esquina

Ofélia salta no breu

Uma trapezista cega em ação

Tiago Coelho

Lá no alto, sob a lona de um circo mambembe, alguns borrões voavam de um lado para o outro. Era só o que Ana Luiza Faria conseguia enxergar, aos 8 anos, mesmo quando se sentava com os pais na primeira fila da arquibancada. Franzina, a garota nascera prematura e, em consequência, tinha apenas 8% da visão. Embora não pudesse distinguir a fisionomia dos trapezistas, se encantava a cada manobra que faziam. “Meu Deus, vai cair?”, indagava, entre o susto e a excitação, apertando o braço da mãe. Logo em seguida, vinham os borrões coloridos que serviam para quebrar a tensão. “Eram os palhaços”, relembrou a carioca três décadas depois, sorrindo.

No último dia 6 de setembro, na Praça Onze, Centro do Rio de Janeiro, ela estava de novo sob a lona de um circo, o Crescer e Viver. Esperava, ansiosa, o momento de entrar em cena na estreia do espetáculo Parada Shakespeare. Aos 40 anos, continua magra e pequena (tem apenas 1,47 metro de altura). Também conserva a jovialidade do rosto e da voz.

No fundo do picadeiro, sobressaía a imagem de um trem em movimento, que naquela noite iria passar por seis estações. Em cada uma, haveria um número baseado nas peças do dramaturgo inglês William Shakespeare. Quando o comboio parou na estação Ofélia, ouviram-se acordes graves e dramáticos ao piano. Era a deixa para Faria adentrar o picadeiro. A artista suava frio. Seria a primeira vez que executaria aquelas acrobacias em público, sem enxergar nada. Seis anos antes, perdera o pouco da visão que ainda mantinha.

À beira do palco, na tentativa de ganhar confiança, rememorou em silêncio toda a sua trajetória. Ela começou a praticar ginástica olímpica na infância. Integrava a equipe do Flamengo e exibia muita força tanto nos braços quanto nas pernas. Apesar da limitação ótica, esbanjava controle e habilidade em todos os movimentos. Mas, à medida que as atividades nas barras e no solo ficavam mais difíceis, o receio de seus pais aumentava. Até que, zelosos, decidiram tirá-la do clube. “Um dia eu volto a fazer isso”, prometeu a caçula de duas irmãs.

Aos 18 anos, já conseguindo se locomover sozinha pela cidade, matriculou-se na Escola Nacional de Circo. Achou melhor não contar nada para a família. Ali, subiu pela primeira vez num trapézio. Era tudo o que desejava desde quando, menina, avistara os saltimbancos voando. Lá em cima, sentiu-se livre. Ninguém lhe dava ordens, ninguém queria guiá-la. Passou um ano e meio na escola, onde não somente aprendeu acrobacias no trapézio fixo como teve aulas de malabarismo e enfrentou a perna de pau.

Mais tarde, se formou em educação física e foi lecionar no Instituto Benjamin Constant, especializado no ensino de deficientes visuais. Nessa época, começou a lutar judô. Corria sérios riscos, disseram-lhe. Impactos fortes, inevitáveis num combate, poderiam fazê-la perder o pouco da visão que ainda lhe restava. Os pais e os médicos tentaram convencê-la a parar. Ela bateu o pé: “Entre permanecer em casa como um vaso de cristal e me arriscar, prefiro o risco.”

Em 2006, mudou-se com a família para Natal, no Rio Grande do Norte. Já morava na cidade havia um bom tempo quando, certa manhã, acordou esquisita. Uma forte dor de cabeça a torturava e a visão se mostrava ainda mais turva do que o habitual. Tinha sofrido um descolamento de retina. Em pouco tempo, passou a não enxergar nada. Acabou abandonando o judô e o magistério. A cegueira ameaçava transformá-la num vaso de cristal.

Quis voltar ao Rio. Os pais novamente se opuseram. Não gostariam de deixar a filha sozinha numa cidade tão grande. Em junho deste ano, porém, ela recebeu uma oferta inesperada. O Crescer e Viver a convidou para interpretar o papel de Ofélia, a amada do príncipe Hamlet na célebre tragédia shakespeariana.

 

O circo carioca existe há uma década e, além de montar espetáculos, oferece aulas de técnicas circenses. No elenco de Parada Shakespeare, estão dez atores: três têm limitações visuais e dois são cadeirantes. Durante os ensaios, o diretor pediu que Ana Luiza Faria incorporasse em suas acrobacias a carga trágica de Ofélia. A artista treinou o número exaustivamente, ao longo de várias semanas. Se conseguisse dar conta do recado, inauguraria uma nova fase na capital fluminense. Não à toa, sentia-se pressionada. “Era muita mudança para uma cega só.”

Acordes dramáticos no piano. Faria entrou em cena ao lado de Alan Pagnota, que tem quase o dobro da sua altura e do seu peso. No picadeiro, Ofélia e Hamlet iniciaram uma coreografia em que alternavam momentos de atração e repulsa. Ofélia desejava Hamlet. Ele, atormentado, a afastava. Amargurada pela hostilidade do príncipe da Dinamarca, a personagem deu dois saltos arriscados para trás. Ao fim da sequência, aterrissou de pé, graciosa, como fazem as atletas da ginástica. Diferentemente delas, no entanto, não sorria. Uma expressão triste lhe tomava o rosto.

Erguida pelo companheiro até o trapézio fixo, a artista se equilibrou na barra com precisão. Embaixo, não havia colchões ou redes para ampará-la. Ela, então, abriu os braços, enroscou o corpo nas cordas do trapézio e encarou a plateia com ar de desespero. O silêncio se impôs sob a lona. De repente, vupt! Faria deu um grito agudo e se lançou no vazio. O público exclamou assustado. O corpo da circense agora pendia de cabeça para baixo, os braços soltos, as pernas ainda presas ao trapézio. Uma luz vermelha encheu o picadeiro. O elenco se aproximou da artista e a retirou dali. Fez-se um cortejo fúnebre pelo palco. Chegava ao fim a cena do suicídio de Ofélia. “Acho que o público não percebeu que eu não estava em meu melhor momento. Aplaudiram bastante”, contou Faria.

A temporada durou quatro dias. Uma semana depois, a trupe já retomava os ensaios, e a artista se alongava concentrada. No fim dos treinos, Marina Ohlavrac, uma colega de elenco que aos poucos tem perdido a visão por causa de uma doença degenerativa, foi se sentar ao lado da acrobata, no centro do picadeiro. “Quando seu corpo cai em cena, a plateia faz cara de chocada. Acham que você se desequilibra de verdade.” Faria sorriu: “Sério? Sabe que eu não vi nada disso?” As duas gargalharam.

Tiago Coelho

Tiago Coelho é repórter da piauí e roteirista

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