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Profeta acidental

A imprensa não é uma ciência exata
Bernardo Esteves
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

O matemático gaúcho Marcelo Disconzi virou notícia em 2015, quando jornais ingleses e americanos descobriram um artigo que ele havia publicado com dois colegas da Universidade Vanderbilt, no Tennessee. A pesquisa ecoou pela mídia como prova de que o mundo poderá acabar de maneira dramática daqui a 22 bilhões de anos, num evento chamado Big Rip, ou “grande rasgo”. De acordo com essa hipótese, o universo continuará a se expandir aceleradamente até que galáxias e sistemas planetários se desmantelem. Nos instantes finais da existência, os próprios átomos vão se desintegrar.

Não estava entre os objetivos do artigo testar a validade do Big Rip, uma suposição desenvolvida em 2003 por outros pesquisadores. Mas os resultados do trabalho acabaram corroborando essa tese, e foi isso que as manchetes destacaram. Interessado em estudar as propriedades de determinadas equações matemáticas, Disconzi não incluía entre suas prioridades acadêmicas a descrição do fim do mundo. Mesmo assim, tornou-se “o brasileiro que descobriu como o universo pode acabar”.

Nascido em Porto Alegre há 37 anos, Disconzi formou-se em física e decidiu virar matemático na pós-graduação. Foi fazer doutorado na prestigiosa Universidade Stony Brook, em Nova York, e se especializou num tipo específico de equação: as diferenciais parciais. Ele fica satisfeito quando seus cálculos produzem resultados relevantes sob o ponto de vista físico, embora não se norteie por isso. “Meu interesse primeiro é sempre matemático”, afirma.

Ultimamente, o gaúcho andava interessado em equações formuladas nos anos 50 pelo francês André Lichnerowicz. Achava que podiam ser usadas para descrever a viscosidade. No dia a dia, essa propriedade explica de que modo o mel ou a água resistem ao escoamento, mas ele queria entender como se comportam os fluidos que se deslocam em velocidades próximas à da luz. Depois de assistir a um seminário do brasileiro sobre o tema, dois colegas do Departamento de Física e Astronomia lhe propuseram um trabalho que aplicasse as equações à cosmologia, considerando a matéria e a energia como fluidos.

O resultado da colaboração é justamente o artigo de seis páginas publicado na revista Physical Review D. Tratase de um paper de física teórica coalhado de equações e sem qualquer diagrama. O leitor leigo perderá o chão logo nos parágrafos iniciais e, se bobear, nem perceberá o instante em que os autores falam do Big Rip, referido ali como uma “singularidade”.

Foi o cosmólogo Robert Scherrer quem primeiro notou que a resolução do problema era compatível com a hipótese para o fim do universo. Além de pesquisador, o americano é autor de ficção científica e já redigiu um conto em que especula sobre o término do mundo – mas não com um big rip. A perspectiva, por sinal, não lhe tira o sono. “Esse é um problema distante”, escreveu num e-mail à piauí.

 

Marcelo Disconzi lembra que, no fundo, o que ele e os demais autores fizeram foi estudar um conjunto de equações que, se estiverem corretas, levarão, lá no fim dos tempos (literalmente, aliás), à tal “singularidade”. “Mas a gente não sabe se aqueles cálculos estão certos”, ressalta, acrescentando que a validação depende de computadores com grande capacidade de processamento que possam encontrar soluções para as equações. Além do Big Rip, existem outras hipóteses para o fim do mundo. Há quem acredite, por exemplo, que o universo se expandirá até virar um imenso vazio estático e sem energia, culminando com o Big Freeze, ou “grande congelamento”.

Falando pelo Skype de Nashville, o gaúcho de cabeça raspada e óculos de armação redonda conta que ficou surpreso com a atenção despertada pelo trabalho. Ele não entendia por que justamente aquele artigo tinha interessado à mídia e viralizado. É compreensível que o fim do universo fascine o público leigo, raciocinou, mas dezenas de artigos com implicações igualmente sugestivas são publicados todos os meses na internet, e só poucos ganham visibilidade.

Quando o site da universidade noticiou a pesquisa do grupo de Vanderbilt, os pedidos de entrevista começaram a pipocar. O trio de cientistas assinou o estudo em ordem alfabética de sobrenome, seguindo a tradição dos matemáticos. Disconzi, o primeiro da lista, acabou sendo o mais procurado pela imprensa e conversou com repórteres por Skype, telefone e e-mail. Ele nunca havia dado entrevistas antes.

Entre os veículos de grande circulação, o Guardian saiu na frente. “Depois que o jornal inglês mencionou o artigo, foi uma avalanche”, recorda o pesquisador. Mas a mídia nacional embarcou na história apenas no fim de 2016. Uma reportagem da BBC Brasil abriu caminho para que Disconzi aparecesse até no jornal Ibiá, de Montenegro, cidade da Grande Porto Alegre onde se criou.

O cientista também recebeu uma chuva de e-mails de desconhecidos que queriam conversar sobre o trabalho – desde gente com algum embasamento técnico até curiosos com teorias alternativas acerca do universo, passando por religiosos ávidos por discutir o fim do mundo. “Aparentemente, tanto a Bíblia quanto o Corão previram o Big Rip”, brinca o matemático.

Ele acabou registrando as impressões de sua experiência com a imprensa num ensaio de catorze páginas publicado em seu site. Revelou ali o espanto diante do tempo exíguo que os repórteres têm para escrever suas matérias. Houve quem lhe mandasse e-mail de manhã, pedindo declarações para um texto que sairia no início da tarde. O gaúcho refletiu, ainda, sobre a importância do furo e as discrepâncias ou similaridades entre as demandas do público e as dos editores.

Diplomático, notou equívocos recorrentes na cobertura do caso, mas tomou o cuidado de não criticar reportagens específicas. Como resultado, passou a ler notícias com outros olhos – e a se importar menos com o que escrevem a respeito de seu trabalho. “A lição que aprendi foi de não esquentar a cabeça”, diz. “A cobertura da imprensa ou a falta dela não vão me ajudar a provar teoremas.”

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