vultos da República

O soldado do PT

As marchas e contramarchas de Delúbio Soares para mostrar que ele não inventou o mensalão, apenas cumpria ordens e servia à causa do partido

Daniela Pinheiro
“A ditadura no Brasil foi seletiva, quis exterminar uma geração. Essa denúncia fez o mesmo. Queriam exterminar o PT. Foi acusado quem tinha cargo, e não quem recebeu dinheiro.”
“A ditadura no Brasil foi seletiva, quis exterminar uma geração. Essa denúncia fez o mesmo. Queriam exterminar o PT. Foi acusado quem tinha cargo, e não quem recebeu dinheiro.” FOTO: ROBERTO CASTRO_2012

Delúbio Soares chegou de terno escuro risca de giz, camisa branca, gravata vinho e sapatos pretos lustrosos. A barba alvinegra estava bem aparada, os cabelos um tanto despenteados e o agudo diastema dental – sua marca registrada – havia sido corrigido com um penoso tratamento ortodôntico, que os amigos dizem ter-lhe dado confiança para sustentar sorrisos largos. Eram quase seis horas de uma tarde recente quando o antigo tesoureiro do Partido dos Trabalhadores entrou na sede do Sindicato dos Petroleiros da Bahia, que fica numa casa térrea precisando de reformas num bairro empobrecido de Salvador.

Convidado pela juventude do PT local, ele participaria de um debate sobre sua defesa jurídica no processo do mensalão, que adversários do partido e do governo chamam de “o julgamento do século”. Embora a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre o caso possa não ser a mais formidável do século que mal começou, ela esmiuçará a grande convulsão política dos oito anos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Iniciada no outono de 2005, a crise abateu dirigentes históricos do PT, derrubou ministros, marcou a ferro e fogo parlamentares da base aliada, alterou a sucessão presidencial e botará no banco dos réus banqueiros de renome.

Delúbio Soares percorre há meses o Brasil para falar em sindicatos, faculdades e organizações populares. Oferece-se, ou é convidado, para expor suas razões. Tenta explicar que as denúncias contra ele são frágeis, insiste em mostrar evidências de sua inocência. Diz que grandes jornais e revistas fazem pressão sobre juízes do Supremo para condená-lo, e se recusa sempre a conversar com repórteres. Afirma pagar do próprio bolso, na maioria das vezes, as despesas de viagem.

Segundo a denúncia que o então procurador-geral da República Antônio Fernando de Souza encaminhou ao Supremo em 2007, o mensalão foi feito por “uma sofisticada organização criminosa, associada de modo estável e com divisão de trabalho, para o cometimento de crimes contra a administração pública, o sistema financeiro, a fé pública e lavagem de dinheiro”. Ao longo dos anos, o processo acumulou 52 mil páginas, distribuídas em 233 volumes. Foram ouvidas mais de 600 testemunhas em quase cinquenta cidades brasileiras e no exterior. Quarenta pessoas foram denunciadas, entre elas a nata do PT: José Dirceu, que perdeu o cargo de ministro da Casa Civil e o mandato na Câmara, o deputadoJosé Genoíno, então presidente do partido, o marqueteiro-chefe, Duda Mendonça, e o secretário-geral Silvio Pereira, além de Delúbio, o homem encarregado de cuidar das contas partidárias. O caso entrou na reta final e já pode ser votado, em data a ser definida pelo Supremo. Avalia-se que o julgamento vai se estender por várias semanas, talvez meses.

Foi o próprio Delúbio quem tirou do táxi duas caixas de papelão com o material que pretendia distribuir à plateia do sindicato baiano. Eram exemplares de uma publicação de oitenta páginas intitulada A Defesa de Delúbio Soares no STF cuja capa trazia uma foto do tribunal e, em primeiro plano, a escultura da Justiça cega, de Alfredo Ceschiatti. Na última página, informava-se que o caderno fora “impresso pelos companheiros petistas de Delúbio Soares” e tivera tiragem de 20 mil cópias. Na outra caixa havia canetas, abridores de garrafa e prospectos da Geral Imóveis, uma imobiliária virtual da qual é dono e, segundo ele, de onde vem sua única fonte de renda.

Umas poucas dezenas de cadeiras de plástico alaranjadas foram dispostas em fileiras no acanhado auditório, diante de uma mesa de madeira coberta com uma toalha vermelha e a bandeira do PT. Somente um dos ventiladores de teto funcionava e a temperatura ambiente era de estufa. A maioria dos presentes, de camiseta e chinelo de dedo, não se incomodava. Delúbio, de terno e gravata, suava como numa sauna. Recostado na parede, enxugando a testa com um lenço de papel amarfanhado, ele contava a um grupinho como desavenças e comoções de ciúme ainda eram resolvidas à bala até pouco tempo na sua cidade, no interior de Goiás. Sem expressar emoção, detalhava casos de assassinato em discussões banais de gente que frequentava desde a infância.

Aos 56 anos, Delúbio fala baixo, com um arrastado sotaque interiorano, exacerbado em situações de cansaço ou tensão.Quando concentrado numa conversa, costuma cruzar os braços e enfiar as mãos dentro das axilas como um personagem de Mazzaropi. Basta alguém mencionar a palavra “mensalão” ou “jornalista” para que, num átimo, troque a risada expansiva pela carranca pouco amistosa. Quem o conhece o define como leal, aplicado e boa-praça. Numa ocasião, para distender o ambiente, deu uma conferida nas minhas unhas e disse: “Sabe como se chama smartphone de mulher da roça? Esmaltefone.” Mas na maior parte do tempo é discreto e pouco efusivo. O azul raso de seus olhos reforça a impressão de que ele está distante e ausente, como se estivesse pensando em algo inacessível aos demais.

Quarenta e cinco minutos depois do horário marcado para o início do debate, havia apenas treze pessoas no local. Seis delas faziam parte da organização do encontro, dois eram seus amigos e cinco militavam no PT. Ele tentava disfarçar a irritação. “Deviam ter programado isso aqui melhor”, limitou-se a dizer. Ao ser solicitado a dar autógrafos e posar para fotos, passou da água para o vinho. Como um candidato ou uma celebridade instantânea, escancarou o sorriso, abraçou as gentes, fez um ângulo com o indicador e o dedo médio, e ainda deu orientações para que celulares registrassem as cenas. Passou logo a distribuir os chaveiros, os abridores, o livrinho com a sua defesa e um CD de capa vermelha com sua foto. “Isso aqui é a última palavra em interatividade na internet: você instala no seu computador e ele baixa direto o que eu escrevo no meu blog e no Twitter”, disse, mostrando o disco. “Ah, também umas fotos e umas músicas que eu gosto.”

A denúncia encaminhada ao STF diz que o mensalão foi estruturado em três frentes: uma perna político-partidária, uma publicitária e outra financeira. Elas foram colocadas de pé com o intuito de comprar deputados para votar de acordo com os interesses do governo. Também serviu para financiar de forma ilegal campanhas eleitorais passadas e futuras de petistas e parlamentares das legendas que apoiaram a eleição do presidente Lula. Para tanto, a “quadrilha”, como está dito, na denúncia valeu-se de um sistema intrincado de notas frias, empréstimos falsos, transações com doleiros, movimentações financeiras em paraísos fiscais e malas de dinheiro.

Segundo a acusação, o plano funcionava assim: as agências de publicidade do empresário mineiro Marcos Valério de Souza firmavam contratos para fazer propaganda de empresas ligadas ao governo, como o fundo Visanet, que trabalha com cartões de crédito e cujo patrimônio tem participação do Banco do Brasil. As agências recebiam a soma contratada, mas muitas vezes não executavam o serviço. O dinheiro que entrava nas contas das empresas de Valério era entregue a parlamentares ou seus assessores. Concomitantemente, as mesmas empresas tomavam empréstimos de dois bancos, o Rural e o BMG. Esses empréstimos não iam para o publicitário. Seu destino era o PT, e ambos os bancos sabiam disso, o que os tornou sócios da fraude. Marcos Valério, cujas agências faturavam milhões de reais ao ano, tinha crédito na praça, bem ao contrário do partido que, endividado na campanha presidencial, não tinha como afiançá-los.

Os débitos do PT existiam, mas o propósito do sistema era também bancar parlamentares de partidos que apoiavam a gestão Lula, inclusive em campanhas futuras. O dinheiro – cuja origem estava em estatais e empresas públicas – era repassado por Valério às pessoas indicadas pelo tesoureiro Delúbio Soares. Em troca, Marcos Valério teria prioridade em contratos oficiais, os bancos contariam com vantagens e oportunidades de negócios oriundos do Estado, e o PT teria dinheiro para seu projeto de poder. Tudo isso acontecia, segundo a acusação, a mando de José Dirceu, que, nas palavras do procurador-geral, seria “o chefe da quadrilha”.

Devido ao baixo quórum, as cadeiras do sindicado em Salvador foram dispostas em roda. Delúbio Soares pôs-se a falar. Alertou para o risco de que o julgamento não se baseasse em fatos e fosse “político”. Disse não haver indícios no processo de que houve compra de votos e que a maioria das pessoas que sacaram as verbas nas contas de Valério deixou seus nomes e identidades no banco. “Se fosse uma coisa errada, alguém faria isso?”, perguntou à audiência.“Não posso concordar com a denúncia, tal como foi feita.”

As aparições públicas de Delúbio obedecem a um roteiro que ele costuma seguir à risca. Primeiro, mostra como teve a defesa cerceada: houve depoimentos de testemunhas sem o conhecimento de seus advogados, o que é ilegal. Depois, diz não haver provas de que alguém tenha recebido vantagem indevida. Em seguida, recorre à biografia do falecido vice-presidente José Alencar, escrita pela jornalista Eliane Cantanhêde, para demonstrar a existência de um entendimento entre o PT e o PL, fechado ainda antes da campanha de 2002, que previa o repasse de muito dinheiro para pagar as despesas eleitorais de uns e de outros.

Delúbio então repete à exaustão que nem a direção do PT nem José Dirceu tinham ciência da combinação que ele fizera com Marcos Valério. E alega desconhecer o método e as vias usadas pelo publicitário para conseguir empréstimos e distribuir o dinheiro. “Eu pedia para ele pagar e ele pagava”, disse. “Como, onde, de que jeito, eu não sabia. O fato é que não teve dinheiro público, ninguém embolsou nada em benefício próprio e eu não fui beneficiado com um centavo.”

O ex-tesoureiro pediu que todos abrissem o caderno com sua defesa na página 31. “Olhem aí essa tabela”, conclamou. “Total de depoimentos transcritos nos autos: 394. Total que não menciona o nome de Delúbio Soares: 337. Total que diz ter conversado com Delúbio sobre compra de votos ou ouviu falar de possível compra de votos: Zero!”

O caderno trazia ainda uma série de gráficos, feitos pelo deputado Odair Cunha, do PT de Minas, com um cruzamento da ocorrência dos saques feitos das contas de Marcos Valério por parlamentares ou assessores e a posição das bancadas em votações importantes para o governo. A pesquisa indicava haver um comportamento padrão dos partidos nas votações, independente dos pagamentos. “É a prova de que ninguém votou a troco de nada, isso é uma fantasia”, afirmou. A CPI dos Correios, que também investigou o mensalão, apresentou um relatório oposto, que foi anexado aos autos.

Delúbio Soares teve os sigilos bancário, telefônico e fiscal quebrados durante as investigações. “Não há um papel, uma gravação que me comprometa”, disse. O que houve, ele sustentou, foi crime eleitoral, pois o PT se valeu de dinheiro não registrado para pagar suas dívidas de campanha e a dos partidos aliados. “Nós fizemos uma coisa errada, que foi o caixa dois, mas não é isso que vai ser julgado, não é isso o que está nos autos”, ele falou. “Do que estamos sendo acusados aqui, não há sequer uma prova.” Se entendido como delito eleitoral, o crime já estaria prescrito.

Não haveria razão, prosseguiu ele, para subornar parlamentares do próprio partido ou da base aliada para votar com o governo. A denúncia, insistiu, agrupou aleatoriamente algumas pessoas para formar “o número mágico” de quarenta – e assim aludir ao conto das mil e uma noites de Ali Babá e os quarenta ladrões. Na peça de defesa de Delúbio, seus advogados escreveram que o número cabalístico foi “o ingrediente necessário para deleitar a mídia nacional. A cereja do bolo, por assim dizer”.

A defesa é assinada pelos escritórios de Arnaldo Malheiros Filho e Celso Vilardi, criminalistas de São Paulo conhecidos e respeitados nos meios jurídicos, cujos honorários, não revelados, são pagos pelo PT. Em torno de Delúbio Soares, contudo, orbitam outras figuras, que lhe dão suporte jurídico nas palestras pelo Brasil. A seu lado costumam estar Luiz Eduardo Greenhalgh, ex-deputado pelo PT, dois advogados goianos e o seu amigo Sebastião Leite, o Juruna, que conhece há décadas.

À diferença dos demais réus do processo, Delúbio foi o único a assumir a responsabilidade de um crime, a arrecadação de recursos pelo caixa dois. Ele sempre disse ter sido sua – e apenas sua – a iniciativa de pedir a Marcos Valério que tomasse empréstimos a serem posteriormente repassados.

“Esse cara é uma fortaleza”, disse Arnaldo Malheiros a propósito de seu cliente, durante um almoço em um restaurante da moda em São Paulo. “Ele não falou nada. Assumiu para si sozinho a culpa de tudo. E disse textualmente: ‘A responsabilidade dos empréstimos foi minha.’ Isso é muito forte.” Delúbio e o advogado conversam uma vez por mês, quando muito. Malheiros ainda não conseguiu desvendar de todo a personalidade do cliente: “Não sei se esse é o jeito dele mesmo, ou se é um processo de negação sobre o que pode ser o resultado desse julgamento, mas ele parece tranquilo”, afirmou. Mas sempre lhe chamou a atenção o comprometimento e a doação de Delúbio em relação ao PT.

Malheiros ficou surpreso quando lhe contaram, por exemplo, que, para não atrapalhar a militância petista, Delúbio e a mulher haviam decidido não ter filhos. “Esse pessoal é feito de outra argamassa, eu fico impressionado como o partido é a vida dele”, comentou. O advogado estranhou que a defesa de alguns dos principais réus – José Dirceu, José Genoíno e Marcos Valério – tenha “apontado demais o dedo” para as ações do ex-tesoureiro. “Eles bateram demais no Delúbio. Eu fiquei meio assim, achei exagerado”, disse. “Comentava com o Delúbio e ele não dizia nada.”

Segundo Malheiros, a denúncia não conseguiu levantar uma prova sequer contra Delúbio, além de ser uma peça inepta e de difícil compreensão: “Ela coloca sob o mesmo guarda-chuva, o da compra de votos, um monte de gente e fatos, que está claro que não têm nada a ver com isso. Em qualquer julgamento técnico, essa tese morreria na primeira esquina.” Malheiros e Celso Vilardi invocaram Hitler, Jesus Cristo, Barrabás, Rui Barbosa e Lewis Carroll para sustentar que Delúbio Soares é “idealista, probo e pobre”. Argumentaram que ele já foi condenado pela opinião pública, que julga tal qual a Rainha de Copas em Alice no País das Maravilhas: “Primeiro a sentença, depois o veredicto!”

Em Salvador, o calor e a umidade continuavam inclementes. Delúbio se ajeitou na cadeira e enxugou de novo o suor da testa. Uma moça se abanava com a peça da defesa quando ele considerou incongruente que o deputado Paulo Rocha, do Pará, tenha sido incluído na denúncia, enquanto o ex-presidente do PT da Bahia, Josias Gomes, que também recebeu verbas, tenha ficado de fora. “E o Marcio Lacerda, que era o tesoureiro da campanha do Ciro Gomes? Ele recebeu 1,2 milhão de reais na conta dele e ninguém falou nada”, disse. Lacerda, do PSB, se elegeu prefeito de Belo Horizonte em 2008 com o apoio do PT. Disputará a reeleição novamente apoiado pelo PT.

Seguindo adiante, Delúbio lembrou-se do ex-deputado Professor Luizinho, denunciado por ter recebido 20 mil reais (“Vinte mil reais, olha só!”, falou, como se a quantia fosse irrisória), e do ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha, também processado porque a mulher dele foi ao banco sacar na boca do caixa 50 mil reais de uma conta de Marcos Valério. “Sabe por que eles entraram e os outros não?”, indagou. “Porque o Paulo Rocha era líder do PT na Câmara, o Professor Luizinho era líder do governo, o João Paulo era o presidente da Câmara, eu era tesoureiro, o Silvinho era secretário-geral, o Zé Dirceu era o ministro mais importante. Eles queriam acertar o PT no coração.”

Ato contínuo, passou a expor sua tese de fundo sobre a denúncia do mensalão. “O que fizeram nesse processo foi o mesmo feito pela ditadura no Brasil”, começou. “Ao contrário de países como o Chile e a Argentina, aqui morreu menos gente porque a matança foi seletiva. Eles queriam exterminar uma geração.” Voltou ao presente e prosseguiu: “Agora, com a gente, o intuito era exterminar o PT. Essa denúncia é seletiva. Foi acusado quem tinha cargo, e não quem recebeu dinheiro.” A dúzia de presentes balançou a cabeça em concordância, pareciam sentir um misto de admiração e orgulho. “Se antes a morte dos companheiros que lutaram na ditadura foi real, hoje a nossa morte é a morte política, é a execração pública.”

A sala ficou em silêncio. Ele esperou alguns segundos antes de continuar: “E eles quase conseguiram. Sobraram o Lula e o Dulci [Luiz Dulci, então secretário-geral da Presidência] e, se a gente bobeia, eles iam junto também. Mas todo mundo segurou, todo mundo sabia que era uma questão de sobrevivência. O alvo era o Lula, óbvio. Queriam atingir o Lula”, disse.

Um petista perguntou qual foi o erro do partido na condução do processo do mensalão. Ele respondeu que, logo depois do escândalo, o PT estava fragilizado. Os principais quadros haviam sido atingidos pelas denúncias. Os cargos-chave passaram a ser ocupados, segundo ele, por gente sem “experiência de partido”, o que foi mortal. “Antes, era o Zé Dirceu, eu, o Dulci, o Silvinho Pereira, era o grupo que levou Lula à Presidência e todos estavam no governo, menos eu”, disse. “Quando chega 2005, assumem Tarso Genro, Fernando Pimentel, Ricardo Berzoini, Humberto Costa. Ninguém tinha vinculação com a base do PT. O Tarso Genro nunca deve ter ido a um diretório regional, nem nos do interior do Rio Grande do Sul.”

A conversa seguiu por mais duas horas e terminou com uma salva de palmas. Ele circulou pelo ambiente, despediu-se com abraços e beijos, e depois se sentou para conversar com algumas pessoas. Em um momento, deitou a cabeça para trás e apontou o próprio céu da boca com o dedo para uma mulher loira, viúva de um sindicalista baiano, que fora seu amigo por mais de três décadas. Explicava como havia sido seu tratamento dentário, que sumiu com os dentes separados e escuros.

Dentre os acusados, Delúbio é o único a fazer um périplo pelo país, à margem da imprensa, reunindo-se com grupos organizados e pessoas do povão, para tentar convencê-los de sua versão dos fatos. Há alguns meses, José Dirceu começou a conversar com jornalistas em encontros privados e em off. Promove jantares, dando preferência aos chamados formadores de opinião – colunistas, editores e dirigentes de empresas de comunicação, caso de Fábio Barbosa, da cúpula da editora Abril, que publica a revista Veja.

Como Delúbio havia falado naquele dia a um número reduzido de pessoas, e só a convertidos, lhe perguntei se valera a pena ter ido de Goiás à Bahia. “Sim, valeu porque um vai falando para o outro, vai explicando o que é o caso no boca a boca”, disse. Não seria importante falar também com quem tem poder sobre o noticiário, como fazia José Dirceu? “Não. Eu não sou o Zé Dirceu”, respondeu, seco. “Esse processo vai ser esclarecido, nem que seja in memoriam. Eu não tenho pressa”, continuou. Quando ensaiava mais uma pergunta, ele me cortou: “Isso aqui está virando entrevista. E eu não dou entrevistas.”

O advogado que o acompanhou em Salvador, o goiano Pedro Paulo Guerra de Medeiros, especulou posteriormente sobre a intenção das palestras. “Delúbio foi expulso do partido, continua sem dinheiro, teve a vida devassada e não provaram nada”, disse. “Acho que faz isso para ter a sensação que está fazendo algo por ele mesmo, e não só deixando a coisa na mão dos advogados. Ele deve saber que isso não vai influenciar o julgamento, mas é uma coisa pessoal.”

Antes de ir embora, Delúbio Soares pediu ao filho de um amigo que me desse uma carona. No caminho, o rapaz comentou a palestra e o processo. “O meu pai sempre falava que o Delúbio era um soldado, ficava impressionado como ele aguentou tudo sozinho, ninguém acreditava naquilo”, disse. “É incrível, porque ele nem queria continuar sendo tesoureiro do PT. Ele queria ir para o governo, mas o Lula não deixou. O presidente quis que ele ficasse nessa posição, achava que ele era a única pessoa na qual confiava para cuidar das finanças do partido.” Quando o carro parou numa encruzilhada, ele disse em tom melancólico: “Ele é pobre, sabia? Ele não tem nada, mora de favor na casa da sogra.”

Filho de um agricultor e de uma dona de casa, ambos analfabetos, Delúbio Soares de Castro nasceu em Buriti Alegre, no sudoeste de Goiás. Seu nome foi uma homenagem a um sanfoneiro, cuja performance numa festa havia emocionado o casal. O músico se chamava Danúbio, mas o pai entendeu errado e assim ficou – “Delúbio”. A família, incluindo ele e os três irmãos, trabalhava na roça. A mãe fazia queijos, cuidava de galinhas, e o pai tinha um punhado de cabeças de gado. Aos 16 anos, Delúbio saiu de casa e foi morar sozinho em Goiânia para completar o colegial. Vivia com dinheiro contado e fazia bicos, dando aulas particulares, até ser aprovado no vestibular de matemática da Universidade Católica de Goiás.

Tornou-se professor de escola pública, onde lecionava matemática e desenho geométrico. (Recentemente, Delúbio foi condenado a devolver 164 mil reais aos cofres públicos por ter, durante anos, recebido o salário de professor sem pisar em sala de aula. Ainda não devolveu.) Desde cedo, mostrou interesse pela política, o que o levou para o movimento sindical. Foi um dos primeiros a liderar greves da categoria no Estado. Em 1980, participou da fundação do PT em Goiás, quando conheceu o também sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva. Deram-se bem desde o início: ambos compartilhavam o gosto por pescarias, música sertaneja, uma cachacinha e, mais tarde, cigarrilhas cubanas. O ex-presidente disse certa vez que a incriminação do amigo o magoara profundamente: considerava-o um dos seus, um militante que viera do movimento social como ele, e não de grupos de esquerda.

Delúbio foi também presidente do Sindicato dos Professores e da Central Única dos Trabalhadores em Goiás. Seus amigos corroboram a lenda de que ele passou quase duas décadas sem tomar Coca-Cola para não contribuir com o imperialismo americano. Sempre foi engajado, a ponto de não tirar o broche com a estrelinha do PT mesmo em festas familiares. Foi no sindicalismo que ele conheceu sua mulher, Mônica Valente, que ocupou cargos no PT nacional, foi secretária de Gestão Pública de São Paulo na gestão da prefeita Marta Suplicy e hoje está entre os quadros do partido.

Em 1986, Delúbio se arriscou nas urnas pela primeira e única vez, tentando se eleger deputado federal por Goiás – sem sucesso. Recebeu menos de 8 mil votos, o que o fez migrar para os bastidores da política e da burocracia partidária. Era um dirigente conceituado da CUT e acabou se tornando presidente do Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador, o FAT. “Foi a única vez que mexi com dinheiro público na minha vida”, disse ele na Bahia. “Na época, eu cuidava de um orçamento de 50 bilhões de reais. E minhas contas foram aprovadas pelo Tribunal de Contas com louvor.”

Quando, em 1999, a chapa encabeçada por José Dirceu passou a comandar o PT, Delúbio tornou-se tesoureiro do partido. A sua relação com o ex-ministro, oriundo do castrismo, sempre foi boa. Mas seu vínculo estreito era com Lula: foi ele quem o indicou para cuidar das finanças da legenda.

Em 2002, a poucos meses do segundo turno das eleições presidenciais, disputadas entre Lula e o tucano José Serra, Delúbio foi procurado pelo deputado Virgílio Guimarães, do PT de Minas. O parlamentar queria apresentá-lo a um amigo de infância, um bem-sucedido publicitário chamado Marcos Valério de Souza. Embora as agências do empresário tivessem contas de propaganda em ministérios e estatais, a sua fama no submundo eleitoral vinha do papel que havia desempenhado em 1998 na campanha de reeleição do governador de Minas Gerais, o tucano Eduardo Azeredo.

No livro O Operador – Como (e a mando de quem) Marcos Valério Irrigou os Cofres do PSDB e do PT, o jornalista Lucas Figueiredo contou como as tratativas entre Marcos Valério com o Banco Rural e o BMG tomaram forma e se tornaram o laboratório do que, sete anos depois, viria a ser chamado de mensalão. Segundo o relato de Figueiredo, empresas públicas como a Companhia Energética de Minas Gerais e a Companhia Mineira de Águas e Esgotos superfaturavam contratos de publicidade com as agências de Valério, e a“sobra” era usada para financiar campanhas do PSDB e aliados. Quem quisesse contribuir por baixo do pano, sem prestar contas ao fisco, também firmava contratos com as agências, como foi o caso da Usiminas, que doou ilegalmente 100 mil reais ao então deputado Roberto Brant, do Partido da Frente Liberal. Assim teriam sido arrecadados 100 milhões de reais.

De acordo com O Operador, o financiamento ilegal de campanhas através do Banco Rural era antigo. Foi por meio do banco que Paulo César Farias conseguiu empréstimos irregulares para bancar, em 1989, parte da candidatura de Fernando Collor de Mello à Presidência, e abrir contas fantasmas para movimentar o dinheiro de corrupção no governo. Hoje deputado federal, Azeredo responde a um processo no Supremo pelo chamado “mensalão mineiro”.

Delúbio Soares e Marcos Valério se encontraram pela primeira vez na sede do PT em São Paulo. Ambos tinham divisas de alta patente. Conforme afirmaram em depoimentos à Justiça, o tesoureiro “cuidava de tudo das finanças do PT” e o publicitário era alguém com expertise em “trabalhar com recursos”. A conversa, eles disseram em juízo, foi sobre amenidades. Mas, como contaram depois, dali nasceu uma grande amizade.

Com a eleição de Lula, Delúbio esperava ser nomeado para algum cargo no Ministério do Trabalho ou no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. O presidente insistiu para que continuasse à frente das finanças do partido e o bom soldado seguiu suas orientações. No começo de 2003, com Lula no Planalto, as dívidas da campanha começaram a ser cobradas. Oito candidatos petistas haviam chegado, inesperadamente, ao segundo turno das eleições para governador, o que contribuiu para aumentar os gastos extras. Também era preciso honrar os acordos com os partidos da coligação, cujas despesas estavam na conta do PT. Para piorar, a cúpula petista também havia deliberado, numa atitude inédita, que os custos das campanhas regionais seriam pagas pelo diretório nacional. No total, a legenda devia 60 milhões de reais.

Com as contas vermelhíssimas, o tesoureiro expôs o problema numa reunião da Executiva do partido. Ouviu de seus pares: “Dê um jeito.” Foi o que Delúbio fez. Procurou Marcos Valério, que tinha empresas com faturamento de 400 milhões de reais e, portanto, crédito junto aos bancos. Acertaram que Valério pegaria os empréstimos e o partido os pagaria com juros assim que a receita partidária permitisse. O PT recebia anualmente, somando verbas do Fundo Partidário e a contribuição dos filiados, cerca de 48 milhões de reais. Hoje, fatura o dobro.

“Então o anjinho do Marcos Valério resolveu socorrer o PT só por boa vontade?”, perguntou uma juíza a Delúbio durante um interrogatório. “Não, ele tinha um interesse, ele queria ser o marqueteiro do PT. Isso não é crime”, respondeu o tesoureiro.

O primeiro empréstimo foi tomado ainda no verão de 2003. Daí por diante, o dinheiro passou a correr livre no partido. Quem procurasse o tesoureiro do PT para cobrar o seu quinhão ouvia como resposta que deveria falar com Marcos Valério. E assim o fazia. Até maio de 2005, o PT distribuiu 55 milhões de reais, originários das contas das empresas de Valério. Nos depoimentos dos envolvidos à Justiça, há relatos de carros-fortes que transportavam maços de notas de 100 reais, malas de dinheiro, deputados que aguardavam horas em agências bancárias até sair com um envelope porque se recusavam a assinar recibos. Também existem descrições de funcionárias de Marcos Valério reunidas em quartos de hotéis e em salas reservadas nos bancos para contar e distribuir cédulas e mais cédulas. O dinheiro era sacado por taxistas, ex-policiais e até garçons antes de parar na mão de parlamentares.

O comportamento de Delúbio Soares mudou. Ele passou a chamar a atenção até mesmo de seus conhecidos de longa data. Andava em carro blindado e, não raro, era escoltado por batedores e seguranças privados. Reclamava de vinhos em restaurantes e costumava deixar dois charutos cubanos acesos em cima da mesa. Gostava de mostrar poder e de se gabar de sua amizade de muitos anos com o presidente. Teria esquecido a regra de ouro, recordada há poucas semanas por Elio Gaspari a propósito do enriquecimento súbito de burocratas chineses: porco esperto não engorda.

Cresceu dentro do partido o seu renome. Foi convidado a participar de reuniões para discutir temas que nada tinham a ver com sua área de atuação, como a reforma política. Integrou a comitiva presidencial em uma viagem à África, quando apareceu em encontros oficiais ao lado de Lula e de mandatários africanos. Deixava claro não se importar com a fronteira que separava o público do privado, o partido do governo. Com Lula no poder, pediu doações a empresários para construir uma nova sede para o PT em São Paulo. Solicitou que o Banco do Brasil patrocinasse um show dos sertanejos Zezé di Camargo e Luciano para arrecadar fundos para o partido.

Àquela altura, apesar de transitar nos bastidores, ou por isso mesmo, era um dos homens mais requisitados da República. Seu prestígio era tamanho que uma festa do Dia de Reis, em Buriti Alegre, organizada há décadas por sua mãe, provocou um congestionamento inédito de jatinhos na cidade de 9 mil habitantes. Entre os convivas estavam os governadores Marconi Perillo, do PSDB de Goiás, e Zeca do PT, de Mato Grosso do Sul, além do publicitário Duda Mendonça e do presidente do PL (atual PR), Valdemar Costa Neto – os dois últimos denunciados no escândalo do mensalão. De outra feita, Delúbio promoveu uma festa de aniversário na churrascaria Porcão, em Brasília, onde mais de 500 pessoas pagaram para comemorar a seu lado.

Nessa época a fazenda de seu pai dobrou de tamanho. Terras ao redor dela foram compradas com dinheiro vivo. Delúbio disse que ele e um irmão haviam ajudado os pais com uma pequena quantia. A explicação foi insuficiente: seus pais foram denunciados por crime contra a ordem tributária, acusados de registrar as novas terras por um valor muito abaixo do mercado.

O dinheiro jorrou no PT até que o deputado Roberto Jefferson, do PTB, movido por razões pessoais e políticas, revelasse o esquema em junho de 2005, numa entrevista à jornalista Renata Lo Prete, então na Folha de S.Paulo. Orador afiado, Jefferson deu cara aos delitos ao cunhar a implacável expressão “mensalão”.

A música da dupla sertaneja Cezar & Paulinho ecoava pelos alto-falantes e era acompanhada com entusiasmo por parte da assistência. Fazia frio, 14 graus, e o pátio da sede da Central Única dos Trabalhadores em Itaquaquecetuba, a 45 quilômetros de São Paulo, estava lotado. Umas 200 pessoas, entre crianças, operários, senhoras, representantes de movimentos sociais e religiosos, acomodavam-se novamente em cadeiras de plástico, dispostas diante de um palanque com uma longa mesa coberta com a bandeira do PT. A música dizia:

Escolha bem seus companheiros

de conduta:

companheiro é companheiro

fédaputa é fédaputa.

Quem veste a nossa camisa é

companheiro

quem põe nós em confusão é fédaputa

quem ajuda quem precisa é

companheiro

e quem deixa a gente na mão é

fédaputa.

Quem devolve o que empresta é

companheiro

quem enrola igual retrós é fédaputa

quem convida nós pra festa é

companheiro

quem deseja mal pra nós é fédaputa.

Fédaputa é fédaputa

Por todo espaço havia dezenas de faixas em homenagem ao convidado. “O verdadeiro militante é aquele que acredita no projeto e por ele se sacrifica”, lia-se numa. “Delúbio, guerreiro do povo brasileiro”, “Companheiro Delúbio, estamos com você”, “Mesmo vencendo nas urnas ainda sofremos a ditadura da mídia”, diziam outras.

Uma semana depois do encontro em Salvador, Delúbio Soares fazia mais uma palestra. Às oito da noite, vestindo um casaco de couro preto sobre um colete, ele chegou acompanhado da mulher, Mônica Valente, da sogra, Diva Valente, e de Luiz Eduardo Greenhalgh. Depois de ter cumprimentado com abraços e tapas no ar militantes e sindicalistas, foi levado a uma sala onde havia salgadinhos e sucos numa mesa montada com capricho. Junto a vereadores, postulantes a prefeituras na região e representantes de associações de classe, Delúbio se inteirava da política local. “Quem nós temos aqui?”, perguntou. Deu palpites sobre a conjuntura, a organização de possíveis alianças e reafirmou que o “jogo ainda está começando”. Por isso era cedo para arriscar prognósticos eleitorais.

Um grupo de dez homens se trancou em uma sala para conversar com ele em particular. Diva Valente, uma senhora franzina e doce, ficou sozinha em um canto tentando se proteger do frio. Era a primeira vez que acompanhava uma palestra do genro. Estava curiosa pela reação das pessoas. “Você não imagina o que passamos, é muita injustiça, é muita covardia”, disse.

Nas ocasiões em que estive com Delúbio em locais públicos, ele jamais foi hostilizado. No ano passado, foi convidado para ser paraninfo de uma turma de formandos em direito de uma faculdade de Goiás. Um dos alunos da comissão de formatura revelou que o ex-tesoureiro doara 6 mil reais para colaborar com a festa. À época, a notícia surpreendeu alguns amigos habituados a seu modo de vida espartano.

No pátio da sede da CUT, o mestre de cerimônias do encontro – que usava uma boina verde à la Sierra Maestra – subiu ao palco e explicou que o convidado não faria comentários sobre o governo. Afinal, justificou, ele não ocupava cargo público e tampouco tinha mandato eletivo. Delúbio filmava a plateia com seu iPad, movendo lentamente o tablet como numa tomada cinematográfica. Ele pediu que a mulher ocupasse um lugar à mesa e agradeceu a chance de “esclarecer os fatos”.

Começou falando que seus pais eram analfabetos e que tinha origem muito pobre – e o seu “R” alcançou os píncaros do sotaque matuto. Disse que contaria uma história que começava “há muito, muito tempo atrás”, em 1848, quando dois homens “muito inteligentes” escreveram um texto de oitenta páginas e “mudaram o mundo”: “O nome deles era Marx e Engels. Eles disseram que a história da nossa sociedade tem sido a história da luta de classes. E é até hoje.”

Em tom de comício, logo pulou para as mudanças recentes no país. Contrariando o que dissera seu apresentador, opinou que Lula e Dilma promoviam uma “revolução silenciosa” para acabar com as desigualdades sociais e construir um “Brasil mais justo”. “Estamos tirando gente da miséria e botando para comer, tirando negro e índio da exclusão e colocando na universidade”, disse. “Fidipóbi tem que fazer dou-to-ra-do!”, gritou, provocando um estouro de palmas e assobios.

Aí se estendeu sobre o que mais lhe interessava: não houve mensalão, não houve coincidência de votos e pagamentos, havia um acordo prévio para repasse de dinheiro para saldar débitos de campanha, se Marcos Valério usou notas falsas, laranjas ou offshores, a responsabilidade era inteiramente dele. Na plateia, o publicitário paulista Ruy Nogueira Netto tuitava flashes da palestra como se os comentários tivessem sido escritos pelo ex-tesoureiro. Há meses, ele dá consultoria a Delúbio, o orienta acerca da imprensa e funciona como seu ghost-writer num blog.

Delúbio publica artigos semanais (alguns escritos por ele) no site Brasil 247 e no jornal goiano Diário da Manhã. Aborda temas variados, do desemprego às eleições na França. Nas redes sociais, onde se apresenta como “professor, sindicalista, fundador e militante do PT e da CUT, ambientalista”, é mais popularesco. Comenta futebol, política, música e notícias de celebridades, como a evolução do quadro clínico do filho do cantor sertanejo Leonardo. Tem 5 mil amigos no Facebook e é seguido por quase 7 mil pessoas no Twitter, para o qual já mandou cerca de 20 mil posts.

“Eu vou dizer de novo porque esse debate é importante”, falou. “É para você saber o que aconteceu de verdade. É para você chegar na família, nos amigos, nos vizinhos, na fila do ônibus e dizer: ‘Você está falando besteira! Eu li a defesa dele e não foi isso o que aconteceu!’” Perguntou se alguém sabia o nome de algum dos ministros do Supremo. Como ninguém levantasse a mão, explicou que os juízes iriam decidir o futuro dos companheiros petistas. “Vamos nos concentrar numa energia positiva para iluminar a cabeça dos onze!”, bradou. “Se o julgamento for baseado só nos autos, liberado. Mas se for em cima do boato, do que diz a mídia, acabou.”

Logo em seguida às revelações de Roberto Jefferson, a primeira reação de Delúbio foi negar os pagamentos, a ligação com Marcos Valério e até os empréstimos. Depois, numa estratégia articulada pelo então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos – hoje advogado dos donos do Banco Rural no processo –, chegou-se ao mantra da defesa: se houve crime, foi o de caixa dois. E não se deveria falar em dinheiro sujo ou por fora, e sim em “recursos não contabilizados”, já que se tratava de empréstimos bancários com origem conhecida.

O presidente Lula foi à televisão mais de um mês após a eclosão da crise para dizer que havia sido um crime menor, cometido sistematicamente por todos os partidos. O “erro de um dirigente ou de outro” não autorizaria ninguém a dizer que o PT estava envolvido em corrupção. Nas outras ocasiões que se manifestou sobre o assunto, afirmou que foi “traído” e que “o nosso Delúbio” havia errado.

Conforme a crise avançou, detalhes do “valerioduto” foram sendo revelados e novos escândalos estalaram na imprensa. Eles podiam nada ter a ver com o mensalão, mas contribuíram para sujar ainda mais a imagem do governo: os dólares na cueca de um assessor do irmão de José Genoíno, a Land Rover dada para Silvio Pereira por uma empresa que tinha contratos com a Petrobras, a doação nunca comprovada de dólares de Cuba para a campanha de Lula.

Delúbio Soares foi à Polícia Federal em 66 ocasiões. Seu depoimento mais curto em comissões parlamentares de inquérito que trataram do mensalão durou nove horas. O mais longo, dezenove. Sua situação parecia fora de controle. Numa cerimônia pública em Goiás, ele chorou três vezes durante um discurso. “Se deixarmos, a direita vai querer fazer o impeachment do presidente”, disse aos presentes. Dias depois, pediu afastamento da tesouraria do partido.

A estaca no coração do PT foi enterrada pelo publicitário Duda Mendonça. Em agosto, ele contou à CPI na Câmara que recebera 10 milhões de reais de Marcos Valério, numa conta nas Bahamas, como parte do acerto pela campanha de Lula. Enquanto o marqueteiro falava, havia parlamentares de estrela vermelha na lapela que choravam pelos cantos do Congresso.

O impedimento de Lula tornou-se uma ameaça real no segundo semestre de 2005. O então porta-voz da Presidência, André Singer, procurou donos de veículos de comunicação para medir o tamanho da crise. Três dos principais integrantes do governo – Thomaz Bastos, Antonio Palocci e Gilberto Carvalho – foram a Lula para levantar a hipótese de que ele desistisse da reeleição a fim de arrefecer a pressão pelo seu afastamento. O presidente não levou a conversa adiante. Dias depois, ele entrou na sala de Gilberto Carvalho, no Palácio do Planalto, e disse: “As pessoas não sabem da minha ligação com o povo.” No PT, uma corrente destacava a “burrice” de Delúbio, pois teria recorrido a métodos e pessoas utilizados pelo PSDB. Outra facção atribuía o caso à soberba e à desorganização do partido, que, uma vez no poder, deixara uma única pessoa atuar com destemor e autonomia total.

“Delúbio era um cara sem condição de ter o poder que tinha”, disse-me um ministro de Dilma Rousseff num almoço recente no restaurante Lake’s, em Brasília. “E, de repente, ele fica lá, solto, decidindo o que fazer sozinho, lidando com milhões em nome do PT. Olhando para trás, percebe-se que foi tudo errado: o PT pirou, o Delúbio pirou, o Zé Dirceu pirou. Estava todo mundo se achando Deus.”

Naqueles dias de tumulto, a Democracia Socialista, ala do PT contrária ao Campo Majoritário – ao qual pertenciam José Dirceu, Lula e Delúbio –, passou a dirigir o partido. O ministro Tarso Genro, da DS, tomou as rédeas da situação e falou em “refundação do PT”, identificando uma “crise ética e política” sem precedentes. Segundo seus adversários, Tarso vislumbrava naquele cenário a oportunidade de viabilizar seu próprio nome à sucessão de Lula.

Quatro meses depois das denúncias de Jefferson, Delúbio foi expulso do PT por 37 votos contra 16 e duas abstenções. Foi o único a ter o pescoço degolado pela legenda.

A carta que ele escreveu à Comissão de Ética do PT era pura resignação, mas deixava transparecer sinais de seu poder de fogo. Nela, ele dizia que cumprira ordens, que não era um delator ou traidor, e que a sua expulsão era uma decisão política – de “dar carne, a minha carne, aos leões”. E vaticinou: “A história cobrará esse erro. Não estou fazendo minha defesa, mas a defesa de todos os que se beneficiaram dos recursos não contabilizados, que não foram inventados por mim.” Encerrou a carta com uma frase de ressonâncias bíblicas: “Tranquilizem-se os beneficiados pelo meu trabalho, pois seus nomes não brotarão de minha boca, ainda que o meu não saia das deles.”

Durante quase sete anos, Delúbio viveu numa semiclandestinidade. Não se afastou da política nem foi completamente abandonado pelo partido, mas sua presença era evitada. Certa vez, quando Lula esteve no interior de Goiás para inaugurar uma montadora, o cerimonial da Presidência levou o ex-tesoureiro para uma sala reservada e providenciou sua saída pelos fundos, para que não fossem fotografados juntos.

Mesmo recolhido, Delúbio continuou a manter contato com petistas e ajudou em campanhas políticas de aliados. Em 2007, fundou a Geral Imóveis, um portal de classificados imobiliário, que reúne ofertas de empresas e corretores autônomos e as disponibiliza em um grande banco de dados.

Especula-se com frequência sobre ações de Delúbio como consultor e lobista, o que ele sempre negou. Em maio, uma reportagem da Folha de S.Paulo revelou que ele fora flagrado no Aeroporto Santos Dumont discutindo com um empresário, investigado pela Polícia Federal, o fornecimento de lousas digitais para escolas públicas capixabas e goianas. Na palestra em Salvador, ele deu sua versão do caso: “O cara falou comigo uma vez, eu falei para me procurar depois do Carnaval e nunca mais soube dele. Nunca fiz nada, nada, nada. Mas sabe o que é isso? É mais uma tentativa de me indispor com a sociedade, com o STF, às vésperas desse julgamento.”

Há seis anos, ele se mudou de um apartamento de 70 metros quadrados nos Jardins, em São Paulo, onde viveu de aluguel por doze anos, para outro do mesmo tamanho, na Consolação, cedido pela sogra. Até hoje, não tem bens registrados em seu nome. “A casa dele é pequena, simples, mas simples mesmo”, disse Carlos Augusto Montenegro, dono do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, o Ibope, que já foi convidado para comer arroz com pequi, uma iguaria goiana preparada pelo próprio anfitrião.

Quando o espaço do mensalão no noticiário se reduziu, o ex-tesoureiro quis sair do ostracismo. Em 2009, planejava ser candidato a deputado federal. Tinha pesquisas que o colocavam em ótima situação na corrida eleitoral, quando recebeu um recado de Lula de que deveria esquecer o assunto. Para o presidente, ainda não era hora de ele voltar ao partido nem, tampouco, de ensaiar uma candidatura: sua exposição poderia comprometer os planos da sucessão no ano seguinte. Delúbio acatou o ditame, mas, ao retirar o seu pedido de reincorporação aos quadros do PT, mandou uma carta ao partido lembrando mais uma vez a todos que apenas cumprira determinações. “Não fui um alegre, um néscio, um ingênuo”, escreveu. “Aceitei os riscos da luta. Mas não fui senão, em todos os instantes, sem exceção, fiel cumpridor das tarefas que me destinou o PT.” Delúbio chegou a cogitar a oferta para se filiar ao PMDB e assim sair candidato. Acabou recusando. Mais uma vez, o soldado aceitava o sacrifício.

Com a eleição de Dilma, finalmente sua situação mudou. Não foi bem o resgate do soldado Delúbio, mas, em abril do ano passado, ele retornou ao PT com 80% dos votos a favor de sua reintegração. O ex-presidente da sigla Ricardo Berzoini – que havia defendido sua expulsão – disse que Delúbio já tinha pagado um “preço alto demais”. Colocara a cabeça a prêmio para salvar o partido sem jamais ter cobrado a fatura, o que o fez ter o respeito e a gratidão dos companheiros. Como um kamikaze que sacrifica a vida em nome de uma causa, sacrificara a honra e o futuro.

No mês passado, o lançamento do Anuário da Justiça do site Consultor Jurídico reuniu em Brasília ministros do Supremo, procuradores, advogados e jornalistas. Entre as conversas, ouviam-se apostas de quando o mensalão seria julgado, quem sairia condenado ou  absolvido. Aposentado, Antônio Fernando de Souza, o procurador que fez a denúncia do esquema, circulava pela festa. “Acho engraçado falar que a denúncia é inepta”, disse. “Está tudo lá, não se deve ter dúvidas. Esses caminhos de coisas escusas são sempre mal explicados. O julgamento será importante porque ele reflete a história, e vai esclarecer o que as pessoas não entenderam ainda.”

Durante toda a fase de interrogatórios e até a finalização da denúncia, Antônio Fernando foi assessorado por uma equipe de jovens procuradores federais, boa parte deles permanentemente desconfiados de autoridades do Estado, não importa qual a sua filiação partidária. Um deles concordou em falar sobre o caso dias depois, desde que sua identidade fosse preservada. No seu gabinete, ele defendeu que era tosco o argumento segundo o qual não havia necessidade de pagar para que um petista votasse com o governo: nenhum deputado do PT foi denunciado por votar de determinada maneira no Congresso, e sim por ter utilizado estratagemas criminosos para receber dinheiro, disse.

Ele explicou que o fato de o dinheiro ter sido usado para sanar dívidas de campanha não ameniza em nada o crime. O destino e o uso do dinheiro – saldar débitos de campanha, colocar no próprio bolso ou doar para uma creche – são irrelevantes. O que importa judicialmente é que receberam verbas, desviadas por um esquema de corrupção, pelas atribuições que tinham naquele momento. Ou seja, pelo fato de serem parlamentares.

Na avaliação do procurador, não há dúvida quanto ao desvio de dinheiro público: pelo menos 10 milhões de reais da Visanet abasteceram o PT, por meio de contratos de Marcos Valério com a empresa. Advogados da defesa retrucam que os recursos da Visanet são privados, já que se trata de um fundo composto por mais de 25 bancos – inclusive o Banco do Brasil –, e foi a empresa, e não o banco estatal, quem fez o pagamento às agências de Valério.

O procurador refutou a tese da defesa com um laudo do Instituto de Criminalística, anexado ao processo. O laudo diz o seguinte: “Todo desfalque na Visanet repercute negativamente no balanço do patrimônio líquido do Banco do Brasil”, que tinha uma participação de 30% no fundo da empresa. Com isso, o procurador quis demonstrar que havia, sim, verba pública no dinheiro embolsado por parlamentares. Mesma conclusão de um relatório adicional sobre o caso que a Polícia Federal entregou ao Supremo no início de 2011.

Segundo o procurador, o “número mágico” dos quarenta acusados surgiu de maneira involuntária. A equipe de redatores da denúncia só se deu conta da coincidência quando a imprensa passou a explorar o fato. Dos denunciados, 38 irão a julgamento. O deputado José Janene morreu em 2010 e o ex-ministro Luiz Gushiken, internado com um câncer terminal no Hospital Sírio-Libanês, foi retirado da denúncia, por falta de provas, nas alegações finais do processo.

O interesse dos acusados, segundo o procurador, está demonstrado nos autos. O BMG ganhou o crédito consignado e foi o primeiro banco privado autorizado pelo governo a operar essa modalidade de empréstimo para aposentados e pensionistas. O Rural compraria a massa falida do Banco Mercantil de Pernambuco, um negócio que poderia lhe render 550 milhões de reais, se o Banco Central interrompesse sua liquidação. Marcos Valério queria ser o marqueteiro de campanhas eleitorais do PT e ter as contas gordas do governo. E o PT queria o que todo partido deseja – poder.

O procurador teria feito algo diferente na instrução da denúncia? Ele pensou e respondeu: teria ouvido Lula no “calor dos fatos”, e não como foi feito, por escrito, apenas em 2009, quando o presidente respondeu às perguntas “tranquilo, sentado em seu gabinete”. Ele tem uma única concordância com os amigos e companheiros do antigo tesoureiro do PT: Delúbio integrava uma engrenagem, era um soldado, um cumpridor de ordens.

Na palestra em Itaquaquecetuba, Delúbio não se furtou a falar da Comissão Parlamentar de Inquérito que investigava as ligações entre o senador Demóstenes Torres e o contraventor Carlos Cachoeira. “O senador Demóstenes Torres, que ficava nos chamando de mensaleiros, taí ó, enrolado até o pescoço”, disse. “A Globo e a revista Veja, que queriam me detonar, e também ao Lula e ao Zé Dirceu, agora estão tremendo de medo de ir parar numa CPI.”

O debate foi aberto a perguntas da plateia, mas os que se inscreveram fizeram curtos discursos de incentivo ao réu e ataques à imprensa. Usaram as seguintes expressões: “os articuladores de direita”, “a mídia conservadora”, “os reféns da ditadura da imprensa”, “a mídia marrom” e “a imprensa deturpadora cheia de más intenções”.

Num almoço na rua Amauri, em São Paulo, o advogado de um dos réus, que pediu para ter seu nome preservado, também ressaltou a parcialidade da imprensa. “A Globo e a Veja defendem a condenação dos acusados mais conhecidos”, falou. “A revista está em campanha pela prisão dos acusados petistas, e a Globo não precisa nem fazer isso. Basta que ela bote o julgamento no Jornal Nacional todas as noites. Os ministros explodirão de vaidade e condenarão a todos.” A desqualificação da mídia é parte de sua estratégia de defesa.

No pátio da CUT, um dos militantes inscritos para falar pegou o microfone, olhou para o convidado e lhe disse, emocionado: “Delúbio, nós não temos vergonha de tirar foto com você, não! Porque você foi muito macho, Delúbio! Você segurou o rojão lá sozinho. Nós estamos com você!” O ex-tesoureiro se levantou e deu um abraço apertado no que discursava. Um coro bem nutrido se alastrou: “Delúbio é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo!”

Às dez da noite, quando metade das pessoas já havia ido embora, anunciou-se que seria servido um lanche. A mesma música sertaneja do início da palestra tomou conta do ambiente.

Quem tá do lado da gente é

companheiro

e quem dá o golpe traiçoeiro é fédaputa

Escolha bem seus companheiros

de conduta

Companheiro é companheiro

Fédaputa é fédaputa.

Uma fila organizada se formou nos fundos do galpão, onde sanduíches de pão francês com mortadela e suco de caju foram distribuídos por voluntários. Cercado pelos políticos locais, Delúbio Soares voltou para a salinha contígua para mais conversas privadas. Se condenado, sua pena pode chegar a 111 anos de prisão.

Daniela Pinheiro

Daniela Pinheiro foi jornalista da piauí entre 2007 e 2017

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