esquina

Os tanoeiros

Produzindo barris há três gerações

Décio Galina
IMAGEM: ANDRÉS SANDOVAL

O polegar direito está encapado por um curativo roto; o esquerdo é deformado por causa de um acidente há quase duas décadas. Os outros dedos, grossos e sujos de tinta e poeira, lembram ferramentas. Na cabeça, a boina pende para o lado direito e lhe dá o ar de quem está prestes a sair para um passeio. Mas não é o caso. Aos 60 anos, Eugenio Mesacaza passa os dias a percorrer os poucos passos que separam seu sobrado do galpão onde produz trinta barris de 225 litros por semana com o auxílio do filho Mauro, de 24 anos, e quatro empregados.

Mesacaza é conhecido na cena vinícola do Sul do país. Trata-se do único tanoeiro brasileiro que importa carvalho francês para fabricar seus barris. Nove entre dez produtores gaúchos de vinho já recorreram a seus serviços, de acordo com as estimativas de seu filho. Só para a Miolo, a Tanoaria Mesacaza já vendeu coisa de três mil unidades. Atualmente, é o restauro de tonéis antigos – e não a manufatura de novos itens – que responde pela maior parte do movimento. “Depois de uns cinco anos, o barril de carvalho tem que ser raspado e tostado de novo”, explicou o patrão. “Isso agrega mais aroma.”

O sotaque de Mesacaza entrega a secular ascendência italiana do pequeno município gaúcho de Monte Belo do Sul, no coração do Vale dos Vinhedos, onde fica sua tanoaria. A população local não chega a 2 700 habitantes, a maioria na zona rural. Muitos deles descendem das 416 famílias de italianos que começaram a capinar a área em 1877 e deram ao Rio Grande do Sul a liderança nacional da produção de uvas e vinhos.

Após enviuvar num vilarejo na região do Vêneto, norte da Itália, o bisavô do tanoeiro casou-se de novo com uma prima-irmã e decidiu tentar a sorte na Serra Gaúcha, onde foi plantar milho, arroz e feijão. Tiveram seis filhos. Foi um deles – Miguel Arcângelo, pai de Eugenio – quem lançou a família no ramo dos barris, mesmo sem ter experiência alguma. Com suas economias, comprou 2,5 hectares de terra e começou a plantar não só produtos de subsistência, mas também parreiras de uvas Isabel e Herbemont. O que produzia como agricultor, no entanto, não lhe bastava para sustentar a família, e por isso decidiu fabricar os barris para completar o orçamento.

Autodidata, Miguel Arcângelo Mesacaza produziu as primeiras unidades há 53 anos. “Era tudo feito à mão, sem máquina nem nada. Começou usando madeira de grápia e um ferro normal, conhecido como chapa 1020, para fazer a cinta do barril”, contou Eugenio, pinçando da memória detalhes dos primórdios do negócio familiar. “Ele comprava a madeira cerrada, punha na água por um tempo, depois fazia fogo numa espécie de churrasqueira de tijolos, deixava as brasas e colocava a madeira, que começava a amolecer com o calor. Daí, puxava uma peça por vez para envergar a madeira, que ficava encurvada após esfriar”, explicou.

Não era um método trivial: a produção do primeiro barril levou uma semana (com volume de 400 a 500 litros, os recipientes eram duas vezes maiores que os produzidos hoje pelos herdeiros). A produção só ganhou ritmo quando o fundador do negócio comprou uma desempenadeira, que lhe permitiu fabricar uma peça a cada dois dias.

Por volta dos 15 anos, Eugenio começou a ciscar em volta do pai para aprender o ofício. O jovem também ajudava na lida da terra, mas logo notou que ali havia a possibilidade de um futuro promissor. Aos 24 anos, deixou de vez a agricultura para se dedicar à tanoaria. Seu pai morreu há 32 anos, uma semana depois de o filho se casar com Marlene, com quem teve um casal de rebentos.

 

Ultimamente, Eugenio Mesacaza andava preocupado com a continuidade do negócio. Treinou várias pessoas para assumir a tanoaria, mas os aprendizes invariavelmente desistiam depois de um tempo. Chegou a temer que a empresa sumisse do mapa depois que se aposentasse. Só respirou aliviado há três anos, quando percebeu que o caçula seguiria ao seu lado, como sócio.

Mauro Mesacaza estuda análise e desenvolvimento de sistemas numa faculdade privada em Bento Gonçalves, município vizinho de Monte Belo do Sul. Comprometeu-se a ficar à frente da tanoaria quando concluir o curso, na metade do ano que vem. Não é a norma entre os jovens da região. “Dos 25 alunos da minha classe no ensino médio, só eu e mais dois ficamos em casa e continuamos na agricultura ou no negócio da família”, disse o rapaz. Entusiasta da informática, Mauro cuida da programação das máquinas do galpão e também dos serviços de escritório, como lançamento de notas, organização dos pedidos, cobranças e contatos com fornecedores no exterior.

No galpão dos Mesacaza há 57 máquinas, sete das quais exclusivas para a confecção de barris. O resto do maquinário é dedicado à produção de móveis para cozinha, suportes e cavaletes, dentre outros – vem de lá o mobiliário da igreja matriz de Monte Belo do Sul. “Gosto de produzir outras coisas, mas já temos bastante trabalho com os barris, então, não dá para aceitar tudo o que aparece”, queixou-se o patrão com um sorriso maroto.

O filé-mignon da fábrica são as pipas de carvalho francês usadas para acondicionar vinhos, vendidas a 4 mil reais cada unidade. Os Mesacaza importam de 4 a 5 metros cúbicos da madeira por ano, o suficiente para fabricar de 50 a 60 barris. Seus clientes não se limitam às vinícolas e incluem cada vez mais produtores de cachaça e cerveja artesanal. Recentemente, a tanoaria começou a exportar também seus produtos. Há seis meses, venderam 180 barris de amburana para a Escócia. Para novembro, tinham uma encomenda de 78 unidades para a França.

Na hora de beber, Eugenio não abre mão de uma taça no almoço e outra no jantar. Consome o vinho que ele mesmo elabora com uvas Isabel nos fundos do galpão da tanoaria. Utiliza uma moedeira manual, fabricada em madeira pelo pai. “Este ano fizemos em torno de mil e poucos litros”, contou. O vinho que ele não bebeu está envelhecendo em seus barris de grápia.

Décio Galina

Leia também

Últimas Mais Lidas

Médicos de menos, as doenças de sempre

A história de quatro pacientes crônicos do sertão do Ceará que estão há um mês sem os tratamentos que precisam, após a saída dos profissionais cubanos do país

Foro de Teresina #31: O escândalo do motorista, o antiministro do Meio Ambiente e o barraco do PSL

O podcast da piauí analisa os fatos mais recentes da política nacional

Na Câmara, com o novo e o seminovo

Dois deputados em primeiro mandato – um novato autêntico e o herdeiro de seis gerações de parlamentares – contam sua preparação para sobreviver em Brasília

Bloqueio – caminhoneiros em greve

Incertezas retratadas no documentário são referência para entender as mudanças políticas no país

“Me fingi de morta e assim sobrevivi”

Sobrevivente da chacina da Catedral de Campinas reconstitui a cena da tragédia, protagonizada por um assassino de família católica praticante

Mulheres de “facção”

Sem emprego formal, costureiras trabalham até 14 horas por dia para intermediários da indústria da moda, as chamadas “facções”

Olavo interrompido

Guru do governo Bolsonaro tem participação na Cúpula Conservadora das Américas frustrada pelo meio que o fez famoso, a internet

Não é só pelos 6 centavos de euro

Quem são e o que pensam os “coletes amarelos” e como lideraram um movimento popular e populista que paralisa a França há três semanas

Expansionista, Guedes sofre sua primeira derrota

Futuro ministro da Economia incluiu Apex na estrutura da sua pasta, mas perdeu a agência de comércio após disputa com Itamaraty

A vingança do analógico

Precisamos reaprender a usar a internet

Mais textos
1

Os pequenos passos do astronauta Marcos Pontes

Em reunião com cientistas em Brasília, futuro ministro da Ciência e Tecnologia mostrou ainda não estar pronto para se despir do macacão de palestrante de autoajuda

2

Olavo interrompido

Guru do governo Bolsonaro tem participação na Cúpula Conservadora das Américas frustrada pelo meio que o fez famoso, a internet

3

Não é só pelos 6 centavos de euro

Quem são e o que pensam os “coletes amarelos” e como lideraram um movimento popular e populista que paralisa a França há três semanas

6

“Me fingi de morta e assim sobrevivi”

Sobrevivente da chacina da Catedral de Campinas reconstitui a cena da tragédia, protagonizada por um assassino de família católica praticante

7

Na Câmara, com o novo e o seminovo

Dois deputados em primeiro mandato – um novato autêntico e o herdeiro de seis gerações de parlamentares – contam sua preparação para sobreviver em Brasília

8

Rakudianai

A política, a prisão, o encontro com o crocodilo, o julgamento e meu pai: lembranças de quarenta anos atrás

9

Xô, esquerda!

Pastores da Universal agora livram os fiéis de possessões comunistas?

10

Expansionista, Guedes sofre sua primeira derrota

Futuro ministro da Economia incluiu Apex na estrutura da sua pasta, mas perdeu a agência de comércio após disputa com Itamaraty