Agora que o mal-estar com a globalização aflorou, os neoliberais falam em “populismo”; com essa palavra etiquetam quem rejeita a suposta falta de alternativas na economia e na política
Ver dados da foto Agora que o mal-estar com a globalização aflorou, os neoliberais falam em “populismo”; com essa palavra etiquetam quem rejeita a suposta falta de alternativas na economia e na política IMAGEM: MIGUEL BRIEVA

O retorno do recalcado

O começo do fim do capitalismo neoliberal
Wolfgang Streeck
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Agora que o mal-estar com a globalização aflorou, os neoliberais falam em “populismo”; com essa palavra etiquetam quem rejeita a suposta falta de alternativas na economia e na política IMAGEM: MIGUEL BRIEVA

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Oneoliberalismo veio junto com a globalização, ou a globalização com o neoliberalismo. Foi assim que começou a Grande Regressão. Nos anos 70, nas nações industriais reconstruídas no pós-guerra, o capital começou a se libertar das tarefas locais, do papel nacional que havia sido obrigado a cumprir depois de 1945. Havia chegado a hora de se despedir dos mercados de trabalho esvaziados, da produtividade estagnada, dos lucros em baixa e das reivindicações cada vez maiores dos sindicatos do capitalismo já maduro e administrado pelo Estado. O caminho rumo ao futuro, à nova expansão a que todo capital aspira de coração, apontava para fora, para o mundo ainda alegremente ingovernado de uma economia global sem limites – na qual os Estados, em vez de conter mercados, estão contidos neles.

A guinada neoliberal ocorreu então sob o signo de uma deusa chamada TINA – There Is No Alternative [Não Há Alternativa]. Sua longa linhagem de sacerdotes e sacerdotisas vai de Margaret Thatcher a Angela Merkel, passando por Tony Blair. Quem desejasse servir a essa deusa, sob o cântico solene dos economistas de todos os países, precisava reconhecer o avanço do capital mundo afora, escapando de seus grilhões locais, como uma necessidade ditada pelas leis da natureza e pelo bem comum. Precisava também se empenhar ativamente na desmontagem dos obstáculos a lhe atravancar o caminho. Práticas típicas dos não convertidos à deusa TINA, como o controle da circulação do capital e benefícios do Estado, deveriam ser perseguidas e exterminadas; ninguém mais deveria ter o direito de se furtar à “concorrência global” e de se acomodar confortavelmente em qualquer tipo de rede nacional. Tratados de livre-comércio deveriam abrir os mercados e resguardá-los de toda e qualquer intervenção estatal; uma “governança global” haveria de substituir os governos nacionais; as antigas medidas de proteção contra uma excessiva mercantilização da vida dariam lugar, agora, à capacitação para o mercado; ao Estado de bem-estar social caberia ceder terreno ao Estado competitivo de uma nova era de racionalização capitalista.

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