esquina

Phyllanthus carmenluciae

Como a presidente do STF virou nome de planta

Henrique Araújo
IMAGEM: ANDRÉS SANDOVAL_2017

Rayane de Tasso Moreira Ribeiro tinha apenas 16 anos e se preparava para prestar vestibular quando viu Cármen Lúcia pela primeira vez. Apesar do sobrenome de desembargadora, naquela época Ribeiro ainda morava com os pais na periferia de Fortaleza. Se tudo desse certo, seria a primeira pessoa da família a entrar para a universidade. Cármen Lúcia, por sua vez, acabara de ser nomeada ministra do Supremo Tribunal Federal pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Corria o mês de junho de 2007.

Fã de Maria Callas – “ela foi muito humilhada” – e de Evita Perón – “era uma mulher forte” –, Ribeiro hesitava quanto à carreira que deveria seguir. Sonhava com o direito, mas, receosa de não alcançar a nota suficiente para ingressar no curso, acabou se bandeando para a biologia – uma de suas disciplinas favoritas no colégio.

Certo dia em casa, numa pausa entre os estudos, ligou a tevê. Quem aparecia no vídeo era a nova ministra, já no STF. Um detalhe talvez corriqueiro para os demais espectadores chamou a atenção da adolescente: Cármen Lúcia vestia calças. “Aquilo ficou na minha cabeça. Não imaginava que uma mulher pudesse estar naquele lugar e, ainda por cima, vestida assim, como qualquer homem”, lembrou a cearense.

Nos anos seguintes, Ribeiro não só conseguiu concluir a faculdade como foi aceita no programa de pós-graduação em botânica da USP. No laboratório, enquanto conduzia experimentos, deixava a tevê ligada ao lado da mesa de trabalho. Quase sempre sintonizada no programa Sem Censura, na época ainda conduzido pela jornalista Leda Nagle. “Me fazia lembrar da infância”, explicou Ribeiro.

Eis que, numa das transmissões, Cármen Lúcia apareceu na bancada de entrevistados. “Foi em homenagem ao Dia das Mães. A ministra contou a história de uma mãe que foi visitar o filho na cadeia, mesmo sabendo que ele havia matado o irmão. Foi comovente. Ela também se emocionou na conversa. E eu fiquei surpresa com a figura humana. Mandei até uma cartinha para a ministra sobre isso.”

Tão logo concluiu o mestrado, Ribeiro voltou para Fortaleza. Prestou concurso para ser professora da Universidade Federal do Ceará – a UFC –, foi aprovada e começou a dar aulas de taxonomia. Seguiu com suas pesquisas – mas não esqueceu a ministra.

 

No doutorado, Rayane Ribeiro tem se dedicado a um grupo específico de plantinhas, do gênero Phyllanthus. Apesar do tamanho diminuto, elas tinham a capacidade de nascer em condições adversas, como locais pedregosos. Daí seu nome popular: quebra-pedra.

Boa parte do trabalho de pesquisa da bióloga acontecia no herbário da universidade. O ambiente, cuja temperatura é mantida em constantes 18 graus Celsius, contém dezenas de armários com plantas desidratadas, além de pastas e arquivos com as descrições de inúmeras espécies.

Foi lá, em dezembro de 2015, enquanto se debruçava sobre esse copioso material, que a pesquisadora se deparou com um caso controvertido. Uma planta colhida originalmente no município de Mulungu, no interior do Ceará, desafiava as tentativas de classificação. A princípio havia sido registrada como Phyllanthus acutifolius, mas essa espécie só havia sido encontrada, até então, no Rio de Janeiro. Ribeiro hesitou. Parecia difícil aceitar a designação, “a não ser que a planta tivesse viajado até o Ceará”, explicou, fazendo graça.

Além disso, suas características não batiam exatamente com as descritas para a P. acutifolius. A espécie enigmática tinha “uns chifrinhos nas folhas, uns tricomas”, ela disse. “Poucas plantas no Brasil têm isso. Não era um padrão visto ainda.” Tratava-se de uma nova espécie, concluiu a bióloga. Magrinha, frágil, de ramos finos, Ribeiro não teve dúvida sobre o nome de batismo: Phyllanthus carmenluciae, com o subtítulo de “espécie suprema”. Em abril passado, a descoberta da P. carmenluciae foi oficializada com a publicação de um artigo na revista especializada Phytotaxa, da Nova Zelândia.

Entre a descoberta e a publicação do artigo, Ribeiro realizou um outro sonho. Encontrou Cármen Lúcia pessoalmente pela primeira vez, em 2016, durante o Congresso Internacional de Direito Constitucional, realizado em Fortaleza. Ao final da palestra da ministra, a pesquisadora se aproximou do palco e fez sinais à magistrada, pedindo um autógrafo. A juíza aquiesceu e pediu que ela subisse no tablado.

“Era um batente alto, não dava pra subir. Mas, na hora, me deu uma louca, arregacei as calças e saltei”, contou a bióloga. O encontro foi rápido, e a ministra assinou um dos livros que sua fã trazia consigo. “À Rayane de Tasso, com o meu abraço e estima especial, Cármen Lúcia.”

Ribeiro ficou feliz, mas não satisfeita. Como costuma acontecer nos encontros importantes da vida, nem tudo podia ser dito ali. O artigo científico anunciando a descoberta da carmenluciae ainda não havia sido publicado, e cabia à bióloga guardar segredo, mesmo diante da homenageada.

Desde que o embargo chegou ao fim, em abril deste ano, a pesquisadora tenta fazer chegar à presidente do STF a informação de que ela passou a nomear uma plantinha miúda que nasce em qualquer calçada do Ceará. Foram muitas as mensagens enviadas ao Supremo e ao Conselho Nacional de Justiça. Não chegaram a ser respondidas.

Rayane Ribeiro já pensava em desistir quando recebeu um convite da TV Globo para viajar a São Paulo e participar das gravações do programa Conversa com Bial. Os produtores haviam tomado conhecimento da descoberta e da publicação do artigo. A bióloga não chegou a aparecer na tevê, mas quem se importa? Ao final da gravação, pôde conversar com Cármen Lúcia.

“Fiquei tão nervosa que nem sei o que falei, mas mostrei a planta a ela.” Impressionada com a espécie mirradinha, a ministra fez piada: “Não tem uma árvore, não?”, quis saber. “Não, mas eu vou procurar uma árvore para a senhora”, respondeu Ribeiro.

Não será fácil cumprir a promessa. Depois do encontro, a pesquisadora tomou uma decisão. Pretende dar uma nova guinada na vida, inspirada por Cármen Lúcia. Diz que planeja fazer o Enem no final do ano e voltar aos bancos da graduação. O curso? “Direito, claro.”

Henrique Araújo

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