Ver dados da foto ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

O voo de Pandora

Eletricista, encanador e falcoeiro
Julio Lamas
Tamanho da letra
A- A+ A
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

“Seu frango é diferente mesmo, cara”, comentou um morador de rua ao avistar a exuberante ave de rapina que Carlos Alberto dos Reis trazia presa no braço. Era Pandora, uma fêmea de gavião-asa-de-telha. Com quase meio metro de altura, plumagem castanho-avermelhada, bico afiado e olhar ameaçador, o bicho virou o centro das atenções na praça Roosevelt, em São Paulo. “Onde você pegou?”, indagou um rapaz. “Ela não devia estar solta?”, questionou uma senhora. “Posso colocar em cima da prancha e tirar uma foto?”, pediu um skatista.

Encanador e eletricista, Reis tem o hábito de levar Pandora, seu animal de estimação, para o batente. Chega a sair de casa uma hora antes dos compromissos, já prevendo os pedidos de selfies que receberá pelas ruas e atenderá com paciência monástica. “É um Parabuteo unicinctus”, esclareceu para uma moça que lhe perguntou o nome científico da ave. “Ainda está sendo treinada, mas voa muito bem. Não se preocupe que ela não bica”, tranquilizou, enquanto a jovem arriscava uma carícia no dorso do bicho.

Inúmeras vezes por dia, o encanador – um sujeito magro de 40 anos, natural de Três Pontas, no interior mineiro – precisa esclarecer que não pegou Pandora na natureza, mas a comprou por 3 100 reais, com autorização do Ibama. Quem a vendeu pela internet foi “o melhor criador do Brasil, um japonês muito fera”, que mora em São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Para evitar maiores embaraços, Reis procura andar com a licença da ave e o recibo da transação, ocorrida no ano passado. “Tenho sempre que dizer que Pandora é um animal de estimação como qualquer outro e que poderia morrer se estivesse solta, porque já nasceu em cativeiro e não se adaptaria.”

Tímido, o encanador ganha confiança quando desfila ao lado da ave. Não raro, transeuntes desviam da dupla com medo. “Há quem pense que Pandora é presságio de morte”, contou. Outros, porém, costumam festejá-la, em especial os torcedores do Corinthians. “Olha lá o gavião da Fiel!”, apontam, eufóricos. “Na verdade, não aguento mais esses corintianos”, desabafou Reis, entrando numa loja de material de construção. Ele torce pelo Santos.

 

O encanador é adepto da falcoaria, a técnica de treinar aves de rapina para a caça. Praticada há séculos em alguns países, como Portugal e Japão, só há poucos anos começou a atrair simpatizantes por aqui. A Associação Brasileira de Falcoeiros e Preservação de Aves de Rapina contabiliza 176 sócios, dos quais apenas doze no estado de São Paulo, a maioria no interior.

Ainda está nítida na memória de Reis a imagem de uma coruja que viu aos 10 anos. “Ela desceu de uma árvore e pegou um camundongo na estrada de uma maneira tão rápida e letal que me impressionou para o resto da vida”, relembrou, enquanto almoçava num restaurante por quilo. “A partir de então, alimentei o sonho de ter uma ave de rapina, mas só consegui realizá-lo depois de velho.”

Antes de comprar Pandora, Reis estudou o assunto por quase seis meses, preparando-se para adestrá-la. “Só leio sobre isso”, garantiu o encanador, que é solteiro e divide com a mãe viúva um pequeno apartamento no bairro da Bela Vista. Nas horas vagas, prefere se dedicar apenas à falcoaria. “Não perco tempo em sites ou aplicativos de relacionamento.” A ave dorme num canto da sala, sobre um poleiro. O próprio Reis confeccionou a comprida luva de couro que usa para lidar com ela. O apetrecho, de aparência bastante profissional, impede que as garras do bicho o machuquem e foi feito a partir de botas velhas da mãe.

Minutos antes de entrar no restaurante, Reis havia dado à ave um feto de codorna trazido de casa. Alimentada, Pandora se mostrava indiferente à movimentação intensa junto ao bufê de saladas. Funcionários e clientes pareciam acostumados à presença dela. “O segredo para ambientá-la é muita paciência, comida e passeios”, resumiu o dono. “Claro que um pouco de carinho também ajuda. Pandora pertence a uma espécie muito dócil. Né, folgada?”, explicou, acariciando delicadamente a cabeça do animal.

 

Na portaria de um edifício de quinze andares na Bela Vista, o encanador avisou pelo interfone que estava subindo para consertar uma pia. Levava Pandora a tiracolo. A cliente era uma velha conhecida: Ângela Carrosselli, síndica do prédio para cujos moradores Reis presta serviços há 25 anos.

“Você precisa mesmo trazê-la, coitada? Desgruda desse gavião, Carlinhos!”, repreendeu a síndica, mal abriu a porta do apartamento. Enquanto o falcoeiro trocava um sifão e Pandora picotava o jornal em que tinha sido colocada, a moradora contou que a ave se tornou figurinha fácil no bairro. “Conheço gente que chama o Carlos só por causa dela. Virou marca registrada. Troca uma lâmpada e lá está a Pandora; desentope privada e lá está o bicho de novo. Até nos barzinhos o Carlos leva. Ele está se sentindo todo, todo.”

Reis frequenta o terraço do edifício, que dá vista para a Câmara Municipal e um grande terminal viário. É ali que Pandora brinca depois que o dono encerra o expediente. Numa tarde de julho, tão logo foi solta, a ave voou certeira até pousar no para-raios de um prédio vizinho. Com pios altos e agudos, rasgou o céu em mergulhos rápidos, antes de retornar para o encanador. “Ela adora ir até a Câmara e voltar, mas convém ficar de olho no relógio”, advertiu Reis. “Perto das quatro da tarde, um casal de quiri-quiris que vive na rua Santo Amaro costuma aparecer. Tenho medo que a ataquem.” Embora pequeninos, os quiri-quiris, também conhecidos como gaviões-mirins, são muito agressivos e territoriais.

O falcoeiro iniciava um comentário sobre a selvageria de São Paulo quando tocou o celular. “Sim, é o Carlos. Na avenida Brigadeiro Luís Antônio? O.k. Passo aí dentro de uma hora”, prometeu, antes de sondar o novo cliente. “Escuta, posso levar o meu gavião? Ele é treinado, não bica nem nada.”

ASSINANTE PIAUÍ

Use o mesmo e-mail e senha cadastrados no site da Ed. Abril no ato da assinatura. Esqueceu a senha ou o e-mail ?