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Piano Man

O ofício de Dom Salvador
Roberto Kaz
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

É um domingo como outro qualquer no River Café, restaurante às margens do East River, em Nova York. A clientela, formal, enfeita-se com paletós; já os pratos, caros, são enfeitados com abóbodas de aço. Pela janela vê-se o rio, a ponte do Brooklyn, o sol descendo sobre Manhattan. No bar, um rapaz de gravata-borboleta come acepipes. Numa mesa, quatro senhores – três deles de cabelos brancos – discutem as eleições americanas.

O pianista Salvador da Silva Filho chega à casa. Cumprimenta maîtres e garçons, troca o tênis Nike por um sapato e segue para o seu instrumento de trabalho, um Yamaha de meia cauda. Às 18h30, entoa as primeiras notas de Corcovado. Dali até o fim do primeiro set, ainda tocaria Ernesto Nazareth, Ira Gershwin e Cole Porter. Quase não ouviria palmas. “O trabalho que eu faço aqui é de som ambiente. Não é performance”, explicaria mais tarde.

Salvador da Silva Filho é Dom Salvador, o músico de 78 anos que foi um dos maiores expoentes do samba-jazz no Brasil, na década de 60, quando comandou o grupo Rio 65 Trio e o Abolição. Desde que se radicou em Nova York, nos anos 70, passou a bater ponto quase diário no River Café. Seu primeiro show no restaurante aconteceu há 39 anos. Nunca mais deixou o lugar. “Aqui em Nova York, sou o artista que está há mais tempo na mesma casa”, diz, orgulhoso.

Caçula de onze irmãos, Dom Salvador nasceu em Rio Claro, município do interior de São Paulo. O pai, ferroviário, e a mãe, dona de casa, costumavam organizar saraus no quintal. “Na minha família todo mundo tocava”, conta, citando quatro irmãos. “O Paulo tocava sax; o Marcelo, banjo; o Nestor, violão; a Linda, percussão.” Aos 9 anos, aventurou-se na bateria. “Mas o professor se mudou. Como não tinha mais ninguém para me dar aula, tive que trocar de instrumento.” Dois anos depois, ganhou um piano: “A família fez uma vaquinha.” Adolescente, juntou-se à Orquestra Excelsior, uma das quatro bandas da cidade.

Já adulto, Salvador foi morar em Campinas, onde terminou o conservatório. Mais tarde se transferiu para São Paulo e conheceu sua esposa, Mariá Ignez Vieira, então vocalista do conjunto Oliveira e Seus Black Boys. Tocou soul e funk em bailes e casas noturnas até 1964, quando foi chamado pelo baterista Dom Um Romão para integrar o Copa Trio, grupo de jazz que costumava se apresentar no Beco das Garrafas, no Rio de Janeiro. Uma vez inserido na cena musical carioca, passou a tocar com Elza Soares, Wilson Simonal e o Quarteto em Cy. Foi nessa época que recebeu o título de “Dom”: “O Hélcio Milito, produtor do meu primeiro disco, falou que ‘Salvador da Silva Filho’ não era muito artístico. Sugeriu o Dom. Achei pomposo.”

 

Renomeado, Dom Salvador fundou o grupo Abolição, tocou com Jorge Ben, gravou com Elis Regina e fez arranjos para Tim Maia. Mas foi como pianista da Odeon, participando dos discos de artistas da gravadora, que passou a se bancar. “Eu vivia de estúdio. O bom é que lá tinha férias.” Numa dessas férias, em 1971, resolveu visitar uma sobrinha, Aparecida, que morava em Nova York.

Foi para passar um mês; acabou ficando 45 anos. “Eu estava meio desiludido com o Abolição”, lembra. “A maioria dos integrantes estava envolvida com drogas, perdia ensaio. Nos anos 70, era muita liberdade. Eu, como chefe do grupo, não tinha paciência.” Enviou uma carta para a gravadora dizendo que não voltava.

A esposa, Mariá, foi junto, trocando o trabalho de cantora pelo de babá. “Ela dava a maior força para ficarmos”, conta. Os dois filhos, ainda crianças, se mudariam um ano e meio depois, quando o casal já estava minimamente situado. “Tive que me adaptar à língua, à cultura”, lembra o músico. “Os primeiros cinco anos foram bem difíceis.” Virou-se tocando em pequenos bares de Manhattan. “Era jazz mesmo. Eu gostava.”

Em 1977, foi chamado para inaugurar o River Café – o que acabaria por render-lhe um vínculo empregatício e, mais importante, um visto permanente para morar em Nova York. A contrapartida, que não lhe pareceu tão ruim, foi trocar o repertório jazzístico por standards comportados, mais ao gosto da clientela local. “Uma vez até tentei fazer jazz, acompanhado de um contrabaixo, mas não deu certo. Tem que ser mais sutil”, explica, algo resignado. “Mas gosto da minha carreira nos Estados Unidos.”

Comparece à casa cinco vezes por semana, das seis da tarde às onze da noite. Pede uma folga quando precisa tocar aqui e acolá. Em 2011, esteve em São Paulo, onde se apresentou ao lado de Toni Tornado na Virada Cultural. Em 2015, celebrou os 50 anos do surgimento do Rio 65 Trio com um show no Carnegie Hall. Seu fraseado, “de samba na mão esquerda e jazz na direita”, foi elogiado pelo New York Times. Por essas e outras, diz não sentir saudades do Brasil: “É horrível o que aconteceu com a música por lá. Sertanejo tomou conta, ou negócio de rap. E teve também aquele outro. Como é que eles falam? Pagode.”

Salvador mora com a esposa numa casa em Long Island, região ao leste da cidade de Nova York. Leva 45 minutos, entre trem e metrô, para chegar ao restaurante. A apresentação, com três intervalos, é geralmente acompanhada do murmurinho das mesas e da percussão eventual de talheres contra pratos. Vez por outra surge o pedido de algum comensal.

São oito da noite quando o pianista faz a primeira pausa. Tocou The Man I Love, Autumn Leaves, You Go to My Head e Love Is Here to Stay. Tira os óculos, coloca o celular sobre o piano e se levanta para cumprimentar a amiga Lygia Marina de Moraes – para quem Tom Jobim compôs a música Lígia –, frequentadora do River Café. Vira-se então para um cliente da casa, que está sentado no bar, e pergunta, com trivialidade: “Como estamos indo? Você tem algum pedido em especial?”

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