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O trampolim de Temer

Um anão do orçamento volta à Câmara
Bruno Bernardes
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Com o broche de deputado na lapela, Manoel Moreira desceu um lance de escada e cruzou os dezesseis plenários do corredor das comissões da Câmara, alheio ao corre-corre. As moças que fazem pesquisa não foram atrás. Ele passou por caça-assinaturas e jornalistas, até chegar ao cafezinho. Vinte e dois anos depois de deixar o poder, o ex-deputado circula livremente pelo Congresso. Dos tempos de parlamentar, sobrou apenas o adereço que ele não tira do paletó.

Moreira tem pouco mais de 1,60 metro de altura, escassos fios de cabelo penteados com cuidado e a voz grave e forte. Trabalhou na Câmara entre 1987 e 1994, quando serviu como deputado federal pelo PMDB paulista. Nascido em Vitorino Freire, no oeste maranhense, fez carreira política com base eleitoral na região de Campinas, ligada ao meio evangélico. Antes de chegar a Brasília, foi também vereador e deputado estadual.

O ex-deputado é figurinha fácil nos bastidores da Câmara. Numa segunda-feira recente atipicamente amena, sem vazamentos comprometedores ou ministros em banho-maria, Moreira conversava com dois interlocutores, próximo ao jardim de inverno decorado com um painel de azulejos de Athos Bulcão. Falavam sobre os políticos contemporâneos do maranhense. É habitué do gabinete do presidente interino da Câmara, seu conterrâneo Waldir Maranhão. Em junho, foi visto também numa sessão do Conselho de Ética que discutia o processo de cassação de Eduardo Cunha.

“Por que eu circulo por aqui?”, indagou Moreira, antecipando-se à pergunta da piauí. “Sou um ex-deputado, e graças a Deus não tenho muitos inimigos, então trato todo mundo com educação, de gato a cachorro”, apressou-se em responder. “Não sei se sou querido: circulo.” Escorado na parede enfeitada de imagens dos presidentes da casa no período imperial, disse sentir-se confortável com o anonimato. “Estou no ocaso, não tenho por que buscar publicidade.”

 

Manoel Moreira entrou para a história não por sua atuação parlamentar, mas pelo envolvimento num dos maiores escândalos de corrupção dos anos 90. O maranhense era um dos chamados “anões do orçamento” – um grupo de deputados (apelidados “anões” porque tinham o physique du rôle) acusados de desviar recursos públicos federais num esquema de manipulação do orçamento da União.

Quando depôs à CPI que investigava o caso, sob o juramento de praxe, o então deputado negou o que pôde, embora sua ex-mulher tenha revelado como funcionava o esquema. Afirmou que um empreiteiro comprara seu flat por “boa vontade” e que usara “várias vezes” o avião de outro. Não conseguiu explicar, porém, a movimentação bancária quase quinze vezes maior que seu salário de deputado federal ao longo de sete anos. O relatório final da comissão entendeu que “suas declarações ao fisco não respaldam suas explicações em depoimento”.

A CPI concluiu que os anões – e outros políticos de maior estatura – recebiam propina para incluir no orçamento emendas que beneficiavam empreiteiras e dirigir subvenções sociais para entidades-fantasma. Recomendou a cassação de dezoito parlamentares; oito foram absolvidos, seis foram cassados e quatro renunciaram. Moreira foi um dos que abriu mão do mandato, escapando do plenário e da inelegibilidade.

A manobra permitiu que um político ainda sem expressão nacional, à espera de oportunidade para assumir uma cadeira como suplente, integrasse a Câmara: Michel Miguel Elias Temer Lulia. Moreira fez a cortesia de ligar ao colega que o substituiria para anunciar sua decisão. “Olha, Michel, amanhã estou renunciando, se prepara para assumir”, disse. “Eu estava pensando em te ligar”, teria respondido o futuro presidente interino, algo constrangido.

Temer já havia ocupado uma cadeira na Câmara como suplente na legislatura anterior, a da Constituinte, e só viria a alcançar o número de votos para se eleger deputado federal nas eleições seguintes. Sua biografia oficial no site da Presidência, atualizada pela última vez em 2014, não informa as circunstâncias em que o político paulista chegou ao Parlamento em abril de 1994.

 

Moreira só se livrou da Justiça dezesseis anos depois. “Quando renunciei, disse que esperava ver minha inocência provada, e foi isso”, afirmou. Tratava-se de um malabarismo semântico do ex-deputado, que não foi absolvido, mas teve sua punição extinta, já que o crime foi prescrito. A imprensa não tocou no assunto. A Wikipédia lhe deve um artigo. “Tenho minha consciência tranquila”, disse. “Nunca usei óculos escuros para esconder minha cara nem mudei de nome.”

Depois de dar a vez a Temer, Moreira voltou a submeter seu nome ao escrutínio das urnas, mas nunca mais se elegeu. Em sua última tentativa, em 2010, candidatou-se ao Congresso pelo PP e obteve 3 354 votos, ou 0,02% do total apurado em São Paulo. Ele atribui seu revés eleitoral ao alto preço para se eleger deputado pelo estado – 10 milhões de reais, segundo sua estimativa. “Não tenho dinheiro para comprar voto”, justificou-se. “Esse pessoal mente quando fala que gasta pouco.”

Após renunciar, Moreira voltou para São Paulo e depois morou por três anos em Uberaba, perto da família da segunda mulher, mãe de seu terceiro filho. Evasivo, não quis precisar desde quando voltou a Brasília. Disse viver de advocacia e de algumas corretagens. Aos 66 anos, seu objetivo imediato é montar um escritório na capital federal e se preparar para um concurso de cartórios. Gostaria de retomar a política e aventa se candidatar a vereador por Paulínia, no interior paulista – mas isso só em 2020.

Em maio, Moreira foi à posse de Michel Temer no Planalto, acompanhado de um amigo do PMDB. O ex-deputado torce pelo sucesso do presidente em exercício, mas descarta a possibilidade de compor o governo. “Não quero cargo nenhum”, afirmou, categórico. “Conheço o Michel e o Michel me conhece, mas isso é a única coisa a que não aspiro.” Em seguida, pareceu considerar a hipótese mais seriamente. “Se arrumasse um emprego aí, quanto é que ia ganhar, será? Não vou.”

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