Populistas atacam a democracia ao se apresentar como os únicos representantes verdadeiros do povo, da “maioria silenciosa”. Não reconhecem a legitimidade dos oponentes, nem da crítica
Ver dados da foto Populistas atacam a democracia ao se apresentar como os únicos representantes verdadeiros do povo, da “maioria silenciosa”. Não reconhecem a legitimidade dos oponentes, nem da crítica ILUSTRAÇÃO: NEGREIROS_2016

Populistas

As causas da eleição de Trump – e o que ele pode fazer na Presidência
Jan-Werner Müller
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Populistas atacam a democracia ao se apresentar como os únicos representantes verdadeiros do povo, da “maioria silenciosa”. Não reconhecem a legitimidade dos oponentes, nem da crítica ILUSTRAÇÃO: NEGREIROS_2016

É provável que o voto em Donald Trump tenha sido de fato, como disse Michael Moore, “o maior ‘vá se foder’ da história da humanidade”, uma provocação raivosa da classe trabalhadora ao establishment norte-americano. Mas não é apenas o tamanho desse “vá se foder” que conta: o modo como ele é dito também importa. Uma mensagem desse tipo pode ser transmitida, por exemplo, por meio de partidos satíricos, que fazem piada do processo representativo (foi o caso do Best Party, na Islândia, que concorreu à eleição municipal de 2010 em Reykjavík garantindo que, se eleito, não cumpriria nenhuma de suas promessas; e do Partido do Cão de Dois Rabos, na Hungria, que ajudou a sabotar o recente referendo antirrefugiados de Viktor Orbán); pode ser transmitida por meio de legendas subversivas (como os partidos piratas europeus, que defendem formas de democracia direta e limites aos direitos de patentes) ou de movimentos populares transformados em partidos (é o caso do Podemos, na Espanha). A mensagem de insatisfação também pode ganhar corpo em políticos populistas.

O que define um populista? Nem todo mundo que critica as elites é populista. Quando se estabelece uma equivalência preguiçosa entre Donald Trump e o socialista Bernie Sanders, pré-candidato democrata à Presidência no ano passado, deixa-se de perceber que os populistas não se limitam a protestar contra Wall Street e a globalização. Na verdade, o que caracteriza o político populista é ele se apresentar como o único, exclusivo porta-voz do que denomina “o verdadeiro povo” ou “a maioria silenciosa”. Essa reivindicação de monopólio moral da capacidade de representação acarreta duas consequências imediatamente danosas à democracia.

A primeira é que os populistas acabam por acusar todos os adversários de ilegitimidade. Os populistas não entram no debate dispostos a discutir propostas alternativas de políticas públicas, o que, numa democracia, é a razão de ser da política: oferecer opções programáticas aos cidadãos, para além da possibilidade de comparar os graus de competência e as qualificações dos candidatos. Em vez disso, os populistas tornam a questão pessoal: seus oponentes só podem ser desonestos e corruptos. Trump é um caso extremo desse tipo de comportamento, mas não é o único. O que pareceu realmente inusitado foi o modo como muitos dos seus eleitores tomaram como literais os ataques que ele fazia ao caráter de Hillary Clinton. Não me refiro apenas aos bordões cheios de ódio repetidos nos comícios, do tipo Lock her up (“Prendam esta mulher”), mas também ao fato de 40% dos eleitores de Trump na Flórida terem dito, em resposta a uma pesquisa de opinião, que concordavam com a afirmação de que Hillary seria, literalmente, um demônio. Já é suficientemente revelador sobre a natureza da campanha presidencial de 2016 que uma pergunta desse tipo possa ter sido incluída numa pesquisa séria. Pareceu fazer sentido acrescentar à pesquisa aquela questão depois que um radialista de direita, Alex Jones, divulgou a seguinte “informação” em seu site: tanto Hillary como Obama teriam vindo ao mundo a partir do inferno – bastaria se aproximar deles para sentir o cheiro de enxofre.

A segunda consequência daquilo que poderia ser chamado de antipluralismo programático dos populistas é menos óbvia. Para os populistas, aqueles que não os apoiam – ou que não compartilham de sua concepção do que seja “o verdadeiro povo” – talvez de fato não pertençam ao povo. Em seu discurso na manhã seguinte ao referendo que decidiu pela saída dos britânicos da União Europeia, Nigel Farage[1] apresentou o resultado como uma “vitória do verdadeiro povo” da Grã-Bretanha. Parecia evidente a Farage que os 48% que haviam preferido permanecer na União Europeia não eram “verdadeiros”: talvez eles nem fossem autênticos britânicos (ou mais provavelmente, em se tratando de Farage, não fossem ingleses). Trump defendeu pontos de vista semelhantes. “A única coisa que importa”, declarou o candidato republicano num comício em maio, “é ter o povo unido, porque os outros não significam nada.” Cabe a ele definir quem pertence ao povo; e, fora daí, ninguém mais conta, mesmo que por acaso sejam cidadãos americanos (o resto do mundo, é óbvio, tampouco importa).

Assim, creio que os americanos progressistas se enganaram ao imaginar que o discurso de unidade e harmonia feito por Trump logo após sua vitória nas eleições em novembro pudesse ser um gesto de conciliação (“Nós vamos nos unir e vamos ganhar, ganhar e ganhar!”, escreveu ele no Twitter). A unidade, para um populista, só é possível nos termos estabelecidos por ele próprio; como ninguém mais pode falar verdadeiramente em nome do povo, discordância e oposição são, por definição, atitudes suspeitas, quando não puramente ilegítimas. O anúncio de Trump (de novo, via Twitter) de que “Vamos nos unir como nunca antes” representa mais uma ameaça do que uma promessa. A democracia vale apenas para o verdadeiro povo.

 

É verdade que o mecanismo populista, sozinho, não é suficiente para explicar o que o próprio presidente eleito passou a chamar de “o fenômeno Trump”. Outros populistas chegaram ao poder em anos recentes – Recep Erdoğan na Turquia ou Viktor Orbán na Hungria –, mas nenhum deles havia ido tão longe numa democracia ocidental consolidada. Embora a eleição norte-americana tenha sido extraordinária sob vários aspectos, em muitos outros ela apenas repetiu o script de um pleito desse tipo nos Estados Unidos. O cientista político norte-americano Larry Bartels chamou a atenção para o fato de que 90% dos que se identificam como republicanos votaram em Trump, enquanto 89% dos que se consideram democratas votaram em Hillary. Tampouco surpreende que, depois de dois mandatos consecutivos de um mesmo partido na Presidência, ganhasse força um sentimento de alternância (na prática, Hillary foi percebida quase como uma candidata à reeleição); ou que o contingente do eleitorado que deixou para decidir na última hora tenha dado preferência à “mudança” – embora essas mesmas pessoas considerassem o candidato da “mudança” problemático num sem-número de aspectos.

Tudo isso é o que se encontraria num manual de ciência política americana. O que deixa pelo menos uma coisa bastante clara: Trump não estaria na Casa Branca se não fosse por seus facilitadores – ou, para dizer de forma menos neutra, seus colaboradores – no Partido Republicano. Ele não poderia ter obtido o mesmo sucesso se concorresse por um terceiro partido. Figuras como Newt Gingrich[2] e Chris Christie[3] – ambos com antecedentes questionáveis, mas ainda assim pesos pesados da política partidária – foram cruciais no momento de assegurar aos republicanos, bem como aos eleitores “independentes” com pendores direitistas, que era seguro votar em Trump. Segundo pesquisas de boca de urna, apenas 37% dos eleitores consideravam o milionário da construção suficientemente qualificado para exercer a Presidência. Alguém, portanto, deveria cumprir a tarefa de convencer os republicanos de que, como disse o advogado constitucionalista Jack Balkin, “embora Trump fosse um filho da puta desqualificado, ele era o filho da puta desqualificado deles”, bem como convencê-los de que, embora o candidato fosse um pecador, pelo menos “não era o Anticristo”. Assim como Farage precisou de Boris Johnson[4] e de Michael Gove[5] para legitimá-lo, Trump pôde contar com o apoio decisivo de homens dispostos a fazer da política norte-americana um jogo de azar e, nesse lance, arriscar a sorte do país. Mitt Romney – a caricatura viva do plutocrata – se tornou, durante a eleição, a principal figura de oposição a Trump dentro do Partido Republicano, e isso provavelmente só serviu para dar um impulso adicional ao candidato outsider.

Se, por um lado, a vitória de Trump confirmou padrões da política americana, por outro, alguns elementos do senso comum sobre disputas eleitorais naquele país foram virados pelo avesso durante o processo. Hillary arrecadou quase duas vezes mais que Trump; o republicano não dispunha de uma máquina nacional bem azeitada para sua campanha nas bases, tampouco conseguiu vencer qualquer dos debates televisivos contra a candidata democrata. Mais do que isso, ele não contou com praticamente nenhum apoio da mídia tradicional (embora tenha conseguido muito tempo na tevê, gratuitamente, em função de sua impressionante capacidade de produzir picos de audiência). Futuros “trumpologistas” vão nos dizer qual o verdadeiro impacto das mídias sociais no pleito de 2016, assim como avaliar o efeito eleitoral do universo paralelo de sites e rádios de direita.

Há motivos para acreditar que Twitter e Facebook funcionam muito bem para políticos populistas. O Twitter, em particular, pode propiciar entre seus usuários a impressão daquilo que a teórica política italiana Nadia Urbinati chamou de “representação direta”. Ao contrário, porém, do que fazem crer a seus eleitores e apoiadores, os populistas não têm interesse em abandonar a democracia representativa em nome de formas de participação direta. Eles acreditam, de fato, que os escolhidos nas democracias representativas não são os representantes corretos – a não ser que eles próprios estejam no poder. Não buscam um processo aberto, em que os cidadãos deliberem entre si; quando convocam um referendo, é apenas para que as pessoas confirmem aquilo que eles já identificaram como a vontade única e autêntica do povo – uma suposta vontade que deriva de sua construção simbólica de um “verdadeiro povo”. Ao mesmo tempo, os populistas desejam a abolição dos poderes intermediários, sejam eles complicados aparatos partidários ou a mídia profissional. Aos olhos dos populistas e de seus seguidores, toda mediação é distorção.

 

Trump se autoproclamou o Hemingway dos 140 caracteres. São dele, segundo disse, “as melhores palavras”. Declarou amar o Twitter porque ali ele se sente como se tivesse o seu próprio jornal, só que sem os custos desse tipo de empreendimento. O Twitter, como o Facebook, funciona à maneira de uma câmara de ecos, mas também possibilita uma identificação direta entre o cidadão e aquele que se arvora a ser o único representante genuíno do povo. É difícil imaginar como uma identificação desse tipo poderia ter sido possível no passado, ao menos no âmbito da experiência cotidiana. O equivalente talvez fosse ir a um comício do partido e sentir uma conexão direta com o líder, na companhia de outras pessoas que se sentiam naquele momento exatamente do mesmo modo. Hoje, essa sensação de vínculo direto está a um clique de distância, noite e dia: “Veja só, são três da manhã, eu estou acordado, o meu candidato também, e ele está dizendo exatamente o que eu estava aqui pensando!”

Trata-se de uma ilusão, mas uma ilusão poderosa. Políticos hábeis na manipulação da mídia sabem explorá-la de um modo único, sem precedentes. Na Itália, por exemplo, o Movimento 5 Estrelas, anti-establishment, nasceu de um blog, do comediante Beppe Grillo.[6] “É o seguinte, pessoal, funciona assim: vocês me dizem o que está acontecendo, e eu vou atuar como um amplificador”, disse Grillo a seus seguidores. Antes de entrar na política, ele era um comediante famoso. E nunca atuou simplesmente como um “amplificador” neutro, restringindo-se a divulgar as preocupações das pessoas comuns: o modo como il popolo fala sempre foi moldado por sua liderança, embora ele não disponha de nenhuma posição oficial de autoridade. Trump também foi uma estrela de tevê, alguém que era famoso, em parte, simplesmente por ser famoso. Sua peculiaridade, no entanto, é que ele parece ser uma espécie de Beppe Grillo e de Silvio Berlusconi reunidos numa pessoa só. Durante a campanha de 2016, sempre que se viu acusado de ser apenas um entertainer, Trump pôde chamar a atenção para sua competência como homem de negócios; e sempre que se dizia que boa parte de seus negócios tinha falido, ele podia alegar que era sobretudo uma estrela da tevê.

Há algo mais importante: exatamente como fez Berlusconi, Trump pôde se apresentar como um polo de identificação para seus seguidores precisamente por seu franco desprezo pelo Estado, expresso no esforço incessante que sempre fez para pagar menos impostos. Berlusconi buscou estabelecer uma cumplicidade com os italianos, como se lhes enviasse uma piscadela de olhos: “Eu sei que vocês tentam trapacear, pois eu também faço o mesmo.” Trump fez isso. Sua aparente falta de autocontrole provavelmente foi interpretada por muita gente como marca de autenticidade, e seu comportamento se tornava assim imensamente divertido: nunca se sabia o que poderia acontecer a seguir. Se a quebra de tabus era espontânea ou não, é uma questão que ainda precisa ser respondida, mas, como nos reality shows, o que importava era a dramaticidade e a impressão de que ele expressava verdadeiramente seu caráter. A revelação de Trump de que, como homem de negócios, fez doações em dinheiro para todos os candidatos e, mais tarde, telefonou a eles para pedir favores não está tão longe assim daquilo que representavam os relatos do ex-ministro das Finanças grego Yanis Varoufakis[7] sobre o que se passava a portas fechadas nas reuniões dos dirigentes europeus. Quem é que sabe se é assim mesmo que as coisas funcionam? O que importa é que o suposto outsider – Trump ou Varoufakis – venha confirmar nossas desconfianças a respeito do que está errado no sistema. Mesmo quando não concordamos inteiramente com suas ideias, acreditamos que ele vá nos revelar certos segredos.

 

Os eleitores de centro-esquerda agora andam preocupadíssimos com a própria incapacidade para fazer os demais cidadãos prestarem atenção às “checagens de fatos” e às demonstrações cabais das constantes contradições de Trump. É curioso como, em seu desespero, eles acabaram ressuscitando alguns dos clichês sobre a psicologia das massas, correntes no século XIX. Ao mesmo tempo que contestam virtualmente cada afirmação feita pelos populistas – sobretudo as soluções supostamente simplistas contidas em suas propostas de campanha –, engolem sem questionar a história que esses mesmos populistas vendem sobre a razão de seu sucesso. Não fazem mais do que confirmar com a cabeça a veracidade do que é dito quando, por exemplo, Arron Banks[8] proclama que “fatos não funcionam”. Ou que o importante “é se conectar emocionalmente com as pessoas”. Não é verdade, contudo, que “as massas” sejam constituídas por desequilibrados mentais prontos a serem seduzidos por qualquer demagogo carismático. Para início de conversa, a distinção clara entre razão e emoção é enganadora. As pessoas sentem raiva por alguma razão, e em geral elas conseguem oferecer uma boa explicação de que razão é essa, e de como ela faz parte de uma história mais geral sobre o que deu errado em suas vidas.

Trump conquistou a confiança das pessoas apresentando-se como um outsider e, mais do que isso, como um exemplo crível de alguém que não é um profissional da política. Alguns confiaram nele porque aparentemente ele se dispunha a falar a verdade, a dizer as coisas como elas são. Em outros casos a confiança veio primeiro, e foi ela que levou as pessoas a acreditar que ele estava dizendo a verdade. Essa verdade podia se constituir de um emaranhado de mentiras, mas era coerente – da mesma forma que, à sua maneira, também era coerente a narrativa de Farage que opunha a liberdade inglesa à ditadura da União Europeia. Uma vez aceita essa “verdade”, o “fato” de que as famílias britânicas iriam perder 4 mil libras por ano quando o país saísse da UE, corroborado pelo Tesouro, ganhava um novo significado: quem não pagaria 4 mil libras por ano em troca de mais liberdade e mais democracia? “O que convence as massas não são os fatos”, escreveu Hannah Arendt – não sem boa dose da falta de confiança característica de sua época em relação às pessoas comuns –, “nem mesmo os fatos inventados, e sim a coerência do sistema de que eles supostamente fazem parte.”

 

Mas há um limite para a identificação política que se pode estabelecer com base no fato de o cidadão ser, ele também, um sonegador de impostos – um limite que é certamente ainda menor quando se trata de abusar das mulheres. O sucesso de Trump dependia de fazer muitos de seus seguidores se enxergarem como parte de algo que só pode ser corretamente caracterizado como um movimento de identidade branca. Os gritos de “U-S-A, U-S-A” durante seu discurso da vitória já tinham sido ouvidos antes nos comícios de Sarah Palin,[9] realizados em locais que ela designava como “as áreas pró-América desta grande nação”. Na prática, esses gritos significam: “Roubaram nosso país de nós, mas agora ele é nosso de novo” (as palavras que mais figuram na retórica de Trump são “de volta” e “de novo”). Esta não foi a primeira vez na história dos Estados Unidos em que avanços conquistados pelos afro-americanos acabaram sendo sucedidos por uma espécie de contrarrevolução racista.

Seria um erro, contudo, acreditar que Trump apenas tornou visível a verdade mais profunda de que a sociedade americana é, em essência, intolerante. A representação política é um processo dinâmico, de mão dupla, e não a simples reprodução de alguma realidade sociocultural já existente. Ao contrário de muito do que foi dito em reação ao resultado eleitoral, não há nenhum mistério profundo no fato de Obama ter recebido o voto de muitos dos brancos que, neste ano, preferiram escolher Trump. Obama, que justo por sua identidade racial foi capaz de pôr de lado os embates identitários do país, fez campanha prometendo mudança e competência administrativa em sua primeira eleição (contra um John McCain velho, alienado e hesitante diante da crise financeira de 2008), assim como chamou a atenção para os efeitos da desigualdade econômica, no segundo pleito (contra um plutocrata de papelão, Mitt Romney, em 2012).

Trump, por sua vez, conseguiu a proeza de fazer com que muitos brancos – ainda a maioria da população, nos Estados Unidos – se vissem como integrantes de uma espécie de minoria oprimida. Seu discurso se mostrou bem-sucedido não apenas entre eleitores de uma classe trabalhadora que, segundo Michael Moore, provavelmente usou a urna como um “instrumento de gerenciamento de raiva” (seja como for, a voz corrente que fala de uma “classe trabalhadora racista” deve ser tratada com extrema cautela: em sua maioria, os mais pobres – os que ganham menos de 50 mil dólares por ano – e a maior parte dos trabalhadores sindicalizados votaram em Hillary). Trump trouxe a chamada alt-right[10] para o centro de sua campanha. Promotores da supremacia branca, eles ficaram encarregados de amplificar o que, de acordo com eles, está de fato acontecendo nos Estados Unidos: os perigos de um “genocídio dos brancos” e da sujeição nacional ao poder global de judeus como George Soros[11] e Janet Yellen.[12] Terminada a campanha, Trump nomeou Steve Bannon, editor do Breitbart News,[13] como seu estrategista-chefe na Casa Branca. Também aí os republicanos tiveram um papel importante: ou ajudaram ou fingiram ignorância. Reince Priebus, presidente do Comitê Nacional do Partido Republicano, candidato a ser chief of staff[14] do presidente eleito, afirmou que não há como Bannon ser racista, uma vez que ele estudou na London School of Economics e na Harvard Business School. Uma interpretação caridosa dessa declaração seria que, para Priebus, pessoas realmente inteligentes sabem que a pseudociência e as teorias da conspiração racistas não valem nada; mas, como são inteligentes, elas também sabem como fazer dinheiro a partir dessas ideias.

 

A questão crucial a ser entendida agora é que populistas podem governar como populistas. É ingênuo imaginar que um movimento de protesto esteja fadado a fracassar uma vez que alcance o poder, segundo o princípio de que o protesto não pode ter continuidade quando o movimento de oposição afinal se torna governo. Tampouco é necessariamente verdade que os populistas, por terem ideias políticas inviáveis, venham a ser vistos como incompetentes administrativamente. O muro que deveria separar os Estados Unidos do México pode muito bem não ser construído – mas será possível transformar esse não feito em algo bem diferente de uma quebra de promessa de campanha. Bastaria a Trump convencer um número suficiente de pessoas de que foram os inimigos da nação – os defensores da globalização, os democratas, as ex-misses, o que se quiser – que conseguiram impedir a realização prática desse imperativo de autoproteção branca. A oferta de inimigos é inexaurível.

Há uma diferença importante entre Trump e populistas como Erdoğan e Orbán, é verdade. Os dois últimos controlam seus partidos com rédea curta. Trump não tem o poder de simplesmente impor sua vontade ao Partido Republicano – um partido que, de todo modo, está há tempos dividido por lutas internas entre o Tea Party, neoconservadores e tecnocratas pró-mercado como Romney. Dito isso, não há motivo para acreditar que os republicanos impedirão o presidente eleito de conduzir o país numa direção autoritária. Afinal, por que agora impediriam Trump de governar como um populista, se não o impediram de levar adiante uma campanha populista? A direção do partido e seus intelectuais conservadores se voltaram ocasionalmente contra ele por uma questão de competência quanto ao modo de gerir a campanha, e não porque ele incitou o ódio contra imigrantes muçulmanos e mexicanos. Foi somente quando Trump pareceu representar uma ameaça a suas mulheres e filhas – que evidentemente deviam ser vistas como propriedade de homens brancos poderosos – que alguns republicanos afinal se dispuseram a renegá-lo publicamente. Mas voltaram a bordo rapidinho. E isso apesar de a campanha de Trump dar sinais aparentemente claros àquela altura de que iria afundar.

Ainda que não se possa considerar que Trump tenha recebido um voto de confiança popular para implementar um projeto – como Reagan recebeu, por exemplo –, o oportunismo bem pode fazer com que os republicanos se alinhem a ele. Muitos ficarão felizes com cortes de impostos para os ricos e desregulamentação para os bancos, e assim darão a Trump passe livre para tudo o mais que ele desejar (o único foco real de conflito deve ser o comércio internacional). Trump poderá dizer que, durante a sua campanha vitoriosa, quebrou muitas das regras que os grandes e poderosos do partido diziam que não podiam ser quebradas; e não existe nada mais bem-sucedido do que o sucesso. Se um ou outro republicano resistir individualmente, Trump sempre poderá ameaçar recorrer à alt-right – e, mais importante do que ela, ao “verdadeiro povo” que o colocou na Presidência.

Seja como for, os republicanos não são os defensores mais confiáveis das regras, constitucionais ou tradicionais, que definem até onde pode ir um partido com o objetivo de prevalecer na disputa política americana. Newt Gingrich testou esse limite quando, em 1995, forçou o fechamento do governo federal – de suas agências, escritórios, a interrupção dos trabalhos dos servidores públicos – enquanto durou o seu confronto épico com Bill Clinton, sem que se aprovasse um orçamento. Esse jogo à beira do abismo foi repetido muitas vezes, a mais recente delas quando, em luta contra Obama também por causa do orçamento federal, o senador Ted Cruz e seus colegas correram voluntariamente o risco de o governo americano chegar a uma situação de calote, puro e simples. A Constituição dos Estados Unidos prevê e admite o conflito partidário, mas a premissa para esse enfrentamento é a existência de boa vontade para a cooperação tanto entre os setores do governo como dentro de cada um deles. Acrescente-se a tudo isso um pouco da história política recente – a disputa entre George W. Bush e Al Gore em 2000, as mentiras que justificaram a Guerra do Iraque em 2003, e o comportamento bizarro do fbi durante a campanha eleitoral –, e se torna compreensível por que muitos cidadãos, embora continuem a reverenciar a Constituição, sintam que o sistema político de seu país está “falido”. Há pesquisas que indicam que cerca de 40% dos americanos perderam a confiança em suas instituições democráticas.

 

Mas eis outra peculiaridade dos políticos populistas. Eles não respeitam procedimentos formais. Só o que lhes interessa – ou pelo menos é isso que eles dizem – é a execução direta daquilo que entendem ser a vontade do verdadeiro povo. Não foi por acaso que Trump se recusou a anunciar se reconheceria ou não o resultado da eleição, caso Hillary ganhasse (70% dos republicanos concordaram que, se a democrata viesse a ganhar, então certamente a eleição teria sido fraudada). É claro que todos os políticos acham que estão certos e que seus adversários estão errados; mas uma das coisas que diferencia os populistas é a crença de que uma derrota nas urnas não pode ser culpa deles, e certamente terá sido provocada pelas elites que tramam por baixo dos panos. Se a maioria silenciosa pudesse de fato se expressar, diz a lógica dos populistas, eles, seus representantes, venceriam sempre. Só podem perder quando as elites de alguma forma conseguem calar a maioria silenciosa. O que há de perverso nisso é que nos Estados Unidos houve, sim, um estratagema para manter parte dos eleitores longe das urnas. Mas os responsáveis nesse caso foram os republicanos, que muitas vezes limitaram o direito de voto das minorias, impondo exigências descabidas para o documento de identidade dos eleitores, por exemplo.

Um episódio extremo e recente, ainda que nada excepcional, ilustra claramente a falta de respeito dos populistas pelos procedimentos democráticos e legais. No dia 2 de outubro, o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, promoveu um referendo para saber se a União Europeia poderia encaminhar, sem consulta prévia ao Parlamento húngaro, grupos de refugiados ao país. Advogados constitucionalistas ressaltaram que resolver a questão daquela maneira não era cabível sob a própria lei húngara; o fato de, ainda assim, o referendo ter recebido as bênçãos da comissão eleitoral do país serviu para demonstrar em que medida os controles institucionais foram enfraquecidos sob o regime de Orbán. No fim das contas, o referendo acabou sendo invalidado: 98% dos votantes apoiaram o governo, mas o quórum mínimo de participação, de 50% dos potenciais eleitores, não foi atingido. Como Orbán esteve à frente de todo o processo (gastando cerca de 40 milhões de dólares numa campanha publicitária contra os muçulmanos, com o intuito de assustar os cidadãos e, assim, fazê-los votar), ele não poderia alegar que o referendo tivesse sido fraudado por elites hostis. Tratou assim de anunciar, tão somente, que naquele referendo pela primeira vez “o povo” na Europa havia tido uma oportunidade verdadeira de se pronunciar sobre a questão dos refugiados. Na prática, Orbán dizia que os 3,3 milhões de cidadãos que haviam votado contra as reivindicações legítimas dos que buscam asilo na Hungria são o verdadeiro povo do país, supondo, de resto, que a “maioria silenciosa” que ficara em casa concordava com ele. Renovou, assim, sua cruzada contra uma Bruxelas supostamente dominada por “niilistas liberais” desejosos de impor o multiculturalismo às nações europeias.

Dentro da ue, Orbán foi um pioneiro em matéria de populistas no poder. Como Trump, ele precisa de apoio político tradicional; Angela Merkel e outros democratas-cristãos têm lhe dado cobertura há anos. Ele foi o único chefe de governo europeu a apoiar Trump. Numa visita recente a Londres, vangloriou-se de que a eleição do republicano significava um retorno à “democracia real”, contrariamente à “não democracia liberal” que o Ocidente vem experimentando nas últimas duas décadas (pouco importa que mais pessoas tenham votado em Hillary do que em Trump: democracia real é o que o populista diz que é). Numa celebração daquele momento, que caracterizou como de grande transformação intelectual, Orbán anunciou que agora poderíamos afinal “voltar à realidade” e lutar pela “libertação do discurso às claras”, em vez do “politicamente correto”.

Populistas não são apenas políticos fantasiosos. O que eles dizem e fazem pode ser uma resposta a queixas reais e ter consequências igualmente reais. Mas é importante compreender que eles não são como os outros políticos, que o que os distingue não é apenas uma retórica um pouco mais voltada a agitar as massas. Eles definem uma realidade política alternativa na qual seu monopólio da representação do “verdadeiro povo” é tudo que conta: no caso de Trump, uma realidade alternativa sob os auspícios da direita alternativa, ou alt-right.

Na melhor das hipóteses, os populistas desperdiçam alguns anos de seus países, como aconteceu com a Itália de Berlusconi. Nos Estados Unidos, é provável que signifique um grau de liberdade de ação ainda maior para os lobistas de Washington e para o capitalismo de compadrio, as ações entre amigos (ou, no caso de Trump, para o capitalismo em família); é provável que dê lugar a repetidas tentativas de minar controles institucionais (inclusive com ataques a juízes, que poderão ser classificados como inimigos do povo caso decidam contra aquilo que querem os “verdadeiros cidadãos”; e um esforço para tornar tão difícil quanto possível o trabalho da imprensa); é provável que tenhamos um governo que se pareça com os reality shows da tevê, capaz de distribuir quantias generosas de pão e de circo.

E na pior das hipóteses? Mudança de regime político nos Estados Unidos da América.

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