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Os limites do tribunal

Michel Laub e os impasses do romance
Alejandro Chacoff
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ILUSTRAÇÃO: TOM GAULD

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Há alguns anos, num evento em Londres, o escritor inglês de ascendência japonesa Kazuo Ishiguro falou sobre duas ofertas estranhas que tinha recebido. A primeira era de um banco, que lhe mandara uma carta convidando-o para conhecer as caixas-fortes da instituição (pouquíssimas pessoas tinham acesso ao local, e ao executivo do banco lhe ocorrera que seria “um bom lugar para um romance”). A segunda carta era de uma fabricante de diamantes. Mais diretos, lhe ofereciam 10 mil libras para escrever um pequeníssimo conto – o único requisito era que incluísse uma pedrinha preciosa na história. A carta do banco pode ter sido apenas uma excentricidade, mas não é difícil de entender por que uma fabricante de diamantes – com o seu processo de produção brutal que começa no hemisfério Sul e termina na abertura de um champanhe na loja – escolheria alguém de estilo muito sutil como escritor da casa. A entrevistadora do evento riu quando Ishiguro contou a história, mas o tom dele era meio sombrio.

É um pouco deprimente que a publicidade e a literatura nem sempre estejam tão distantes. O publicitário seduz o público com narrativas; o escritor cria narrativas, e o quanto ele tenta ou não seduzir o público mostra o quão perto está de se tornar um publicitário. Um dos efeitos mais perniciosos da revolução tecnológica e das redes sociais foi aumentar o risco da intersecção dessas áreas – o romancista, assim como qualquer pessoa, é mais receptivo e vulnerável à opinião alheia em um mundo onde o contato com a opinião alheia parece um axioma. Diante das pressões do coletivo, a pessoa perde ou edita algo de sua complexidade individual; o romance perde algo de sua alienação saudável.

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