despedida

Pepe, o imortal

O malogrado fim do sapo maconheiro que seduziu os conservadores

Roberto Kaz
Uma HQ, divulgada em maio, anunciou a morte de Pepe – que, no entanto, ressuscitou
Uma HQ, divulgada em maio, anunciou a morte de Pepe – que, no entanto, ressuscitou ILUSTRAÇÃO: MATT FURIE_DIVULGAÇÃO_FANTAGRAPHICS

A morte, ocorrida no começo de maio, repercutiu nos principais meios de comunicação americanos. A rádio pública NPR classificou-a de “triste e pitoresca”. A CNN viu-a como “um ato de misericórdia”. Já o New York Times afirmou que o óbito interrompeu “uma vida breve e tumultuada”. Para o site Vox, o defunto deixou “um legado controverso”, em que se destacam os discursos de ódio. Outro site, o Comic Book Resources, lembrou que os grandes ícones sobrevivem ao próprio desaparecimento. “Embora seja improvável que a morte oficial de Pepe impeça os extremistas de cooptarem sua imagem”, dizia o obituário, “essa foi, talvez, a maneira mais eficaz de Matt Furie recuperar seu personagem. A alma de Pepe voltou ao seu criador. Descanse em paz.”

Pepe era um sapo – ou um humano em forma de sapo, ou o meme de um humano em forma de sapo – nascido há doze anos no quadrinho Boy’s Club, que o americano Furie publicava na internet. O anfíbio levava uma vida quase anônima, regada à cerveja, maconha, escatologia e televisão, até que, em 2008, o autor o desenhou proferindo um bordão. “Feels good, man” [“É gostoso, cara”], respondia Pepe, na tirinha, quando um amigo lhe perguntava por que urinava com a calça arriada. Talvez pelo sorriso na cara do bicho, pelo traço tosco, pelo absurdo da situação, por tudo isso ou por razão nenhuma, a cena viralizou. “Nas redes sociais, as pessoas escreviam algo como ‘Acabei de terminar a prova final’ e postavam o sapo feliz, proclamando: ‘Feels good, man’”, contou Furie numa entrevista à revista The Atlantic. “Era uma coisa positiva.”

Alçado ao estrelato, o personagem passou a ser recriado por vários internautas. Surgiram Pepes em corpo de dragão, caranguejo, abelha, dinossauro. Pepes com as feições de William Shakespeare, Kim Kardashian, Batman, Bob Esponja. Pepes usando gorro natalino, boné de rapper, quipá, turbante. E, como nem tudo na vida são flores, apareceram também os Pepes existencialistas, que expressavam tristeza, derrota, cansaço. “Eu estava licenciando o sapo para um monte de coisas: jogos eletrônicos, baralhos, roupas, bichos de pelúcia”, declarou Furie num artigo publicado pela revista Time. “Me sentia animado com o futuro. Pensava: ‘Essa coisa de meme é demais!’” Assim foi, até que vieram as últimas eleições para presidente dos Estados Unidos.

 

Por vezes, uma pessoa – em geral, pública – se vê imersa numa situação da qual simplesmente não há volta. Exemplo: Luiz Inácio Lula da Silva apertando a mão de Paulo Maluf. Ou Aécio Neves acertando propina com Joesley Batista, numa verborragia de constranger Dercy Gonçalves. Pois Pepe vivenciou fenômeno semelhante. À 1h53 do dia 13 de outubro de 2015, acordou de sonhos intranquilos e encontrou-se metamorfoseado num monstruoso Donald Trump. “Você não pode derrotar o Trump”, vaticinava um tuíte do então pré-candidato republicano. A frase vinha acompanhada de uma imagem em que o sapo aparecia de terno, gravata vermelha e, evidentemente, cabelo louro, discursando num palanque reservado ao presidente americano.

Aberta a porteira, a persona amistosa do anfíbio evaporou. Pipocaram Donald Pepes empunhando armas e construindo muros na fronteira mexicana. Nasceram, também, os Pepes extremistas, que usavam gorro da Ku Klux Klan ou capacete da SS (quando não se transmutavam no próprio Adolf Hitler). Foi por isso que, em setembro do ano passado, o blog da candidata democrata Hillary Clinton divulgou um texto denunciando a ligação entre “Donald Trump, o sapo Pepe e os supremacistas brancos”. Foi também por isso que a Liga Antidifamação, uma ONG americana que mapeia ações antissemitas, resolveu acrescentar o personagem a uma lista de símbolos associados ao nazismo. A CNN passou a se referir a Pepe como o “meme dos supremacistas brancos”.

Quando o tuíte de Trump completou um ano, em 13 de outubro de 2016, Matt Furie publicou um artigo na Time para tentar salvar o que restara do personagem. “É completamente insano que […] racistas e antissemitas estejam usando um sapo pacífico, da minha história em quadrinhos, como um símbolo de ódio. […] É um pesadelo, e a única coisa que posso fazer é encarar isso como uma oportunidade para falar contra o ódio.” No mês seguinte, o desenhista contou com o apoio da Liga Antidifamação para lançar uma campanha, a #SavePepe, em que pedia para pessoas inundarem a internet com desenhos positivos do anfíbio. Vieram os Pepes com cara de Jesus Cristo, Bernie Sanders e Capitão América, Pepes hippies, Pepes que pregavam a importância da leitura e Pepes hare krishnas. Nenhum deles, no entanto, conseguiu fazer frente ao exército de Pepes fundamentalistas. Descrente, Furie optou pelo filicídio.

 

A Fantagraphics, editora do desenhista, anunciou a morte do sapo num sábado, 6 de maio. Na ocasião, disparou um e-mail com ares de HQ, em que Pepe aparecia já dentro do caixão. Três amigos o velavam e bebiam à sua memória. A causa mortis não foi revelada (o autor tem recusado dar entrevistas sobre o assunto).

Ao New York Times, Oren Segal, diretor da Liga Antidifamação, se disse impressionado com “o esforço de Furie para recuperar o controle de seu personagem”, mas admitiu certo receio quanto à eficácia do assassinato. “Esse meme é quase como Elvis”, comparou. “Elvis continua vivo, e Pepe também continuará.” Tinha razão. Nos dias seguintes, a rede social 4chan foi bombardeada com desenhos do sapo ressuscitando (em sua versão extremista, claro). “Chega a ser quase fofo que Matt Furie imagine ter algum domínio sobre Pepe”, escreveu um internauta. “Você não pode matar uma ideia. Esses esquerdistas não compreendem que tentar banir uma ideia apenas a torna mais atraente”, acrescentou outro. “Pepe é um deus imortal. Ninguém pode matar Pepe”, decretou um terceiro, completando: “As pessoas não entendem como a internet funciona.”

Roberto Kaz

Roberto Kaz, repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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