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Um sem-teto à espera da tevê digital

Armando Antenore
Há uma década, o carioca Neimar Medeiros Matos mora embaixo do viaduto Laranjeiras, onde costuma ver televisão. “Luciano Huck para presidente da República? Só pode ser piada!”
Há uma década, o carioca Neimar Medeiros Matos mora embaixo do viaduto Laranjeiras, onde costuma ver televisão. “Luciano Huck para presidente da República? Só pode ser piada!” FOTO: REYNALDO ZANGRANDI_2017

Cara, você não vê televisão?!” Quando me lançou a pergunta, agitando os braços e elevando consideravelmente a voz, Neimar Medeiros Matos parecia irritado – ou, na melhor das hipóteses, sem paciência para conversar. Logo, porém, demonstrou o contrário. “Ver, você certamente vê. Mas prefere canal pago, né? Só pobre acompanha a tevê aberta”, sentenciou, agora de um jeito francamente amistoso, ainda que à beira do grito. Expressar-se em alto volume – percebi depois – é corriqueiro para quem, como Matos, vive sob o viaduto Engenheiro Noronha, também conhecido por viaduto Laranjeiras, o mesmo nome do bairro onde se localiza, na Zona Sul do Rio de Janeiro. O barulho ininterrupto do trânsito exige que se tempere a fala cotidiana com uns rugidos de trovão. Não à toa, naquela tarde abafada de novembro, diversas vezes suspeitei que meu interlocutor se aborrecia ou me confrontava. Bobagem. O carioca um tanto calvo, de cavanhaque embranquecido, camiseta regata, bermuda e chinelo de borracha queria apenas se fazer escutar.

Perto do viaduto, um grafite extenso e de gosto duvidoso exibia as feições da cantora Cássia Eller. “Ela morou nas redondezas. É uma homenagem”, explicou Matos, enquanto caminhava até um amontoado de lixo. “Está bem ali, a nossa última tevê”, apontou, resignado. “A infeliz quebrou faz poucos dias. Tivemos que jogar fora.” Numa calçada, entre restos de comida, garrafas vazias de cerveja, sacos plásticos amarrotados e copinhos de refrigerante, jazia um aparelho paleozoico de 14 polegadas. “Televisão de tubo, acredita? Uma Toshiba… Nem sei se a marca ainda existe.”

Catador de material reciclável, Matos nasceu na Penha, Zona Norte do Rio. Habitou quartos, barracos, casebres e quitinetes em inúmeros pontos da cidade e da Baixada Fluminense antes de se mudar para Laranjeiras, há uma década. Desde então, define-se como sem-teto. “O termo correto é esse: sem-teto. Morador de rua, não. Quem mora na rua, o carro atropela. Eu vivo em cima da calçada.”

Hoje, divide o relento com cinco pessoas – quatro homens e uma mulher, a maioria catadores. Os seis dormem próximos uns dos outros e, curiosamente, mantêm o hábito de ver televisão. “Assim que me instalei no bairro, descolei um aparelho e trouxe para baixo do viaduto”, relembrou Matos. Valendo-se de uma gambiarra, puxou a energia que alimenta os postes da região e ligou a tevê. “Entendo um pouco de eletricidade.” A partir daí, nunca deixou de ser um telespectador a céu aberto. “Já passaram quarenta ou cinquenta televisões por aqui. Umas pifaram. Outras, os funcionários da prefeitura levaram. Não me pergunte a razão… Pura maldade! Por acaso, a tevê da gente atrapalha alguém?”

Ele e os companheiros garimpam os aparelhos nos lixos dos arredores ou com a vizinhança. “Fulano compra uma televisão nova e me avisa: ‘Neimar, aparece lá em casa para buscar o trambolho.’ O trambolho é a tevê antiga que, até ontem, o bonitão usava sem reclamar.”

O catador de 55 anos se considera querido em Laranjeiras. “Todo mundo me valoriza, graças a Deus. Só uns enjoadinhos teimam em implicar. Me confundem com mendigo. Errado! Sou um trabalhador. Não peço esmola nem desperdiço o dia tomando cachaça. Já cheirei muita cocaína, admito. E, quando cheirava, bebia o que pintasse. Mas me livrei desse inferno. Agora só restou o vício em cigarro, uma desgraça difícil de largar.”

Mal soube que a combalida Toshiba quebrara, um morador do bairro ofertou outra televisão à turma do viaduto. “Uma belezinha de 29 polegadas”, contou Matos. O aparelho é analógico, mas o sinal de tevê no Rio se tornou exclusivamente digital em 22 de novembro – processo que se repete pelo Brasil afora. Devido à mudança, os donos de televisões old school necessitam adquirir um kit conversor se desejarem sintonizar as emissoras abertas. Eis o problema de Matos. Ele conseguiu uma substituta para a Toshiba e, no entanto, não dispunha do equipamento que poderia transformá-la em digital.

Lojas na internet comercializam o kit conversor por preços entre 70 e 160 reais. Acontece que os beneficiários de programas sociais do governo federal têm o direito de recebê-lo gratuitamente. Daí a surpresa do catador quando nós tratamos do assunto: “Cara, você não vê televisão?!” Eu desconhecia a possibilidade de se obter o kit sem pagar nada, embora os canais abertos martelassem a informação dia e noite.

Como os telespectadores do viaduto não usufruem de nenhum incentivo governamental, restava-lhes comprar a traquitana. “Sei de uns camaradas que ganham o Bolsa Família e pegaram o kit de graça”, disse Matos. “Talvez um deles tope vender o troço baratinho.”

 

Enquanto o catador fazia planos, me ocorreu que seria praticamente impossível ouvir o áudio da tevê em meio à zoeira do trânsito. “Tremendo engano, meu amigo! Escuto tudo. Basta ficar bem de frente para o aparelho que o som vem na minha direção. Se ficar de lado, não adianta.”

Globo e SBT monopolizam o interesse de Matos. “Vez ou outra, também assisto à Record.” Gosta principalmente de noticiários. “Tento me manter sempre informado. Vou me alienar do mundo? Preciso estar de olho nas ladroagens do governo para me defender. Preciso saber onde rola violência para evitar lugar perigoso. Mas claro que não acredito 100% nos jornalistas. Existe muita manipulação, muita mentira. Vejo o Jornal Nacional e vou pinçando: isso é verdade, aquilo é cascata. Vou tirando minhas conclusões. Às vezes, o repórter narra um caso e garante que é de um tamanho, você vai checar e descobre que o negócio é bem menor.”

Sem qualquer afetação, o catador mencionou que já bateu alguns papos com Isabele Benito, a irreverente apresentadora do SBT Rio, telejornal exibido na hora do almoço. “Eu costumo caçar antiguidade em Santa Teresa. O pessoal do bairro joga um punhado de velharia no lixo – que acabo revendendo para brechós e antiquários. A Isabele devia morar por lá. Ela sempre aparecia no Bar do Mineiro: ‘Como vai, moça? Te conheço da televisão.’ Gente comum, a Isabele… Simpática, conversadeira – e tampinha. Pequena assim, ó”, descreveu, posicionando a mão na altura do próprio ombro.

“Depois que o coitado do Marcelo Rezende morreu, a Record perdeu a graça”, prosseguiu. “Eu adorava o Cidade Alerta com o Marcelo. O homem levava as coisas no bom humor. Era sensacionalista? Era. Mas botava o público para rir. Melhor que o Datena – José Luiz, o nome dele, né? Sujeito irritante! Fica repetindo a mesma história 500 vezes. E puxa tudo para o drama. Por quê? A vida já é dramática. Precisa puxar mais?”

Matos também não tolera Fátima Bernardes e Angélica. “Elas apresentam programas de fresco. ‘Agora vamos ensinar como se prepara quinoa. Agora vamos mostrar o apartamento do fulaninho.’ Quinoa?! Só magnata come quinoa!
E o apartamento do fulaninho tem esteira ergométrica, móvel importado, o escambau. É outro planeta, rapaz! Nenhuma relação com a minha realidade. Vou desperdiçar meu tempo espiando aquilo? Programas para marciano…”

De Silvio Santos, se declara profundo admirador. “Veio do nada e ficou bilionário. Merece respeito. Dizem que explorou os pobres. Mas quem ganha dinheiro sem exploração? Quando um sobe, alguém desce.” Por Luciano Huck, nutre certa simpatia, apesar de rejeitá-lo como eventual candidato à Presidência da República. “Neguinho pensa que comandar um auditório é parecido com liderar o Brasil… Piada! Não vejo ninguém preparado para tocar o país. Empresário, senador, artista, ninguém! Aliás, odeio política. Votei no Collor em 89 e me ferrei de verde-amarelo. Acabei pegando nojo desses canalhas. Defendo o voto nulo e ponto final.”

 

De pele clara, mas curtida pelo sol, o catador tem olhos verdes. “Herdei da minha mãe, uma mulata de cabelo loiro, bem ruça, bem sarará. Não me lembro dela. Era uma pilantra. Maltratava a gente. Um dia meu pai se encheu, pegou a criançada e levou embora. Quer dizer: pegou os filhos que sobraram… Eu estava com 5 anos.” Das três irmãs, apenas uma – a mais velha – cresceu junto dele. “Minha mãe entregou as outras para as madrinhas. Nunca as encontrei de novo.”

Descendente de índios e portugueses, o pai criou os filhos restantes com extrema dificuldade. De início, vendia frutas em feiras livres. Depois, virou cobrador e motorista de ônibus. “Ninguém tinha cabelo tão liso quanto o do meu pai. Liso e comprido. Eu e minha irmã fazíamos trança naquele cabelão, e a trança se desfazia rapidinho por causa da lisura.”

Com 13 anos, Matos também se tornou cobrador. Quando completou 16, abdicou do ônibus e entrou “para a contravenção”. Operou no jogo do bicho durante quase duas décadas. “Eu recolhia as apostas e calculava os prêmios.” Mais tarde, arranjou uma carroça, comprou uns cavalos e saiu pela Zona da Leopoldina negociando sucata. “Foram três cavalos. Não batizei nenhum. Se batizasse, corria o risco de me apegar. E, se me apegasse, perderia a coragem de pôr o animal para ralar.”  Uma hora, desistiu dos cavalos e arrumou um carrinho de tração humana – “daqueles que o povo chama de ‘burrinho sem rabo’”.

Conduzindo o veículo, percorre regiões abastadas da cidade à procura de jornal, papel branco, papelão, ferro, cobre, alumínio e chumbo. Vende tudo por quilo para depósitos que repassam o material às usinas de reciclagem. Evita pegar garrafas PET e demais embalagens plásticas porque são excessivamente leves e ocupam muito espaço no burrinho sem rabo. Se sobra tempo, faz frete ou carrega entulho. Descansa somente nos domingos e fatura uns 80 reais por dia.

“Os lixos mais recheados do Rio estão em Laranjeiras e outros bairros da Zona Sul. Por isso, vivo aqui. Não vale tanto a pena ser catador em área pobre”, argumentou. “Só que, onde tem riqueza, o aluguel custa o olho da cara. Então, me acomodo embaixo do viaduto. Não gasto nada e fico perto do trabalho.”

Certa ocasião, descobriu 86 anéis de ouro e prata no lixo, todos com motivos de umbanda. “Eram de uma travesti. Ela morreu e os parentes – evangélicos – se livraram das joias. Sorte minha: os badulaques renderam um dinheirão.” Houve momentos, porém, em que se deparou com “o bizarro”. “No Catumbi, dentro de uma caçamba, achei dois homens assassinados. Em Botafogo, encontrei uma mulher pela metade. Estava num saco, da cintura para cima. Horrível! Em Santa Teresa, topei com coisa ainda pior: um menino morto numa caixa de sapato, recém-nascido, o cordão umbilical pendurado.”

O catador frisou insistentemente que não aceitaria “voltar para a favela”. “Já morei numa porção de boca quente: Vigário Geral, Dendê, Morro do Juramento… Prefiro o viaduto. Se me oferecerem uma mansão na favela, não vou. Lá você não é dono do próprio nariz. Precisa obedecer traficante ou miliciano. Em Laranjeiras, faço as minhas regras e consigo o necessário para viver.” Come nos restaurantes das imediações, usa o toalete dos bares, toma banho ao ar livre com a água que uma floricultura lhe cede, dorme sobre o burrinho sem rabo e guarda os poucos pertences numa mala: roupas, produtos de higiene, talheres, ferramentas.

Se está de folga, vai à praia. “Ou vejo uma partida do Fluminense no Maracanã.” Ou pega um cinema. “Ou me divirto com a mulherada.” Solteiro, é pai de um casal, ambos frutos de relacionamentos instáveis. A primogênita – que lhe deu um neto, agora adolescente – tem 33 anos e o caçula, 7. “Me afastei da minha filha por causa de uma briguinha, mas ando sentindo falta dela. Qualquer hora, vou procurar.” Já o filho o visita quinzenalmente. “A gente passa o dia junto. Jogamos bola, brincamos na praça, tomamos sorvete. Sou louco pelo garoto.”

 

Em meados de dezembro, reencontrei Matos sob o viaduto para checar se providenciara o kit conversor. “Relaxa, cara! Mais cedo ou mais tarde, vamos arranjar um.” Enquanto o equipamento não chegava, a tevê de 29 polegadas que a turma ganhou permanecia no edifício do antigo dono.

Acomodado em cima do burrinho sem rabo, o catador folheava uma enciclopédia. “Acabei de ler sobre a Reforma Protestante”, esclareceu, tirando do rosto uns óculos de aro preto e grosso. “Te contei que amo livro? A galera da rua até me apelidou de O Leitor.” Revelou, então, que cursou um semestre de psicologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a Uerj. “Tranquei a matrícula por falta de grana. Tinha 21 anos e mal bancava minha alimentação. Como pagaria o transporte até o campus ou o xerox das apostilas? De que adianta a faculdade ser gratuita se o aluno não consegue parar de pé?”

Empertigando-se no carrinho, fechou a enciclopédia. “Você não imagina a quantidade de livros que já pesquei dentro do lixo. Romance, best-seller de autoajuda, biografia, almanaque. Leio cada um deles, menos os de poesia e filosofia. Sabe por que não gosto da internet? Porque o mundo virtual transforma a gente em zumbi. Tira o foco da leitura. Eu poderia me cadastrar numa lan house ou até comprar um celular à prestação, mas não quero. Melhor continuar nos livros. Sou besta de me dispersar? Tudo o que sei de importante aprendi lendo ou na rua.” E a televisão, não lhe ensinou nada de bom? “A televisão?! Você está de brincadeira?”

Armando Antenore

Armando Antenore, jornalista, é editor da piauí

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