esquina

O rebelde

Um deputado do PSOL cai atirando

Malu Gaspar
IMAGEM: ANDRÉS SANDOVAL

“Oi, meu amor”, disse o deputado estadual Paulo Ramos ao passar apressado pela reportagem e seguir pelo corredor da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Só após registrar presença no plenário ele poderia conversar sobre o assunto que o transformara em protagonista de um episódio antológico da política fluminense: a votação que mandou soltar os deputados Jorge Picciani, presidente da Casa, Paulo Melo e Edson Albertassi, todos do PMDB, presos numa etapa da Lava Jato batizada de Operação Cadeia Velha.

Numa sessão tensa, com o povo proibido de entrar nas galerias do plenário e manifestantes em conflito com a Polícia Militar do lado de fora, 39 parlamentares votaram pela libertação dos colegas (outros dezenove foram contra, onze faltaram e um se absteve). Ato contínuo, mandaram um carro oficial resgatá-los na cadeia (dias depois, os três seriam presos novamente por ordem do Tribunal Regional Federal da 2ª Região).

Ramos chamou a atenção por votar pela soltura dos parlamentares, destoando do seu partido, o PSOL – sigla que mais faz oposição ao grupo político de Picciani e do ex-governador Sérgio Cabral Filho, encarcerado no mesmo presídio que o correligionário. Os outros quatro deputados do PSOL votaram por manter a prisão. Para justificar-se, Ramos disse em plenário que estava “defendendo o estado democrático de direito”, já que a Constituição estabelece que parlamentares só podem ser presos em flagrante e por crime inafiançável.

Em resposta ao parlamentar rebelde, o PSOL anunciou que iria afastá-lo e iniciar seu processo de expulsão. “O deputado se colocou ao lado da máfia dos transportes, das empreiteiras e de todos aqueles que saquearam o estado do Rio de Janeiro nas últimas décadas”, afirmou a nota emitida pelo partido após a votação. Fazendo pouco caso do anúncio, Ramos disse na ocasião que já vinha mesmo se afastando da sigla e aproveitou para cutucar os correligionários. “Que eles me expulsem, aliás, ficarei muito feliz porque não posso compactuar com hipocrisia.”

Indagado dias depois sobre a hipocrisia de sua sigla, Ramos disparou: “Narciso acha feio o que não é espelho.” O deputado recebeu a piauí na Furna da Onça, uma salinha anexa ao plenário onde os deputados se reúnem para café e conchavos. “Querem atribuir a mim o que eles mesmos fazem”, continuou o parlamentar. Disse ainda que se relacionava bem com Picciani, mas não lhe devia nada; já os colegas viviam bajulando o presidente da Assembleia em busca de regalias. “São todos puxa-sacos do Picciani.” Entre as regalias a que se referia, Ramos citou cinco cargos no comitê de prevenção da tortura ocupados por pessoas ligadas a Marcelo Freixo, líder do PSOL. “Ele tem cargo na TV Alerj, cargo aqui, cargo ali”, afirmou.

Ramos mencionou ainda um acordo de Freixo com Picciani para que o líder do PSOL contestasse na Justiça a composição da CPI dos Incentivos Fiscais, que investigaria os benefícios tributários concedidos pelo governo Cabral a um amplo rol de companhias, incluindo empresas-fantasmas e bordéis. A questão até hoje não foi decidida e a CPI não foi instalada. Como Ramos não é de falar baixo, todos na Furna da Onça podiam ouvir o que ele dizia. Em outro canto da sala, o ex-jogador de futebol Bebeto, hoje deputado estadual pelo Podemos, e dois assessores espiavam o papo, curiosos.

 

Paulo Ramos é alto, tem uma voz rouca potente e um corpanzil que impõe respeito. Não fosse pela careca pronunciada e pelos cabelos e bigodes brancos, não aparentaria ter 73 anos e sete mandatos – dois como deputado federal e cinco de estadual.

Destaca-se também pelo ânimo combativo. No ano passado, ao ter a palavra cortada numa sessão da Alerj, atirou o microfone no chão. Num discurso no início de 2017, chamou o ministro Luiz Fux, do STF, de “Luiz Foda-se”. Certa vez, quando o então governador Cabral disse que bombeiros e policiais podiam ir à parada gay de uniforme e sair do armário, Ramos sugeriu que o mandatário fizesse o mesmo, numa declaração que provocou mal-estar entre os deputados.

O clima no partido ficou ruim para valer em agosto, quando foi parar no YouTube um vídeo em que o deputado discute com uma militante dos direitos dos animais. A moça chamou de “circo” a visita que ele e outros deputados faziam a um centro de proteção animal da prefeitura. Exaltado, Ramos gritou e acabou derrubando no chão o celular dela. O coletivo de mulheres do PSOL fez uma representação à cúpula da legenda, que sugeriu ao deputado que escrevesse uma carta de retratação.

Ramos viu “dois pesos e duas medidas” na atitude do partido. Em sua avaliação, a sigla não reagiu com a mesma firmeza no caso em que Marcelo Freixo foi acusado de machismo pela ex-mulher nas redes sociais. “O PSOL não suporta que eu grite, mas admite que um deputado midiático dê porrada na mulher”, protestou. Diferentemente do que insinuou Ramos, porém, em nenhum momento a ex de Freixo alegou que ele a agredira fisicamente.

No dia seguinte, piauí procurou Marcelo Freixo para ouvi-lo sobre as acusações do correligionário. Falando do Recife, onde participava de um evento, o deputado começou de leve. “Não quero dar corda ao Paulo Ramos, ele já assinou sua sentença de morte.” Mas, em seguida, irritou-se. “Sou presidente da Comissão de Direitos Humanos porque tenho um trabalho nessa área e porque o PSOL tem a quinta maior bancada da Alerj”, afirmou. “Ele é que preside a Comissão de Trabalho na cota do Picciani.”

Freixo diz que os membros do comitê contra a tortura são eleitos (“Não tem nada a ver com cargos”) e disse que não instalou a CPI dos Incentivos Fiscais por não querer fazer parte de uma comissão “politicamente manipulada”. Afirmou que não bateu na ex-mulher, e concluiu ironizando o colega. “Ramos está desesperado porque nunca mais vai se eleger para nada. Ele só é deputado por minha causa, mas nunca falei isso porque, uma vez aqui dentro, todo mundo é igual.”

 

Ex-major da PM, Ramos se elegeu deputado a primeira vez em 1986, pelo PDT, partido que trocou pelo PSOL de Freixo em 2013. Foi convidado por defender servidores públicos, ser contra a concessão de blocos de petróleo para empresas privadas e se opor às reformas trabalhista e previdenciária. Nas eleições de 2014 teve pouco mais de 18 mil votos, o pior resultado da carreira. De fato, só garantiu a cadeira na Assembleia puxado pelos 350 mil votos de Freixo.

Ramos atribuiu o desempenho eleitoral ao partido cujas cores passou a defender. “Muitos eleitores meus não queriam votar no PSOL”, alegou. O deputado, porém, disse não se arrepender de ter se filiado ao partido e nem de ter votado pela libertação de Picciani, Melo e Albertassi. “Não faço minhas escolhas pensando em voto. E daí se eu não for mais eleito? Não vivo disso”, afirmou Ramos, que recebe aposentadoria da Polícia Militar e de ex-deputado federal.

Pedir desfiliação do PSOL não está em seus planos. Pela lei eleitoral, se o fizer, terá de deixar o mandato para a legenda. Se o partido o expulsar, perderá uma cadeira na Assembleia. Ramos parece se divertir com a nova briga que comprou. “Quero ver o PSOL ir à Justiça reivindicar meu mandato.” O Comitê de Ética do partido deve avaliar em dezembro o pedido de expulsão de Ramos.

Malu Gaspar

Malu Gaspar, repórter da piauí, é autora do livro Tudo ou Nada: Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X, da Editora Record

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