às banlieues e encontrou uma situação bastante mudada. Anos de agravamento do desemprego e distúrbios sociais haviam fornecido o combustível para a disseminação de uma identidade muçulmana militante e muitas vezes contrária à cultura e à sociedade francesas, sobretudo entre os jovens. Preocupou-o acima de tudo a predominância cada vez maior do salafismo, uma corrente islâmica puritana que constitui a típica porta de entrada para a violência jihadista (embora boa parte de seus praticantes, é importante enfatizar, seja pacífica). Kepel publicou dois volumes sobre a situação das periferias em 2012, o segundo dos quais, Quatre-vingt-treize [Noventa e Três], era deliberadamente sombrio – segundo alguns críticos, excessivamente sombrio. O título faz referência à designação administrativa do distrito de Seine-Saint-Denis, mas é também uma alusão ao romance de Victor Hugo sobre o terror de 1793, o apogeu da guilhotina.

Os ataques terroristas de janeiro de 2015, em Paris, fizeram com que a perspectiva de Kepel afinal se revelasse, em vez de alarmista, profética. Na esteira dos ataques, ele rapidamente finalizou Terreur dans l’Hexagone [Terror no Hexágono], que delineia três gerações do jihadismo – começa na década de 80 e culmina nos mais recentes ataques descentralizados por toda a Europa, associados ao Estado Islâmico. Foi às vésperas da publicação desse livro que a segunda série de ataques, bem mais letal, teve lugar em Paris, em 13 de novembro daquele ano. A obra se tornou um best-seller.

 

Cerca de uma semana depois dos atentados de novembro de 2015, Olivier Roy, professor do Instituto Universitário Europeu, em Florença, na Itália, escreveu um artigo para o jornal Le Monde em que contestava uma das ideias centrais de Kepel. Roy argumentava que a questão não era a radicalização do islã, e sim “a islamização do radicalismo” – uma expressão que logo pegou. Segundo ele, os terroristas, em grande parte imigrantes de segunda geração, viram-se perdidos entre o mundo dos pais, voltado para a tradição, e o secularismo de seus contemporâneos franceses. Incapazes de encontrar um lugar para si, adotaram uma rejeição niilista da sociedade, expressa não na linguagem marxista das décadas de 60 e 70, mas em seu equivalente atual: o islamismo. A mesma lógica explicaria por que tantos jovens franceses, católicos e brancos também haviam se tornado jihadistas.

A resposta de Kepel foi rápida e vigorosa. Ele acusou Roy, que não fala árabe, de ter inventado uma tese compatível com a sua ignorância: se o islã era secundário, não havia necessidade de ouvir os sermões das sextas-feiras ou ler os debates teológicos online. A tese de Roy seria também um bálsamo para a consciência liberal, permitindo acreditar que o estado do islamismo contemporâneo tinha pouco ou nada a ver com a violência. Olivier Roy, obviamente incomodado, replicou, e a discussão se estendeu por meses, alimentada por matérias frequentes na imprensa. Outros intelectuais se juntaram a ela, em especial o acadêmico François Burgat, para quem os dois contendores falhavam ao não reconhecer, na gênese da raiva que movia as novas gerações, o papel da história colonial francesa e das políticas externas atuais. O debate, no entanto, permaneceu preponderantemente um duelo entre Kepel e Roy.

Quando me encontrei com Roy, num almoço composto de ostras e Muscadet, em novembro de 2016, ele me contou que não pretendera brigar. “Ele me atacou, e tive de revidar”, disse, projetando os lábios numa expressão gaulesa de desdém. “É uma pessoa que precisa de inimigos, uma versão acadêmica de Nicolas Sarkozy”, afirmou, fazendo referência ao ex-presidente francês de centro-direita. O intelectual de esquerda deixou claro que respeita a erudição do colega, mas acredita que ele esteja projetando sua obsessão com o jihadismo na realidade política mais matizada de uma França híbrida.

O contraste entre os dois é notável. Roy, meio barrigudo e desgrenhado, com um rosto afável e um queixo algo protuberante, parece um daqueles professores que saem para beber com os alunos. Kepel, sempre com ternos feitos sob medida e maneiras mais formais, é caracterizado por certa irascibilidade – já brigou em público com vários de seus pares e com ex-alunos também. Além disso, sua atração pelo poder é mais óbvia. O cientista político não faz segredo do fato de pertencer ao clube Siècle, uma instituição quintessencialmente francesa: na última quarta-feira de cada mês, a entidade reúne boa parte da elite política e social do país para um jantar formal, numa mansão do século XVIII não muito distante do palácio presidencial. Num artigo de 2016, Roy referiu-se a Kepel como um “Rastignac profissional”, alusão ao personagem arrivista dos romances de Balzac.

Roy disse acreditar que a cultura política francesa se tornou demasiado hostil à religião, e que a aplicação da laïcité – de início criada para garantir a neutralidade do Estado diante das diferentes crenças religiosas – adquiriu um caráter combativo, “erradicatório”. Seria mais saudável que se abrisse espaço, no país, para todo tipo de discurso religioso. “Há aqui toda uma geração de políticos que não sabe falar às pessoas religiosas”, ele disse. Quando lhe perguntei como a França deveria lidar com o desafio do jihadismo, a resposta foi: “Isolar os radicais e participar do espaço religioso.” Em outras palavras, o modo de combater islamitas violentos seria abrir os braços para outras manifestações do islã – incluindo, é de se supor, os fundamentalistas pacíficos.

 

Em teoria, isso pode soar razoável. Mas é um discurso impressionantemente semelhante ao tipo de tática proposta por salafistas e membros da Irmandade Muçulmana, e que eu ouvia com frequência durante os anos em que fui correspondente no mundo árabe. (“Se a sociedade fosse mais islâmica, a Al Qaeda não encontraria nenhum ponto de apoio.”) Roy não é um islamita radical, mas não pude deixar de imaginar se sua solidariedade com os muçulmanos – pobres e desempregados em níveis desproporcionais na França – não o teria tornado otimista demais. Terrorismo à parte, um número bastante grande e preocupante de muçulmanos encontra-se em um estado de franca revolta contra as normas culturais e políticas francesas.

Em setembro de 2016, uma importante pesquisa encomendada pelo Institut Montaigne descobriu que 28% dos muçulmanos franceses haviam adotado valores “em clara oposição aos valores da República” – uma mescla de pontos de vista “autoritários” e “secessionistas”, incluindo o apoio à poligamia e ao niqab e a oposição a leis impositivas do secularismo. Essas atitudes reforçam o sentimento antimuçulmano, numa espiral de crispations identitaires [crises de identidades] que são uma bênção para a Frente Nacional, anti-imigração.

 

Mais do que em qualquer outra parte do país, a fratura de que fala Kepel está exposta na cidade natal de Larossi Abballa, o homem que o condenou à morte. Mantes-la-Jolie é um velho distrito industrial situado em meio aos subúrbios do extremo oeste de Paris. Sua região central é igual à de muitos outros lugares do norte da França: uma aglomeração de construções cinzentas em estilo normando que abriga lojas, restaurantes e padarias. Conforme se avança para o oeste, a paisagem muda rapidamente, passando a exibir conjuntos habitacionais escuros e feios, terrenos baldios e mesquitas. O bairro conhecido como Val-Fourré, espremido entre uma autoestrada e uma curva do Sena, é habitado quase que exclusivamente por imigrantes árabes e africanos, numa das maiores concentrações de moradias subsidiadas em toda a França. Às sextas, depois das orações nas mesquitas, as bancas lotadas da feira em torno do edifício conhecido como La Centrale parecem ter saído diretamente de uma cidade árabe. As mulheres vestem longas abayas pretas e véus; muitos dos homens trajam roupas tradicionais do Mali ou jelabas ao estilo norte-africano. O bairro branco que faz divisa com Val-Fourré se transformou nos últimos tempos num bastião dos apoiadores da Frente Nacional.

A primeira pessoa que encontrei em Val-Fourré foi um homem corpulento com trajes ao estilo afegão e a barba irregular a que dão preferência os muçulmanos salafistas. Ele preferiu não revelar o seu nome. Depois de alguns minutos de conversa, mencionei Abballa e os assassinatos de junho de 2016. “Aquilo foi apenas uma questão de vingança”, ele disse, descartando o tema. “Não tinha nada a ver com o islã.” Do que Abballa estaria se vingando? O homem me dirigiu um olhar de incredulidade. “Do quê? Provavelmente a polícia tinha lhe dado uma surra”, ele respondeu. “Eles param você, assediam, vão a sua casa. É assim com todos nós.” Quis saber então o que ele podia me dizer sobre o conceito de “radicalização”. Ele disse: “O que significa ‘radicalização’? O que significa ‘fundamentalismo’? Significa o que é fundamental, a base da religião. É disso que eles não gostam. Vivem fazendo pressão, mas não vamos desistir da nossa religião. E isso leva a um conflito…”

Enquanto conversávamos, ele parecia pouco à vontade, e logo se despediu. Provavelmente nem teríamos tido aquela conversa se não tivéssemos sido apresentados por um blogueiro local de 31 anos chamado Aboubakry N’diaye, que naquele dia se oferecera para ser meu guia. O ódio à polícia é gigantesco nas banlieues francesas, e em geral se acredita que jornalistas e policiais trabalham em conjunto.

Um após o outro, todos os jovens com quem conversei naquela tarde disseram a mesma coisa, quase com as mesmas palavras: não tinha nada a ver com o islã, vingar-se da polícia era perfeitamente natural. Nenhum deles admitiu ter conhecido Abballa, embora alguns insistissem que ele era “um sujeito comum”.

Num certo sentido, o próprio fato de Abballa ser um sujeito bastante comum – sua invisibilidade, portanto – é o aspecto mais sinistro da nova geração de jihadistas franceses. Eles não deixam pistas, e isso em parte porque as banlieues agora proporcionam tanto isolamento como camuflagem. Áreas como Val-Fourré foram, um dia, repletas de associações de jovens – muitas delas formadas pelo Partido Comunista –, mas essas associações se desintegraram pouco a pouco ao longo dos anos, assim como os empregos outrora existentes nas fábricas de automóveis locais. (O desemprego entre a juventude de Val-Fourré é estimado em no mínimo 30%.) “Esse tipo de laço social era importante, e hoje há muito menos associações do que no passado; as pessoas estão mais isoladas”, disse-me Yasser Amri, um consultor político que cresceu em Mantes e trabalhou como assessor para um parlamentar da região. “Os jovens ficam em casa com seu laptop, a internet assume o comando e os faz vulneráveis ao Estado Islâmico.” Abballa pode também ter aprendido – ou ter sido ensinado – a manter a discrição. Seja como for, suas simpatias pelo jihadismo teriam despertado pouca suspeita num ambiente em que o salafismo e o ódio ao Estado se tornaram normas.

 

A vida de Abballa, pelo menos quando mais jovem, parece corroborar algumas das afirmações de Olivier Roy sobre imigrantes de segunda geração e sua percepção de deslocamento, assim como sua sede de identidade. Seu pai era um operário do sul do Marrocos que chegou à França cinco anos antes do nascimento de Abballa, o caçula de cinco filhos. A primeira infância foi passada em Mureaux, cidade a 20 quilômetros de Mantes, com uma população muito semelhante de imigrantes pobres e famosa por seus distúrbios. Abballa pouco sabia do islã – pelo menos naquela época, de acordo com os cúmplices de sua primeira empreitada terrorista, em 2011. Ao mesmo tempo, disse-lhes que tinha “sede de sangue”, segundo os autos do processo. Foi preso pela primeira vez aos 18 anos, sob acusação de furto, e parece ter mergulhado na jihad da mesma forma como antes tinha se entregado a pequenos delitos.

Sua primeira incursão pela jihad foi quase cômica. Aos 19, ele se juntou a um grupo de jovens da banlieue num parque a leste de Paris, onde decapitaram coelhos como treinamento para assassinar prisioneiros humanos. Seus planos de se juntar à jihad no Paquistão foram frustrados logo em seguida, e policiais encontraram propaganda terrorista em sua casa e na de outros conspiradores. Tinham também um volume acadêmico de que Kepel fora coautor, Al-Qaida Dans le Texte [A Al Qaeda em Suas Próprias Palavras]. Ao que parece, viam-no como uma espécie de manual.

Mas foi sua fase seguinte que o transformou num jihadista de verdade, e é difícil descartar que sua trajetória não tenha seguido de perto os estágios que Kepel identifica como os da terceira geração do jihadismo europeu. Abballa passou quase três anos atrás das grades, sendo várias vezes transferido devido a seu proselitismo em prol da jihad. Mais tarde, fez contato direto com um membro do Estado Islâmico na Síria que ajudara a orientar ataques terroristas na França. Ao morrer, a devoção religiosa de Abballa era inquestionável. Em seu vídeo ele declama um longo sermão sobre o islã, que inclui uma citação de um jurista islâmico relativamente obscuro do século XI. Podia ser tudo, menos niilista – a palavra que Roy emprega com frequência para descrever jovens como ele.

Uma vez fora da prisão, Abballa manteve uma fachada de normalidade, abrindo uma empresa de entrega de sanduíches e hambúrgueres. Sua página no Facebook está repleta de imagens de fast-food e de clientes satisfeitos. Até mesmo a antiga namorada, com quem se relacionara por anos antes de ser preso, alega que não tinha ideia de que ele houvesse se tornado um radical. “Primeiro vinha eu; depois é que vinha a religião”, ela declarou numa breve entrevista para uma rádio francesa, logo depois dos assassinatos. “Tudo que ele me disse foi que gostaria que, um dia, eu me tornasse igual a ele e usasse véu. Mas nunca me julgou nem se recusou a falar comigo porque eu não usava véu ou vestia jeans rasgados ou roupa de couro. Nem uma única vez.” A família de Abballa parece ter sido o único grupo do qual ele não pôde esconder sua nova devoção. Na noite de 13 de novembro de 2015, uma vez disseminada a notícia dos ataques terroristas a Paris, uma de suas irmãs ficou horrorizada com a possibilidade de ele estar entre os terroristas, segundo um artigo do Monde. Ela ligou para casa e pediu a outro membro da família que se certificasse de que ele estava a salvo em sua cama.

Exatos sete meses mais tarde, numa noite amena de junho de 2016, Abballa foi de carro até Magnanville, um trajeto de dez minutos, onde se dirigiu à casa de Jean-Baptiste Salvaing. Ainda não se sabe ao certo por que ele escolheu Salvaing, um policial de nível intermediário que se dedicava a combater a delinquência local. O que está claro, de acordo com matérias de jornal baseadas em fontes policiais, é que ele planejara cuidadosamente seu ataque. Sabia a que horas Salvaing voltava do trabalho, e se escondeu atrás de um portão, de onde saltou para esfaqueá-lo repetidas vezes, perfurando-lhe o coração. Depois entrou na casa do policial e cortou a garganta de sua companheira, Jessica Schneider. Com o celular, fez a transmissão ao vivo pelo Facebook.

Assistir a esse vídeo é uma experiência profundamente inquietante. Abballa é enquadrado de baixo, o rosto comprido distorcido e espichado pelo ângulo da filmagem. Um pano colorido pode ser visto pendurado na parede à altura da cabeça dele, o que confere ao conjunto um toque sinistro de vida doméstica – trata-se de um cômodo que claramente oferecia conforto e felicidade às duas pessoas que ele acabara de executar. Abballa não parece raivoso ou aborrecido. Ele funga com frequência durante seu discurso – um resfriado – e, em determinado momento, diz: “Perdão.” De vez em quando pode-se ouvir o ruído do papel que ele lê. Faz um discurso que dura doze minutos, mistura seu francês com bocados de árabe do Corão, jura lealdade ao líder do Estado Islâmico, clama por assassinatos em massa e prevê uma nova era de conquistas islâmicas. Depois de invadir a casa e matá-lo, uma equipe especializada da polícia francesa encontrou ali o filho de 3 anos do casal, incólume mas em estado de choque.

Na véspera de seu assassinato, de acordo com uma matéria do Monde, Salvaing havia participado de uma sessão de treinamento no quartel da polícia, vizinho a uma mesquita. “Radicalização” havia sido o tema do dia.

 

Uma das críticas mais comuns feitas a Kepel é que o seu foco incansável no islã termina por lançar suspeitas sobre todos os muçulmanos franceses. Como me disse Roy, “dizer que se trata de uma questão religiosa é considerar os extremistas a vanguarda de toda a população muçulmana”. Jean-Pierre Filiu, outro proeminente estudioso francês do mundo islâmico, destacou que vários milhares de muçulmanos marcharam pela paz em Mantes-la-Jolie depois dos assassinatos de Abballa, muitos deles carregando fotos do casal assassinado e cartazes em protesto contra o terrorismo, além de terem depositado coroas de flores nos degraus do quartel-general da polícia. Não havia ninguém lá para saudá-los, nem houve muita cobertura por parte da mídia. “Os jihadistas querem embaralhar as coisas, mas elas deveriam estar claras”, disse-me Filiu. “Não são os salafistas que estão contra nós, nem os muçulmanos: são os jihadistas.”

São sentimentos generosos, sem dúvida compartilhados por muitos muçulmanos franceses. Kepel diria que eles parecem menos voltados à busca da verdade que ao exercício do tato: a ideia de que ferir sentimentos muçulmanos envenenaria ainda mais o ambiente. Levado ao extremo, esse ponto de vista põe em risco sua própria condescendência: seja gentil com os muçulmanos ou eles vão se transformar em terroristas suicidas.

Em seus livros mais recentes, Kepel argumenta que a comunidade muçulmana francesa, antes guiada por figuras paternalistas do velho país de origem – os darons –, encontra-se hoje sob domínio crescente de líderes radicais mais jovens e bem mais propensos ao enfrentamento. Segundo ele, esses ideólogos têm fomentado uma ruptura com os valores franceses, que favorece a narrativa do Estado Islâmico. Ainda assim, alguns intelectuais desconsiderariam ingenuamente, ou mesmo encampariam, essas figuras, na esperança de “isolar os radicais”.

Em outras palavras, Kepel volta as acusações de Filiu e Roy (ou seja, a de que sua ênfase no islã estaria inadvertidamente fazendo o trabalho dos radicais) contra eles próprios. Kepel gosta de mencionar a propaganda do Estado Islâmico que conclama seus seguidores na Europa a se esconder por trás da linguagem do vitimismo. Esse tipo de propaganda inclui um documento compartilhado pelos simpatizantes e intitulado “Como sobreviver no Ocidente”. Nele, pode-se ler: “Uma verdadeira guerra vem tomando forma no coração da Europa. […] Os líderes da descrença mentem repetidas vezes à mídia ao dizer que nós, muçulmanos, somos todos terroristas, ainda que já o tenhamos negado e intentado ser cidadãos pacíficos. Eles, contudo, nos encurralaram, forçando-nos à radicalização.”

Acusações como essa, de ambos os lados, definem boa parte do debate travado na última década sobre os símbolos islâmicos. Roy e outros esquerdistas tendem a ver a lei de 2004 – a que proibiu o niqab – como uma provocação desnecessária que só fez o jogo dos extremistas. Kepel, que ajudou a orientar o texto legal, afirma que era a prevalência crescente dos véus nas escolas que estava semeando divisão e preconceito, algo a que a lei pôs fim. Os dois lados contam com o apoio de muçulmanos. Pesquisas sugerem que a maioria da população francesa apoia a proibição, e minhas conversas com uma dezena de professores que trabalham nas banlieues corroboram esse resultado.

A disputa em torno do véu integra um esforço mais amplo da parte do Estado francês, que nutre a singular ambição de chegar a uma espécie de grande acordo com o islã, da mesma forma como fez com a Igreja Católica em 1905. O acordo com a Igreja não mencionava em parte alguma a palavra laïcité, mas reconfigurou as fronteiras entre Igreja e Estado: freou a influência da primeira na esfera pública e reverteu para o Estado boa parte do que era propriedade eclesiástica. Isso é bem mais difícil de se atingir com os muçulmanos na França, com sua extrema diversificação e nada que equivalha à hierarquia católica. O fato de muitas mesquitas terem sido construídas e providas de imãs por organizações e governos estrangeiros – sobretudo Marrocos e Turquia – é outro empecilho. O Conselho Francês da Fé Muçulmana, criado pelo governo em 2003, tem clamado periodicamente por uma reforma desse sistema, mas com poucos resultados.

 

Embora a comunidade muçulmana francesa não tenha um líder, um homem vem assumindo crescente proeminência, e sua postura é a do enfrentamento. Principal exemplo do “companheiro de luta” dos radicais, para usar a expressão cunhada por Kepel, Marwan Muhammad é o diretor executivo do Coletivo Contra a Islamofobia na França, ou CCIF. Sob sua direção, o CCIF ganhou visibilidade, entrando com processos e tornando públicos episódios daquilo que entende ser preconceito antimuçulmano. Muhammad é um ex-investidor do mercado financeiro, estrategista e de inconteste capacidade oratória. Aos 38 anos, esbelto e de olhar penetrante, traz na testa uma marca resultante de suas orações. Quando fui encontrá-lo num café perto de seu escritório no Stade de France, norte de Paris, ele me disse que considerava seu trabalho comparável ao movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos. Num inglês americano surpreendentemente rápido, contou-me que não tinha problema nenhum com as leis francesas relativas à laïcité, mas que elas haviam sido “recodificadas” por racistas que passaram a usar o secularismo como escudo. A lei de 2004 sobre os véus nas escolas, ele disse, havia sido a “mãe de todas as tensões”, e a campanha antiterrorismo se tornara um pretexto para atacar muçulmanos. Para ele, a raiz do problema estaria no fato de a França ainda estar presa a uma mentalidade racista e colonialista, incapaz de ver os muçulmanos como iguais. Quando levantei a questão da militância islâmica em cidades como Mantes-la-Jolie, ele sugeriu que se tratava de uma reação emocional ao racismo, mas também defendeu o direito dos muçulmanos de se vestir e se comportar como bem entendessem.

No verão de 2016, Muhammad ganhou renovada notoriedade com sua tentativa de matizar a percepção pública no episódio dos burquínis. Em agosto passado, algumas cidades do litoral francês proibiram o maiô de corpo inteiro, o chamado burquíni, destinado a preservar os códigos muçulmanos relativos ao recato feminino. A polícia entrou em ação, forçando as mulheres a tirar a peça, pagar uma multa ou ir para a prisão. O episódio virou sensação mundial, e o governo francês figurou, em grande parte da imprensa, como mesquinho, islamofóbico e hipócrita. O burquíni, alegaram seus defensores, era um instrumento não de repressão, e sim de libertação – uma alternativa que possibilitava diversão às mulheres conservadoras, de outro modo tolhidas. Tudo isso aconteceu apenas um mês depois da carnificina terrorista em Nice, quando um homem avançou com seu caminhão sobre uma multidão de pedestres num bulevar à beira-mar, matando 86 pessoas e ferindo muitas outras. A alguns analistas, o episódio dos burquínis pareceu um corolário tácito: talvez os franceses estivessem atraindo para si o ódio terrorista.

Para Kepel, a lição extraída dos burquínis foi outra, bem diferente. Ele não negou que a prisão das mulheres tivesse constituído atitude terrivelmente canhestra (e contraproducente). Mas identificou no episódio mais um esforço dos radicais islâmicos – e seus “companheiros de luta” da esquerda – para transformar o país de vítima de uma atrocidade terrorista em agressor. Kepel destacou que boa parte da cobertura internacional sobre o episódio ignorara o contexto da ascensão do islamismo de estilo salafista. Em outras palavras, muitas das mulheres francesas que poderiam estar vestindo biquíni alguns anos antes estavam, agora, condenadas ao burquíni. O episódio o ajudou a formatar aquele que se tornou o tema predominante de sua discussão pública, ainda em curso, com a esquerda. Em seu novo livro, publicado em novembro de 2016, Kepel apresenta sua mais feroz investida contra a “ilusão” da islamofobia. E também faz um retrato ácido de Marwan Muhammad, a quem caracteriza como um oportunista a serviço dos interesses dos jihadistas.

 

O trabalho mais recente do cientista político, sobre a ascensão do jihadismo nas prisões e nas banlieues francesas, se baseia num conjunto de números alarmantes. De acordo com o Ministério da Justiça francês, havia 421 “terroristas islâmicos” nas cadeias e prisões francesas ao final de março de 2017, e 1 224 pessoas identificadas como “radicalizadas”. Muitas delas estão presas por delitos menores ou não relacionados ao terrorismo, o que significa que serão libertadas em breve. Cada ataque piora o ciclo de desconfiança entre os français de souche – os “franceses de raiz”, isto é, os cristãos brancos – e seus compatriotas muçulmanos. Para enfrentar o temor da cizânia, uma nova indústria, de efeitos duvidosos, vem crescendo ao longo dos últimos dois anos. Subvenções governamentais para programas privados de “desradicalização” têm proporcionado dinheiro fácil a inúmeras iniciativas, bem como para autoproclamados gurus que se vangloriam de bons resultados.

“Está todo mundo tateando – ninguém sabe o que fazer”, contou-me Adeline Hazan, responsável pela agência governamental de vigilância das prisões francesas. Não ajuda muito o fato de que metade da população prisional do país seja constituída de muçulmanos (embora eles somem menos de 10% da população francesa). Em algumas prisões superlotadas essa porcentagem é bem maior. No verão de 2016, o grupo chefiado por Hazan publicou um relatório condenando com veemência o novo plano do governo para segregar prisioneiros jihadistas, alegando que a iniciativa poderia piorar ainda mais as coisas. A ideia da segregação tivera origem logo após os ataques de janeiro de 2015 em Paris, quando a atenção pública se concentrara na reputação de “fábrica de terroristas” do sistema prisional. O remédio proposto, no entanto, pode ter sido pior que a doença. Os jihadistas recém-isolados ganharam melhores condições para reforçar mutuamente suas crenças; e os planos de desradicalização do governo – que incluíam aulas de “esgrima terapêutica” – pareciam pouco mais que piada. Em setembro, um detento de uma das unidades segregadas esfaqueou um guarda e quase o matou. Um mês depois, o ministro da Justiça francês, Jean-Jacques Urvoas, cancelou o plano de segregação. Quando encontrei Urvoas no Ministério e lhe perguntei o significado da palavra “radicalização”, ele respondeu: “Eu não sei. Vou parar de empregá-la.”

Independentemente de qual palavra se use, promotores e juízes franceses hoje lutam diariamente para desvendar o mistério de como se formam terroristas. Um ano atrás, uma das principais promotoras francesas encarregadas de lidar com o terrorismo começou a realizar uma vez por mês em seu gabinete, no Palais de Justice parisiense, reuniões com um grupo de especialistas acadêmicos. Trata-se do primeiro esforço desse tipo. Em dezembro de 2016, assisti a uma dessas reuniões e ouvi por duas horas cerca de uma dezena de cientistas políticos, sociólogos e psicólogos dissecar a vida e a psique de M., um jovem condenado que crescera na banlieue e entrara para o Estado Islâmico. Os participantes discutiram a mesma questão que separa Kepel de Roy: tudo convergia para o islã, ou o islã era apenas um pretexto? “O que é mais importante: a busca ou a resposta?”, alguém perguntou.

A discussão se desenrolava em várias direções, mas voltava sempre à questão de “como viver como muçulmano na França e se integrar”. Um dos participantes disse: “Para mim, ele é um psicopata” – provocando gargalhadas gerais; outro declarou que achava M. “um caso típico em muitos aspectos”.

Às nove da noite, em ponto, a promotora pôs fim à reunião, e seus assistentes começaram a servir champanhe e uma rodada de doces e salgadinhos. Perguntei se ela achara útil aquela sessão, apesar das discordâncias. O debate teria lançado luz sobre as questões mais difíceis que lhe cabia avaliar, ela disse: a “capacidade de dissimulação” do condenado e seu grau de periculosidade.

O número de pessoas que hoje requer esse tipo de escrutínio exaustivo é assustador: cerca de 700 cidadãos franceses integram o Estado Islâmico no Iraque e na Síria, e, à medida que o grupo terrorista perde terreno, um contingente cada vez maior vai voltar para casa. Vi três desses repatriados no banco dos réus, durante um julgamento em dezembro do ano passado, em Paris. Um deles fora trazido diretamente da prisão e estava numa cela quadrada, guardada por policiais, num dos lados da sala do tribunal. Os outros, que estavam em liberdade, ficaram de pé, ladeados por seus respectivos advogados e defronte de um grupo de juízes. Os três se conheceram em Roubaix, cidade do norte da França que ganhou certa notoriedade como bastião de radicais islâmicos. Todos eles terminaram na Síria, combatendo ao lado de milícias islâmicas, até que regressaram ao país.

O presidente do grupo de juízes, um senhor calvo de ar acadêmico, interrogou-os pormenorizadamente sobre seu modo de pensar e suas crenças, voltando sempre à questão do islã. “Hoje, o senhor diria que é um muçulmano que acredita nos valores da República francesa?”, perguntou a um deles. O réu, um homem branco convertido ao islamismo e identificado como Pierre T., balbuciou: “Hum, essa é uma pergunta difícil.” Em seguida, acrescentou que preferia se caracterizar como “um muçulmano normal”. Mais tarde, o juiz lhe perguntou se era possível praticar sua forma de islamismo e continuar trabalhando.

Outro réu, identificado como Mehdi K., servira no Exército francês antes de desertar e partir para a Síria. Insistiram para que descrevesse seus planos para o futuro. “Eu me vejo vivendo na França com minha mulher e meus filhos”, ele disse. “Ainda sou muçulmano e bastante rigoroso comigo mesmo.” O juiz parecia insatisfeito com a resposta e, em certo momento, disse algo sobre o perigo de o islamismo se transformar numa ideologia política. Ao final da sessão, o promotor pediu pena máxima para Mehdi K., alegando que ele possuía arraigadas convicções radicais e que representava “perigo manifesto”. O advogado de defesa protestou, argumentando que o promotor estava pedindo ao juiz que sentenciasse o réu “não por aquilo que ele fez, mas pelo risco potencial que representa”. Pareceu-me uma estranha objeção. O juiz deixara bem claro que estava muito mais preocupado com o futuro de Mehdi K. que com seu passado.

Com tanta atenção voltada para si, muitos jihadistas estão se adaptando e disfarçando melhor suas crenças. Farhad Khosrokhavar, um sociólogo que passou muitos anos estudando muçulmanos no sistema prisional francês, disse-me que hoje é quase impossível obter um testemunho honesto dos detentos. Muitos fazem a barba, adotam uma conduta afável e, por vezes, até deixam de orar e jejuar durante o Ramadã a fim de enganar as autoridades e, supostamente, sair mais depressa da prisão.

 

Numa fria mas revigorante manhã de dezembro passado, Gilles Kepel chegou ao portão da prisão de Villepinte, a nordeste de Paris. Trata-se de um amplo conjunto de construções com muros altos e enormes torres quadradas de vigilância de onde se vê uma paisagem austera de autoestradas, fios de energia elétrica e campos vazios. A prisão é famosa pela superlotação; sua administradora recentemente escreveu uma carta incomum de protesto a um magistrado francês, dizendo que o número de prisioneiros estava tão acima da capacidade do complexo que eles não tinham como aceitar nem mais um único detento. A instituição abriga cerca de vinte homens acusados de atividades terroristas, em sua maioria jihadistas empedernidos que lutaram ao lado do Estado Islâmico na Síria.

Ao descer do carro, Kepel foi recebido pela administradora, uma mulher de 40 e poucos anos e cabelos escuros. Conduziram-no ao interior da prisão, onde dois detentos o aguardavam numa sala próxima à biblioteca. Um deles era um ladrão, um homem esbelto de barba e cabelo comprido; o outro, um norte-africano atarracado cumprindo pena de nove anos. Os dois – que pediram que seus nomes não fossem revelados – haviam conhecido Kepel numa visita anterior e pareciam encantados com o reencontro. Eram muçulmanos e opositores veementes do Estado Islâmico. De acordo com o relato deles, na primeira visita ao presídio, Kepel tinha dado uma palestra sobre o islã e o jihadismo, e se impusera sobre o grupo impenitente e bastante coeso de ex-combatentes do Estado Islâmico, cujos argumentos ele derrubara com hábeis citações do Corão. “Deus é soberano em suas ordens”, recitara em árabe ao final de um debate tenso e raivoso, “mas a maioria das pessoas não sabe disso.”

A visita e as discussões em grupo favoreceram a comunicação com o contingente jihadista. Antes, eles se relacionavam apenas entre si, suas vidas e folhas corridas eram um mistério mesmo para os demais prisioneiros. “Agora, a gente começa a entender um pouco melhor”, disse o norte-africano. Um dos jihadistas “enfrentou uma separação, outros tiveram problemas familiares”. Alguns, acrescentou, haviam começado a mudar um pouco o discurso acerca de suas próprias perspectivas, depois de terem conversado e trocado experiências com outros detentos que cumpriam penas maiores. “Eles tinham essa ideia de que, por sermos fiche S” – a designação utilizada para a monitoração de potenciais terroristas –, “não temos futuro. Agora, parecem entender que há, sim, um futuro. Falam em arrumar emprego, casar, ter filhos. Está havendo uma evolução positiva.”

Mas quando os dois detentos se puseram a falar da vida fora da prisão, o otimismo deles desapareceu. A França, disseram, parece estar preparando um confronto com o islã. O mesmo estaria acontecendo em toda a Europa, e até mesmo nos Estados Unidos (deixaram claro que passavam boa parte do tempo assistindo a noticiários de tevê). Para os jovens das banlieues francesas, integração e radicalização seriam dois lados de uma mesma moeda que jamais poderiam beneficiá-los. “Os perfis traçados, o preconceito, tudo isso se soma”, disse o norte-africano. E prosseguiu, referindo-se agora ao código numérico que designa a banlieue mais mal-afamada da França: “Noventa e três – se é esse o endereço que aparece no seu currículo, vai ser difícil você conseguir emprego. Há muita frustração entre os jovens. Isso se transforma em ódio, e o ódio, em radicalismo.”

Pouco antes de ir embora, perguntei ao norte-africano se ele acreditava que a recente onda de ataques terroristas na França ia continuar. Pouco tempo antes a polícia tinha realizado prisões em diversas células terroristas, e dois meses antes um jihadista atacara guardas perto do Louvre com uma machadinha. Ele me dirigiu um olhar sombrio. “Isso é só o começo”, respondeu.

 

Muitos muçulmanos franceses, inclusive nas banlieues, parecem concordar com Kepel: o problema crucial seria a disseminação de formas mais agressivas de islamismo. Em Mantes-la-Jolie, encontrei um lojista de 50 anos que disse ter acreditado que, nos anos 90, a situação estava melhorando e que “a França estava pronta para assimilar seus magrebinos”, ou norte-africanos. O que mudou não teriam sido primordialmente os avanços da Frente Nacional racista, mas a disseminação de um salafismo patrocinado pelos países do Golfo. O lojista descreveu o fenômeno em termos quase idênticos aos de Kepel. Contou que ficara abalado depois de alguns encontros com jovens locais, muitos deles delinquentes parcamente educados, mas cheios de ódio religioso. Às vezes alguns homens entravam na loja e o chamavam de infiel na frente da clientela. Ele me pediu que não mencionasse seu nome, porque temia represálias dos salafistas. “Agora, as pessoas parecem não querer se integrar”, disse. “Adotaram uma religião que não tem nada a ver com suas origens. É uma geração perdida.”

Naïma M’Faddel, uma das poucas muçulmanas a ocupar um cargo executivo na França – ela é vice-prefeita de Dreux –, se lembra do momento exato em que se deu conta do salafismo. Ainda menina, nos anos 80, certa vez foi atender à porta de casa e se viu diante de um homem barbado vestindo uma jelaba. O sujeito imediatamente baixou a cabeça, para se precaver do pecado de olhar para uma mulher sem véu. “O dono da casa está?”, ele perguntou. Ela respondeu que não, e o homem emendou: “Diga-lhe que ele deveria ir à mesquita.” M’Faddel, que cresceu num bairro em que se misturavam imigrantes europeus e norte-africanos, contou que sua família foi testemunha do momento em que a influência islâmica se tornou predominante – algo que, segundo ela, se deu em conformidade com a mudança demográfica. “Tenho a impressão de que a maioria dos árabes muçulmanos nas banlieues foi tomada pelo pensamento salafista”, disse. O racismo e o elitismo franceses são decerto um problema, mas ela atribui também um bocado de culpa à esquerda política, por ter “infantilizado” os muçulmanos e não ter se empenhado de fato para integrá-los como cidadãos.

Outro inimigo ferrenho dos radicais islâmicos é o intelectual muçulmano mais reverenciado da França, o pensador Tareq Oubrou, natural do Marrocos. Oubrou chefia uma mesquita em Bordeaux e promove uma prática religiosa discreta, inteiramente em consonância com o princípio da laïcité. Ele afirma que barba, véus e outras demonstrações públicas de religiosidade são fenômenos marginais no islamismo. Conversamos na biblioteca de sua casa, com altas estantes de erudição árabe e francesa. Foi com alegria que ele me disse que o radicalismo islâmico com viés político tinha sido um “fracasso total” e que o islã em geral necessitava ser fundamentalmente repensado, a fim de que as pessoas parassem de “tentar se converter em árabes do século vii”. O Corão, ele disse, é um “ponto de partida, e não de chegada”. Sua mesquita, a poucos quarteirões da estação de trem, no centro de Bordeaux, é tão discreta que tive dificuldades para identificá-la da rua. Não há minaretes nem uma entrada grandiosa. Só não passei reto porque vi o grupo de soldados franceses armados que monta guarda ali nos horários das orações. As opiniões de Oubrou já lhe renderam repetidas ameaças de morte.

Há não muito tempo, conversei com uma jovem médica muçulmana francesa, altamente capacitada, que usa véu e estava profundamente frustrada por não poder fazê-lo no hospital público em que trabalhava. Ela me disse que procurou Oubrou em busca de orientação. Ele lhe perguntou qual era a natureza da atividade dela, e ela a descreveu. Oubrou então a aconselhou: seu trabalho no hospital era o de salvar vidas, o que era muito mais importante – e, de fato, mais islâmico – que qualquer coisa que ela quisesse usar na cabeça. A resposta me impressionou, mas a doutora não se deixou convencer. Pouco depois, ela decidiu se mudar para a Grã-Bretanha, onde hoje está empregada num hospital que lhe permite usar o véu onde bem entender.

Na escolha da médica muçulmana pode-se subentender uma crítica tácita à França, parecida com algo que ouvi de muitos jovens franceses de origem magrebina: o país não está em sintonia com um mundo mais globalizado. Alguns acadêmicos concordam. “Não foram as tradições francesas que criaram o problema, e essas tradições podem também não ser a resposta”, afirma David Bell, historiador de Princeton. “Talvez a laïcité não ofereça a melhor base para a integração de populações tão diferentes. Os debates na França são dominados por intelectuais excessivamente atrelados à própria história.”

A última vez que estive com Kepel, perguntei a respeito da acusação que lhe faziam, de ele ter se tornado um tipo de defensor neogaullista das tradições francesas. Ele caçoou, dizendo que as circunstâncias é que haviam mudado, e não ele. “A grande questão é pensar no que aconteceu ao país – 239 mortos em dezoito meses”, disse. “Isso não tem precedentes em solo francês.”

Sua tarefa, a seu ver, consistia em apontar os fatos que haviam levado àquelas tragédias, e não as soluções. Alguns desses fatos eram incômodos, e algumas pessoas – inclusive funcionários municipais em lugares como Mantes-la-Jolie e Trappes, com seus enclaves islâmicos linha-dura – não estavam dispostas a enfrentá-los. Não cabia a ele encontrar meios para curar as feridas francesas, algo que outras pessoas poderiam fazer. Kepel lembrou que sua carreira já estava quase no fim e que não tinha nada a perder. “Pode ser que eu seja influenciado pelo fato de ser neto de um francês assimilado”, acrescentou. “Mas, basicamente, sou só um orientalista dotado de sangue-frio e pele grossa.”

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