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Quebra de decoro

O rapto de um touro multiplicador
Roberto Kaz
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

O fato se deu no dia 15 de dezembro do ano passado. O estado era Minas Gerais. A cidade, Felixlândia. E o posto de gasolina, por ironia, tinha o nome de Rei do Gado. Por volta de uma e vinte da manhã, o motorista Samuel de Oliveira parou o caminhão para avaliar como estavam os doze zebuínos embarcados em sua caçamba. “Ao descer”, diz o boletim de ocorrência registrado na Polícia Civil, “foi abordado por dois indivíduos que se aproximaram a pé. Um deles portava um revólver.”

Sob ameaça, Oliveira foi obrigado a tocar a carreta rumo a Belo Horizonte. Depois foi forçado a deixar o volante e seguir num Fiat Uno roubado com outros bandidos que haviam se juntado ao grupo no meio da estrada. Seria libertado por volta do meio-dia, quando o caminhão jazia, já sem a carga, numa periferia da capital mineira. Para além da violência imposta ao motorista, e do rapto de seis touros e seis vacas, o crime trazia uma tragédia em particular: o sequestro involuntário de um varão da raça Gir leiteiro, uma jovem promessa do concorrido e milionário mundo da inseminação artificial bovina. Seu nome era Decoro.

Decoro nasceu em 6 de abril de 2013, da união in vitro entre a vaca Passarela e um octacampeão brasileiro chamado Sansão. “A mãe era do meu rebanho, e o esperma do pai foi comprado de uma central”, lembrou o proprietário, Ramiz Bretas – “central” é o jargão que designa as empresas que se dedicam a comercializar sêmen de touros laureados. A ideia inicial, explicou, era melhorar a qualidade do seu rebanho de vacas (na raça Gir, que serve mais ao mercado de leite que ao de carne, a fêmea tende a ser mais valorizada). Mas como em casa de ferreiro o espeto é de pau, calhou de o embrião fertilizado resultar num macho – que desde cedo chamou atenção pela musculatura rígida e pelas costelas largas. Bretas decidiu lançar o bezerro em voos mais altos.

Foi assim que, com pouco mais de 1 ano de idade, Decoro trocou a fazenda, em Rio Piracicaba, pela sede da ABCGIL, a Associação Brasileira dos Criadores de Gir Leiteiro, em Uberaba. Lá, juntou-se a uma manada de cinquenta jovens zebuínos, que passaram a ser avaliados quanto ao peso, ao temperamento e à qualidade do sêmen (o processo funcionava como uma peneira de time de futebol, em que apenas os melhores eram aproveitados). Quando completou 19 meses, Decoro recebeu da associação o certificado que atestava sua vitalidade. Foi contratado de imediato pela Alta, uma central de inseminação sediada em Uberaba.

“Eu já tinha feito a reserva desse touro, só estava aguardando sair o certificado”, contou Guilherme Rezende, gerente da Alta. “Ele vinha de uma família importante, o pai na época era o melhor touro do ranking de leite.” Pelo contrato, o proprietário Ramiz Bretas passou a ficar com 12,5% de cada dose de sêmen comercializada. “A Alta só contrata três Gir por ano, e apostou no Decoro”, contou o dono, orgulhoso. “Era a estrela do meu plantel.”

Uma vez na central, Decoro ganhou baia própria e passou a ter a vida de mimos e encargos reservada aos touros profissionais. Comia uma ração balanceada com feno, silagem e capim, tomava banho uma vez na semana, coletava sêmen outras duas. Produziu pouco mais de 5 mil doses de esperma, que inseminaram vacas no Brasil e na Colômbia. Trabalhou por dois anos a fio até o fim do ano passado, quando o proprietário conseguiu que o touro se beneficiasse de um período de férias em casa. “Ele nunca tinha voltado desde que foi pra Uberaba, ainda garrote”, contou Bretas. “E como na central o touro não monta nas vacas, ele acaba ficando com as pernas atrofiadas” – o sêmen é coletado por um tubo de PVC emborrachado, conhecido como vagina artificial. Durante as férias, a ideia era que Decoro passasse ao menos seis meses cruzando au naturel, o que lhe permitiria fortalecer os músculos e gozar, sem artifícios, dos verdadeiros prazeres da carne.

 

Na tarde de 14 de dezembro, Decoro embarcou num caminhão com vacas da raça Nelore e touros Guzerá, que seriam deixados em diferentes fazendas de Minas. “Era um frete compartilhado, só com bicho de elite”, explicou Bretas. “O problema é que a transportadora resolveu fazer a viagem de noite, o que é muito perigoso.” Quando recebeu a ligação da empresa, no dia seguinte, o caminhão já havia sido encontrado. O gado, não. Bretas anunciou no Facebook e em grupos do WhatsApp que pagaria 5 mil reais pelo resgate do seu animal. Nunca teve resposta. “Ele teria hoje 4 anos e 3 meses”, lamentou, desgostoso.

“Roubo de gado de fazenda é uma realidade”, explicou Guilherme Rezende, da Alta. “Mas essa foi a primeira vez que sequestraram um touro de central. O Decoro era um multiplicador, que tinha uma responsabilidade muito grande no melhoramento da raça.” Rezende receia que o jovem Gir tenha sido transformado em carne – o que, de certa forma, seria como vender um Picasso numa feira hippie por 50 reais.

Bretas ainda tem 500 doses de sêmen do touro armazenadas (a Alta tem outras 1 300, cada qual vendida a 25 reais). Diz ter investido 30 mil reais na criação do animal – dinheiro que não foi recuperado (o touro não tinha seguro). Não pensa em processar a transportadora. “Mais tem Deus pra dar do que o diabo pra tirar”, filosofou.

A esperança de Bretas, agora, está depositada em Figo Gadiran, de 3 anos, único touro do seu plantel – além de Decoro – a ter sido convocado por uma central. “Mas ele é metade meu, metade de outro criador”, ponderou. Outro alento, claro, vem dos descendentes que perpetuarão a linhagem do animal sequestrado. “Tenho 21 filhos do Decoro”, contou, antes de declinar o nome de alguns: “Tem o Gema, o General, o Gentileza, o Geriatra, o Germano, o Germânico, o Gesto e o Gerúndio, que nasceram em 2016.” Já a safra de 2017 foi agraciada com a letra H: Hélice, Halogênio, Haddock e Haikai, entre outros. Prudente, Bretas prefere não apostar em nenhum garrote em especial enquanto aguarda a avaliação dos especialistas. “Tem que nascer uns 100 touros pra vir um com a qualidade do Decoro.”

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