esquina

Quem canta os males reclama

Do que se queixam os moradores da capital brasileira do canto coral

Marcela Donini 
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Passava pouco das duas da tarde quando os 33 cantores se puseram em meia-lua ao redor de um piano elétrico. Sopranos à direita, contraltos no meio e tenores à esquerda do regente. Estavam diante de uma imagem de Jesus crucificado, no auditório de uma igreja luterana. Cordas vocais aquecidas, músculos intercostais relaxados, começaram a cantoria: “Chucrute dá gases./ Não gosto de cercas/ E o arroio Boa Vista está tão poluíííído.”

Os versos não eram um primor de métrica e rima, mas tinham o mérito de sintetizar o descontentamento dos cidadãos da pequenina Teutônia. A cidade gaúcha se orgulha de ser a Capital Nacional do Canto Coral – abriga quarenta grupos, número espantoso para uma população que não chega a 30 mil habitantes. Por isso foi escolhida para ser a primeira cidade da América Latina a ter seu coro de queixas, com direito à récita filmada na Bienal do Mercosul, que começa este mês em Porto Alegre.

O ensaio dos cantores resmungões de Teutônia era dirigido pelo artista e músico alemão Oliver Kochta-Kalleinen, que já organizou chororôs orfeônicos em 24 cidades da Europa, Ásia, América do Norte e Oceania. Muito oportunamente, o idealizador do projeto começou o ensaio reclamando. Seu relógio marcava 14h05 quando chamou num canto o maestro do grupo e fez pressão: “Vamos começar? É horário germânico!” O músico Lucas Brolese, a quem caberia conduzir as vozes do coral, contemporizou, alegando desfalque nas vozes femininas. “Faltam alguns contraltos”, ponderou. Kochta-Kalleinen varreu com os olhos o ambiente. Por pouco não sobrou para a repórter.

O ensaio transcorreu quase sem interrupções. A carpidura correu bela, solta: “Eu não sei falar alemão, por isso sempre sou excluído./ Quero estar cheirosa, mas tá frio pra tomar banho./ Eu odeio desenho japonês./ Não tenho a barba grande aiiiinda.”

Naquela tarde, Kochta-Kalleinen vestia um jeans de corte modernoso, dois casacos e boné azul. Estava satisfeito por encenar o coral naquele ambiente litúrgico. “Gosto da ironia. Estamos numa igreja fazendo algo aparentemente sério, mas com essa letra absurda”, comentou.
Pedir a indivíduos de todas as cores e crenças que cantem suas lamúrias é o que move Oliver Kochta-Kalleinen, um homem alto de 39 anos. O projeto é tocado em parceria com sua mulher, a também artista Tellervo Kalleinen, nascida na Finlândia (ela não veio ao Brasil). Nas cidades para as quais levam o projeto, o casal escolhe músicos locais para dar forma sonora às queixas registradas por escrito pelos moradores. O coral é montado com gente comum, que não precisa sequer cultivar o hábito de cantar no chuveiro. Basta o desejo de dar ritmo e harmonia a um dos instintos mais universais da humanidade: reclamar da vida. “Todo mundo se queixa, mas ninguém faz nada para mudar”, explicou o alemão. Ele ao menos transforma este vale de lágrimas numa adorável bobajada.

A ideia nasceu há alguns anos, num dia de frio atroz do longo inverno de Helsinque. Em vez de maldizer o termômetro, Kochta-Kalleinen e a esposa se perguntaram se não haveria um jeito de canalizar toda a energia que as pessoas despendem falando mal da vida e dos outros. A língua finlandesa tem um substantivo – Valituskuoro – que significa literalmente “coro de queixas”. Deve ser empregado quando há reclamação coletiva. Pareceu natural ao casal de artistas dar sentido literal à expressão e criar, de fato, um coro de descontentes. A première mundial aconteceu em 2005, em Birmingham. A partir daí, o casal começou a ser convidado para armar sua tenda de reclamações pelos quatro cantos do mundo.

Após ouvir mais de 30 mil queixas ao redor do planeta, Kochta-Kalleinen acredita que é muito mais fácil e divertido conhecer uma cidade pelas suas queixas do que por suas atrações turísticas. Se para os ingleses de Birmingham o preço da cerveja está muito alto, é a qualidade da bebida que caiu na avaliação dos gaúchos. Enquanto os japoneses reclamam de quem fuma nos parques, a queixa em Teutônia é sobre quem gosta do bate-estaca da música eletrônica – “os chatos que ouvem tuntz lá na lagoa da Harmonia”. De fato, há coisas que nem o Tinhoso faz com seus desafetos.
As lamúrias gaúchas vão do local ao universal. Na longa sequência de chorumelas compiladas por Oliver Kochta-Kalleinen, há cachorros bravos, chefes insensíveis e vizinhos desafinados. Agruras da sociedade brasileira, tais como hospitais lotados e o preço dos estádios da Copa também foram lembrados. E houve quem mencionasse questões morais que afligem a humanidade, como a ditadura da magreza ou os maus-tratos aos animais.

Inevitavelmente, as queixas dos teutonienses repetiram insatisfações registradas em outras urbes – não há fronteiras para amores não correspondidos ou pais que pegam no pé dos filhos. Mas a gente local também manifestou a sua singularidade, registrando dissabores ímpares e intransferíveis. Em nenhum outro lugar do planeta, por exemplo, o artista alemão apontou o desejo de que um narrador de futebol engolisse a própria língua. Outro dado que intrigou Kochta-Kalleinen foi a ausência de queixas sobre spam, lentidão nas conexões de internet e agruras tecnológicas assemelhadas. Sinal de exclusão digital? Ou andará larga a banda dos gaúchos?

É certo que em Teutônia o povo tem muito com o que se preocupar. Como iriam se incomodar com o acesso à rede se as nuvens no céu mudam a todo instante e provocam tanta discussão entre os que veem um camelo e os que insistem numa bicicleta? Também há quem se queixe dos alcoviteiros de plantão, do barulho das motos e dos atendentes de telemarketing que ligam bem na hora da novela.

Diante do cardápio quase incontável de lamúrias, a palavra final sobre o libreto é de Kochta-Kalleinen, que não esconde sua predileção por peculiaridades locais, como o caminhão de bombeiros de Teutônia, “Presente da Alemanha, mas, que pena!, anda só a 40 quilômetros por hora”. Definida a letra, a turma é instada a cantar com o mesmo entusiasmo tanto as próprias queixas como as dos outros. Quem não gostar, que se queixe ao bispo, pois ao artista não adianta. Kochta-Kalleinen ainda não está disposto a enveredar pelo arriscado caminho da metalinguagem.

Marcela Donini 

Marcela Donini é jornalista gaúcha.

Leia também

Últimas Mais Lidas

Razão não depende de geografia

No imaginário nacional, o Nordeste segue como a terra que vota com o estômago

Do porto de Santos à marina em Miami

Afilhado político de Temer que comandou Codesp acumula patrimônio milionário e offshore no Caribe

O Brasil dos debates e o Brasil real

Temos apenas 45 dias para falar sobre os reais problemas do país

Foro de Teresina #14: O ventríloquo de Haddad, a sucessão no Rio e o primeiro-ministro de Bolsonaro

O podcast de política da piauí debate os desdobramentos mais recentes da corrida eleitoral

O Animal Cordial – horas de desespero em noite de cão

Para crítico, a violência extrema anula os propósitos libertários almejados pelo longa

Muito Deus, pouca mulher

Uma análise visual dos programas de governo dos candidatos a presidente

Tempo eleitoral: modos de usar

Os dilemas do PSDB e do PT numa disputa atípica

Produtor de soja do MS é autor de “outdoor rural” pró-Bolsonaro

Projeto Comprova descobriu quem é o responsável pela imagem que viralizou e circula na internet desde o ano passado

A culpa do alto clero

Arranjo institucional do país aumenta a influência do dinheiro na política

O Grenal das vices

20 perguntas para mostrar as muitas diferenças e os poucos pontos em comum entre as gaúchas Manuela D’Ávila e Ana Amélia

Mais textos
1

A guerra do PCC

Facção se internacionaliza com tráfico de cocaína, e pela primeira vez Marcola vê seu poder ameaçado

2

Bolsonaro fala outra língua

O ex-capitão é o único presidenciável da era da conectividade

3

Muito Deus, pouca mulher

Uma análise visual dos programas de governo dos candidatos a presidente

4

O Grenal das vices

20 perguntas para mostrar as muitas diferenças e os poucos pontos em comum entre as gaúchas Manuela D’Ávila e Ana Amélia

5

Alexandre, o Grande

Lembranças de uma vida inimitável

6

A morte de um “X-9” ameaça a paz de Marcola no PCC

Galo Cego era considerado um traidor por parte da facção; foi a quinta morte na guerra interna do “partido”

7

Do porto de Santos à marina em Miami

Afilhado político de Temer que comandou Codesp acumula patrimônio milionário e offshore no Caribe

8

O debate traduzido para o mercado financeiro

Em pesquisa para bancos, Ciro foi apontado como o candidato mais simpático, e Bolsonaro, o mais alvejado; piauí acompanhou o programa em consultoria que monitora redes sociais para as instituições

9

Tempo eleitoral: modos de usar

Os dilemas do PSDB e do PT numa disputa atípica

10

Razão não depende de geografia

No imaginário nacional, o Nordeste segue como a terra que vota com o estômago