esquina

O Voltaire de Itaboraí

Da arte de definir Mercosul

Cristina Tardáguila
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

Numa tarde de dezembro, Mateus Machado deixou sua casa, paralela a uma rodovia em Itaboraí, município no estado do Rio, e dirigiu-se ao cybercafé da esquina. Munido de 2 reais, adentrou a sala pequena e fria para comprar duas horas de acesso à internet. Sentou-se diante de um dos dez computadores e logou-se à Wikipédia em português.

Aos 14 anos, Mateus não visita o Orkut, não abre o Messenger e nem checa o e-mail ao se conectar à rede mundial de computadores. Desde 25 de outubro de 2007, quando acrescentou seu primeiro verbete – “Ano Internacional do Esporte e da Educação Física” –, só a Wikipédia lhe interessa. A enciclopédia virtual, cujo conteúdo pode ser escrito e alterado por qualquer internauta em qualquer lugar do mundo a qualquer hora do dia, é a menina dos olhos do menino. Mateus é o autor de 395 dos mais de 445 mil artigos que existem na versão em português. Tenta cunhar um verbete por dia. “O objetivo é fazer chegar ao meio milhão”, contou.

Assim como médicos e advogados, enciclopedistas virtuais costumam se dividir em especialidades. As de Mateus são geografia, história e música. Quando decide inaugurar um verbete, ele acessa o Google e digita um nome pelo qual tenha interesse. Por exemplo: “Ilhas Seicheles”. Se já existe definição na Wikipédia, segue adiante. Se não existe, trata de confeccioná-la. Foi assim que instituiu “Espanha”, “México” e “Instituto Cervantes”, a maior parte deles traduzida da página em espanhol. Mirador, Barsa e Britânica, consulta apenas em último caso: “Elas não são modificáveis. Têm erros que se perpetuam”, ensina.

Quando um assunto lhe é de extremo interesse, Mateus concorda em colaborar mesmo sem colher o ônus da criação. Foi o caso de “Mercado Comum do Sul – Mercosul”. “Tem figuras, texto bom, você fica interessado em chegar ao final. As informações sobre o protocolo de Brasília, fui eu que inseri”, explica, garboso, o aluno da 9ª série. De tão completo, o artigo acabou virando destaque na página de abertura da Wikipédia – um luxo no mundo dos enciclopedistas virtuais.

 

No alto da tela do computador, a contagem regressiva começou em 120 minutos. Mateus abriu o verbete “Grammy Latino para Gravação do Ano”. Há meses que o jovem destina ao menos uma hora por dia – normalmente entre a novela das sete e a das oito – à edição do artigo sobre os prêmios musicais. Ainda se considera longe do fim. “São nove anos, 49 subcategorias por ano. Eu tenho que consultar a Wikipédia em inglês e em espanhol a toda hora para não publicar nenhum erro”, explicou.

Com o mouse correndo sobre a tela, visitou a página anglo-saxã, copiando para a sua os nomes dos cantores Andrea Bocelli e Laura Pausini, indicados ao prêmio de 2008 pela canção Vive Ya!. Percebeu que tanto Bocelli quanto Pausini já contavam com definições próprias, ao passo que a música, não. “Hummm… não foi criado ainda”, resmungou. “Vou anotar no meu caderno para pesquisar mais tarde e depois montar o verbete ‘Vive Ya!’.” Mateus é exigente com seus artigos. Não gosta de deixar informação sem link associado. “Tem que ter fonte e referência em tudo senão perde a credibilidade”, ensina.

Meia hora depois, o enciclopedista deu por concluída a edição daquela subcategoria do Grammy de 2008. Fez uma pausa, mas em vez de se entreter com um clip do YouTube, como faziam os vizinhos, resolveu visitar a página de mediação de conflitos. “Como todo mundo pode alterar o que está escrito, às vezes rolam guerras de edição – em que um edita em cima do outro sem parar – e é preciso levar a coisa a um mediador”, informou. “Tem dia que pega fogo! É divertido acompanhar!”

A discussão do momento dizia respeito à definição do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen. “Tem um wikipedista aqui classificando ele como autor de literatura gay e outro dizendo que isso é errado”, traduziu o jovem com os olhos fixos na tela do computador. “Não vou me meter, sabe? Não sei nada sobre esse cara aí”, alegou com um muxoxo, antes de seguir adiante. No universo virtual, quando um mediador (que pode ser qualquer internauta) não é capaz de pôr fim a uma guerra de edição, o debate é levado à página de votações e eliminações. É a justiça wikipediana, ambiente que dá direito até a lobby em prol de uma causa enciclopédica.

Naquela tarde de sexta-feira, Mateus decidiu votar duas vezes. Na primeira, apoiou a eliminação do verbete “São Girão”, concordando com o argumento do denunciante. “Essa página está um lixo. A redação não é boa, não tem links associados, e o pior: o cara que escreveu o artigo informou que esse santo é franco-italiano.” Fez uma pausa e disparou o veredicto: “Mas na Wikipédia da França e da Itália não há nenhuma referência a ele! Fora!” No segundo voto, foi favorável à continuação do verbete “Bruno e os Bananamigos”, que dizia: “Bruno é um macaco cinza que se acaba em bananas com os amigos bananas.” “O artigo é fraco, concordo. Mas esse programa de tevê realmente existe. Meu primo pequeno adora”, defendeu.

Algumas discussões são mais sérias. Em novembro, Mateus acompanhou de perto o apoquentado bate-boca sobre o verbete “Jair Bolsonaro”, que provocou um racha entre os enciclopedistas. No texto original, informava-se que o deputado federal “havia defendido o golpe militar de 64 como a única forma de impedir a instalação de um regime comunista totalitário ao estilo soviético ou chinês”. A direita wikipedista chiou: golpe não, Revolução de 64. E travou-se uma guerra que nem a mediação conseguiu solucionar. Voto lá, voto cá, permaneceu a palavra golpe, até ser trocada por uma alternativa mais diplomática: “É o único parlamentar brasileiro a defender abertamente a ditadura militar instalada no Brasil em abril de 1964.” Mateus preferiu se abster. Ele, que se diz um esquerdista convicto, só gosta de opinar em páginas favoráveis à sua posição política. Vez ou outra, acrescenta informações ao verbete “Comunismo”. “Capitalismo”, nem pensar: “A página é bem mais pobre. Ninguém tem vontade de editar esse tipo de coisa.”

Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é diretora da Agência Lupa e autora do livro A arte do descaso (Intrínseca)

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