Principal liderança da política fluminense hoje, Picciani vê o cerco da Lava Jato apertar. Em dezembro, ele visitou o aliado Sérgio Cabral em Bangu: “Rezamos um Pai-Nosso”, contou
Ver dados da foto Principal liderança da política fluminense hoje, Picciani vê o cerco da Lava Jato apertar. Em dezembro, ele visitou o aliado Sérgio Cabral em Bangu: “Rezamos um Pai-Nosso”, contou FOTO: DARYAN DORNELLES_2017

O rei do gado

A trajetória política e os negócios privados de Jorge Picciani, o mais longevo presidente da Assembleia fluminense
Malu Gaspar
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Principal liderança da política fluminense hoje, Picciani vê o cerco da Lava Jato apertar. Em dezembro, ele visitou o aliado Sérgio Cabral em Bangu: “Rezamos um Pai-Nosso”, contou FOTO: DARYAN DORNELLES_2017

Os estampidos e o cheiro das bombas de gás lacrimogêneo que estouravam do lado de fora invadiram a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, a Alerj, naquele início de dezembro. As galerias que circundam o plenário, em geral abertas ao público, estavam às moscas. Quem olhasse em direção aos pisos superiores do quase centenário Palácio Tiradentes via passar correndo de um lado para o outro homens da Força Nacional, com seus uniformes camuflados e capacetes negros, carregando caixas de munição. Nos corredores, a nuvem de fumaça e poeira provocava espirros e irritação nos olhos. A segurança havia distribuído máscaras hospitalares a deputados, funcionários e jornalistas, mas quase ninguém as portava. No plenário não se viam expressões de susto ou preocupação. Naquele momento, a sede da Alerj estava cercada por três fileiras de grades, 500 soldados e um Caveirão. Do lado de fora, a razão do tumulto eram os violentos protestos contra o ajuste fiscal do governo do estado. Do lado de dentro, o debate pegava fogo, mas por outro motivo. Votava-se uma emenda que autorizava secretários, subsecretários e dirigentes de autarquias e fundações a receber salários acima do teto do setor público, de 27 mil reais. Alguns, emprestados de estatais e autarquias federais, acumulavam rendimentos que lhes permitiam embolsar 70 mil reais ou mais por mês. “É esse governo, com esses salários altíssimos, que está mandando fechar restaurante popular para economizar 1 ou 2 milhões por mês?”, bradava Marcelo Freixo, do PSOL. Até Cidinha Campos, da base governista, se revoltou. “Será que não ouviram as bombas? Será que acham que podem enfiar pela garganta da população um discurso que defende um salário de 70 mil reais?”

Num gesto raro, o presidente da Assembleia, Jorge Picciani, do PMDB, abandonou a cadeira de espaldar alto, de onde costuma ver todo o plenário, e desceu a passos rápidos até o microfone, à direita. Normalmente, ele preside a sessão nas votações mais importantes e vai embora cedo, deixando a pauta menos relevante para os colegas de mesa. Como quase nunca desce ao púlpito para falar, os parlamentares ligaram as antenas. Alto e encorpado, o deputado tem o rosto grande, bochechas caídas, olhos claros e uma papada que atrai a atenção do interlocutor. A fala rápida e a voz grossa e anasalada, aliadas à péssima acústica do local, tornavam difícil entender o que Picciani dizia. “Se não aprovarmos esse destaque, estaremos colocando na rua amanhã o secretário de Fazenda, o secretário de Educação, o presidente do Rioprevidência, o secretário do Planejamento, e daremos razão ao governador ao dizer que esta Casa quer impedi-lo de governar. Não será com essa economia que se poderá votar, depois, um projeto de transição.” O esforço para defender a emenda foi em vão. Poucos minutos depois, os supersalários foram derrubados.

Picciani não se abalou. Terminada a votação, saiu rapidamente pelos fundos e foi para o seu gabinete, de onde partiu para outros compromissos fora do Parlamento. O pacote do governador Luiz Fernando Pezão, o deputado sabia, estava condenado ao fracasso – o próprio Picciani decretara sua inviabilidade. Perto de completar 62 anos, no dia 25 de março, ele é o político que por mais tempo comandou a Alerj na história do Rio de Janeiro. Desde que foi eleito deputado estadual pela primeira vez, em 1990, já presidiu a casa cinco vezes. Em fevereiro, foi eleito para o sexto mandato, com 64 de 70 votos. Num sistema de governo em que o Executivo depende da aprovação do Legislativo para as iniciativas mais relevantes, sua importância já seria grande mesmo que o deputado não fosse quem é. Ao longo do tempo, porém, ele construiu uma liderança tão forte que um ex-secretário de Pezão me disse, certa vez, que na Alerj não existem partidos, oposição ou governo. “Só existe o partido do Picciani.”

Nas atuais circunstâncias da política fluminense, Jorge Sayed Picciani (o Grego, na planilha da Odebrecht, ou o Italiano, para lembrar o apelido colocado pelo grupo do ex-governador Sérgio Cabral) é a única voz ativa em meio ao caos financeiro e político. Cabral, aliado por mais de vinte anos, está preso desde novembro em razão da Operação Calicute, braço da Lava Jato. Outro ex-governador, Anthony Garotinho, que chegou a ser preso em novembro, acusado de compra de votos, hoje conserva apenas um resquício da liderança de outros tempos. Pezão, em tese no comando, encastelou-se no Palácio Guanabara. Em novembro, a Assembleia decretou estado de calamidade financeira no estado, cujo rombo em 2017 será de 26,1 bilhões de reais – dos quais 13 bilhões só na Previdência. A cifra corresponde a quase cinco meses de arrecadação de impostos, e não para de engordar.

É um déficit anunciado desde 2014, quando a economia brasileira começou a desacelerar. Em vez de cortar custos e racionalizar despesas, às vésperas da eleição Pezão reajustou – com o aval da Assembleia – os salários de 41 categorias de funcionários em até 63%. Ao constatar que faltariam recursos para pagar a Previdência, o governo fez, em 2013 e 2014, diversas emissões de títulos para financiar as aposentadorias, dando como garantia a arrecadação de royalties do petróleo em contratos hoje sob suspeita de fraude. A queda na arrecadação deixou evidente que, nas gestões Cabral e Pezão, os contribuintes financiaram uma farra de incentivos fiscais que concedeu 185 bilhões de reais a todo tipo de atividade econômica, das mais relevantes às menos significativas, de grandes indústrias a churrascarias e bordéis. Com a recessão e a queda no preço do petróleo, fornecedores, credores e funcionários deixaram de ser pagos, e o estado entrou em colapso.

Quando dezembro começou, o governo do Rio ainda devia aos servidores uma parcela dos salários e aposentadorias de outubro. Faltavam insumos nos hospitais, faltava dinheiro para as universidades e para o combustível dos carros da polícia. Era preciso tomar medidas urgentes. Pezão enviara à Assembleia um duro pacote de ajuste, com elevação de impostos, descontos nos salários dos servidores e aumento da contribuição previdenciária. Mas não se deu ao trabalho de negociar a aprovação com deputados e lideranças sindicais. Conseguiu piorar ainda mais o ambiente político, já tumultuado pelas descobertas da Lava Jato sobre os desvios praticados por Cabral e companhia. Irritado, Picciani lavou as mãos. Alegando inconstitucionalidade, devolveu oito das 22 medidas propostas pelo governador assim que chegaram ao Parlamento. As outras ou seriam derrubadas ou modificadas. E, um dia antes de abrir as votações, deu uma entrevista ao portal UOL. “Não tem governo, não tem quem coordene, o governador nada entende. O estado é de uma desorganização… Não era assim não, mas conseguiram fazer uma balbúrdia no estado que não é simples”, afirmou.

Picciani havia acabado de rejeitar os últimos pedidos de impeachment de Pezão que ainda tramitavam no Legislativo, mas nos bastidores só se referia a ele como “burro” ou “um desastre”. No final de janeiro, durante um almoço em um hotel de Copacabana, o deputado me explicou por que deixou que o pacote desandasse no Parlamento. “Eu só defendo o que acredito. Aquilo era uma trapalhada.”  Pezão se negou a falar para esta reportagem.

 

Filho de um casal de confeiteiros de Anchieta, bairro do subúrbio na divisa com Nilópolis, Jorge Picciani fez carreira na Baixada Fluminense, até hoje sua base eleitoral. De seus três filhos adultos, dois deles estão na política: Leonardo, de 37 anos, deputado federal licenciado, ex-secretário de Habitação de Sérgio Cabral, atual ministro do Esporte; e Rafael, 30, deputado estadual que também integrou o primeiro escalão de Cabral e de Eduardo Paes. Felipe, 36, toca os negócios da família. Somados, os patrimônios do pai e dos dois filhos políticos passam dos 27,5 milhões de reais, segundo declararam ao Tribunal Regional Eleitoral. A família é sócia em várias empresas. A mais importante, e que pertence apenas aos Picciani, é a Agrobilara, famosa pelos leilões de gado. Eles também são donos de duas mineradoras – a Tamoio, que fornece brita para obras em todo o estado, incluindo as do parque olímpico carioca, e a Coromandel, detentora de direitos de lavra para a exploração de fosfato em Minas Gerais. A empresa de pecuária rendeu a Picciani o apelido de “Rei do gado”; a Tamoio, de “Rei da brita”. Juntas, as três empresas têm capital social de 77 milhões de reais. É na Tamoio que Picciani tem como sócio Walter Faria, o dono do Grupo Petrópolis, fabricante da cerveja Itaipava, que recebeu 687 milhões de reais em incentivos fiscais nos governos do PMDB.

De 1998, quando declarou à Justiça Eleitoral possuir 538 mil reais em bens, até 2014, quando o montante atingiu 10,4 milhões, o patrimônio do deputado aumentou 1 951%. Ao longo dos anos, Picciani foi alvo de pelo menos três investigações do Ministério Público e dois inquéritos na Receita Federal, todos sob suspeita de enriquecimento ilícito. O fisco o multou duas vezes por irregularidades relativas aos anos de 1997 e 1998, mas ele derrubou as sanções no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, o Carf. Uma prescreveu; a outra, julgada pelo conselho, não apresentou evidências de malfeito. Depois disso, a Receita nunca mais o investigou. Os inquéritos do MP também foram todos arquivados – com exceção de um, retomado no ano passado.

O Picciani dos primeiros tempos vivia no subúrbio, começou a vida como fiscal de renda no estado de Mato Grosso e, segundo o ex-aliado Garotinho, fez as primeiras campanhas circulando pela cidade num Corcel velho. O Picciani atual anda de Porsche Cayenne, frequenta restaurantes caros e gosta de degustar vinhos. Ainda trabalha muito, preferindo as fazendas da família às viagens ao exterior. E continua falando assembreia e bicicreta. Outra coisa que mantém, convicto, é a papada. Assessoras insistem para que o deputado faça uma cirurgia plástica, mas ele resiste. Não vê necessidade. Sua vida amorosa nos últimos anos foi movimentada. Em 2011, depois de três décadas de casamento com Márcia, mãe dos mais velhos, teve um filho com Juliana Vogas, uma ex-assessora – Arthur, hoje com 5 anos. Em 2014, casou-se com Hortência da Silva Oliveira, então com 26 anos, que conhecera como assessora do PMDB.

A papada segue intacta, mas o novo relacionamento fez com que Picciani adotasse algumas mudanças no visual. Trocou os ternos escuros e monocromáticos por combinações mais coloridas e ousadas – terno azul-claro com camisa branca e gravata amarela é uma de suas preferidas. Passou a usar mais sapatênis e trocou boleros pelo sertanejo universitário na trilha sonora do carro. Em sua página do Facebook, exibe mensagens românticas e fotos com a mulher. No Réveillon de 2014, por exemplo, ao lado de uma foto em que aparece de branco abraçando Hortência, ele escreveu: “Eu e meu amor comemorando mais um novo ano. Feliz 2014 a todos, com saúde paz harmonia e muita felicidade.” Entusiasmado com a vida de casado, ele agora pensa em ter mais um herdeiro.

As bodas, realizadas em uma casa de eventos da Barra da Tijuca em maio de 2014, contaram com 700 convidados. Em ano de eleição presidencial, a festa foi prestigiada por Aécio Neves, candidato de Picciani, Sérgio Cabral, Eduardo Paes, Eduardo Cunha, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Nuzman, e dezenas de políticos de todas as estirpes. Durante a cerimônia, celebrada por um pastor evangélico, um drone despejou sobre o altar uma chuva de pétalas de rosa. No momento mais surpreendente da festa, na pista de dança em cujo piso se viam as iniciais dos noivos, o casal executou uma coreografia ensaiada em segredo, ao longo de três meses – o Xote da Alegria, do grupo de forró Falamansa. No último passo, apoteótico, o noivo ergueu a noiva em seu colo, toda sorridente, com os pés apontando para cima.

 

O bom desempenho eleitoral do clã Picciani no Rio é garantido por um grupo coeso de prefeitos e militantes que o reverenciam. Max Lemos, ex-prefeito de Queimados, na Baixada Fluminense, que acaba de eleger o sucessor, é o mais próximo, o mais antigo e possivelmente o mais fiel deles. Filho de um antigo militante comunista – seu nome é uma homenagem a Karl Marx, e seus irmãos se chamam Lenine e Leonel –, Lemos começou na política pelo PDT, assim como Picciani, e desde então seguem juntos. Num almoço recente, ele discorreu longamente sobre o aliado, enquanto tomava um espumante. “O Picciani construiu essa liderança sendo solidário. Sabe essas histórias de cacique que pega uma parte do salário do assessor, que pede dinheiro para dar apoio? Com ele não tem isso. O Picciani nunca te abandona e não te deixa faltar nada”, contou Lemos. O aliado estima que, dos treze prefeitos da Baixada, oito sejam ligados ao peemedebista. No estado, segundo ele, a força do deputado é ainda maior. “Eu diria que, dos 92 prefeitos, mais de sessenta admiram o Picciani e têm vontade de ouvi-lo”, diz Lemos.

A lealdade é tal que, no início de 2014, quando Rafael, o filho, e Jorge, o pai,  cogitavam disputar as eleições para o mesmo cargo, o de deputado estadual, Lemos organizou uma reunião com 200 aliados num salão de festa na Barra da Tijuca. Ao final, decidiram dividir o eleitorado. “O Rafael ficou com a capital e o Jorge com a Baixada”, conta o ex-prefeito de Queimados. Ambos foram eleitos, exatamente como fora previsto. Picciani-pai teve 76 590 votos, dos quais a maior parte em Queimados. Rafael Picciani teve 63 073, mais concentrados na capital.

A escalada de Jorge Picciani começou já no primeiro mandato, em 1990. Eleito pelo PDT, foi secretário de Esportes de Brizola, que o escolheu por seu bom relacionamento com os jornalistas, e fez reformas no Maracanã e no Maracanãzinho. Em 1995, depois que o grupo político de Brizola perdeu as eleições para o tucano Marcello Alencar, Picciani se transferiu para o PMDB e passou a integrar a base do novo governo. O partido, então presidido pelo ex-governador Moreira Franco, tinha apenas sete deputados e era visto como uma legenda decadente. Picciani ajudou a reorganizá-la e a atrair filiados. Em 1994, Sérgio Cabral tinha sido eleito deputado estadual pelo PSDB com votação recorde; tornou-se presidente da Alerj e chamou Picciani para ser seu primeiro-secretário. Na função, ele administrava os recursos e os cargos do Parlamento. “Cabral não tinha a menor paciência com o varejão dos pedidos de favores, cargos e dinheiro. Precisava de alguém organizado e inteligente para administrar isso pra ele. O Picciani tinha organização, paciência e talento”, contou um dos políticos que acompanhou a escolha.

A aliança forjada por Picciani e Cabral nos primeiros anos de Assembleia continuou ao longo das décadas seguintes. Em 1999, Cabral transferiu-se para o PMDB e, em 2002, foi eleito senador. Picciani então assumiu a presidência do Legislativo, e desde então só se afastou entre 2010 e 2014, porque perdeu a eleição para o Senado. Na dinâmica da dupla, os papéis eram claros. Cabral disputava os cargos executivos e ocupava a ribalta nacional; Picciani, mais afeito aos bastidores, garantia a retaguarda no Legislativo e reinava regionalmente. O deputado administrava a máquina peemedebista e a Assembleia de modo a garantir o apoio necessário para o governo Cabral funcionar, negociando nomeações e liberação de verbas. “A presidência da Assembleia é uma coisa muito forte. Nada funciona se a Alerj não funcionar. Nem o governo”, comentou em janeiro Aloysio Neves, ex-assessor de ambos, hoje presidente do Tribunal de Contas do Estado.

Apesar da ligação quase simbiótica, Picciani me corrigiu quando comentei que ele e Cabral eram amigos. Disse que ambos mantêm uma “relação de respeito”. “Tive muito menos poder no primeiro governo Cabral do que nos governos Rosinha e Garotinho. Você viu aí um monte de filmagens, fotos e tudo, e eu nunca estava. Eu fui em alguma viagem?”, perguntou, numa referência às célebres imagens em que Cabral, secretários de estado e o empreiteiro Fernando Cavendish aparecem com guardanapos na cabeça, depois de um jantar festivo em Paris. “Cabral fazia o que queria, mas me respeitava. Porque sabia que, se eu ficasse contra, ele podia perder. E eu tinha coragem de ficar contra. Minha diferença é que não estou preso a esses caras.”

 

Entre os inimigos que Picciani fez na política, poucos são tão obstinados como Anthony Garotinho. O ex-governador dedica ao presidente da Alerj o mesmo coquetel de ódio e desprezo que oferece a Sérgio Cabral. Os dois são vilões constantes no blog que ele mantém, sempre em posts com alguma denúncia ou crítica. Garotinho emprega boa parte de seu tempo recolhendo informações sobre contratos, empresas e bastidores da gestão peemedebista no estado. O material, incluído num dossiê de mais de 400 páginas, foi entregue a procuradores da Lava Jato em Brasília – e o ex-governador tem certeza de que deu subsídios à prisão de Cabral. Em dezembro passado, ele me recebeu em seu escritório na emissora Palavra de Paz, no Centro do Rio. Fazia alguns dias que a ordem de prisão domiciliar contra ele havia sido revogada e seu bom humor era evidente. Ao se inteirar do foco da minha reportagem, foi logo dizendo que não sabia se nossa conversa teria algum proveito. “O Picciani vai ser preso, nem sei se dá tempo de sua matéria sair antes.”

Garotinho e Picciani se conhecem há décadas, desde que, nas palavras do ex-governador, o deputado “era um duro”. Quando ele foi eleito governador, em 1998, Cabral e Picciani já comandavam a Assembleia, e seu primeiro impulso foi o de procurar distância da dupla. O deputado Chico Alencar, do PSOL, que na época integrava o PT e apoiava Garotinho, me contou ter participado de uma reunião com o governador recém-empossado para discutir as eleições na Alerj. “O Garotinho fez um discurso dizendo que era preciso combater Cabral e Picciani para quebrar a espinha dorsal da corrupção no Rio. No final, o candidato do governador nem concorreu e ele acabou apoiando Picciani.” Ao saber do relato de Alencar, Picciani disse que o achava verossímil. “Quem me queria não era o governador, e sim os deputados.”

Os primeiros meses foram de conflito. Depois de reduzir as tarifas de ônibus em 15%, Garotinho afirmou ter recebido uma ligação do telefone vermelho da Assembleia: um assessor do Legislativo, dizendo atuar em nome da Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro, a Fetranspor, teria lhe oferecido propina para revogar a medida. Nos bastidores, Garotinho acusava Cabral e Picciani de formarem a “bancada da Fetranspor”, exigindo o comando da Secretaria de Transportes para favorecer a entidade. O governador sustentava suas acusações com base no fato de Picciani ter sugerido e aprovado emendas que beneficiavam as empresas de ônibus, como a redução de 90% no pagamento de ICMS. Para os peemedebistas, Garotinho queria quebrar as empresas do Rio a fim de apadrinhar a de um amigo que operava linhas entre a capital e o interior. O bafafá desembocou no pedido de abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar a existência de uma “caixinha” das empresas de ônibus destinada aos deputados. A ideia, porém, logo morreu: em questão de dias a CPI foi rejeitada na Alerj por 49 votos contra 16. Picciani votou contra a CPI.

Os atritos persistiram até as eleições municipais de 2000, quando foram derrotados todos os candidatos de Garotinho. Enfraquecido, o governador teve de atender aos pleitos do PMDB. Para fechar uma aliança, nomeou secretários e cedeu cargos ao partido. Funcionou até Cabral ser eleito governador, em 2006. Era para ser um governo de continuidade, mas, assim que assumiu, Cabral renegou a família Garotinho e – o antecessor nunca duvidou – mandou cooptar seus correligionários. Por um tempo, Anthony Garotinho ainda permaneceu no PMDB, com o apoio de Picciani. Depois romperam definitivamente. “Quem diz que apoia o Picciani é porque gosta de dinheiro. Ser apaixonado pelo Picciani é a mesma coisa do que ser apaixonado pelo dinheiro”, disse Garotinho.

O deputado estadual André Lazaroni, do PMDB, foi um dos que chegou à Assembleia com aversão a Picciani. “Eu, playboy da Zona Sul, tinha nojo dele. Com o tempo, fui mudando minha percepção”, explicou. Filho de um empreiteiro e de uma escritora que ajudou a fundar o Partido Verde, Lazaroni elegeu-se deputado estadual pela primeira vez em 2002, aos 25 anos, pelo mesmo PV da mãe. Aos 40 anos, já pode ser considerado veterano na Assembleia. Ele é do tipo pilhado: fala alto, gesticula bastante e quase não para na cadeira. Numa entrevista em seu gabinete, no início de fevereiro, o deputado contou como o cacique do PMDB quebrou sua resistência. “Ele não te engana. Se diz sim, é sim. Se falar não, é não. Cumpre o que promete, é generoso. Uma vez, chamou o prefeito de Macaé e pediu que carreasse os votos de lá não para ele, Picciani, mas para mim. E eu recebi 6 mil votos numa cidade onde não tinha nenhuma base eleitoral.”

No dia seguinte à nossa conversa, Lazaroni se tornou secretário de Cultura de Pezão – uma nomeação incluída na cota de Picciani e atribuída à barganha entre o governo estadual e a Assembleia para a aprovação do novo pacote de ajuste exigido pelo governo federal para socorrer financeiramente o Rio. Com a indicação de aliados para as secretarias de Cultura, da Casa Civil e de Ciência e Tecnologia, Picciani ampliou sua área de influência de seis para nove das 20 secretarias de governo. Segundo as lendas repetidas entre os políticos e lobistas fluminenses, o presidente da Alerj controlaria 3 mil cargos comissionados no estado. Considerando que são cerca de 8 500 vagas, a estimativa não serve para muita coisa além de sugerir que, nesse caso, a fama supera o indivíduo.

 

O atual presidente do Tribunal de Contas do Estado, Aloysio Neves, trabalhou por dezesseis anos na chefia de gabinete da presidência da Assembleia e serviu tanto a Cabral como a Picciani. Neves garante que Picciani nunca lhe pediu nada. Até 2015, porém, empregava a mulher do deputado como assessora. Hortência saiu do tribunal para montar uma empresa, mas a vaga ficou com sua irmã, Lizandra da Silva Oliveira. Ambas trabalharam ao lado de Nusia Ancelmo, a irmã da ex-primeira-dama Adriana Ancelmo, que se desligou do cargo após as prisões de Cabral e sua mulher.

O presidente do TCE parece um personagem saído de uma coluna social dos anos 80 – aliás, ele chegou a trabalhar numa delas. Amante de arte, bons livros e boa música, anda sempre empertigado, envergando ternos impecáveis. Usa óculos de aros redondos e armação moderna, e não aparenta os 71 anos que tem. Quando era jornalista e figura conhecida na noite carioca, foi preso em flagrante por tráfico de drogas. A polícia encontrou maconha, cocaína e seringas em seu apartamento. Neves sustentou que o flagrante foi forjado e acabou absolvido pelo Tribunal de Justiça com a concordância do Ministério Público, mas o caso serviu de munição aos opositores de Picciani na tumultuada sessão da Alerj que deliberou sobre sua nomeação para o tribunal, em 2010. Muito barulho por nada: o deputado fez prevalecer sua vontade e o afilhado foi escolhido conselheiro por 54 dos 70 deputados estaduais. Em 2015, Picciani fez mais um conselheiro, o então deputado estadual do PMDB Domingos Brazão, contra quem pesavam acusações de improbidade, compra de votos e envolvimento com milícias. Munido de uma pilha de certidões de Nada Consta, o apadrinhado de Picciani disputou e venceu. No final de 2016, depois que o então presidente da corte, Jonas Lopes, foi alvo de condução coercitiva na Operação Calicute, Aloysio Neves assumiu o lugar dele. Neves define Picciani como um político “intuitivo” (“Às vezes parece que tem um índio velho falando no ouvido dele”), que mantém a liderança na base do diálogo. “Mesmo quando há um projeto com o qual não concorda, ele ouve, dá espaço para a oposição”, garante o aliado. Um exemplo, para Neves, seria a relação entre Picciani e o líder do PSOL, Marcelo Freixo. “O Freixo deve a ressonância do mandato dele à CPI das milícias, criada na gestão Picciani. Sem a CPI, ele não seria quem é hoje”, disse. O presidente do TCE se refere à Comissão Parlamentar de Inquérito presidida por Freixo em 2008, que, além de indiciar vários milicianos e levar à cassação do mandato de vários parlamentares, fez do deputado uma estrela da política. Por sua atuação na CPI, Freixo inspirou o personagem Diogo Fraga, o deputado do filme Tropa de Elite 2.

O líder do PSOL não reconhece nenhum débito com Picciani. “A CPI foi proposta em 2007 e ficou meses na gaveta. Só foi aberta em 2008, depois que os repórteres do jornal O Dia foram sequestrados e torturados por milicianos. Eu havia assinado o pedido e, pela regra, seria presidente. O Picciani não me fez favor nenhum. Se fiquei conhecido, foi pelo meu trabalho.” Foi também sob Picciani que Freixo assumiu a presidência da Comissão de Direitos Humanos. O antecessor, Alessandro Molon, perdeu o cargo depois que uma fiscalização do Ministério do Trabalho flagrou 41 camponeses em situação análoga à escravidão na fazenda dos Picciani em Mato Grosso. Na ocasião, Molon recebeu na sede do Parlamento uma comissão de artistas que foi entregar um manifesto contra o trabalho escravo. Para encerrar o caso, o deputado assinou um termo de ajuste de conduta com o Ministério Público, pelo qual aceitou gastar até 250 mil reais em eventos de combate ao trabalho escravo.

Molon nunca mais voltou a presidir a Comissão de Direitos Humanos. Freixo continua no comando e é autor de dois projetos de lei em parceria com o presidente da Alerj – um substituindo a revista íntima nos presídios por verificação com scanners corporais, outro criando os comitês de prevenção à tortura no Parlamento. “Eu o convidei para assinar o projeto comigo por uma razão muito simples: queria garantir que fossem aprovados. Se preciso me associar ao Picciani para combater a tortura, eu vou fazer isso”, disse Freixo.

Para ressaltar que ambos não bebem da mesma fonte, o líder do PSOL lembrou que sua bancada sempre votou contra Picciani nas disputas para a presidência da Alerj. Em 2009, porém, ao declarar o voto, Freixo fez um volteio retórico que incomodou correligionários: “O voto do Partido Socialismo e Liberdade é contrário, mas fica aqui o reconhecimento pelos avanços conquistados e pelo espaço político recebido.” Picciani devolveu a gentileza no discurso de posse, disponível em vídeo na internet. “O deputado Marcelo Freixo não pôde [votar em mim], por uma decisão partidária. […] Expresso minha gratidão e reconhecimento pelo pronunciamento – que mostra que, se fosse um voto de decisão pessoal, ele teria, pelo trabalho que a mesa fez, votado [em mim].”

 

No processo que culminou com o impeachment de Dilma Rousseff, Jorge Picciani quase apostou no cavalo errado, mas soube se reposicionar a tempo de sair vencedor. Mesmo tendo ficado ao lado de Aécio Neves nas eleições de 2014, integrando o movimento conhecido como Aezão – junção dos nomes de Aécio para presidente com Pezão para governador –, em 2015 Picciani procurou Dilma Rousseff para propor uma aliança. Na ocasião, estava em conflito com Eduardo Cunha e Michel Temer.  Seu filho Leonardo havia derrotado um aliado de Cunha na disputa pela liderança da bancada do PMDB na Câmara, meses antes, e agora Cunha, com a ajuda de Temer, tramava sua destituição. Picciani não teve dúvidas. Por intermédio de Pezão e do prefeito do Rio, Eduardo Paes, cavou um encontro com Dilma.

“Eu quero te ouvir”, ela disse, segundo ele me contou. Em uma manhã de agosto de 2015, Picciani foi recebido para um café da manhã no Palácio da Alvorada. Era uma deferência rara da presidente da República a um político de expressão regional – o filho, o deputado federal Leonardo Picciani, também estava presente, mas era o pai que a presidente queria conquistar. A liderança de Cunha fizera do Congresso um campo minado para o governo. Jorge Picciani fora, durante anos, aliado de Cunha e o conhecia como poucos. Ele achava que Dilma estava sendo muito lenta e evasiva nas negociações com os deputados, e foi direto: “Presidente, [para sair da crise] tem que fazer que nem burro no atoleiro”, disse, levantando o corpanzil da cadeira e gesticulando com os dois braços para a frente. “Define a direção e vai com tudo. Se bambear, atola”, contou ele, na época. Dilma teria entendido o recado: “Agora é comigo”, ela respondeu.

Na memória de um dos auxiliares palacianos presentes ao encontro, a abordagem de Picciani foi bem menos conceitual. “Ele disse que Temer e Cunha estavam armando contra Dilma e que o fortalecimento dos dois iria enfraquecê-lo no PMDB. Por isso, ele nos apoiaria desde que ajudássemos Leonardo a se reeleger líder e atendêssemos aos pedidos da bancada do Rio.” Dilma nomeou dois peemedebistas ligados a Picciani para o ministério, o deputado federal Celso Pansera, para a Ciência e Tecnologia, e Marcelo Castro, para a Saúde. E em fevereiro Leonardo foi eleito líder do PMDB com a ajuda do Planalto. Picciani-pai, assim como Paes e Pezão, saiu a campo combatendo o impeachment.

O esforço, porém, durou pouco. Quando março chegou, Dilma estava ainda mais fragilizada pela desastrada nomeação de Lula para o ministério, e as manifestações populares pelo impeachment cresciam. Foi então que Picciani mudou de ideia. “Eu vi que ela não teria capacidade de reverter a crise, tá entendendo?”, explicou, em janeiro passado. O movimento seguinte foi procurar Temer para um armistício, patrocinado pelo aliado no Rio, Moreira Franco.

Apesar de certa resistência de parte do time a incorporar Picciani, Temer acabou cedendo. Convenceu-se dos argumentos apresentados por Moreira Franco, que sustentava ser essencial o apoio do Rio de Janeiro naquele momento, não tanto pelo número de votos, onze, mas também pela repercussão que a virada de casaca de Picciani teria no Congresso. Picciani jogou duro ao negociar a contrapartida que os cariocas teriam. Disse que aceitaria apenas o ministério do Turismo ou o do Esporte, dada a proximidade das Olimpíadas, mas objetou que, naquele momento, seu filho, Leonardo, não queria o cargo para si. Temer ensaiou então indicar o bispo licenciado Marcos Antônio Pereira, do PRB do Espírito Santo, mas Eduardo Paes protestou: Pereira, aliado em outros momentos, vitaminaria Marcelo Crivella (PRB), bispo da Universal, adversário do PMDB nas eleições municipais. Como alternativa, Temer pediu a Moreira Franco que perguntasse se Picciani aceitaria apadrinhar o ex-ministro Henrique Alves, peemedebista que nasceu no Rio, mas fez carreira no Rio Grande do Norte. “Eu respondi: ‘Aceito, mas transfere as Olimpíadas pra Natal.’ O Moreira disse: ‘Pô, você é foda.’ Depois me ligou de volta e falou: ‘O Temer vai chamar o Leonardo em meia hora. Agora, se ele não aceitar, acabou.’”

Às vésperas da votação na Câmara, Leonardo Picciani liberou o PMDB fluminense para apoiar o impeachment. Ele e Celso Pansera votaram contra o impeachment, alegando questão de consciência, pois fizeram parte do governo, mas todos os outros sete deputados foram a favor. Quando assumiu o Planalto, Temer deu a Leonardo Picciani o Ministério do Esporte. O clã estava de novo no governo – e, desta vez, alguns escalões acima de ocasiões anteriores. Meses depois, em janeiro, perguntei a Moreira Franco se ele achava que Picciani tinha atração por governos. Ele assentiu, completando com uma variação do famoso aforismo de Ortega Y Gasset: “O homem é o homem e suas convicções – ou a falta delas.”

 

Para a maior parte dos cariocas, aquela era apenas mais uma tarde ensolarada de um dia de verão no Rio de Janeiro. Para Jorge Picciani, era um dia especialmente difícil num dos bairros mais quentes da cidade. Na tarde de 8 de dezembro, ele desceu do carro sob um sol infernal no estacionamento do Presídio Pedrolino Werling de Oliveira, conhecido como Bangu 8, para visitar Sérgio Cabral. Dias antes, havia declarado que, mesmo preso, o ex-governador era “o melhor quadro do PMDB”.

Enquanto estava solto, Cabral vinha tentando aparar as arestas entre Pezão e Picciani e colocar o PMDB do Rio de novo nos trilhos. Agora fora de combate, estava prestes a ver, da cadeia, seu partido e o governo de seu sucessor se esfacelarem sem poder fazer nada. No final de fevereiro, o presidente da Alerj me relatou o encontro, por e-mail. “Rezamos um Pai-Nosso e ele comentou as péssimas condições a que estava submetido. Depois, pediu ao filho para que levasse frango com quiabo e uma rodela de abacaxi de sobremesa, no sábado, quando é permitido à família levar alimentos. Ele estava muito abatido e ficou o restante do tempo abraçado ao filho, chorando. Logo em seguida chegaram os advogados.” Segundo Picciani, a visita durou vinte minutos, e não três horas, como alguns jornais publicaram. “Isso é maldade. Não basta prender, tem que ter crueldade.”

Nos dias seguintes, cada vez que lembrava o episódio, ele se emocionava, numa reação que podia ser de tristeza, mas também de tensão. Nos últimos meses, a Lava Jato vinha se aproximando do clã Picciani. A impressão dos aliados que o ouviam falar era de que a visita despertara no cacique uma espécie de “efeito Orloff” – expressão popularizada por um antigo comercial de vodca, em que o cliente de um restaurante dizia para o outro: “Eu sou você amanhã.”

 

“Esse animal é espetacular! Olha a carcaça, o porte. Vai arrasar lá na frente!”, exclamou Felipe Picciani, diante de uma bezerra quase toda cor de mel ao pé de uma vaca enorme. “A mãe não deu pista, mas a cria vai dar”, disse, referindo-se ao fato de que a progenitora não atingiu os parâmetros necessários para participar dos concursos realizados nas exposições do circuito Nelore. Uberaba, no Triângulo Mineiro, é a capital bovina do Brasil e também a sede administrativa da empresa agropecuária dos Picciani. A família ainda tem fazendas no município de Rio das Flores, no interior do Rio de Janeiro, e em Mato Grosso, na região do Alto Xingu. A do Xingu, a maior delas, foi arrendada para a soja em 2012. Nas terras do Rio já produziu leite no passado; hoje, não mais.

Do cercado em que estavam mãe e cria, ainda no pasto, Felipe, empolgado,  seguiu para os cochos e foi mostrando outros animais: Mônaco, Jandaya, Shakira. A cada apresentação, uma história e a declamação do pedigree. “Modéstia à parte, eu tenho olho para saber qual animal vai ser campeão e qual não vai.” Dos filhos de Jorge Picciani, ele é o único que se envolve no dia a dia da criação. Zootecnista, passa a maior parte da semana em Uberaba e conhece os animais em detalhes. É capaz de identificar uma vaca à distância e contar sua história. Em meio ao plantel há vários descendentes da vaca Bilara, uma grande reprodutora comprada em 1998, nos últimos anos de vida – mas que ainda forneceu embriões suficientes para fazer a fama da Agrobilara. “A Bilara foi nossa grande virada”, disse Felipe, durante uma visita à sede da fazenda.

Ao longo do almoço, o zootecnista demonstrou também conhecer cada transação de compra e venda realizada pela empresa. É ele quem agenda e organiza os leilões da Agrobilara desde 2003, quando a família entrou nesse ramo. Segundo Felipe, são pelo menos dez eventos por ano, sem contar as participações como convidados nos leilões de outros produtores. Numa conta simples, os Picciani já venderam gado em pelo menos 130 leilões, em treze anos de atividade. Parte deles ocorre só pela tevê, outros são realizados em locais badalados como o Copacabana Palace e o hotel Portobello, em Mangaratiba – resort no litoral sul fluminense que ficou famoso por abrigar a casa de praia de Sérgio Cabral. Todos são transmitidos pelo Canal Rural.

Frequentados por políticos e celebridades, como os atores Alexandre Nero e Murilo Benício (que também é sócio de Picciani), os leilões deram fama à Agrobilara. Felipe Picciani diz que os certames são a maior fonte de receita da empresa. Não conta, porém, qual é seu faturamento, nem quanto disso vem dos leilões. “A área financeira meu pai controla de muito perto. Só ele pode te dizer.” Ao voltar de Uberaba, pedi os números a Jorge Picciani, que listou diversas informações sobre as atividades da empresa – mas não revelou nenhum dado acerca das receitas.

 

Há algumas formas clássicas de lavar dinheiro no Brasil: ganhos forjados em loterias, compra de imóveis em nome de laranjas, aquisição de obras de arte e contratos falsos de consultoria são as mais manjadas. Igualmente conhecidas, porém mais difíceis de detectar, são as transações com gado. A atividade agropecuária paga pouco imposto – na maior parte dos casos, cerca de 5% sobre o faturamento. É fácil forjar grandes ganhos com vendas a preços altos, uma vez que a estimativa do preço de um animal pode ser carregada de subjetividade, como em um leilão, ou simular grandes perdas, já que sempre se está sujeito a prejuízos causados por praga, mau tempo ou acidente.

As normas para coibir a lavagem de dinheiro em negócios com gado foram implementadas em 2012. Desde então, qualquer pessoa que venda um touro por mais de 10 mil reais deve manter os registros da transação e, se faturar mais de 30 mil reais em espécie, deve comunicar ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf. Mas não há um sistema unificado e organizado de coleta dessas informações, como ocorre com bancos, cartões de crédito ou imóveis. Muitos negócios ainda são fechados em dinheiro vivo ou mediante troca – um touro por três bezerros, por exemplo. Sem emissão de nota fiscal ou guia de transporte. “Da forma como as coisas funcionam hoje, o Estado tem dificuldades em saber o que acontece no setor, a não ser que algum dos intervenientes comunique ao Coaf. E é claro que, se as partes estiverem lavando dinheiro em comum acordo, isso dificilmente vai ocorrer”, explicou Gerson Schaan, coordenador de inteligência da Receita Federal e um dos representantes da Fazenda na Lava Jato.

Ainda assim, foi uma transação de compra e venda de gado que atraiu a Lava Jato para a órbita dos Picciani. Em agosto do ano passado, quando a Olimpíada mobilizava o Rio, o acionista e diretor da Carioca Engenharia Ricardo Pernambuco Backheuser Júnior esteve na sede do Ministério Público, no Centro da cidade, para complementar sua delação premiada. Os donos da empreiteira – que integrou os consórcios para a construção de uma linha de metrô e a revitalização da zona portuária do Rio – já haviam entregado, meses antes, as provas de pagamento de 52 milhões de reais de propina a Eduardo Cunha, em contas secretas na Suíça.

Naquele dia, o principal assunto da pauta era uma compra superfaturada de vacas da Agrobilara. Entre 2012 e 2013, a companhia de gado de elite dos Picciani vendeu 160 vacas Nelore à Zi Blue, empresa agropecuária dos Pernambuco, por 3,5 milhões de reais. Dessa quantia, Picciani lhe teria devolvido 1 milhão em dinheiro vivo, por intermédio de um operador já conhecido da Lava Jato – José Augusto Ferreira dos Santos, dono do extinto Banco BVA.

Segundo depoimentos anteriores dos donos da Carioca, eles obtinham o dinheiro sujo a ser entregue aos políticos com outros operadores, como o empresário e lobista Adir Assad, preso em Curitiba. Fora dos autos, em conversas informais nos bastidores do depoimento, Backheuser Júnior disse que o negócio com a Agrobilara foi uma espécie de agrado a Picciani, feito por sugestão do peemedebista. Os animais haviam sido entregues, mas, àquela altura, Pernambuco nem sabia que destino haviam tido.

O sigilo sobre o relato do empreiteiro durou dois meses, até que o jornal O Globo publicou detalhes dele em outubro do ano passado. O depoimento de uma gerente financeira da empreiteira confirmou a história em linhas gerais, sem maiores detalhamentos. Picciani reagiu indignado, tanto naquela ocasião como no final de fevereiro, quando o questionei a respeito das afirmações. Por escrito, ele me respondeu o que já havia dito antes ao Globo: que a história seria fantasiosa, porque não faria sentido devolver à vista parte de um pagamento que foi feito a prazo, em duas transações diferentes. Mas, de fato, o preço das vacas compradas pela Carioca – mais de 21 mil reais por cabeça – estava bem acima do valor de mercado. Na época em que vendeu gado à Carioca, a empresa de Picciani liquidou outros 330 animais do mesmo plantel a 4 484 reais por cabeça, em média. Se tivesse comprado no leilão e não diretamente dos Picciani, a empreiteira teria pago menos de um quarto do valor, 717,5 mil reais, não 3,5 milhões.

Dois meses depois das delações dos donos da Carioca Engenharia, em dezembro, os executivos da Odebrecht no Rio de Janeiro começaram a falar. Entre eles estava Benedicto Barbosa Silva Júnior, diretor responsável pelas negociações com os políticos, preso pela Lava Jato em fevereiro de 2016. Foi na apreensão realizada no escritório de BJ, como ele era conhecido, que a Polícia Federal obteve planilhas com mais de 270 nomes de políticos. No material, o Grego é inserido na categoria dos “Históricos”, ao lado de Sérgio Cabral (Proximus) e Eduardo Cunha (Caranguejo). Após o nome de cada um deles, aparece a cifra 500 (mil reais) na coluna “valor total”. Pelo que se sabe até agora, BJ afirmou que o presidente da Alerj pediu dinheiro para campanha em três eleições. A informação foi publicada pelo jornal O Globo e confirmada à piauí por investigadores da Lava Jato. Ainda não está claro quais foram as campanhas nem o total pedido. O que BJ já disse é que o dinheiro foi enviado a Picciani pelo mesmo operador usado no caso da Carioca: José Augusto Ferreira dos Santos, dono do Banco BVA.

Picciani, que já havia contestado a história antes, se recusou a falar pessoalmente sobre o caso. Limitou-se a responder às perguntas por e-mail: “A delação da Odebrecht foi homologada pelo STF, nos próximos dias a sociedade vai conhecer. Conheço o Benedicto Júnior, mas os fatos estão mostrando que nunca atuei para ajudar; sequer fui procurado, pois nunca tive esse poder em nenhum governo.” O deputado também confirma conhecer o dono do BVA, mas diz que há muito tempo não tem notícias dele.

 

Obter um mapa completo das transações da Agrobilara em leilões é a próxima meta dos procuradores de Justiça do Rio que apuram a suspeita de enriquecimento ilícito e improbidade administrativa contra Jorge Picciani. O Ministério Público suspeita que parte das operações realizadas nos leilões da família possa ter servido para lavar dinheiro de fornecedores do governo estadual, ou para dissimular pagamentos ilegais desses fornecedores ao deputado. As informações recolhidas até agora mostraram que vários deles compraram gado da Agrobilara a preços recordes – e alguns, inclusive, não tinham nenhuma relação com a pecuária até serem introduzidos no negócio pelos Picciani.

O que acendeu o alerta do MP foi a compra de uma aspiração de óvulos da vaca Bonanza por 511 mil reais, no leilão do Copacabana Palace, em 2004. O vendedor era Jorge Picciani. O comprador, uma estreante, a SKR Agropecuária e Participações, que na mesma noite ainda comprou um embrião por 182 mil reais. A aquisição recorde foi celebrada nos blogs especializados – e o mais impressionante era que os compradores ainda nem tinham fazenda para colocar os bezerrinhos que estavam por nascer. Mas esse problema foi resolvido facilmente: os filhotes nasceram na sede da Agrobilara e lá ficaram até que a SKR comprasse a própria fazenda, ali mesmo em Uberaba. Em 2008, quatro anos depois da famosa aquisição, a SKR liquidou o plantel em um leilão. Vendeu  36 animais e saiu do mercado, arrecadando, em média, 44 835 reais por cabeça.

Acontece que um dos sócios da SKR é também dono de uma empresa acusada pelo TCE de desviar quase 8,7 milhões de reais, recursos recebidos por contratos com o Detran do Rio de Janeiro. Segundo o tribunal, a empresa recebeu o dinheiro entre 2003 e 2004, mas não prestou os serviços.

Ao saber da coincidência, o MP começou a investigar os leilões da Agrobilara. Os promotores pediram ao Canal Rural a relação das vendas, mas receberam apenas uma lista parcial com vinte transações. Dessas, onze foram para grupos com interesses financeiros no governo do estado. Só com essas vendas, a família Picciani arrecadou 3,7 milhões de reais.

Entre todos os negócios listados nas planilhas entregues ao MP, um em especial chamava a atenção: a venda de 50% do clone de uma vaca reprodutora por 1 milhão de reais, em 2006. Ninguém até então havia pagado tanto por um clone. A produção de cópias genéticas era tão recente no Brasil que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento não havia sequer estabelecido regras para o registro. E não eram muito valorizadas no mercado, porque costumavam envelhecer e morrer precocemente. Ainda assim, o empresário Paulo Afonso Trindade Júnior, neófito na pecuária, que nunca comprara um boi na vida, pagou o tal milhão para se tornar sócio dos Picciani no bezerro que circulava de um lado para o outro na imagem exibida na tela, no salão do Copacabana Palace.

Naquele momento, a principal atividade de Trindade Júnior era o fornecimento de computadores e sistemas de informática para o governo do Rio de Janeiro. Sua empresa, a Investiplan, fechara 2005 com 9 milhões de reais em contratos com o governo do Rio. Nos anos seguintes, passou a ganhar licitações para o fornecimento de laptops à Secretaria de Educação, área de influência de Picciani. Entre 2007 e 2009, foram quase 90 mil laptops, e a Investiplan passou a arrecadar entre 60 e 70 milhões de reais por ano. Em pelo menos uma das licitações, em 2008, era a única concorrente. E os jornais da época publicaram que os computadores eram 30% mais caros do que os equivalentes vendidos no varejo nas lojas do Ponto Frio.

Ao ser questionado sobre a relação com o dono da Investiplan, durante o almoço em Uberaba, Felipe Picciani desfez o sorriso que mantinha no rosto. “O Paulinho é meu amigo de muitos anos, a gente se conhece desde pequeno, da Barra da Tijuca. Ele viu que eu estava fazendo um negócio que dava certo e quis participar. Tanto é assim que eles continuam na pecuária até hoje, e fizeram da Nova Trindade uma empresa respeitada”, afirmou.

Ao longo de uma tarde de conversa, entre um cocho e outro, Felipe classificou como bobagem as suspeitas sobre as relações entre a Agrobilara e os fornecedores do estado. “Isso é coisa de gente que não entende o mercado de alta genética e nunca veio aqui para ver que os bois existem e a gente trabalha muito.” Para ele, os altos valores alcançados nos leilões, além de não serem atípicos, foram inflados pelo boom decorrente da boa fase vivida pela economia brasileira. Nos últimos três anos, porém, o mercado parece não estar mais tão pujante. Os Picciani diminuíram sua participação em leilões e arrendaram áreas de pastagem para a cultura da soja e da cana. Felipe Picciani contou que o clone adquirido por Paulo Trindade Júnior morreu em 2015, aos 9 anos, mordido por uma cobra no pasto. Os outros dois clones produzidos a partir da mesma linhagem morreram antes. Viveram bem menos do que os doze anos considerados normais para animais de elite.

 

A investigação que hoje incomoda o clã Picciani quase foi engavetada. Aberto em 2013, quando o presidente da Alerj estava sem cargo eletivo e não tinha direito a foro privilegiado, o inquérito civil público seguiu até 2015 com os promotores do MP estadual. Naquele ano, Picciani reassumiu o mandato e o inquérito foi enviado para o procurador-geral de Justiça, Marfan Martins Vieira, a quem cabe investigar o governador, o presidente da Assembleia Legislativa e o presidente do Tribunal de Justiça. Durante um ano, avançou a passos de cágado. Picciani levou seis meses para fornecer as informações pedidas pelo MP, e assim mesmo em parte. Depois disso, em janeiro de 2016, o procurador-geral arquivou o inquérito. Tudo caminhava para que mais essa investigação fosse encerrada – mas, em setembro, o Conselho Superior do Ministério Público rejeitou o arquivamento e mandou seguir a averiguação, listando uma série de providências a serem tomadas.

Marfan Martins Vieira é um homem elegante e seguro de si, de fala professoral e voz de radialista. Não ocupa mais a chefia do Ministério Público do estado, mas continua trabalhando como assessor do novo procurador-geral, seu ex-braço direito Eduardo Gussem, que assumiu em janeiro deste ano. Foi no gabinete de Gussem que eu o encontrei, no início de fevereiro.

Desde que Cabral foi preso, Vieira tem sido questionado por nunca ter investigado nenhum dos casos que agora envolvem o governador. Em nossa conversa, ele disse que mandou arquivar o inquérito sobre os leilões de gado porque Picciani havia conseguido provar que seu patrimônio tinha lastro. E negou que a atitude se devesse a alguma razão “extra-autos”. “As pessoas dizem que tenho amizade com o Picciani. Não tenho amizade nenhuma. Ele conseguiu demonstrar a regularidade de todas as transações que realizou. Eu vou deixar de arquivar por causa de falatório?” Perguntei-lhe se estava a par de que, entre as transações listadas no inquérito, constava que um fornecedor do estado havia comprado metade de um clone de vaca por 1 milhão de reais. O ex-procurador de Justiça arregalou os olhos: “Mas tem isso mesmo? Tudo isso? Eu não sei nada do processo, fiz tudo por delegação. Quem cuidou foi o meu subprocurador”, justificou-se.

Semanas depois, tive acesso a uma tabela de entradas e saídas de visitantes do escritório da Agrobilara na Barra da Tijuca, parte de um conjunto ainda maior de planilhas, já divulgado pelo jornal O Globo. Uma parte ainda inédita do material lista dezesseis visitas de Marfan Vieira à sede da empresa de Picciani naquele período. Apenas cinco delas tiveram a data registrada pelas recepcionistas. Em 2014, quando Picciani estava sem cargo eletivo, Vieira foi vê-lo em quatro ocasiões. O quinto encontro ocorreu em 20 de março de 2015, o mesmo dia em que a Subprocuradoria de Vieira mandou citar Picciani para que se manifestasse sobre as investigações. Picciani não quis comentar as visitas. Disse apenas que a lista de entradas foi adulterada e obtida pelo Globo de forma ilegal.

Vieira, no entanto, não teve problemas em falar. Confirmou as visitas, mas disse que só tratava de assuntos institucionais do Ministério Público – mesmo em 2014, quando Picciani estava fora do cargo. “Ele não era mais presidente da Assembleia, mas ainda tinha bastante influência para ajudar a passar coisas de que precisávamos”, disse. “Nunca falamos do inquérito.”

 

Janeiro chegava ao fim quando, no Palácio do Planalto, o governador Luiz Fernando Pezão, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e o presidente da Alerj, Jorge Picciani, sentaram-se à mesa do auditório para uma entrevista coletiva. Depois de um período de intensa negociação, durante o qual o secretário de Fazenda do estado, Gustavo Barbosa, praticamente se mudou para Brasília para acelerar as tratativas, finalmente se havia produzido um acordo de socorro do governo federal ao governo do Rio. A União aceitara resgatar o estado do atoleiro, concedendo mais 6,5 bilhões de reais em novos empréstimos para pagar salários e aposentadorias, e congelando por três anos a dívida com os órgãos federais. Em troca, porém, exigia a implantação de um profundo pacote de ajuste para que as contas do estado estivessem saneadas quando as dívidas voltassem a ser cobradas. Meirelles foi claro: o acordo só valeria se o Legislativo fluminense aprovasse algumas medidas duras. A primeira era autorizar a privatização da companhia de saneamento do estado, a Cedae. Os deputados ainda teriam de aprovar o aumento na contribuição previdenciária dos funcionários públicos, além de uma taxa extra de 8% a ser paga para a Previdência ao longo de três anos, entre outras providências. Se essas e outras contrapartidas não fossem aprovadas pela Alerj, o acordo perderia a validade.

Mais uma vez, a salvação do governo de Pezão dependia da boa vontade e da força política de Picciani, que não pronunciou palavra durante a entrevista. Assessores de Pezão e de Meirelles – e, segundo alguns, o próprio presidente Temer – fizeram questão da presença do presidente da Alerj, simbolizando o aval do Legislativo ao acordo. Nos bastidores, havia também o reconhecimento do papel de Picciani para a elaboração do texto final. O cacique ajudou a convencer Pezão de que, para obter o socorro financeiro, a única alternativa era vender a Cedae. A operação vinha sendo defendida havia meses pelo BNDES e pelos ministros de Michel Temer, mas Pezão resistia. Para além das razões objetivas, o governador tinha um envolvimento emocional com o assunto. Sempre se lembrava das agruras vividas por sua família quando seu pai foi demitido da companhia estadual de energia, a Light, que fora privatizada. Dadas as suas constantes mudanças de posição, havia o temor, em Brasília, de que Pezão não cumprisse a sua parte no acordo. Segundo me disseram interlocutores de ambos, em dado momento Picciani expôs ao governador essa desconfiança, sem meias palavras: “Eles estão achando que você é mentiroso.” O governador cedeu.

Cinco dias depois do anúncio do acordo no Planalto, a Alerj abriu suas atividades em grande expectativa de que as medidas exigidas pelo governo federal fossem aprovadas rapidamente. “Esse pacote é diferente do anterior”, defendeu Picciani. “Agora sabemos que os salários serão pagos e que o estado vai conseguir sair do buraco. Além disso, não há outra alternativa. Se não aprovarmos, será o caos.”

A situação financeira do Rio, porém, já se deteriorara ainda mais, a ponto de as mulheres dos policiais militares incentivarem um motim, bloqueando os portões dos batalhões. Na segunda semana do mês, parte da tropa se manteve aquartelada e não saiu às ruas para o patrulhamento de rotina. Num domingo, dia de uma partida entre Flamengo e Botafogo, com policiamento muito reduzido, um botafoguense morreu durante uma briga na porta do estádio. A votação da privatização da Cedae chegou a ser cancelada algumas vezes, por temor de que a Assembleia fosse invadida por manifestantes, já que a segurança em torno do palácio histórico era insuficiente, formada quase toda pela Força Nacional.

Até que, no final de fevereiro, os deputados finalmente aprovaram a privatização, de olho na liberação dos empréstimos de bancos federais que possibilitariam pagar os salários atrasados. Foi a primeira vitória de uma longa lista para salvar o governo Pezão. Ainda seria preciso fazer aprovar no Congresso Nacional o relaxamento da Lei de Responsabilidade Fiscal. E fazer passar na Assembleia todas as outras medidas de ajuste, em meio a estouros de bombas e pedidos de impeachment do governador. Picciani, porém, estava se sentindo forte a ponto de mandar dizer aos interlocutores de Brasília que só colocaria o resto do pacote em votação na Alerj quando os empréstimos fossem liberados. Até que isso ocorresse, manteria os braços cruzados.

Era um momento de alívio para o cacique do PMDB fluminense. Pela primeira vez em dias ele voltara a ostentar a autoconfiança habitual, minada nos últimos tempos por um nervosismo visível e um permanente estado de desconforto. Em algumas ocasiões, a tensão era tamanha que ele chegava a gritar com subordinados – algo atípico num chefe acostumado a se fazer obedecer sem precisar levantar a voz.

Nos bastidores da Operação Lava Jato, o cerco continuava se fechando contra Jorge Picciani e o Ministério Público negociava intensamente duas novas delações premiadas capazes de complicar a situação do deputado com a Justiça. Uma delas, a do ex-secretário de Obras de Pezão, Hudson Braga, que prometia detalhar a divisão de secretarias e de propinas entre os aliados de Cabral. A outra, do ex-presidente do TCE, Jonas Lopes, que se comprometia a entregar transações irregulares realizadas com o presidente da Assembleia. Na terceira semana de fevereiro, quando havíamos combinado uma última entrevista, Picciani me disse, via WhatsApp, que não iria mais falar. E justificou assim a recusa: “Estou muito cansado e atarefado. O país está derretendo e o estado já derreteu.”

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