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Rebanho eletrônico

Qualquer causa é válida num site brasileiro de financiamento coletivo

Marcela Donini 
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2012

A criminalidade não é a maior preocupação dos 45 mil habitantes de Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso. Depois de deixar a namorada em casa numa  noite de junho, Oziel de Oliveira jamais imaginaria que pudesse ser sequestrado. Mas o rapaz, então com 22 anos, tinha se tornado uma pessoa conhecida. Dois meses antes, arrecadara na internet mais de 100 mil reais numa campanha para custear as cirurgias de reconstrução facial pelas quais precisa passar depois de se curar de um tipo raro de câncer de boca. Os sequestradores não se comoveram com a história de Oliveira. Tampouco conseguiram ficar com o dinheiro dele. A polícia foi acionada, e ele acabou liberado no dia seguinte. Hoje, vive temporariamente em São Paulo com a mãe, enquanto passa pelos procedimentos preparatórios para as cirurgias.

Oziel decidiu passar o chapéu na internet depois de tentativas frustradas de espalhar cartazes pela cidade e anunciar na tevê local. Quando publicou no YouTube um vídeo contando sua história, foi notado por blogueiros, que abraçaram a causa e o aconselharam a criar uma vaquinha online num site especializado. Os padrinhos se encarregaram de dar visibilidade à campanha e o dinheiro necessário foi arrecadado em tempo recorde. “Publicamos numa sexta-feira e, no domingo, já tinha todo o dinheiro”, contou o rapaz.

Com 106 670,98 reais doados em 38 horas, Oziel de Oliveira é até hoje o recordista de arrecadação do vakinha.com.br,site criado em 2009 por três empresários gaúchos. A iniciativa é mais um expoente de um gênero em alta na internet: o financiamento coletivo, ou crowdfunding. Nos Estados Unidos, sites do gênero existem desde o começo dos anos 2000. O princípio é o mesmo: alguém lança uma campanha dizendo quanto precisa e para quê; quem se sensibilizar com a causa paga quanto puder.

 

Desde que foi lançado, o Vakinha tem facilitado a vida de quem quer rachar o presente de casamento dos amigos ou comprar sua primeira guitarra. Ou uma Barbie. Ou uma cadeira de rodas. Ou levantar 700 reais para o conserto do carro da tia. “O site é apenas uma ferramenta. O resto são as histórias que acontecem”, disse Fabrício Milesi, um dos sócios do  crowdfunding, que funciona no 5º andar de um prédio comercial de Porto Alegre.

Algumas dessas histórias ganharam repercussão, como a da maquiadora Alice Salazar, famosa entre blogueiras de beleza. Num concurso realizado em 2011, ela ganhou uma viagem e aulas de maquiagem em Nova York, mas teve o visto negado e perdeu o prêmio. Dois dias depois da negativa do consulado, não havia base corretiva que escondesse suas lágrimas de desapontamento. Para dar a volta por cima, uma amiga criou uma vaquinha para mandá-la a Paris para fazer um curso. Ao cabo de quase nove meses, ela conseguiu levantar 9 912 reais – um pouco menos do que a meta de 12 mil. O dinheiro foi muito bem-vindo e ela foi à França em março. Mas não deu nem para o começo. “Gastei o dobro, o triplo disso”, contou. “Mas valeu a pena.”

Em janeiro de 2011, o usuário Marco Fisbhen lançou uma campanha para comprar o passe do centroavante Vágner Love para o Flamengo. Estipulou como meta arrecadar 30 milhões de reais. Dez torcedores doaram 335 reais, que acabaram transferidos para o criador da vaquinha – no vakinha.com.br, o iniciador da arrecadação fica com o dinheiro mesmo que o montante doado não seja suficiente para o objetivo declarado.

Não é de hoje que o futebol estimula a abnegação dos fãs. Nos anos 20, antes da profissionalização do esporte, torcedores já se cotizavam para oferecer um estímulo financeiro aos atletas. Quando juntavam 25 mil-réis, bolada máxima em caso de vitória, diziam ter feito uma vaca, em alusão ao número 25 no jogo do bicho. Desde então, “fazer uma vaquinha” virou sinônimo de dividir despesas entre amigos.

Vágner Love acabou indo para o Flamengo mesmo sem a ajuda da torcida. No caso, entende-se a escassez de doadores generosos: o montante solicitado era dez vezes maior do que os 3 milhões de reais que o vakinha.com.br já arrecadou. O Catarse.me, site brasileiro de financiamento coletivo lançado em 2011, já levantou 4,4 milhões. A iniciativa mais conhecida de crowdfunding no mundo, o Kickstarter, já financiou 30 mil projetos, somando 335 milhões de dólares em doações.

Para bancar os custos operacionais, o site Vakinha cobra 40 centavos por doação, 3 reais por saque e taxas sobre os pagamentos feitos com cartão e boleto. Mas não é essa sua principal fonte de receita. As vacas gordas, segundo Fabrício Milesi, vêm de parcerias semelhantes à realizada com um pet shop patrocinador de pedidos de ajuda para ONGs defensoras de animais ou pessoas que recolhem cães e gatos abandonados. O empresário contou que apenas uma vaquinha em cada cinco atinge a meta estipulada.

Diferentemente de outras iniciativas do gênero, o Vakinha não impõe qualquer restrição às campanhas propostas no site e não investiga sua veracidade. Os empresários deixam a critério dos doadores o juízo sobre o mérito das campanhas. Às vezes é preciso intervir e retirar um pedido do ar. Em 2010, quando vieram à tona as irregularidades no Banco PanAmericano, controlado pelo grupo de Silvio Santos, um gaiato criou uma vaquinha para tapar o rombo de 2,5 bilhões de reais na instituição. Antes que as colegas de trabalho e de auditório do apresentador pudessem se manifestar, advogados notificaram o portal que hospedava o site e informaram que o uso do nome de Silvio Santos não havia sido autorizado. A vaquinha foi pro brejo.

Marcela Donini 

Marcela Donini é jornalista gaúcha.

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