esquina

Professor de ludopedismo

A ciência do futebol-arte

Paulo Raviere
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

O soteropolitano Kaw Malangue é cheio de surpresas. “Eu vejo muitos artistas de boteco batendo o maior papo sobre obras-primas que, no final das contas, nunca vão ser criadas”, ironizou, enquanto encaixava uma boina cinza na cabeça. Além de uma cama bagunçada, o apartamento em que vive sozinho, no Centro de Salvador, não tem muitos móveis ou eletrodomésticos. No espaço exíguo se espalham alguns instrumentos musicais, pôsteres de rock, uma caixa de isopor e – largados em meio a uma montanha de livros de literatura, futebol e música – seus originais. “Obviamente, não é por ter escrito esses livros que eu deixo de ser um artista de boteco”, graceja, “mas pelo menos não sou só papo.” Um deboche autodepreciativo típico na Bahia.

Solteiro, à beira dos 40 anos, ele se preparava para ver um show no Pelourinho. “Meu pseudônimo não passa de uma corruptela de Karl Malone, o jogador da NBA. Coisa de moleque, tá ligado?”, observou, enquanto procurava uns trocados desaparecidos na bagunça. “Todo mês eu saco meu salário inteiro e guardo aqui no apê. Tenho o maior medo de sacizeiro tomar, mas prefiro correr o risco de deixar para eles que para o banco.” Por fim, encontrou algumas cédulas escondidas perto de onde jaziam os originais. Estava pronto para sair.

Assim como existem o homem Edson e o Rei Pelé, existem o professor Marcelo Cordeiro e o artista Kaw Malangue. Cordeiro não difere muito do estereótipo do baiano hospitaleiro, barulhento, espalhafatoso, obsceno, sempre extrovertido. “Nesta cidade é impossível ser discreto e melancólico sem ser julgado pelos outros”, afirmou, enquanto enfrentava o tempestuoso fim de tarde do Centro. O multifacetado Kaw Malangue, por sua vez, é aquele que assina canções, curtas-metragens e livros, entre outros projetos.

No Cravinho, um dos bares mais tradicionais do Pelourinho, ele se desmentiu pela primeira vez. “Eu estava brincando, cabeça.” Uma dose rubra de jatobá brilhava entre seus dedos. “Kaw Malangue é uma adaptação da expressão come along, que sempre vemos nas letras de rock.” A dose desapareceu.



Em 2013, Malangue fez uma lista dos perigos que correria caso aceitasse uma oferta para ensinar português por seis meses no Timor Leste: violência, doenças, animais selvagens, tragédias naturais. “Ou seja: nada muito diferente do que vemos aqui”, argumentou, apontando um mendigo que atacava uma lixeira. “Mas em troca de uma boa grana.” Trancou o mestrado em letras na Universidade Federal da Bahia e foi.

 

Entre os originais acumulados em seu apartamento há contos, roteiros, letras de rock, ensaios, artigos acadêmicos, projetos de captação de recursos e obras de maior fôlego. Um deles é o romance G.O.L., tragicomédia sobre um jogador perna de pau que faz uma carreira de sucesso no Esporte Clube Bahia. Outro, uma fantasia picaresca em que a Bahia declara guerra para se separar do resto do Brasil. Seu trabalho mais ambicioso, no entanto, é um manual didático sobre o esporte bretão chamado Ludopedismo: A Ciência do Futebol-Arte.

À maneira dos livros escolares de biologia, matemática e português, Ludopedismo tem como objetivo geral o ensino teórico do futebol. Estão lá os precursores do esporte, sua criação oficial, a chegada e consolidação no Brasil, a história das copas, regras, funções e posições. Kaw Malangue também transmite ao leitor os fundamentos do esporte. Não só os “básicos” – como o chute a gol, o passe, a marcação e a movimentação em campo –, mas também os “avançados” – aprende-se ali como executar, com correção escolar, o chapéu, a letra, o elástico e a pedalada.

Na seção “Driblologia” estão catalogados diversos tipos de fintas, definidas como “uma jogada inesperada, de plasticidade notória”, contra a qual o marcador pouco pode fazer. “É uma forma inteligentíssima de engazopar o jogador adversário, pois além de colocá-lo em uma situação constrangedora e vexatória, pode também configurar-se em um artifício a mais para que o objetivo máximo do futebol seja alcançado.” Passando da teoria à prática, o autor descreve a pedalada perfeita – “o executante deve girar uma perna em torno da redonda, geralmente em sentido horário no caso da perna direita, e anti-horário no caso da esquerda”. Na seção sobre os atacantes, nova lição, em que Kaw Malangue banca o Sun Tzu: “O atacante, por ser humano, pode até mesmo se sentir inseguro, no entanto não deve nunca demonstrar esse sentimento a seus pares, muito menos a seus adversários. A frieza é uma das características mais desejáveis ao homem-gol.”

 

“Kaw Malangue é um personagem que inventei para meu livro O Belo Arcaico Futurístico”, explicou, quando chegamos à praça Tereza Batista. Era a terceira explanação para seu nom de plume. Como a festa ainda não havia começado, ele se recostou num corrimão de escada, degustando uma cerveja quente em lata. Algumas hippies passeiam pela praça. “Hoje vou me dar bem, mano. As gringas se amarram num negão.”

Durante a Copa do Mundo, alguns tópicos do livro foram apresentados ao público numa palestra no Instituto Federal da Bahia, em Salvador, e depois numa série de vídeos publicados no YouTube. Originalmente um catatau de mais de 700 páginas, Ludopedismo vem encolhendo. Kaw Malangue acredita ter afinal chegado à forma definitiva, com menos de 200 páginas. “Entre a primeira e a última versão se passaram três copas, o que demandou atualizações – e cortes, a maioria nos detalhes excedentes.”

Quando a festa começou, a praça Tereza Batista foi tomada por uma multidão de jovens alternativos. “Já estou trocando uma ideia com umas universitárias da Dinamarca”, jactou-se, enquanto comprava mais cerveja. A primeira banda fez um show animado. Membros de tribos diversas se misturaram como se fossem amigos de longa data. No rosto do autor havia traços de embriaguez. “Se liga, cabeça, o nome Kaw Malangue na verdade vem de uma cidade sagrada javanesa de mais de mil anos”, comentou, antes de desaparecer na multidão.

Paulo Raviere

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