esquina

Os abandonados

Um lar para mendigos e seus cães

Consuelo Dieguez
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2018

Em meados de 2009, Karollyne Olavo da Silva juntou as poucas tralhas que possuía e deixou para trás o viaduto na Zona Norte do Rio de Janeiro que lhe servia de teto. Catando latinhas de cerveja e refrigerante pelas ruas da cidade, ela se deparara com um casarão centenário em estado avançado de deterioração no Alto da Boa Vista, bairro encravado na Floresta da Tijuca. Durante semanas Silva observou o local. Ao notar que ninguém entrava ou saía dali, meteu-se por um desvão do muro que ameaçava desabar, invadiu o terreno e tomou posse do imóvel.

Após se instalar num canto do salão de pé-direito alto e piso de tábua corrida corroída por cupins, chamou para morar com ela algumas das companheiras com quem dividia a calçada. Como Silva, as companheiras – ou irmãs, como até hoje se refere a elas, embora não tenham qualquer parentesco – são transexuais, negras e parceiras de vida miserável. Cada uma se instalou num cômodo do velho casarão e ali construiu seu lar.

Em pouco tempo, outra espécie de abandonados começou a aparecer por lá, atrás de restos de comida e também de algum abrigo: cachorros descartados por seus donos ou vira-latas que viviam nas ruas. Silva e as irmãs não só lhes deram guarida como passaram a esquadrinhar a mata ao redor para tirar outros cães do desamparo. Chegavam até os bichos pelos seus uivos aflitos – alguns foram encontrados amarrados em árvores, deixados para morrer. A comida era pouca e não havia muito o que dividir com os animais. Já as doenças abundavam, tanto nos bichos como nas gentes.

A grande movimentação de cachorros chamou a atenção do jornalista americano Glenn Greenwald, que, à época, morava no Alto da Boa Vista com seu companheiro brasileiro (o repórter ganhou notoriedade em 2013, quando, trabalhando para o jornal inglês The Guardian, ajudou a revelar a existência de programas de vigilância global dos Estados Unidos). Certo dia, Greenwald parou o carro em frente ao portão e entrou. Descobriu, então, o lar dos abandona-dos. Ao ver os cães esquálidos e doentes, resolveu ajudar e passou a enviar semanalmente ração para os bichos.

 

Seres solitários e abandonados num mundo onde não têm lugar, mendigos e cães costumam se unir numa comovente solidariedade. Estabelecem uma relação tão próxima que, em São Paulo, a prefeitura só conseguiu atrair moradores de rua para abrigos depois de arrumar espaço também para seus companheiros de quatro patas. De olho nessa parceria, Greenwald pensou num meio de ajudar ainda mais os habitantes do casarão do Alto da Boa Vista.

O jornalista americano criou uma ONG – a Hope – e, com ajuda de amigos, conseguiu doações para pôr o projeto de pé. Para tocá-lo, contratou o técnico em construção naval Francisco Miranda David, que estava desempregado depois que a empresa onde ele e o marido trabalhavam fechou as portas. Além da disponibilidade, ele tinha experiência com pessoas no abandono, pois acabara de adotar três irmãos largados num abrigo pela mãe.

A primeira providência seria ajudar a estruturar a vida dos moradores. Quando David chegou ao casarão, nove famílias já tinham se estabelecido ali. O imóvel fora dividido em núcleos que não se comunicavam, e o clima não era propriamente de camaradagem. A sujeira era permanente, a agressividade também. Já os bichos, embora alimentados, viviam doentes.

David estimulou os moradores a limpar os cômodos onde viviam e iniciou um processo de pacificação, com a assistência de psicólogos e assistentes sociais do abrigo onde adotara seus filhos. Não foi trivial. “A dureza das ruas minou a capacidade daquelas pessoas de viver de forma pacífica e organizada”, disse o técnico, um rapaz de rosto jovial e um jeito tranquilo de falar. Ele também chamou veterinários para tratar, vacinar e castrar os cães.

Numa manhã de abril, David circulava pelo terreno com um ajudante tentando montar uma cerca de madeira para impedir que os cachorros escapem para a mata. Enquanto ela não fica pronta, parte dos bichos é mantida presa em canis de madeira improvisados, de onde saem de coleira para o passeio diário. Dos 45 cães que estão lá – além de uma dezena de gatos –, quinze pertencem aos moradores; os demais serão entregues para adoção.

Só Karollyne Silva tem nove cachorros. Ela e seu companheiro passam o dia no local tratando dos bichos, dando água e ração e os levando para passear. Até a chegada de David, ela não tinha tempo para esses cuidados, pois precisava garantir seu sustento. Agora o casal recebe uma mesada – 800 reais para ela e 600 para ele – e dedica-se exclusivamente aos bichos.

 

O casarão tem servido de laboratório para um projeto maior que a ONG pretende implantar. “A ideia é criar um grande abrigo para os cães, colocar mendigos para cuidar dos bichos e remunerá-los pelo trabalho”, disse David. No momento, estão à procura de um terreno que possa sediar a empreitada. Os planos são ambiciosos: esperam recolher até 400 animais abandonados. Para isso, Greenwald criou um projeto de financiamento coletivo que já levantou 53 mil dólares; a meta é chegar a 200 mil até o final do ano.

Em sua rotina, David se esforça para conseguir doações que mantenham o lugar e procura convencer os moradores da importância de torná-lo mais agradável. Alguns já se preocupam em limpar e decorar seus cômodos. O técnico conseguiu também permissão deles para retirar o entulho que atravancava o local e recuperar o antigo jardim.

No ano passado, os moradores entraram com uma ação para se apossarem do imóvel, cujos donos – um casal de idosos – morreram sem deixar herdeiros. Como não pagavam impostos, o imóvel foi transferido para a União, que o deixou abandonado. Vivendo no local há quase dez anos – o prazo legal estabelecido para a usucapião –, os moradores reivindicam o direito à propriedade.

O sonho deles é recuperar a piscina – que, por enquanto, é só um foco de procriação de mosquitos da dengue. “Quando isso aqui estiver pronto, vamos poder nadar com nossos bichos”, vislumbrou Karollyne Silva, apontando para Bolinha, um vira-lata branco e preto que a seguia de perto. “Eles vão adorar.”

Consuelo Dieguez

Consuelo Dieguez, repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

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