Consta que Adão relutou muito em abrir mão de sua estimada costela diferencial, e só o fez sob coação explícita do Todo-Poderoso
Ver dados da foto Consta que Adão relutou muito em abrir mão de sua estimada costela diferencial, e só o fez sob coação explícita do Todo-Poderoso ILUSTRAÇÃO: ANGELI_2010

Prevaricações primevas

O novo ser confrontava Adão com um paradoxo sedutor: seu mais notório diferencial anatômico, situado na região do baixo-ventre, não era algo a mais, e sim a menos, sem desdouro dos outros encantos, como as protuberâncias de excelente design e textura na altura do tórax e dos glúteos. Havia que reconhecer: Deus sabia muito bem o que estava fazendoa mulher
Reinaldo Moraes
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Consta que Adão relutou muito em abrir mão de sua estimada costela diferencial, e só o fez sob coação explícita do Todo-Poderoso ILUSTRAÇÃO: ANGELI_2010

Acompanhai meu raciocínio: Deus criou o Paraíso e, logo depois, fabricou um homem para nele morar. Mais tarde, resolveu construir uma mulher para fazer companhia ao homem, através de procedimentos jamais revelados nem aos seus mais íntimos profetas, mas que deviam ser, especula-se hoje, uma forma primitiva, embora muito eficiente, de engenharia genética, ou seja, de clonagem a partir de uma costela humana. Os pergaminhos mais antigos a que se tem acesso, de pele de carneiro sacrificial, e as barbas brancas dos sábios que sobre eles se debruçaram através dos milênios, pouco esclarecem sobre a questão, em parte porque alguns rolos com trechos dos Manuscritos do Mar Maroto se perderam nas brumas do tempo e na farofa dos dias, se é que não estão em mãos ignotas e avaras. Mas antigos boatos nos meios escolásticos, mencionados em cartas entre teólogos e religiosos, interceptadas pelos mil braços da Santa Inquisição, dão conta do conteúdo de alguns desses pergaminhos perdidos.

Uma dessas cartas, escrita em grego clássico por um teólogo anônimo, talvez italiano, a um certo Roland de Poitiers, noviço anabatista e mariólatra polimórfico, que morreu queimado num ato de fé na segunda metade do século XVI, em Valladolid, na Espanha da Contra-Reforma (a carta do teólogo fora usada como prova contra ele), menciona uma versão apócrifa do Gênesis em que o cronista bíblico relata uma discussão bem pouco amigável entre Deus e Adão – entre Criador e criatura –, em torno da cessão de uma costela sobressalente deste último para a confecção, por parte do primeiro, de outro ser humano. Diz o tal pergaminho, ou, antes, o teólogo anônimo que teria tido acesso a ele, que Adão se afeiçoara sobremaneira àquela costela extra situada em seu flanco direito, a lhe conferir charmosa catadura assimétrica que o diferenciava dos outros animais do Paraíso, todos monotonamente simétricos à exceção do linguado, uma bizarrice a que Deus se permitira para desenfadar-se da faina criacionista. Consta que Adão relutou muito em abrir mão de sua estimada costela diferencial, e só o fez sob coação explícita do Todo-Poderoso que insistia em lhe oferecer uma companhia, apesar do primeiro homem jurar que estava satisfeito com sua distinguida condição de único espécime de sua espécie a vagar sobre o então paradisíaco globo terrestre, mesmo que os pósteros viessem a chamar essa disposição solitária pelo indigesto nome de misantropia.

Porém, segundo afirma o anônimo teólogo, assim que viu a segunda criatura recém-fabricada por Deus, Adão arregalou os olhos e se pôs a deitar copiosa baba no peito peludo, tão maravilhado ficou, chegando até a desdenhar mais tarde da costela perdida, conforme – sempre de acordo com a boataria no submundo da velha Igreja – pode-se ler em suas memórias pessoais, como mencionaremos mais adiante: “Dane-se aquela costela. Coçava de noite…”

 

Aquele novo ser que Deus chamou de mulher confrontava a inteligência e os sentidos de Adão com um paradoxo sedutor: seu mais notório diferencial anatômico, situado na região do baixo-ventre, não era algo a mais, e sim a menos, sem desdouro dos outros encantos que a mulher exibia sem pudor, como as protuberâncias de excelente design e textura na altura do tórax e dos glúteos. De fato, havia que reconhecer, Deus sabia muito bem o que estava fazendo. O mais curioso da história é que, mal botou os olhos na primeira mulher, Adão logo se sentiu varado pela vaporosa sensação de já ter visto em algum lugar aquela criatura, a única do gênero de que tinha notícia. Estranha, porém, nem era a sensação em si, mas a forte impressão de familiaridade que a acompanhava, como se não só já a tivesse visto, mas também entretido com ela um denso convívio. Onde teria se dado tal convívio, e quando, ele não sabia dizer. Na infância é que não poderia ter sido, pois já nascera adulto e nem sequer de um ventre materno. Em sonhos profundos, talvez. Vai saber.

O nome da mulher, segundo dissera Deus durante as apresentações formais, era Eva. Adão nunca tinha ouvido esse nome antes. Nunca tinha ouvido nome nenhum de mulher.

Eva.

Bom nome, ele achou. Eva. Nome alado, leve, luminoso. Onde Eva ia, ia Adão atrás, feito um guarda-costas atento para que nenhuma felicidade excessiva, nenhuma surpresa extasiante perturbasse a serenidade quase levitacional daquele ser tão singular. E aonde Adão ia, para lá também seguia a mulher Eva, sempre a seu lado, vendo com olhos de ver, opinando com língua de opinar, correndo com pernas de correr, respirando com pulmões de respirar, urinando com uretra de urinar, defecando com ânus de defecar, menstruando com ovários de menstruar e encantando com suas graças de encantar a todos os sentidos de Adão. O Paraíso, para ele, era agora só um fundo de cenário pintado com motivos bucólicos. O universo se resumia, tanto quanto se expandia, na figura de Eva, a mulher.

Eva. Eva. Eva. Eva – repetia Adão, entregando-se aos poderes hipnóticos daquele nome. E era Eva quem, a partir de seu primeiro dia de vida, acendia as manhãs, incendiava o meio-dia como se fosse uma churrasqueira no céu, ventilava as tardes nos trópicos eternamente temperados do Paraíso, coloria o crepúsculo com a rica paleta de sua personalidade policromática, e pousava à noite feito estrela candente no leito de folhas de ervas aromáticas onde o casal primevo se deitava para dormir. Todas as noites, por sinal, depois de muito rir e conversar, conversar e rir, a comentar os eventos do dia findo e a antecipar as boas surpresas que lhes reservava o seguinte, Eva adormecia, velada por Adão até o sol raiar.

Adão simplesmente desistira de dormir para não perder um segundo sequer de contemplação extática da mulher primeva, que estreara no Paraíso como xantocroide caucasiana, uma loiraça niquelada de ofuscar a vista quando o sol batia de chapa nela, mas que logo se mostrou capaz da camaleônica proeza de mudar várias vezes de configuração étnica, não raro no espaço de poucas horas. Tudo começou num belo dia – como todos no Paraíso, por definição –, quando ela dormiu sueca como viera ao mundo e acordou africana retinta. Adão adorou a mudança. Eva negra! Seria Deus quem comandava aquelas metamorfoses, ou aquilo era obra dela mesma, daquela prodigiosa mulher? Fosse como fosse, as surpresas se reproduziram sempre surpreendentes, como compete a toda boa surpresa que se preze. Tinha dia em que, no meio de uma frase, ela passava de negra, branca ou mulata a sino-japoronga das Coreias longínquas, arabesca de rebolante ventre livre ou pigmeia teteia de carregar pendurada no pescoço, feito pingente. Certa feita, Eva saiu para catar coquinho no mato ostentando o formato de ameríndia gráfica dos bicos de pena de Rugendas e voltou figurando de mexicana salerosa, sem o sombrero, embora não tinha sido ainda inventado por Pancho Villa.

 

Adão acabou decidindo que aquela só podia ser mais uma artimanha do Senhor, e de mais ninguém, para poupar-lhe da monotonia causada pelo convívio eterno com uma só forma feminina, uma só mulher, mesmo se ele, Adão, o varão da Criação, permanecesse o mesmo jovem e peladão Adão de sempre, saído do barro primevo sob a forma de um branco meridional de feições moçárabes. A imutabilidade da compleição adâmica devia-se, talvez – e tal especulação credita-se ainda àquele teólogo quinhentista que vimos de mencionar –, ao fato de Adão possuir entre as pernas um curioso apêndice cujo tamanho, robustez e consistência mostravam-se assaz variáveis, ao sabor, quiçá, das edênicas brisas. Deus achava, e a própria Eva concordava, que tal prodígio já bastava para manter o feminil interesse focado no primeiro homem. Tanto isso era verdade que Eva mais de uma vez pilhou-se declarando a si mesma em voz-pensamento: “Em algum lugar deve estar escrito que eu hei de me deixar penetrar pelo bicho-homem, não sei bem como, nem por onde ou por quê, mas que vai rolar um bolerón fuerte entre nosotros, isso vai.” (Trecho extraído da autobiografia de Eva a que nos referiremos igualmente a seguir.)

Mas acontece que Deus, não se sabe bem por quê, era contra Adão achegar seu mercurial apêndice nas brenhas guarnecidas de grandes e pequenos lábios, além de mimosos pelinhos retorcidos, da mulher primeva, mesmo se tal viesse a suceder com total anuência e mesmo extrema querença da parte dela. Quer dizer, Ele havia equipado suas duas criaturas humanas com pênis e vagina, nomes mais tarde atribuídos pelos antigos e ociosos romanos ao apêndice externo do homem e às fundas brenhas da mulher, respectivamente, mas não queria ver aquelas duas entidades anatômicas tão evidentemente complementares conjuminando-se em meio a sucos lubrificantes, gosmas fecundantes e, como era provável, alguma saliva facilitante.

Nunca se pôde explicar a verdadeira razão desse interdito, apesar de não poucos paleoantropólogos, teólogos, linguistas e historiadores sacros terem dedicado a vida toda a esquadrinhar as linhas e entrelinhas dos rolos que de fato chegaram até nós dos Manuscritos do Mar Maroto, seja no Livro de Matusalém no Deserto, na Ordem da Batalha dos Filhos da Luz Lilás contra os Sicários do Apagão Eterno, nos Hinos de Alahlaoh ou nos controversos Comentários de Habacuzim, o Lasso. Algumas hipóteses jamais comprovadas, no entanto, pipocaram nos meios religiosos, inclusive entre seitas satânicas.

Para alguns, Deus temia que o prazeroso atrito entre o apêndice peniano do homem e as brenhas vaginais da mulher pudesse gerar um tipo de conhecimento cósmico superior, confrontando, destarte, a onisciência exclusiva do Todo-Poderoso Pai. Para outros, como são Pellegrino de Éfeso e o famoso vidente de Trás-os-Cárpatos, Avelinus Ramoneda, o supremo Criador teria baixado aquele incongruente interdito ao conúbio íntimo por considerar que a fruição do sexo resultaria muito mais apetitosa e divertida para os seres bípedes que havia acabado de criar se ocorresse de forma escusa e clandestina – “na moita”, expressão que casava bem com a luxuriante vegetação do Paraíso.

Já a famosa beata Herandí de Calicute, excomungada por herege e apóstata pelo santo papa Calixto II, e vendida como escrava sexual para o célebre prostíbulo de Zanzibar com seu plantel exclusivo de monjas e beatas, no século XII, sustentava que o Todo-Poderoso talvez alimentasse intensos e incontroláveis ciúmes de Eva, que lhe teria saído bem melhor que a encomenda feita a Si Mesmo, vindo a despertar-lhe instantânea paixão no momento mesmo em que ficou pronta e foi bafejada pelo sopro divino. Deus, segundo essa teoria, não queria ver sua bem-amada submetida à sanha sexual do primeiro homem, que, com suas charmosas imperfeições, resultara bem mais sedutor e galante, em sua eterna juventude, do que Ele próprio, um macróbio secarrão.

Todavia, alguns teólogos luteranos de linhagem malthusiana, a exemplo do grande Martinus Ludovicus, da Igreja Reformada de Bayer-Leverkusen, e Hans Magnus Kektshupyashana, da Nova Prelazia Heterodoxa de Antuérpia e Jacarta, sustentaram com enfadonho realismo que Deus, com aquela esdrúxula cláusula de castidade, apenas se precatava contra uma provável explosão demográfica no pequeno e privativo Paraíso, evitando assim os conhecidos malefícios sociais daí decorrentes, tais como a especulação imobiliária, os engarrafamentos de trânsito, o estouro das contas da previdência social e o deflorestamento dos Campos Elísios por inescrupulosos agronegociantes interessados em transformá-los em pasto para gado de corte ou em monoculturas exportáveis.

Seja como for, os dias continuavam se sucedendo às noites, o sol à chuva, o calor nunca por demais abrasante ao frio jamais congelante, sem que o tempo passasse um segundo sequer. Aprisionada no imutável e sempre aprazível presente que encapsulava o tempo no Paraíso, Eva ia vendo e cada vez mais cobiçando as formidáveis ereções involuntárias do apêndice de Adão, tanto as matinais, imediatamente anteriores à primeira micção, quanto as noturnas, depois de seu único conterrâneo planetário ter ingerido algumas doses dos mais finos néctares da divina adega, no que ela mesma o acompanhava em esfuziante camaradagem. Isto sem contar as ereções vespertinas, que se manifestavam por dá-cá-esta-palha-de-trigo-silvestre.

 

Já o homem Adão, deixava-se sucumbir a todo instante pelo fascínio que lhe causava aquela ausência intrafemural pilosa que Eva exibia ao léu, dia e noite, sem falar naquele rostinho de uma ingenuidade toda feita de malícia pura desenhado pela mão safa e safada do Padre Eterno. Até que, num outro belo dia do Paraíso, com Eva ausente a fazer sabe-se lá o quê alhures, Adão sentou-se à sombra da portentosa macieira que havia no centro da edênica gleba, entretido em extrair dos dentes um fiapo de manga com a ponta crescida da unha do mindinho, enquanto com a outra mão cofiava distraído os pelos da bolsa escrotal, quando uma aragem libidinosa o fez lembrar-se da bela Eva, figura de proa em todas as suas fantasias.

Entretanto, se as maquinações mais ou menos espontâneas da cabeça de Adão concentravam-se na única figura feminina disponível no Paraíso, os enredos que ele encenava com Eva no telão íntimo de sua mente ociosa eram tão variados e criativos que é possível afirmar, sem incorrer em excessivo exagero, que o primeiro homem foi também o primeiro libertino conhecido, o rei da sacanagem no Éden, para pôr a coisa em termos hodiernos. Não passava pela cabeça do Adão, e ainda menos pela do Criador, que a doce e ingênua Eva pudesse ser – e há fortes indícios de que o fosse – uma fortíssima concorrente ao trono da libertinagem desbragada, embora apenas imaginária, se é que ambos não eram suplantados nisso por algum daqueles bichos irrequietos da Criação, o símio lúbrico, por exemplo, ou o papagaio priápico das piadas infames que haveriam de se disseminar pelo planeta num futuro não muito distante.

Foi ali, pois, debaixo da umbilical macieira do Paraíso, que Adão, ao mesmo tempo espectador, roteirista, diretor e ator de tais brejeirices mentais, houve por bem inventar o onanismo, muito antes que o próprio Onan adentrasse a mitologia dos futuros atenienses, popularizando-se logo a seguir entre seus vizinhos espartanos. (Consta que Leônidas, o lendário líder dos 300 de Esparta, era conhecido em seu círculo íntimo como παρασχάζω νασαλεύω, ou “a lança que chacoalha”.) A ideia de valer-se do próprio apêndice hidráulico-viril para atingir, através de manipulação intensiva, inusitados estágios gozosos, pareceu a Adão no mínimo interessante, e também das mais práticas – “O prazer sempre à mão, ora a direita, ora a canhota, ora as duas, na maciota”, como ele diria depois em suas memórias –, apesar de suspeitá-la ilícita, pois ali se exercia um evidente simulacro do conúbio proibido entre dois corpos sexuados, isto é, suados de sexo, embora imperfeito em sua essência, pois que solitário.

Mesmo com a sirene do interdito divino estridulando na cabeça, Adão continuava a semear a relva em torno da árvore-mor do elísio jardim com o mesmo sêmen que ele ansiava entranhar a fundo nas brenhas da fêmea fundamental por qualquer orifício, brecha, fresta, frincha ou guelra que se lhe abrisse à visitação imediata.

E Adão viu que o onanismo era bom. Melhor que nada, pelo menos. De quebra, as raízes da velha árvore frutífera, alimentadas com aquele poderoso suplemento hormonal e vitamínico, enviavam reforçadas doses de energia para o tronco e a copa, que muito ganhavam em robustez e esplendor paisagístico.

 

E así pasaban los días para Adão naquele masturbatio indolentis no Paraíso, sem que o Senhor manifestasse repúdio pela prática secreta e excretiva a que sua cria se entregava com solitário fervor, ou mesmo desse sinais de estar ciente do fato. Tudo ia bem, até que chegou um ponto, lá numa altura qualquer da imóvel eternidade, em que, temendo ver crescerem pelos púbicos na palma de sua mão, o primeiro hominídeo esclarecido declarou-se farto daquela pugna maneta que já andava a lhe causar um início de bursite complicada com tendinite por esforço repetitivo, e passou a ansiar com crescente urgência por uma companhia feminina real, palpável e penetrável como um parangoletis oiticicanus. Ele queria porque queria o corpo da Eva de carne, osso e pelos, “e que se foda o interdito sexual”, como teria blasfemado então.

Mas, e a coragem para peitar o Excelso Barbaças? Nos pavilhões auriculares da alma de Adão soava estridente a prédica do Senhor no dia em que, ainda fresco de argila, fora agraciado com o bafo da vida. Sem furtar-se ao rude baixo calão do aramaico arcaico, o Criador dissera num ribombante Dolbys-Sensaroundus: “Não pode foder aqui no Paraíso, falô? Aqui é assim: fodeu, se fodeu.”

Um mandamento desse calibre, com todas aquelas tremendas palavras formando a frase bruta, aquilo macerava o espírito de Adão, ameaçando refrear seu ímpeto de imiscuir-se de apêndice em riste n’Eva. O homem temia que Deus, em sua opressiva sabedoria, não fosse fazer vista grossa nem a uma mera rapidinha à sombra da macieira, só para ver como era.

 

Adão, usando o mesmo linguajar forte do Senhor, e tentando se insuflar de brios rebeldes, clamava para os seres irracionais à sua volta, os inertes e os semoventes: “Hei de me foder, mas hei de foder minh’Eva. Minh’Eva é minha e ninguém tasca!” Isto tudo, é sempre bom lembrar, segundo os relatos secundários acerca do pretenso conteúdo daqueles rolos extraviados que pertenceram ao conjunto dos Manuscritos do Mar Maroto, que o infame heresiarca Pornellius di Capri apodara de “as Sagradas Escroturas“, em meados do século XIV.

Isto posto e disposto nas internas do seu ardente desejo, fenômeno que não tinha ainda esse nome poético-psicanalítico, desejo, mas que lhe deixava o apêndice teso qual um arauto agudo a anunciar com eloquência visual suas mais íntimas intenções. Isto posto, dizíamos, Adão, sempre debaixo da macieira, recostado no tronco e ao pé do lírico ribeirão onde murmurejavam as doces e dóceis águas que davam de beber a toda a Criação no Jardim das Delícias, resolveu praticar mais uma vez o onanismo enquanto aguardava o retorno de sua masturbabilíssima musa amada que tinha ido colher tulipas azuis na charneca, ou coisa que remotamente o valesse.

 

O que Adão não sabia nem sequer sonhava é que Eva em pessoa achava-se naquele exato instante empoleirada no galho mais alto da mesma macieira a contemplar num plongée radical aquela sentida homenagem a ela própria – a quem mais haveria de ser? – que o homem praticava ao rés da relva com febril devoção. De fato, não era a primeira vez que Eva contemplava tal cena. Já fazia uns bons dias que aquele espetáculo era o seu preferido entre todas as atrações do Paradise Park, com ela de espectadora única na plateia, ou melhor, na torrinha do arbóreo teatro. E como seu cérebro também não era nenhuma sacristia ou santo sepulcro, conforme sugerem os relatos secundários e terciários já mencionados, Eva, como das outras vezes em que flagrara Adão no mano-a-pino, passou a se esfregar com todas as volúpias do inferno carnal no próprio galho que a sustentava, seu preferido, liso, grosso e longo, o mais confortável e receptivo galho de toda a natureza.

E assim foi, na terra como no topo da macieira, com Adão e Eva entregues ao fandango da excitação solitária, quando, do nada, se arma um estupendo pé de vento que faz chacoalhar com força inaudita, para os padrões do Paraíso, a copa da macieira, fazendo cair sobre Adão, junto com meia dúzia de maçãs, outro fruto assaz desfrutável em forma de mulher, como que desprendido de seus devaneios manupenianos.

Ora, ocorre que calhou de Eva tombar com assombrosa suavidade, amparada pela galhada abaixo dela, e bem de ponta-cabeça e de boca aberta no colo de Adão, posição que a induziu com a maior naturalidade a abocanhar a cabeçorra do pulsátil apêndice que o acaso pusera em seu caminho – o qual, talvez por seu formato e disposição naquele momento, teria motivado o mito da soez serpente encantadora, que outras versões do mesmo episódio viriam a difundir mais tarde –, ao mesmo tempo em que posicionava suas fluidas brenhas bem nas fuças do feliz proprietário do dito, e agora também chupado, apêndice colubrino.

Ao se dar conta de que tinha dentro da boca o impertinente cogumelo que brotara no pé da macieira, bem entre as pernas de Adão, Eva logo tratou de devorá-lo a golpes de lascívias linguais, labiais e até faringais, a passo com estrepitosas e inspiradíssimas sucções, a ensejar onomatopeias ricas em consoantes sibilantes, do tipo shlup-glufsly-sloshp-slurb, para ficar num só exemplo clássico. Eva, de fato, exercia seu mister succionante com tal senso de medida que só encontraria parelho nas práticas amatórias das melhores cortesãs que, milênios mais tarde, iriam distrair os varões da casa dos Bourbon, tais como as Madames de Pompadour e du Barry, além da falsa grã-duquesa de Sanscrupule-Vachemenjolly, a teenager ambiciosa que entreteve toda a corte de Luís XV em sua lendária cama dotada de espelho de cristal no forro do baldaquim.

Enquanto isso, Adão, por sua linguaruda vez, dedicava-se com afinco a oralizar a fruta felpuda que tinha ao alcance dos lábios, e que logo se lhe abriu num merengue cediço em toda sua rósea suculência cercada daqueles gráceis pelinhos retorcidos, além de “fididinha comme il faut”, segundo ele mesmo anotaria, num galicismo avant la lettre, em sua autobiografia. (Alega o já citado Pornellius di Capri, que Adão se referia aqui ao inebriante buquê de maresia e húmus fresco que trescalava da cona primevae, e que teve o condão de catapultá-lo aos mais sôfregos píncaros da tesudez peniana.) Nascia ali, se esse diz-que-diz-que teológico vier algum dia a se comprovar, o primeiro sex-nuoem, ou meia-nove, da história da sexualidade humana. Tal fato, de discutível lastro histórico, há que reconhecer, foi, de todo jeito, escamoteado de comum acordo pelos estudiosos e pelas altíssimas autoridades esclerosiásticas, como a elas se referia o mesmo Pornellius di Capri em sua costumeira verve blasfema.

Eva entrou a emitir uivos e impropérios de fêmea em ebulição orgásmica (“Goza logo, cadelão primevo!”), o que estimulou Adão, em exasperado transe ejaculatório, a contraberrar destrambelhadas enormidades no pesado argot aramaico da época (“Vou te engolir todinha, sua putana prototípica!”), ambos a gozar com escabrosa profusão na boca um do outro. Adão sorvia os líquidos libidubrificantes e demais corrimentos pessoais da sua Eva, que, sempre de ponta-cabeça, fartava-se da seiva quente, abundante e apaixonada do macacão pelado de cuja costela nascera.

E eles viram que efervescer em mútuas devoções urogenitais era bom – “bom pra caralho”, conforme escreveriam Adão e Eva com as mesmas palavras em suas respectivas memórias: Recordações da Velha Macieira, dele, e O Galho que se Fez Homem, dela. Tudo leva a crer que ambos os textos, considerados pelos Adamitas Evanescentes do século XIII os mais sagrados entre os rolos que integravam o conjunto original dos Manuscritos do Mar Maroto, e dos quais só nos chegaram esparsas menções secundárias, conforme já dissemos, sofreram extravio ou destruição justamente à época da perseguição, suplício e morte de todos os membros daquela seita herética. Sim, pois os Adamitas Evanescentes consideravam Adão e Eva como o verdadeiro Rei e a verdadeira Rainha da Criação, considerando Deus apenas um mago celestial a que Suas Altezas recorriam quando careciam de algum milagre de ocasião.

 

Desde os antigos heresiarcas arianos do período pré-carolíngio até os fundamentalistas ratzingerianos da presente era ozamobamolulista, não faltaram teólogos e místicos a especular que, se Adão e Eva tivessem ficado naquela mútua e deleitosa retrochupança debaixo da macieira, na posição invertida que o Kama Sutra viria a rotular de “União do Corvo”, ou Precheka Chupynta, preconizando-a como “altamente recreativa e relaxante”, tudo teria se passado de maneira bem diferente no Paraíso, e, por conseguinte, na história da humanidade, a qual, para começo de conversa, sequer chegaria a existir como a conhecemos hoje, ou, antes, se resumiria per saecula saeculorum àquele par de seres ofegando em mútua e pacífica genitofagia. Sim, pois não era de todo improvável que Deus tivesse relevado mais aquela pequena transgressão aos seus divinos ditames por parte da trêfega duplinha, reconhecendo o fato de que ficar só no manuseio peniano e no roça-galho pela eternidade a fio seria de uma chatice sem fim, podendo levar à insidiosa instalação do perigoso tédio nos espíritos da parelha inaugural. De fato, não haveria de ser uma boquinha na botija de vez em quando que furtaria aos únicos seres humanos do Paraíso sua primordial inocência. Além do mais, padecendo ou não de ciúmes, como postulou a beata Herandí de Calicute, não era factível que o grande e divino Mestre fosse se meter com a humana Eva, como se fosse um reles Zeus de um mundano Olimpo qualquer. A Entidade Máxima intuía, em seu superior simancol, que o bicho-mulher não era pro seu divino bico. Aliás, foi para justificar e universalizar a renúncia ao conúbio com sua própria criatura, que Deus baixou o famoso decreto-tabu do incesto, o qual obteve razoável grau de adesão por parte de parcela significativa dos descendentes de Adão e Eva até o presente momento, em que pese a forçosamente incestuosa relação entre os membros da prole do casal primevo, como veremos na sequência.

O caso, porém, é que, nem bem Adão exalara seu mais espontâneo “Caraio!”, ao cabo do primeiro ejaculatio no segmento superior do tubo digestivo de Eva, e já a angelical diabinha executava um destro giro corporal em torno do assentado companheiro, vindo a aboletar-se de cavalinho em seu colo, peitões-a-peito com ele, de maneira que, lá por baixo, o apêndice adâmico, longe de arrefecer depois da gloriosa Precheka Chupynta, se embrenhasse a fundo nela.

 

E eles viram que fornicar era bom, tão bom quanto o sex-nuoem, na verdade. E para contornar a escassez de oralidade da posição pater-et-mater, inventaram de, ao mesmo tempo em que se uniam por baixo, unir-se também por cima, num boca a boca com intensa participação lingual a que vieram mais tarde apodar de beijo, e viram que o beijo era bom, apesar do eventual ressaibo a cebola, tabaco de mascar ou alho nos respectivos hálitos.

Penetrada sem piedade, ao mesmo tempo em que comandava o ritmo da dança – Eva vai, Eva vem, Eva vai e vem –, Eva pedia mais e mais e sempre mais, ao que Adão, não se fazendo de rogado, seguia introduzindo-lhe seu túrgido apêndice dia afora e brenha adentro, num epifânico fornicatio cum osculum et repetecum ad libitum, façanha que só lhe foi possível executar enquanto habitava o Paraíso. Aliás, aquilo sim é que era Paraíso, pensavam em silente e comum acordo os dois fornicadores primários, e não aquela existência angelical e bestoide sob as sobrancelhas severas do Pai Eterno no ameno jardim zoobotânico das monótonas delícias.

 

No dia seguinte, quando o Astro Rei saiu pra dar seu giro usual pelos celestiais pagos do recém-criado Universo, encontrou Adão e Eva adormecidos sobre a veludínea relva, num enrosco multianatômico de polvos apaixonados, a ostentar nos lábios um par de sorrisos, reflexos da mais carnal beatitude. Até que, de repente, uma sombra densa, quase palpável, avultou sobre o casal, compondo um dos mais eficientes clichês de filme de suspense ou terror de que se teria notícia nos anos vindouros. Na mesma hora, o beatífico sorriso do casal em repouso transmudou-se em ricto de angústia, como se um pesadelo comum tivesse invadido seus sonhos individuais. Os dois acordaram no mesmo sobressalto, sentindo nas delicadas peles as acutilantes lâminas do que antes fora a lhana grama, além das urticantes ervas daninhas que deram de brotar de inopino sob seus corpos, submetidos outrossim a uma corrente de ar congelante que passou a soprar do nada para o infinito, ida e volta.

Tais desconfortos, contudo, logo se revelaram meras carícias, comparados às ferroadas ígneas de toda uma correição de coléricas tocandiras vermelhas que tomaram de assalto suas peladices a céu aberto, sem poupar de suas lancinantes e venenosas mordidas um milímetro sequer de tecido vivo que encontraram pela frente. Já de pé, a matraquear os dentes de frio a ponto de lascá-los e trincá-los, os amantes inaugurais desataram numa frenética dança de são Vito da Portela, estapeando os próprios corpos com fúria vã no afã tantã de se livrarem daquela legião de diabinhos inclementes.

Ao se afastarem correndo do formiguéu, Adão, que disparara na frente, escorregou num monte de excremento de rinoceronte, vindo a dar de cul nu, como diria Asterix, no terreno agora duro e pedregoso do que apenas horas antes fora o Terreal Paraíso, vindo a estropiar o Cóccix e o Abracurcix, e, ainda por cima, adquirir um excruciante pinçamento do ciático – o primeiro de que se tem registro na longa história da enervatura universal –, quase ao mesmo tempo em que Eva, a seu lado, trupicava feio numa pedra angulosa, transformando seu dedão numa alcachofra sangrenta.

Com os corpos a experimentar pela primeira vez provações nunca dantes padecidas, os atarantados pombinhos tentavam entender a natureza perversa daquele novo estado, tão antagônico ao prazer de ser e estar em si mesmos ao qual se haviam acostumado em sua inocente inconsciência paradisíaca. Sem falar que seus olhos passaram a verter quentes e salgadas águas que em nada aliviavam a indesejada sensação que passariam a denominar por uma palavra curta e contundente: dor.

Perplexos diante da dor, Eva e Adão (É, viadão…, chasquearia um tosco metido a hilário que por ali passasse) viram, incrédulos e aterrados, o antes pacato rinoceronte investir de unicorno em riste contra eles desde o fundo da verdejante campina de soneto que servia de pano de fundo à paisagem. Adão de pronto se alevantou, todo torto e fora de esquadro, feito caricatura malfeita de pintura expressionista, mas, cavalheiro inato que era, ajudou aos ais e uis a não menos gemebunda Eva a se erguer e se sustentar de pé. Abraçados e estropiados, o macho e a fêmea elementares da Criação capengaram de volta à macieira primordial ao pé da qual tinham descoberto horas antes as delirantes delícias do amor físico, evento fatídico que, com toda certeza, os havia precipitado naquele infortúnio.

Lá chegando, com a besta espaventada em seus calcanhares, e de braço com a tortura agoniante que lhes impingiam seus múltiplos ferimentos, lograram escalar a macieira pecaminosa e se agarrar aos galhos mais baixos, em tempo estrito de escapar ao impacto do córneo aríete, que causou um tremendo arboremoto e por muito pouco não precipitava Adão e Eva aos pés do furibundo rinoceronte.

O aflito casal, trêmulo de cagassum vitae e frio negativo, forcejou por galgar mais alguns lances da galhada em que se homiziava, de modo a fugir ao alcance do agudo picanço da besta. Cosidos a seus galhos – o dela, fino, espinhento e quebradiço, ao contrário daquele grosso, liso e rijo galhão no topo da copa que tantos galhos lhe quebrara –, resistiram por mera sorte ou milagre ao segundo e violento tranco da besta-fera. Quem, todavia, não suportou a nova pancada foi uma caixa de marimbondos amarelos que se desprendeu de um galho mais alto e veio tombar direto na cabeça de Adão, antes de se esfacelar no chão, liberando uma nuvem de ferrões alados que de imediato amortalhou em suplícios inenarráveis os corpos já tão martirizados da dinâmica dupla ancestral.

Abaixo deles, o rhinoceros perissodactylus, que, extinta a mansidão compulsória da natureza, revelava-se agora um gladiador hidrófobo, continuava a estocar o tronco e a babar sua fúria sobre a mesma relva antes aspergida de sêmen e outros fluidos românticos. A macieira, cada vez menos segura de si, parecia a ponto de se deixar abandonar por suas raízes e desabar com tudo, tronco, galhos, folhagem e frutos – vegetais e humanos –, quando a sombra, sinistra sombra, novamente encampou o cenário. Adão e Eva, que mal haviam acabado de sofrer na carne as hecatômbicas consequências da primeira aparição do vulto, de pura paúra cacaverunt em seus respectivos galhos. De fato, é o que se pode ouvir de um gemebundo e vexado Adão, em áspero linguajar, ao perceber o estado lamacento e malcheiroso do galho no qual se empoleirara:

“Porra, caguei no pau…”

“Também tô eu a cavalgar um pau de bosta”, contragemeu Eva, passada de vergonha, esse inédito e encardido estado de espírito que a invadia agora, não bastassem todas as dores e pavores que assolavam seu pobre ser, da ponta do ego ao dedão arruinado pela topada.

O próprio rinoceronte, que também borrara seus quartos traseiros ante o imperioso vulto, deu uns passos de marcha à ré, trêmulo e cabisbaixo. E eis que, num relampejar de fogo-fátuo, o vulto se fez luz, revelando em todo o seu ofuscante fulgor cinemascópico a figura de Deus-Ele-Mesmo, metido em seu tradicional camisolão tecido com raios de sol e bordado com fios de luar, sem falar nos diamantes estelares que cravejavam sua clovisbornayca indumentária.

 

O Incontrastável Mandatário, do alto de seu marmóreo aplomb e de sua brônzea arrogância, ergueu o indicador para o céu, concitando o troar ensurdecedor de um megarraio que atingiu na mosca o refúgio de Adão e Eva, o qual, num clique de isqueiro, virou um ramalhete de labaredas a lamber sem piedade as já fustigadas carnes dos namorados, ao mesmo tempo que o firmamento se estofava de cumulii nimbii em tempestuosa contorção elétrica seguida de saraivadas apavorantes de tonitruantes raios.

E eles viram que Dominus phodam est. E outra vez se aliviaram involuntariamente em seus respectivos galhos. O céu não mais os protegia como dantes – nem a eles, nem aos leões, nem às minhocas, nem às macieiras e baobás, nem aos repolhos da horta.

Eva e Adão – ops, Adão e Eva – deram-se fulminante conta do quão perdidos estavam naquela selva escura riscada de relâmpagos trovejantes. Ponderaram, então, de comum acordo, que, a prosseguir daquele jeito, a vida não mais valia a pena e a dor de ser vivida, conforme versejaria futuramente um grande poeta de peito fraco. E desejaram, em meio às chamas que delambiam suas carnes corrompidas, algo que nunca haviam cogitado antes, mas que lhes aflorou à mente como a única via de escape daquela desgraceira sem fim: a morte.

Sim, a ideia de pôr um fim à própria existência pairava pela primeira vez sobre seus espíritos, e eles entenderam a morte, e a desejaram com ardor, como se fora a derradeira benção consoladora, pois só mesmo a morte para livrá-los daquele mégalo-tirano-rex, seu próprio Criador, que parecia se divertir às túnicas despregadas flagelando-os de forma tão sádica, e isso muito antes do nascimento do divino marquês das escabrosas masmorras do reino de França.

Foi só aí, ao perceber nos olhos de seus pupilos a terrível descoberta da finitude do ser, que Deus, em sua superior prepotência e irrevogável voluntarismo, dignou-se a acalmar os elementos em fúria com um gesto breve de maestro riscado no ar. A tormenta elétrica amainou no mesmo instante, os novelos negros evaporaram no céu, o vento gélido recuou para as bandas polares, o rinoceronte bateu em retirada, rebolando seu sórdido bundão colina acima, os marimbondos chisparam em seta pelo firmamento, o fogo virou fumaça que logo se dissipou na atmosfera, e sobreveio enfim uma abençoada trégua no estado de infernal calamidade em que se transformara o antigo Jardim do Éden. Nada menos que estupefatos, Adão e Eva viram suas dores baixarem para o tolerável, à exceção do “filhadaputa do meu ciático prensado”, como lavraria Adão em suas Recordações, pois nisso nem Deus dá jeito. Ainda em estado de choque, depois das agônicas provações que haviam acabado de padecer, o primeiro homem e a primeira mulher ouviram por fim da boca do Senhor, sempre em aramaico arcaico, com tradução simultânea para o português vulgar:

“Em verdade vos digo: estais fodidos e mal pagos, vós e a vossa longa e triste progenitura que Eva logo dará à luz, inter faeces et urinam, até o fim dos tempos, que um dia virá, não se iludam, para todos e para cada um de vós pecadores. Sede bem-vindos à realidade, meus caros. E façam-se a segunda-feira e o relógio de ponto!”

Adão e Eva, sempre abraçados e a tiritar de medo, ajoelharam e choraram e se descabelaram mais ainda, a implorar a Deus do fundo de seu profundo desamparo: “Oh, não, Senhor nosso Deus, Inescrupuloso Guia, Crudelíssimo Pai! Tudo aguentamos e suportamos até agora sem maldizer vosso nome, de um leito de espinhos a tocandiras torcionárias, de um hipopótamo ensandecido a marimbondos de fogo, de raios que nos partiram a labaredas crematórias – menos ter que encarar uma segunda-feira logo no primeiro dia útil da realidade!”

Mas Deus não estava para magnanimidades:

“Não tem choro nem vela, seus putos de merda. Quem mandou partir pra sacanagem bem debaixo das minhas cãs? Eu avisei que a fornicação genital estava terminantemente proibida no Paraíso, não avisei? Agora, pau no cu do surdo.”

Ato contínuo, voltou a soprar desde as neves eternas dos extremos do globo um vento gélido a espargir flocos afiados de granizo que laceravam a pele e as almas do infeliz casal número 1.

“E faça-se a fome!”, Ele ordenou.

E uma larica atroz se alevantou dos estômagos vazios do homem e da mulher, fazendo com que um dirigisse ao outro olhares canibalescos.

“E façam-se em vossas vidas, além da dor, do frio e da fome, também a depressão, a ansiedade, a insegurança, o sentimento de rejeição, a humilhação e, last but not least, o tedium vitae!”

E eis que fundas rugas e olheiras de desolação vincaram a antes risonha e louçã fisionomia das agora miserabilíssimas criaturas. E o Super Cara continuou:

“Doravante já não sois mais filhos de Deus, mas sim da mais prosaica necessidade. E que nela vivam para todo o sempre, vós e a vindoura humanidade que de vós haverá de brotar, como já tenho dito.”

 

Trêmulos de angústia e ansiedade, e já um bocado entediados da vida terrena e de suas dolorosas e maçantes agruras, Adão e Eva viram folhas de jornal a revoar em torno deles, qual pássaros da desgraça ao vento ríspido da segunda-feira, alardeando toda sorte de catástrofes e tragédias futuras em suas manchetes.

“Apanhai estas folhas de jornal, meus renegados filhos, e limpai vossas bundas sujas, cobri vossas infames genitálias pecadoras e consultai o caderno de classificados a ver se arranjam uma porra dum emprego mal remunerado qualquer – e ide trabalhar, vagabundos!”, bravejou a implacável deidade, passando a tranca com cadeado no portal do Paraíso e engolindo a chave. E arrematou: “Doravante, será mais fácil um camelo passar pelo fio de uma agulha do que essa chave transitar pelo meu inexpugnável fiofó!”

Na sequência, Eva presenciou em horrorizado estupor seu ventre abaular-se numa enorme redoma, aberrante fenômeno seguido de pontadas lancinantes nas internas profundas de suas brenhas, as quais culminaram na aparição da cabeça de um melequento monstrenguinho na porta daquele mesmo canal interbrenhoso que tanto e tão intenso prazer lhe havia propiciado durante seus folguedos com Adão debaixo da saudosa macieira. Tratava-se de um novo ser que vinha ao mundo tão nu quanto Adão e Eva ao estrearem no Paraíso, só que envolto em estercorários e sanguinolentos unguentos, como predissera o Demiurgo-Mor do Universo inumerável.

Mal Adão acabava de cortar a dentadas o pegajoso cordão que unia o pequeno macho à sua mãe, já outra cabeça despontava pelo mesmo buraco dilatado: uma minúscula fêmea dessa vez, a qual teve seu respectivo cordão umbilical seccionado igualmente pelos dentes quebradiços e já escalavrados de cáries do improvisado pai-parteiro. Adão Júnior e Eva Gina – e não Caim e Abel, como rezam outras versões dos sacros pergaminhos – expeliram em tosses convulsas o líquido amniótico que lhes inundava os pulmões e puseram-se a encher os espaços e os tímpanos de Adão e Eva de estuporantes ganidos que só cessaram quando as duas ávidas boquinhas atacaram com fúria antropofágica os úberes fartos da primeira-mãe, trinchando-lhes os antes róseos e delicados mamilos. Mais tarde, como se supõe, constava dos rolos perdidos das Sagradas Escroturas, Adão Jr. e Eva Gina, ao atingirem a puberdade, iriam contrair incestuoso matrimônio, legando às gerações vindouras o vício redibitório da má genética que viria a constituir a argamassa psicossomática da humanidade, fonte de seus males e corrupções inatas. Mas essa é outra história – a História Geral do Mundo em Desencanto.

 

Acabrunhado, e sem saber muito bem o que fazer, Adão tomou o primeiro e emblemático café que Eva coou, sinalizando o novo cotidiano vulgar, intranscendente e trocadilhesco com o qual teriam de arcar doravante. Enquanto Eva coava o próximo café, pois que se tratava de bebida por demais aditiva a exigir incessante ingestão, afastou-se para meditar um pouco, caminhando ao longo daquele antigo curso de águas límpidas do ribeirão do Éden, ora um pútrido fluxo de esgoto fervilhante de miasmas mil, até dar na mesma macieira daqueles edênicos tempos que nunca mais voltariam. Olhando para as galhadas agora nuas e secas da outrora frondosa copa, percebeu que ali se aninhavam não mais os graciosos pássaros canoros que costumavam decorar os ares de harmoniosas sinfonias, e sim dezenas de urubus crocitantes que não demoraram a recepcioná-lo com vulturinas defecadas, algumas delas vindo a coroar-lhe a fronte riscada de rugas de amargura.

“Que merda é essa?!”, desabafou Adão, passando a mão na cabeça adubada com fezes de carniça e constatando em seu desabrido linguajar: “Caralho, é merda mesmo!”

O desafortunado primata primordial ainda não se recuperara por completo de tão torpe acolhida, quando, ao esticar a vista até os confins do horizonte, divisou uma fênix, a mais deslumbrante ave do antigo Paraíso, que agora, no entanto, semelhava uma galinácea velha e semidepenada em voo capenga. E viu que a decadente fênix rebocava atrás de si um banner horizontal onde se lia: CRONOS.

“Olha lá!”, apontou Adão, com um dedo não menos tremelicoso que o banner alado, como a falar com os abutres ou com a própria macieira, ou ainda com sua própria consciência estarrecida. E concluiu: “O tempo voa!”

E para ajudar a passar o tempo voador antes de retornar ao pé da puerperal consorte e sua esganiçada prole, e também para desanuviar-se um pouco das mazelas e incertezas que haviam se instalado em sua existência, Adão sacou para fora de seu saiote de jornal a arma do crime de lesa-inocência edênica que lhe valera, a ele e a Eva, a sumária expulsão do Paraíso. E manipulando-a com fremente disposição, já ia dando início aos velhos trabalhos onanísticos quando um solerte marimbondo amarelo, possível remanescente da casa desses himenópteros atrozes que lhe despencara na cabeça pouco antes, mergulhou de ferrão em riste contra sua glande, aplicando ali uma picada tão funda, forte e dorida que lhe arrancou do âmago de suas entranhas convulsionadas o que viria a ser, com algumas variantes, o instintivo moto heráldico da raça humana:

“Aaaaai! Puta que pariu!!!”

Isto, sob a caçoada dos urubus defecadores e de um bando de cacatuas desabusadas que sobrevoavam a cena bem naquela hora, a caminho de Papua Nova Guiné, nos confins da Melanésia.

E temos dito.

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