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O tucano black bloc

Carlão Sampaio e uma proposta incendiária
Julia Duailibi
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

Uma pequena multidão de jornalistas, fotógrafos e câmeras de tevê se amontoava na sala apertada da liderança do PSDB no Senado, em Brasília, no início de agosto. Haviam sido alertados horas antes pelo senador Aécio Neves de que o partido faria um pronunciamento importante. O paulista Carlos Sampaio, líder tucano na Câmara, conhecido pelo temperamento aguerrido e combativo na tribuna, entrou na sala com o semblante fechado e o olhar grave. Ao lado do paraibano Cássio Cunha Lima, líder do partido no Senado, esperou que todos tomassem os seus lugares antes de fazer o pronunciamento.

“Quando o vice Michel Temer afirma que é preciso encontrar alguém capaz de unificar o país, ele está dizendo que a presidente Dilma não pode mais fazer isso”, constatou Carlos Sampaio, referindo-se à declaração feita na véspera pelo vice-presidente. Mas Carlão, como é chamado pelos corredores de Brasília, não ficou por aí. “Estamos lançando um movimento para que as pessoas reflitam que a melhor saída para a crise é a realização de novas eleições”, emendou. Os jornalistas se entreolharam.

A proposta radical, de toda forma, não era sua. Mais uma vez, Carlão cumpria uma tarefa de que fora incumbido pelo presidente do PSDB, Aécio Neves. O script da declaração havia sido definido naquele mesmo dia, por Aécio. A ideia era soltar a semente do “movimento” por novas eleições, na expectativa de que ela germinasse nas manifestações contra a presidente marcadas para dali a dez dias. Se o plano funcionasse a contento, centenas de milhares de cidadãos clamariam por um novo pleito, ainda que a Constituição do país só o preveja em raros casos, como o da cassação da chapa vencedora – de Dilma Rousseff e Michel Temer – pelo Tribunal Superior Eleitoral. Mas isso era um detalhe.

 

Carlos Henrique Focesi Sampaio, aos 52 anos, tem uma aparência jovial: bochechas grandes cobertas por uma barba bem aparada, e cabelos lisos repartidos de lado, como os de um menino comportado. Quando não está a serviço, circulando de terno e gravata pelo Congresso, costuma se vestir de maneira mais informal. Gosta de camiseta polo, com a parte da frente para dentro da calça jeans, de modo que a fivela do cinto fique aparente. Ele e Aécio são amigos há mais de uma década.

Desde a eleição, quando ganhou o cargo de coordenador jurídico da campanha do PSDB, Carlão executa missões para o líder tucano. Era ele o encarregado de sair à caça dos usuários das redes sociais que faziam comentários sobre Aécio, numa espécie de política de tolerância zero cibernética: para cada crítica, um processo.

Encerrado o pleito, não se incomodou em questionar as regras do jogo e pediu que fosse feita uma auditoria nas urnas eletrônicas que atestavam a derrota do tucano mineiro. Parece não lhe ter ocorrido que as urnas eram as mesmas que haviam dado, pela sexta vez, a vitória ao PSDB em São Paulo – e que registraram os mais de 295 mil votos que ele próprio recebera, garantindo-lhe o quarto mandato como deputado federal. Mas isso era outro detalhe.

Aécio perdeu a eleição, Carlão não virou ministro da Justiça, mas foi alçado a líder do partido pelas mãos do candidato derrotado. Logo a seguir, tornou-se “vice-presidente jurídico” do PSDB, cargo até então inexistente na burocracia da agremiação. Empoassado, em mais uma dobradinha com Aécio, Carlão anunciou ao país, em abril, que apresentaria o pedido de impeachment da presidente. A reação no partido foi ruim. Não havia consenso sobre a matéria. Aécio puxou o freio, e Carlão ficou com o abacaxi na mão. De quebra, foi desautorizado publicamente pelo mineiro.

Nada que pudesse ameaçar a fidelidade canina do deputado ao senador. Entre os tucanos, Carlão ganhou o apelido de “Pit bull do Aécio”. Alguns o chamam maldosamente de “Papagaio de pirata” do senador, por causa do apoio moral e cenográfico que costuma dar às entrevistas do mineiro.

 

Doze dias após lançar a proposta incendiária, Carlão encontrou a direção do partido, na sede do PSDB em Brasília. Numa pequena sala de vidro, contígua ao gabinete vazio de Aécio, conversou com os outros seis vice-presidentes tucanos e admitiu que a defesa de novas eleições havia sido um tiro no pé.

Aécio e Carlão conseguiram reunir contra a bandeira não só petistas, peemedebistas, empresários e tucanos, como até a Rede Globo. Na semana anterior, João Roberto Marinho ouvira a ideia em conversa com senadores do PSDB e demonstrara preocupação. O governador Geraldo Alckmin, desejoso de que tudo permaneça como está para não complicar sua candidatura em 2018, também ficou atônito. Telefonava para outros tucanos a fim de entender o que era aquilo. Fernando Henrique Cardoso se viu obrigado a entrar em cena. Enterrou a ideia. Novas eleições, daquela maneira, era algo que não cheirava bem.

Para Carlão, contudo, os problemas surgiram porque sua declaração foi mal interpretada. “Faltou uma explicação melhor. Gerou uma dúvida. Nós precisávamos deixar claro que esse cara [capaz de unir o país] não é necessariamente ele [Michel Temer], mas tem de ser alguém legitimado pelo voto. Aí deu a confusão”, disse o tucano, no gabinete de Aécio. Segundo ele, novas eleições, agora, “apenas” se a Justiça cassar a chapa Dilma–Temer. “Apenas neste caso”, asseverou.

As idas e vindas de Aécio deixaram Carlão um pouco confuso. Mas, na última semana de agosto, baixou a ordem de que era preciso esperar o PMDB. Só com o apoio do partido de Temer haveria impeachment. De toda forma, Carlão já havia deixado pronta nova frente de batalha. Assim que receber o aval de Aécio, num movimento casado com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, o líder tucano apresentará o pedido de abertura de processo de impeachment contra Dilma. Uma vez feito o pedido, mesmo que Cunha o rejeite, Carlão apresentará recurso ao plenário. Aí a sorte de Dilma estará lançada. “Precisamos de três quintos: 342 deputados. São três quintos ou dois terços? São dois terços”, disse, mostrando mais intimidade com os fins do que com os meios.

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