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Operação Lava Boca

A pasta de dente que fará Eike Batista sorrir

Malu Gaspar
IMAGEM: DIVULGAÇÃO_THE WALT DISNEY COMPANY BRASIL

Em novembro do ano passado, Eike Batista atravessou as catracas do Ministério Público Federal, no Centro do Rio de Janeiro, para prestar esclarecimentos sobre o depósito de 1 milhão de reais que sua holding, a EBX, fizera em janeiro de 2013 ao escritório da advogada Adriana Ancelmo, ex-primeira-dama fluminense. O objetivo era convencer os procuradores da República de que o dinheiro equivalia à remuneração por um parecer dado pelos sócios de Ancelmo a respeito do Porto do Açu, no norte do estado. De acordo com o depoente, a mulher do ex-governador Sérgio Cabral nem sabia do serviço. Ao terminar a exposição, Eike se sentia satisfeito. Achava que sua versão o tiraria da mira da Lava Jato. Só ficou chateado quando um dos procuradores lhe perguntou: “É verdade que o senhor está lançando uma pasta de dente?” Sim, era verdade, mas o empresário não tinha em mãos nenhuma amostra para deixar de brinde. O ex-bilionário acabara de perder uma bela chance de fazer propaganda.

Elysium. Eis o nome do produto em que Eike Batista aposta todas as fichas para voltar à ribalta dos negócios. Sempre que pode, brinda amigos, conhecidos ou investidores com um tubo do dentifrício ainda em testes. “Use e depois me diga se gostou”, costuma pedir. Na mitologia grega, Elísio – ou Campos Elíseos – era o lugar para onde iam os heróis após a morte, um paraíso onde os homens virtuosos se tornavam imortais.

Em 2012, Eike figurava entre as personalidades mais ricas do mundo, segundo a revista Forbes. Tinha uma fortuna estimada em 34,5 bilhões de dólares. Naquele mesmo ano, a petroleira OGX admitiu que não produziria nem um terço do óleo prometido aos investidores, e seu império de companhias com nomes terminados em X ruiu fragorosamente. O empresário entregou aos credores os ativos que lhe restavam e passou a enfrentar processos judiciais. Acusavam-no de manipular o mercado e usar informação privilegiada na Bolsa de Valores. Até hoje, seus bens estão bloqueados. Não bastasse, em junho de 2016, Eike confessou à Lava Jato ter depositado 2,3 milhões de dólares na conta de João Santana, marqueteiro do PT, registrados como serviços de marketing, mas nunca prestados. Em novembro, entrou de novo no radar da operação devido a suas relações com Sérgio Cabral.

 

No meio de tamanha tempestade, uma das poucas coisas que fazem o empresário sorrir é a hidroxiapatita. Composto mineral rico em cálcio, a matéria-prima da pasta Elysium vem brilhando no Japão, onde a utilizam em enxertos de osso e procedimentos estéticos. Como sai muito caro produzi-la em grandes quantidades com razoável grau de pureza, a substância não se disseminou no mercado internacional. Mas Eike garante que resolveu o problema. Sua nova empresa, a Clean World Technologies, teria descoberto um método infinitamente mais barato para processar o composto. Com uma tecnologia tão revolucionária quanto secreta, a CWT conseguiria fabricar por míseros 2 dólares a mesma quantidade de hidroxiapatita que hoje custa 20 mil. Assim, um tubo do dentifrício que, no Japão, vale 30 dólares iria para as prateleiras do Brasil a 12 reais.

Tais informações constam de um detalhado PowerPoint, que faria corar de inveja o procurador Deltan Dallagnol. Nas reuniões com potenciais investidores, os gráficos são exibidos depois de um vídeo falado em japonês e legendado em inglês, que discorre sobre os benefícios da hidroxiapatita. O próprio Eike se encarrega de apresentar o plano de negócios. Na ausência dele, quem faz as honras da casa é o filho Thor. Frequentemente, o engenheiro Moacyr Duarte de Souza Jr., da Universidade Federal do Rio de Janeiro, comparece aos encontros. Figura fácil no noticiário televisivo quando se trata de explicar catástrofes naturais, ele fornece o verniz acadêmico para o negócio. Os 26 slides do PowerPoint anunciam a Elysium como a “revolução da hidroxiapatita”. A indústria que irá confeccionar o dentifrício, segundo o material de divulgação, é a mineira Suavetex, fabricante do creme dental Contente. A empresa, porém, se recusa a comentar a parceria, alegando sigilo.

Para sintetizar a hidroxiapatita, registrar a patente e montar o plano de negócios, Eike teria gasto 10 milhões de dólares. Uma ninharia perto do que pretende embolsar. Ele acredita que a linha Elysium, com fio dental, escova de dente, enxaguante bucal e dois tipos de pasta, poderá faturar 3 bilhões de dólares globalmente. Se tudo sair como previsto, a marca chegará às lojas brasileiras nos primeiros meses de 2017 e às americanas no segundo semestre. Até 2019, roubará 10% do mercado nacional. E, em 2021, terá conseguido igual desempenho nos Estados Unidos, no Oriente Médio, na Índia e em países africanos.

 

Difícil imaginar como Eike Batista cumprirá essas metas. Para comercializar a Elysium já em 2017, seria preciso ter o registro aprovado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa. No entanto, segundo fontes da própria agência, ainda não há nada por lá. Antes de se encantar pelas pastas dentais, o empresário andou empolgado com um catalisador que, lançando mão da hidroxiapatita, ajudaria os motores a jogar menos gás carbônico na atmosfera. Eike tentou vendê-lo à General Electric e à Volkswagen, mas ninguém se interessou. Ele, então, se voltou para o mundo dos dentifrícios. Em meados de 2016, ofereceu a Elysium à Colgate, que detém 70% do mercado brasileiro. A conversa, mais uma vez, empacou.

Especialista em sensibilidade dentária, a pesquisadora Camila Tirapelli, da Universidade de São Paulo, afirma que a hidroxiapatita pode trazer benefícios à saúde. O composto tem a capacidade de grudar no esmalte dos dentes e ajudar a reconstruí-lo, com resultados melhores que os do popularíssimo flúor. Não é, porém, o que há de mais avançado na área. O biovidro, por exemplo – outro material sintético que estabelece ligações químicas com ossos, dentes e cartilagens –, gera o mesmo efeito.

Para Tirapelli, o problema da hidroxiapatita reside menos na eficácia e mais no mercado. “Não será fácil convencer a classe odontológica e o consumidor a trocar o flúor pela nova substância.” Eike, por enquanto, continua acreditando nos poderes da Elysium e sonhando com a volta por cima dos homens virtuosos.

Malu Gaspar

Malu Gaspar, repórter da piauí, é autora do livro Tudo ou Nada: Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X, da Editora Record

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