esquina

Perfume de Mujica

Artista leva à Bienal de Veneza aroma das plantas da chácara do presidente

Denise Mota
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

O vídeo foi publicado na internet no fim do ano passado, com uma estética na confluência entre filmes de espionagem e comerciais de produtos de luxo. Um homem de capa preta, máscara dourada e pasta executiva invade a sede do Banco Central uruguaio. Desvencilhado dos acessórios e de parte das roupas que usava, o personagem misterioso arromba um cofre, onde encontra um frasco roxo de perfume. Enquanto o moreno de olhos verdes se borrifa com o líquido, uma voz em diz em off tom insinuante: “U de Uruguai é um perfume feito com essências naturais da horta de nosso presidente, José Mujica.” Ao fundo, veem-se imagens do político, de jeans e japona surrada, colhendo flores em seu jardim.

U from Uruguay nasceu para ser apenas um comercial fictício de um perfume imaginário, assinado pelo artista Martín Sastre, também protagonista do vídeo. Mas o projeto teve tanta repercussão que a ideia acaba de virar uma fragrância de verdade, produzida de fato a partir de plantas colhidas na chácara presidencial.

É notória no Uruguai a horta em que José “Pepe” Mujica cultivava flores para venda, negócio do qual se ocupava antes de se tornar presidente. Eleito em 2009 para o mais alto cargo da nação, o ex-guerrilheiro continuou a morar na chácara na periferia de Montevidéu que divide com a mulher, Lucía Topolansky (senadora mais votada nas eleições uruguaias de 2009), e a cachorra Manuela, uma vira-lata manca. Aos 78 anos, o presidente se transformou numa espécie de símbolo global da sobriedade quando, um após o outro, veículos da imprensa descreveram seu modo humilde de viver.

Quando concebeu o perfume, Sastre procurou funcionários da Presidência para viabilizar a ideia. Mas só há dois meses conseguiu pôr os pés na chácara de Mujica para apresentar seu projeto e colher as flores usadas na produção da fragrância. Foi Lucía Topolansky quem interveio para que o presidente lhe abrisse as portas. Sastre evocou seu encontro com o mandatário numa entrevista recente. “Cheguei de manhã, levei um pão caseiro que minha mãe havia feito. Não entrei na casa, fiquei o tempo todo no campo, na chácara”, contou. “Fui recebido primeiro por Lucía, enquanto Mujica estava ao longe, dando voltas, observando. Depois se aproximou e conversamos.”

Junto com o pão materno, o artista havia levado um estudo sobre as propriedades medicinais da chirca, muito frequente na pastagem local, considerada erva daninha e sem utilização comercial. Além da chirca, Sastre colheu na plantação do casal alecrim e crisântemos.

A fragrância tem a ambição de autenticidade, como se fosse “o cheiro do Uruguai”, nas palavras do autor. Por trás do projeto, há também uma crítica ao ambiente da arte (“onde o que vale é o que dizem que vale”) e às noções cristalizadas ao redor da ideia de luxo. Trata-se de um produto de alta estirpe vindo do “presidente mais pobre do mundo”, como Mujica foi chamado por alguns jornais.

 

De camiseta, calça e jaqueta de couro pretas, Martín Sastre chegou quase imperceptivelmente a um café no abastado bairro de Punta Carretas, em Montevidéu. O ar cansado, a discrição dos movimentos e o pedido de desculpas pelo atraso de cinco minutos contrastavam com seu status hoje no país natal. Graças ao “perfume de Pepe”, a notoriedade de Sastre atravessou a barreira dos museus e galerias, e ele se tornou o mais conhecido artista contemporâneo do Uruguai.

Sastre nasceu em Montevidéu e iniciou sua carreira criativa no território da videoarte, com obras pontuadas pela ironia e pelas referências pop. Mais recentemente, incursionou no cinema dirigindo o longa-metragem Miss Tacuarembó, de 2010. A protagonista do filme – uma menina de um pequeno povoado próximo da fronteira do Uruguai com o Brasil – sonha ser famosa, mas, já trintona, o máximo que consegue é ser funcionária de um estranho parque temático inspirado em passagens bíblicas.

Tudo isso parece haver ficado para trás com a chegada do “perfume de Pepe”. É que, para a maioria de seus conterrâneos – e para boa parte da imprensa internacional, que noticiou o projeto cosmético-presidencial até em chinês –, Sastre passou a existir agora, aos 37 anos, com U from Uruguay. “É engraçado, o taxista me reconhece, falam do perfume na feira”, contou o artista. “Fui surpreendido. O que aconteceu com o projeto do perfume é que uma obra de arte contemporânea passou a ser parte da cultura pop. Naturalmente, tudo isso tem a ver com o fato de ser algo vinculado a Pepe.”

Alinhado com o apelo de exclusividade que norteia a propaganda dos produtos para as altas classes, Sastre produziu apenas três frascos de 50 mililitros de U from Uruguay. Um deles será dado de presente para Mujica, e outro ficará com o próprio artista. O terceiro será leiloado na Bienal de Veneza, iniciada em 1º de junho, quando o mundo conhecerá pela primeira vez a fragrância.

Naquela manhã fria e nublada de segunda-feira, a cabeça de Sastre parecia mimetizar a paisagem que se via pela janela do café. Ele contou estar com a mente enevoada, apinhada de compromissos. “As pessoas acham que vivo dentro de um avião, tomando champanhe”, disse o artista, ao comentar que, entre tantos eventos e entrevistas para promover sua obra, há um trabalho para realizá-la que nada tem de glamoroso. Depois da entrevista, ele teria que buscar o celular que esqueceu em casa e encontrar o químico e o perfumista que estão dando os últimos retoques em U from Uruguay. Em 48 horas embarcaria para Veneza levando o frasco roxo.

Denise Mota

Leia também

Últimas Mais Lidas

Vítimas de Mariana cobram R$ 25 bi de mineradora BHP na Inglaterra

Juiz deve decidir em junho se vai julgar o processo, o maior em número de vítimas da história do Reino Unido

Passarinho vira radar de poluição

Pesquisadores usam sangue de pardais para medir estrago de fumaça de carros e caminhões em seres vivos

Foro de Teresina #68: Censura na Bienal, segredos da Lava Jato e um retrato da violência brasileira

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Presos da Lava Jato unidos contra os ratos e o tédio

Condenados por crimes de colarinho-branco já caçaram roedores e fizeram faxina em complexo penal; transferidos para hospital penitenciário e sem ter o que fazer, gastam o tempo com dominó  

O maestro e sua orquestra – andamento lento e músicos desafinados

Governo se julga no direito de “filtrar” projetos incentivados com verba pública, mas filtrar é eufemismo para censurar

Quando a violência vem de quem deveria proteger

Quatro meninas são estupradas por hora, a maior parte dentro de casa, e 17 pessoas são mortas pela polícia por dia, revelam dados do Anuário de Segurança Pública

“Poderia ter sido eu a morrer ali no ponto de ônibus”

Como a morte espreita a juventude negra no Rio de Janeiro, estado com maior taxa de homicídios em ações policiais

Léros Léros em Itaipu

Brasil se recusa a pagar prejuízo de US$ 54 milhões; presença de suplente do PSL em reuniões binacionais aumenta crise e atrapalha renegociação para 2023

Traídas pela Renata

Deputada acusada de usar candidatas laranjas agora quer flexibilizar cotas eleitorais para mulheres; bancada feminina entra em guerra contra “lei da maridocracia”

Mais textos
1

Léros Léros em Itaipu

Brasil se recusa a pagar prejuízo de US$ 54 milhões; presença de suplente do PSL em reuniões binacionais aumenta crise e atrapalha renegociação para 2023

2

“Poderia ter sido eu a morrer ali no ponto de ônibus”

Como a morte espreita a juventude negra no Rio de Janeiro, estado com maior taxa de homicídios em ações policiais

3

Vítimas de Mariana cobram R$ 25 bi de mineradora BHP na Inglaterra

Juiz deve decidir em junho se vai julgar o processo, o maior em número de vítimas da história do Reino Unido

4

Presos da Lava Jato unidos contra os ratos e o tédio

Condenados por crimes de colarinho-branco já caçaram roedores e fizeram faxina em complexo penal; transferidos para hospital penitenciário e sem ter o que fazer, gastam o tempo com dominó  

6

A guerra contra o termômetro

Quando chegam más notícias sobre o desmatamento, os governos atacam o emissário

9

Bacurau – celebração da barbárie

Filme exalta de modo inquietante parceria entre povo desassistido e bandidos

10

Cortes de Bolsonaro emperram pesquisa para deter câncer incurável no cérebro

Sem bolsas federais, pesquisadora aprovada em primeiro lugar na UFRJ atrasa estudo sobre vírus da zika como arma contra tumor