despedida

Pensando em Paul Singer

A clareza como valor político

Roberto Schwarz
ILUSTRAÇÃO: LOREDANO_2018

Ouvi falar do Paulo pela primeira vez através de amigos comuns, quando eu tinha uns 15 ou 16 anos, por volta de 1954. O tópico da conversa era a posição dele diante do Estado de Israel, recém-criado. Contrariando o grupo sionista ao qual pertencia e do qual acabaria saindo, Paulo achava que os judeus de esquerda deviam lutar pelo socialismo no país em que viviam. Ou seja, ele preferia participar da política brasileira a emigrar para Israel. Essa atitude aberta, internacionalista, que não se curvava ao exclusivismo judaico, fazia diferença e me marcou. Outra opção do Paulo que fez marola foi trabalhar em fábrica, dedicar-se ao sindicalismo e participar intensamente, como metalúrgico, de uma grande greve em 1953. No ambiente pequeno-burguês da imigração judaica, preocupada com a carreira social dos filhos, ou, no melhor dos casos, com a contribuição para um Israel socialista, era um caminho inusitado, além de aventuroso, que falava à imaginação.

Vindo ao presente, todos que ouviram uma exposição do Paulo, ou leram algum artigo dele, de análise econômica ou política, sabem que se trata de um escritor e expositor de clareza fora do comum. A argumentação é lúcida, sólida e tranquila, confiante na evidência da razão, sem um pingo de demagogia ou fanatismo. A própria conversação do Paulo, a quem não ocorreria agredir ou embrulhar o interlocutor, tem algo desse espírito. A sua combinação inesperada de tolerância e firmeza é como que um modelo, que dá vontade de imitar, um ideal de democracia. São atributos raros em geral e particularmente preciosos na esquerda, onde a falta de objetividade e as brigas despropositadas são frequentes. É certo que a clareza do expositor depende de domínio do assunto e capacidade de concatenação, qualidades por assim dizer acadêmicas. Entretanto, ela tem também um substrato extra-acadêmico, no terreno da definição pessoal. E deriva de certo equilíbrio, de certa coragem bem resolvida das próprias convicções, que sustenta a inteligência em meio ao conflito e a torna confiável.

 

Quero dar dois exemplos, que parecem não ter nada a ver com o assunto, e que, entretanto, o ilustram bem. Por ocasião da Guerra das Malvinas, em 1982, trabalhava no Cebrap um pesquisador argentino refugiado da ditadura, a qual havia assassinado familiares seus. Não obstante, tomados de exaltação nacionalista e anti-imperialista, ele e seu grupo de compatriotas solicitavam a adesão dos colegas brasileiros à guerra de seu país. Como havia perplexidade, os brasileiros convidaram os companheiros argentinos a discutir a posição deles. No auditório, os argentinos, que eram talvez cinco, ocupavam a mesa, enquanto os brasileiros na plateia seriam oitenta. Pois bem, a certeza patriótica e o ardor dos expositores eram tamanhos e tão desconcertantes que, quando acabaram de falar, ninguém no público ousou abrir a boca. Silêncio total, até que o Paulo, com sua tranquilidade e bom senso, além de coragem, tomou a palavra e lembrou que também no fascismo havia unanimidade e fervor, e que, por si sós, estes não provavam nada. A situação se descongelou e fluiu para uma discussão relativamente produtiva. Era a cabeça clara do Paulo desmanchando o poder do fanatismo.

Noutra ocasião, menos mortal mas também dramática, o PT discutia, no Sindicato dos Químicos, a atitude a tomar diante das acusações, ou talvez revelações, do mensalão. Se estou lembrado, a linha geral do debate era defensiva, um pouco medíocre, de negação indignada das afirmações do campo adversário e de acusação à imprensa burguesa. Com calma e sem complacência, numa fala muito brilhante, que para mim foi histórica, o Paulo mudou o ângulo da discussão, colocando o dedo na ferida. Dizia ele que a inegável importância que o dinheiro grosso passara a ter na política do partido indicava que militantes que não soubessem levantar fundos para as suas campanhas já não teriam condições de se candidatar a postos eletivos. O partido havia entrado para um novo período e mudado de rumo, ponto final.

São episódios que ilustram – espero – o valor político da clareza, a qual quero saudar na figura verdadeiramente especial de Paulo Singer.

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* Este texto, publicado agora pela primeira vez, foi escrito por ocasião dos 80 anos de Paul Singer. O autor voltou a lê-lo numa homenagem realizada na USP dias depois da morte do economista, aos 86 anos, ocorrida em 16 de abril último.

Roberto Schwarz

Roberto Schwarz é crítico literário. Publicou Martinha versus Lucrécia, pela Companhia das Letras, entre outros. O texto foi lido no debate de lançamento do livro de Sérgio Ferro, Artes Plásticas e Trabalho Livre, no Centro Universitário Maria Antonia, São Paulo, em março de 2015.

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