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O vizinho da esquerda

Onde mora o presidente interino
Chico Felitti
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

“Sabe quem mora ali, no terceiro portão?”, perguntava um sujeito a qualquer repórter ou cinegrafista que passasse perto da casa de Michel Temer no dia da votação do impeachment na Câmara, em 17 de abril. Ele mesmo respondia, esfregando as mãos como quem cometeu uma traquinagem: “O Konder Comparato.”

A praça Conde de Barcelos, no bairro paulistano de Alto de Pinheiros, é o endereço do presidente interino e de um eminente teórico oposicionista, o jurista Fábio Konder Comparato. Aos 79 anos, o professor aposentado da USP esteve na linha de frente da resistência ao impedimento de Dilma Rousseff, que ele reputa “absolutamente ilegítimo”. Há 24 anos, foi um dos advogados de acusação em outro processo de impeachment – o de Fernando Collor de Mello. Na praça pacata e arborizada do Alto de Pinheiros, ocupa a casa à esquerda da de Temer.

Ambos se formaram pela Faculdade de Direito da USP, Konder no fim da década de 50 e Temer no início dos anos 60. Não há registro de que tenham se cruzado nas arcadas da alma mater. Voltaram a circular pela mesma área em 1998, quando Temer comprou a casa que, à Justiça Eleitoral, declarou valer 722.977,41 reais em 2014. A família Konder Comparato habita o bairro há mais de quatro décadas.

As fachadas têm algo a dizer sobre a posição de ambos no espectro político. A casa verde-pistache do presidente em exercício tem cerca elétrica, câmeras de segurança, janelas com persianas que bloqueiam a luz e a cobertura de cinco agentes do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. Já a garagem de ardósia do professor aposentado da USP é delimitada por um portão metálico com grades que não terminam em lanças; visitantes acionam uma campainha que soa como um besouro levantando voo.

O próprio professor Konder Comparato é quem veio à porta atender à piauí, de bermuda e sandália Rider. Estava em mangas de camisa e usava um colete de tricô por cima da polo listrada. Agradeceu educadamente ao pedido de entrevista, mas disse à reportagem que entrasse em contato mais tarde – não informou se estava assistindo à votação na Câmara pela tevê. Mais tarde, com o processo de impeachment já no Senado, afirmou que não tem nada a dizer a respeito da vizinhança.

Ninguém atendeu a campainha na casa em que Temer mora com a esposa Marcela e o filho Michelzinho. A base de apoio familiar na vizinhança foi reforçada dois anos atrás, quando a mãe e a irmã de Marcela se mudaram do interior para uma casa alugada na mesma calçada em que mora a primeira-dama.

Nos tempos da Vice-Presidência, Temer ficava no Palácio do Jaburu no miolo da semana e regressava ao lar paulistano na quinta à noite ou sexta de manhã. A nova rotina deve prendê-lo mais a Brasília, para onde Marcela ainda não está totalmente convencida a se mudar de vez, segundo confidenciaram amigas – não teria se adaptado muito à cidade planejada quando morou lá por algumas semanas, em 2011.

 

O bairro de Temer e Konder Comparato é um dos mais arborizados da Zona Oeste, a mais rica da cidade. É também dos menos populosos, e sua população está encolhendo (diminuiu 14% nos últimos vinte anos segundo o IBGE). Ali é proibido construir prédios, o que garante vista verde e desobstruída aos moradores das casas, construídas na maioria entre os anos 1930 e 1960 (valem hoje a partir de 2 milhões de reais).

A paz não deixa transparecer o antagonismo entre os dois moradores ilustres. Vizinhos do presidente afirmam que o recato é sua marca. “Ele é educado, muito fino. A família inteira é. Não se misturam muito, mas não tenho nenhuma queixa”, disse a professora de inglês aposentada Marita Souza e Silva Adams, que mora a três casas do mandatário. “São educados, sim, mas o membro mais simpático da família é o Thor”, disse um empresário do bairro, referindo-se ao golden retriever dos Temer. Um raro encontro entre situação e oposição ocorreu dois anos atrás, numa manhã em que pai, mãe e filho saíram para passear com o mascote. “O Konder estava na calçada. Passou a mão na cabeça do cachorro, mas virou a cara para o dono”, disse o vizinho, como se narrasse um episódio de Downton Abbey.

No segundo turno das eleições presidenciais de 2014, os eleitores da 251ª zona eleitoral, que inclui o Alto de Pinheiros, deram apenas 20% dos votos a Dilma Rousseff. A casa de Konder Comparato é um dos últimos redutos oposicionistas do bairro. O jurista anda batendo de frente até com um vizinho que o conhece desde pequeno – seu irmão, José Marcos Konder Comparato, que mora numa casa a dez passos da sua. José Marcos, um homem de andar lento e assertivo e modos cavalheirescos, assistiu à votação na Câmara com um chapéu-panamá amarrado por uma fita onde se lia “Fora Dilma!”.

Temer, em contraste, conquistou a simpatia da maioria dos vizinhos. Nem um foco de atrito foi capaz de abalar sua popularidade no bairro. Em 2013, a Associação dos Amigos de Alto de Pinheiros se queixou à revista Veja de uma casa na rua adjacente à praça que havia sido alugada para servir de abrigo aos seguranças do então vice-presidente. Por se tratar de um bairro exclusivamente residencial, o zoneamento urbano de São Paulo proíbe ali praticamente qualquer tipo de negócio – inclusive o alojamento dos guarda-costas. “Eles fazem balbúrdia, penduram roupa na janela, coisa de cortiço”, disse um membro do grupo que preferiu não se identificar. Como se negociasse com o Centrão, Temer contornou a saia justa e acalmou os vizinhos. “A gente fez com que ele regrasse o barulho e parasse de atrapalhar”, disse uma dirigente da Associação.

A casa dos seguranças continua lá, com aluguel na casa dos 20 mil reais por mês e toalhas penduradas na varanda (uma delas do Palmeiras). O número de agentes mais que dobrou nos últimos seis meses. “Mas agora eles estão protegendo o presidente”, disse um vizinho numa manhã recente. “Nunca mais vai ter crime nessa praça.” Em 22 de maio, após o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto ensaiar um acampamento na praça e ser retirado por jatos d’água e bombas de efeito moral da Polícia Militar, criou-se ao redor da casa do presidente uma área de segurança nacional.

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