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Patrimônio ameaçado

A reforma do Mineirão põe em risco o tropeirão

Nuno Manna

Na longínqua noite de quarta-feira, 2 de junho de 2010, o Cruzeiro enfrentou o Santos no Mineirão. O Peixe estava sem sua maior estrela, Neymar, que se recuperava de uma lesão. Do lado do Cruzeiro, era o último jogo do técnico Adilson Batista. Resultado: só 15 mil pessoas foram ao estádio, o placar foi 0 a 0 e o jogo foi de provocar bocejos até nos fanáticos da Máfia Azul, a torcida organizada do Cruzeiro. O Mineirão fechou para reformas dias depois.* Só voltará a abrir às vésperas da Copa de 2014.

Aquela noite de junho passado, porém, pode entrar para a história não do futebol, mas da culinária mineira. Pode ter sido a última vez em que se serviu no segundo maior estádio coberto do Brasil o formidável, o fumegante, o inolvidável “tropeirão do 13”.

A iguaria tinha esse nome porque era vendida no bar que ficava na entrada do portão 13. Ele era servido num prato de plástico onde havia arroz, couve, torresmo, ovo frito, pernil de porco e ele, o inefável feijão-tropeiro, de tantas glórias e admiradores. O prato integrou durante largo período o circuito máximo da culinária futebolística. Junto a ele estavam o sanduíche de linguiça do Palestra Itália, os biscoitos Globo do Maracanã e o sanduíche de pernil do Morumbi.

O tropeirão do 13 desafiava as leis da gravidade, da arquitetura e do bom-senso. A caprichadíssima porção, minuciosamente empilhada no pratinho de plástico, exigia do torcedor esfomeado talentos de equilibrista. O plástico pelando de quente, que queimava as mãos, aumentava o desafio. Passando a torre de comida de uma mão para a outra, se espremendo entre corpos suarentos, o torcedor tinha de chegar intacto ao seu lugar na arquibancada. Acomodado, tinha que abordar o bifão de pernil com uma singela colherinha de plástico. O colo servia de mesa para o pantagruélico acepipe, mas uma explosão por perto, de euforia ou ódio, poderia ser fatal. Se houvesse um gol, valia tudo: feijão-tropeiro virava confete e couve, serpentina.



Com a reforma, o Mineirão terá 28 bares e restaurantes, dez a menos do que os existentes anteriormente. Como nenhum papel foi assinado com relação aos que existirão na Copa e depois dela, boatos sinistros percorreram as torcidas organizadas. Mencionou-se até a cadeia Burger King. Como assim? E o tropeirão?

 

Felizmente, no bairro Planalto, na Zona Norte de Belo Horizonte, numa rua discreta, encalacrado entre uma escola de dança de salão e uma academia de fisiculturismo, há um restaurante cuja fachada anuncia: Tropeiro do 13. Quando quase não conseguiram renovar o contrato do bar, em 2005, os donos do lugar no interior do Mineirão, previdentes, abriram um restaurante fora do estádio. É uma franquia para dias – ou meses, ou anos – de estádio fechado.

Ali, Eliane Assis é a gerente. Sua mãe, Vina, é quem, há 34 anos, se esmera no preparo do tropeiro, cuidando ao mesmo tempo de sete panelas enormes e fumegantes. Segundo Eliane, o tropeiro se confunde com a história do estádio. O Tropeiro do 13, especificamente, obteve um sucesso estrondoso devido à inovação: o bar foi o primeiro a irrigar a couve com um molhinho de tomate divino, e a botar um belo ovo frito por cima de tudo.

Além disso, não se fazia um panelaço para render a noite toda. O tropeiro fresquinho ia saindo de tempos em tempos, atraindo a clientela pelas narinas. Com o tempo, o manjar atraiu a elite. “O pessoal da PM vinha comer com a gente, o pessoal da Globo, da Bandeirantes, do SportTV, da Itatiaia”, contou Vina. O seu tropeirão fez com que ela conhecesse várias estrelas. “Eu lembro quando o Ronaldinho foi lá, ah, eu fiquei feliz demais”, disse. Mas ela jurou que não tinha nada a ver com os quilos que o Fenômeno ganhou de lá para cá.

No restaurante do Planalto, é óbvio, não há torcedores aos gritos, pratos e talheres de plástico e feijão voando sobre as cabeças. Definitivamente, não é um lugar para os que buscam as rudes emoções do futebol. Eliane tenta compensar: “Aqui você pode escolher: tem bife de porco, de boi e de frango. E se a pessoa pedir para fazer sem cebola ou algo assim, a gente dá um jeito.” Para manter uma clientela diária, foi preciso diversificar o cardápio. Pelo bom motivo que não se consegue comer tropeiro todos os dias.

A boa-nova tem se espalhado aos poucos pela cidade. Rafael Azevedo, de 26 anos, apareceu lá recentemente para conferir se o tropeirão estava mesmo vivo. Vascaíno perdido em Belo Horizonte, ele foi uma única vez ao Mineirão, ver um Brasil versus Argentina, em 2004. Da partida, se lembra pouquíssimo. Bebeu umas a mais do que devia, e o jogo passou batido. “Mas eu lembro que estava esfomeado e comi o tropeirão com muito gosto”, contou. A garçonete trouxe o prato. Ele havia pedido a meia porção – que na verdade são três quintos caprichados. Depois de saborear a iguaria, ainda sob o efeito do último torresmo, confessou: “É, na verdade eu fui ao Mineirão só para beber e comer.”

Eliane disse que a receita cerveja–tropeiro realmente era um sucesso. E quando a CBF proibiu a venda de bebidas alcoólicas nos estádios, em 2008, a venda do tropeirão caiu bastante. Ainda assim, nos últimos anos, em dias de estádio cheio, com 60 mil torcedores, o seu bar vendia, sozinho, cerca de 700 tropeiros. Bons tempos que não voltarão? “Tenho medo de o Mineirão ficar uma coisa muito elitizada e perder a essência, que é essa simplicidade, essa tradição”, disse ela.

Os belo-horizontinos batem o pé: afinal de contas é a Copa que vem a Minas Gerais ou é Minas Gerais que vai à Copa? Mas mesmo que um suculento torresmo se prenuncie no horizonte dos otimistas e afugente a ameaça do fast-food, um desafio permanece: como abordar o bendito bifão de pernil.

*Correção em relação à edição impressa apontada pelo leitor Sérgio Luciano Gonçalves Batista

Nuno Manna

Nuno Manna é jornalista em Belo Horizonte.

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