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Punk verde

João Gordo quer ser vegano
Julio Lamas
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

“Latas e garrafas vão nesta aqui”, disse João Francisco Benedan, apontando a lixeira. “Os papelões ficam na área coberta da lavanderia; e os restos de comida que não podem virar adubo para a horta vão nesta”, continuou Benedan, vocalista da banda Ratos de Porão, em geral conhecido simplesmente como João Gordo. Com passos pesados sob a chuva fina, o apresentador e músico abria e mostrava cada uma das lixeiras usadas para separar os diferentes tipos de recicláveis, no amplo quintal de sua casa na Vila Madalena, Zona Oeste de São Paulo.

“A gente ensina esses bagulhos todos para as crianças: separar o lixo, reutilizar as coisas para artesanato, reaproveitar as peças dos eletrônicos velhos, e um monte de outras coisas”, explicou, enquanto alisava com a mão a barba branca e comprida, que chega quase à altura do peito. Aos 52 anos, um dos expoentes do punk no Brasil é um pai de família preocupado com permacultura, com uma alimentação ecologicamente adequada e sustentabilidade, ideia levada a sério na sua vida doméstica.

“Eu e a Vivi até preferimos fazer a cisterna em vez de construir uma piscina para as crianças. Aqui não teve crise hídrica porque estamos preparados para o pior”, contou, referindo-se à mulher, a jornalista argentina Viviana Torrico, de 44 anos, e aos três grandes silos de metal que combinam e armazenam a água da chuva, aquela que sobra do banho dos moradores e a que é fornecida pelo abastecimento regular da rua. Torrico acompanhava a visita e inspecionava as plantas. Com a ajuda da cisterna, a conta de água da família não ultrapassa 50 reais por mês, segundo o casal.

A moderna residência de três andares, projeto do badalado arquiteto André Vainer, foi construída para gerar o mínimo possível de impacto. Possui aquecimento de água por placas solares, sistema de captação de chuva e a tal cisterna, com capacidade para 15 mil litros. As janelas amplas e o jardim de inverno garantem o aproveitamento da luz natural durante o dia, além de economia no uso do ar-condicionado. “A gente podia ter feito uma casa de madame, com móveis de design, mas preferimos investir em coisas mais sustentáveis, com economia de água e energia. Reaproveitamos materiais e compramos coisas antigas”, disse Torrico, uma mulher de feições matriarcais e sotaque espanhol suave.

Do lado de dentro, o que chama a atenção é a espantosa coleção de brinquedos, action figures raras e memorabilia geek espalhadas pelas prateleiras de todos os cômodos, inclusive nos banheiros; e a considerável quantidade de vasos para plantas, feitos a partir de qualquer coisa que os filhos do casal – Pietro, de 11 anos, e Victória, de 12 – conseguem encontrar, como garrafas, embalagens plásticas e sapatos velhos dos pais.

“O punk sempre teve essa consciência do ‘faça você mesmo’, que vai contra a lógica burguesa de consumir, que é escrota, sabe?”, explicou João Gordo, ressaltando que sua preocupação com o meio ambiente não nasceu ontem. “São Paulo hoje parece pra caralho com aquele livro do Ignácio de Loyola Brandão! Sem paranoia nenhuma nisso, cara”, afirmou, referindo-se a um de seus romances favoritos, Não Verás País Nenhum, de 1981, no qual o autor apresenta um futuro distópico para o país, com surtos de doenças estranhas que ninguém entende, água e ar poluídos, congestionamentos infinitos e mudanças climáticas assassinas. “Porra… E já não é assim mesmo? Um retrato do que já é a realidade do desmatamento, das pessoas se alimentando de comidas artificiais cheias de aditivos químicos e bebendo urina reciclada?”

 

Na cozinha, o vocalista abriu uma cerveja artesanal que ele mesmo fabrica, uma pilsen “Ratos de Porão”. A cerveja ocasional é dos poucos hábitos que ele manteve dos tempos de boemia pesada, quando chegou a pesar quase 200 quilos e a fumar três maços de cigarro por dia. Parou com o vício desde que sofreu um derrame pleural e ficou 22 dias internado, em 2000. Pouco tempo depois, passou por uma cirurgia de redução de estômago.

Há treze anos João Gordo é um vegetariano militante, ao lado da mulher. “Faz dois anos que tento ser um vegano estrito, ou seja, não colocar nenhuma proteína animal na boca. Mas é foda. O que me mata é o queijo, sou viciado”, confessou, enquanto abria a porta da geladeira e enfiava a cara lá dentro. “No começo, foi por causa desses problemas de saúde, diabete, pressão alta… Mas hoje é até mais pelos bichinhos mesmo, cara. E, claro, a questão ambiental, o problema que é lançar essa porrada de emissões para comer cadáver, que é foda e ainda desmata.”

Recentemente passou também a apresentar um programa no YouTube, o Panelaço, com 135 mil inscritos. Como se fosse uma Bela Gil um pouco menos educada, João Gordo recebe convidados famosos, “carnívoros ou não”, para serem entrevistados na cozinha de sua casa, enquanto prepara alguma receita sem carne. Para a modelo Ellen Jabour, por exemplo, fez um penne ao abacaxi. O rapper Mano Brown teve que provar um peixe de tofu – um quitute frito de soja com farinha de trigo enrolado em algas.

O apresentador e sua mulher também têm se interessado pelo “freeganismo”, filosofia que vem da junção das palavras em inglês free e vegan. Os “freeganos”, avessos ao desperdício, costumam reaproveitar e consumir alimentos que foram ou serão descartados por restaurantes e supermercados. “A Vivi é bem mais radical. Ela e a mãe às vezes vão ao Ceagesp para pegar frutas, verduras e coisas do tipo que estão boas e não foram compradas, mas que os vendedores preferem jogar no lixo antes mesmo de estragar – porque os caminhões refrigerados são caros pra caralho e o preço para armazenar não compensa.”

A família vegetariana de João Gordo e Viviana Torrico também tem lugar para três cachorros e um coelho. “Já tivemos gato, calopsita solta pela casa e até porco. Eu, o ‘rei do bacon’, criando porco… Acredita nisso, cara?”, comentou João, que cuidou do animal por quatro meses em 2015, mas acabou tendo que doá-lo. A razão da separação, segundo ele, foi o fato de o porco ter crescido demais e chegado a pesar 120 quilos. “É um dos bichos mais legais que a gente já teve, inteligente e carinhoso, mas o cheiro e o gênio não ajudaram muito”, completou Torrico.

Mais: assista ao episódio do Panelaço com o rapper Mano Brown

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