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O síndico versus Pintado

Uma encrenca de quarenta anos
Paula Scarpin
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

“Você já tentou estacionar seu carro perto da Miguel Lemos? Não caia nessa! Estacionamento é o drama de quem mora ou trabalha naquela área, a mais crítica da Zona Sul.” Assim começa um anúncio de página inteira publicado no Jornal do Brasil em 23 de novembro de 1970. Tentava convencer os leitores a adquirir vagas no Edifício-Garagem Auto-Mar I, no número 76 da rua Miguel Lemos, em Copacabana. A obra estaria concluída em catorze meses, assegurava o texto persuasivo, que parece escrito para ser lido pelo locutor do Repórter Esso. Na ilustração, um homem calvo e sorridente empunhava notas de 10 mil cruzeiros estampadas com a imagem de Santos Dumont. A cédula foi tirada de circulação em 1975 – ano em que a obra do edifício-garagem foi abandonada de vez.

No mesmo ano, Evandro Álvares se mudou para o prédio vizinho. “Esse trambolho ali do lado me fez pensar duas vezes antes de comprar o apartamento”, contou o funcionário público e hoje síndico do número 74 da ainda movimentada rua de Copacabana. Segundo registros da época, a construtora De Paoli, responsável por erguer o prédio, abriu falência. Álvares encabeçou um abaixo-assinado à Defesa Civil pedindo a retirada dos tapumes que ocupavam toda a calçada. Ao evocar o caso numa noite recente, o sexagenário fez tom de suspense: “Os problemas estavam só começando.”

Hoje, o pedestre que não olhar para cima ao passar pela calçada par da Miguel Lemos pode nem se dar conta do prédio abandonado. Do nível da rua, a fachada parece bem cuidada. O muro, pintado com desenhos coloridos, pode ser confundido com uma creche – e não dá a dimensão do pesadelo narrado por Álvares.

O funcionário público perdeu a conta de quantas cartas, telefonemas e e-mails enviou para instâncias variadas de poder, cobrando providências. Dentre os transtornos mais corriqueiros que o prédio abandonado lhe causou nos últimos quarenta anos estão os ratos e baratas que invadem o edifício vizinho. Além disso, pode haver ali focos de proliferação do Aedes aegypti, solenemente ignorados pelos agentes de saúde que vêm fiscalizar o número 74. “O mosquitinho vai ficar só lá dentro?”, questionou Álvares. “Ele vem pra cá!”

Os tapumes foram finalmente retirados nos anos 80, e algumas famílias de sem-teto não demoraram a ocupar a obra abandonada. Depois de reiteradas reclamações de Álvares e outros moradores, a reintegração de posse foi concedida, e o prédio, lacrado por fora. Um dos ocupantes, porém, manteve o endereço. Anatólio Pinto da Silva, de 72 anos, passou a viver na calçada em frente ao ex-futuro edifício-garagem. “Ele se apossou completamente do espaço público”, protestou o síndico vizinho. “Construiu uma casinha de cachorro pra ele dormir, e passa o dia inteiro fazendo barulho com os biscates dele.”

 

O desafeto de Evandro Álvares nasceu na Praia do Pinto, comunidade removida do bairro do Leblon no fim dos anos 60. Sua família se mudou para a Rocinha em seguida, mas ele preferiu, ainda adolescente, morar na rua. Trabalhou como sapateiro e marceneiro durante toda a vida. “Eu vivo dessas pedrinhas portuguesas, que são boas de enganchar o salto”, disse numa manhã de setembro.

São de Pinto os desenhos e escritos caprichados que adornam a fachada do prédio abandonado – uma mistura de arte naïf e Arthur Bispo do Rosário. No portão de entrada do edifício jamais inaugurado, ele desenhou um Pequeno Príncipe segurando uma balança (“É a Justiça”); um homem obeso entalado no vaso sanitário ao lado dos dizeres “500 kg comeu demais” (“É o Roberto Jefferson”); e um menino negro, com a legenda “Pivete a base do social”. A obra que mais se destaca é a pintura de um urubu coroado com as asas abertas e os dizeres: “O Rei”, “Conservação”, “Espaço” e “Sobrevivência”. “Esse sou eu”, explicou o morador de rua.

“Pintado” – como prefere ser chamado – não entende a implicância do síndico do 74 com ele: “Se não fosse por mim, como ia estar essa calçada? Eu varro todo dia, limpo tudo. Tem dia que desembesto e vou varrendo até dentro do túnel”, afirmou, referindo-se à via que corta o Morro do Cantagalo.

O bom humor de Pintado desaparece ao falar de Evandro Álvares. Segundo ele, o síndico já levou a guarda municipal para recolhê-lo várias vezes, sem sucesso. “Eu sou bom com as palavras, né? Falei que, pra me tirar, vão ter que recuar de volta todas essas grades de prédios que avançam na calçada e recolher essas mesinhas de botequim”, contou. “Por que só eu não posso?” De fato, como o edifício abandonado é o único da rua a não ter avançado sobre um naco de espaço público, a área que Pintado tomou para si parece se encaixar perfeitamente no limite da calçada disponível para os pedestres. “De uns tempos pra cá, ele deu pra dizer que o prédio corre risco de desabar”, disse. “Tudo pra me tirar daqui.”

Em 2012, quando um prédio ruiu na Cinelândia, no Centro da cidade, Evandro Álvares começou a pressionar a prefeitura e a Defesa Civil para darem uma solução ao prédio abandonado na Miguel Lemos. “Eles vêm, olham de fora, dizem que o prédio está sólido, e que edifícios-garagem são projetados para sustentar muito peso”, disse. Mas frisou que o prédio tem dois andares subterrâneos que sempre inundam. “Imagina como está essa estrutura.”

O síndico convidou a piauí para ver de perto – do topo do número 74 – o estado de conservação do edifício abandonado, na manhã seguinte. “Eles têm dez andares a mais do que a gente”, disse Álvares. “Se o 76 resolver cair, não vai sobrar nada do 74.” Para um olhar leigo, o prédio abandonado tem aparência firme e não oferece risco. Uma ou outra rachadura no revestimento, apontadas pelo síndico, não têm ar muito ameaçador. A Defesa Civil e a Secretaria de Habitação não atenderam aos pedidos de esclarecimento sobre o risco de desabamento do imóvel. Lá embaixo, sem se preocupar com a solidez do prédio às suas costas, Pintado consertava um sapato.

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