correspondência

Reflexos do palco

Ribaltas, glórias, malediscências e rapazes bem dotados: as cartas de John Gielgud

Fernanda Torres e John Gielgud
“Duas bichas-loucas que conheci numa festa me convidaram para jantar. Me encheram de bebida, me jogaram no chão e tentaram me possuir – juntos!! Francamente, na minha idade. Eram detestáveis, embora um deles tivesse um atributo bastante notável”
“Duas bichas-loucas que conheci numa festa me convidaram para jantar. Me encheram de bebida, me jogaram no chão e tentaram me possuir – juntos!! Francamente, na minha idade. Eram detestáveis, embora um deles tivesse um atributo bastante notável” FOTO: SNOWDON_CAMERA PRESS_OTHER IMAGES

Nas cartas de John Gielgud, os anseios, glórias e incertezas, a preocupação com o sustento, as fofocas de bastidor, o estoicismo diante do fracasso, a insegurança com a técnica cinematográfica e o humor de um dos grandes atores do século XX

 

A família materna de Arthur John Gielgud, nascido em abril de 1904, vinha do teatro. Sua avó e duas tias-avós eram atrizes renomadas, e ele contracenou com uma prima. Muito jovem, Gielgud já era capaz de verter lágrimas por Hécuba, a ponto de uma colega de profissão tê-lo aconselhado a chorar menos, para que a plateia tivesse a chance de sofrer pelo personagem. Acatou o conselho.

A consagração também veio cedo. Aos 26 anos, fez um Hamlet que virou fenômeno de bilheteria em Londres, atravessou o Atlântico e conquistou a Broadway. Com a idade de Cristo, havia representado o papel mais de 400 vezes. Com 45 anos, participara de seis montagens de Hamlet, e dirigira uma encenação que teve Richard Burton no papel do príncipe dinamarquês. Por quatro vezes foi Próspero. Encarnou duas vezes Ricardo II, Macbeth e Oberon. Romeu, três, uma delas com Laurence Olivier, com quem alternava o papel com o de Mercúcio. Enfrentou Lear em quatro ocasiões. Foi Malvólio e Benedick, Cassius e Shylock, Ângelo de Medida por Medida, Leonte de Conto de Inverno e o cardeal Wolsey em Henrique VIII. Fracassou como Otelo.

Não fez só Shakespeare. Dos gregos a Harold Pinter, passando por Tchekhov, Shaw e Sheridan, representou centenas de textos de primeira qualidade. Trabalhou com Alain Resnais em Providence, com Andrzej Wajda em O Maestro, mas ganhou o Oscar de melhor coadjuvante com Arthur: o Milionário Sedutor, uma comédia ligeira. Também dirigiu e produziu um sem-número de peças, filmes, programas de rádio e televisão ao longo dos seus quase 100 anos de vida. É um currículo que rivaliza com a lista de conquistas de Don Juan.

Era um ator seguro e criativo nos ensaios, o sonho de qualquer diretor. Como diretor, atazanava elencos com a sua capacidade de burilar as cenas obsessivamente, até esgotar as possibilidades. “Estou trabalhando duro em Quex“, escreveu sobre a peça na qual dirigiu Ingrid Bergman, “e enlouquecendo a todos com mudanças a cada cinco minutos.”Atravessou o século XX e suas duas guerras praticamente à parte dos acontecimentos externos ao palco, embrenhado no seu interesse quase exclusivo: fazer girar sua máquina de representar. Foi contemporâneo, colega e amigo de Charles Chaplin, Orson Welles, Alfred Hitchcock, Ralph Richardson e Peter Brook.

Como se não bastasse, John Gielgud era inglês. E um inglês com o domínio verbal e emocional do fluxo poético de William Shakespeare, o inventor do homem moderno. Diante de tamanha grandeza, que quase obriga a uma reverência mística, fica difícil se afirmar ator, nascido e criado aqui, nos trópicos brasileiros.

O antídoto para esse sentimento de inferioridade acachapante se encontra na vasta coleção de cartas que sir John Gielgud deixou para trás. Nela, os anseios, glórias e incertezas, o incômodo com colegas incompetentes, a preocupação com o sustento, as fofocas de bastidor, o estoicismo diante do fracasso, a prática do artesanato teatral, a insegurança com a técnica cinematográfica, a sorte e a melancolia de ter vivido muito, o humor, a ironia, a inveja, os amores?- tudo, enfim, o aproxima de nós.

A fluência com que escreve revela a intimidade que desenvolveu com os grandes autores. A descrição de sua primeira visita à Disneylândia lembra Sonhos de uma Noite de Verão; a acidez é parecida com a de Noël Coward, seu parceiro e amigo. O corpo e a voz são os instrumentos de trabalho do ator. Afiná-los significa impregnar-se do conteúdo de cada autor. Um ator é resultado dos personagens que escolheu ou conseguiu interpretar. A qualidade do trabalho de Gielgud, além do talento herdado, é resultado do rigor com que desenvolveu seus instrumentos.

 

Em 1966, em uma passagem pelo Brasil, ele se apresentou em São Paulo e no Rio. No recital, acompanhado de Irene Worth, declamava trechos de peças e sonetos de Shakespeare. Após uns vinte minutos de apresentação, sua companheira foi acometida de um violento ataque de tosse. Gielgud parou e esperou que ela se recompusesse. Depois de uns tensos minutos, prosseguiram. Não por muito tempo. A tosse voltou. Tentaram retomar mais algumas vezes até que, como numa peça de Ionesco, Irene Worth saiu de cena para tentar resolver o problema de laringe no camarim.

“Gielgud ficou sozinho, absolutamente rendido em cena”, conta Fernanda Montenegro, que estava na plateia na noite funesta. Para surpresa geral, Gielgud se pôs a declamar de cabeça trechos inteiros do bardo, monólogos complexos, páginas e páginas de poesia, sem titubeio e devidamente exploradas em suas nuances. “A plateia foi ao delírio: não era mais teatro, parecia um fenômeno de prestidigitação”, lembra Fernanda Montenegro.

John Gielgud é um ator de teatro por excelência. O eterno improviso do cinema, o ter que representar na rua, sem que se tenha ensaiado o suficiente, a parada para o almoço bem no meio de uma cena difícil, a prisão da câmera, do foco, tudo parece trabalhar contra a liberdade do ator. Apesar de ter arriscado uma participação ainda no cinema mudo, que lhe pareceu mais uma pantomima exagerada, manteve durante grande parte da vida distância da tela grande.

No auge de sua carreira nos palcos, quando traçava um Lear no almoço e um Shylock no jantar, em uma turnê em Nova York, ele admitiu sentir estranheza em relação à televisão.Mais tarde, a tevê imortalizaria um de seus grandes desempenhos? – na minissérie Memórias de Brideshead, de Evelyn Waugh? – e o manteria incrivelmente ativo, com grande oferta de trabalho até os últimos anos de vida.

 

Reza uma das máximas do metiê que o teatro é do ator, o cinema do diretor e a televisão do produtor. Deve ser verdade. Na tevê, o ritmo industrial necessário para manter a programação diária obriga o produtor a tomar para si a responsabilidade. No cinema, o diretor é quem costuma carregar o andor até as salas de exibição? – os atores, os técnicos, tudo passa, e o diretor fica. No teatro, o produto final pertence ao ator, sem intermediários.

Uma peça se define depois da estreia, quando só restam o elenco e o público. Em centenas de cartas, John Gielgud chama a atenção para a necessidade de reensaiar, de tirar um elemento que não funciona, de rever uma intenção; jamais joga a toalha, mesmo diante de um fracasso iminente. A ribalta dá a chance ao ator de ser o responsável pelo seu próprio destino artístico. O teatro é do tamanho do ator.

Gielgud foi conservador sem perder a curiosidade para o novo. Nutria desconfiança por Brecht, e Beckett lhe provocava perplexidade. Mas Blow-Up [Depois daquele Beijo] e Zabriskie Point, de Michelangelo Antonioni, o impressionaram imensamente, e considerou seu trabalho com Resnais um dos melhores que fez no cinema. Talvez pelo fato de ser homossexual, prática criminosa na Inglaterra até a década de 60, tenha cultivado a abertura para o que não era o estabelecido.

E Gielgud tinha humor, muito humor. Mais de uma vez, ouvi de atores ingleses uma história dele com o diretor Peter Brook, que nos anos 70 abandonara o teatro clássico para embarcar em experimentações variadas. Um belo dia, depois de meses de ensaios, com laboratórios de improvisações guturais, sensibilizações, cantos, jogos de poder, rodas de autoconhecimento, de toda a parafernália investigativa do teatro alternativo, mas nada de repassar a peça, Brook pediu que os atores viessem até ele, um a um, e fizessem algo que o aterrorizasse. John Gielgud viu os colegas se posicionarem na frente do diretor e, cada um a seu modo, se pôs a gritar, ameaçar, bater e xingar o mestre. Na sua vez, levantou-se, calmo, encarou o amigo e soltou mansamente: “Estreamos na terça-feira.”

Esse pragmatismo se faz notar também na sua relação com o dinheiro. É de se esperar que quem lida com a matéria da qual é feita os sonhos não tenha tempo para as miudezas do cotidiano, como contas a pagar, por exemplo. Mas até nesse particular Gielgud comprova estar mais próximo do circo do que do Palácio de Buckingham. A forma como conta os assentos vazios, ou calcula com antecedência quando uma casa esgota sua lotação, ou se preocupa com o retorno que uma peça pode trazer para os produtores, o afasta de qualquer perfil aristocrático e denuncia sua origem de saltimbanco. Atuar era seu ofício e o palco, seu ganha-pão.

Por isso, aceitou trabalhar no filme Calígula, uma produção pornográfica cujo roteiro foi escrito por Gore Vidal. Tomou o cuidado de pegar um papel que não envolvia nenhuma sacanagem, no qual trabalharia apenas dez dias e receberia um caminhão de dinheiro. Participou de Horizonte Perdido, filme em que faz o papel de um monge do Everest, porque descobriu que o seu contador, morto subitamente, o havia deixado inadimplente com o fisco por três anos. Consciente do ridículo, aceitou a empreitada para pagar as dívidas. Esse é um caráter bastante particular da profissão de ator: a necessidade de muitas vezes emprestar o próprio rosto para algo que envergonha e, em outras, cobrar por uma coisa que, no fundo, se faria até de graça: um bom papel.

 

Gielgud envelheceu com elegância, sem ter enfrentado a decadência ou o ostracismo. Como nunca foi bonito, e perdeu cedo os cabelos, sempre teve a aparência de um homem maduro. A idade lhe caiu bem. Aceitou fazer uns raros comerciais já na fase final de sua impressionante trajetória, que lhe garantiram uma aposentadoria gorda e segura. Depois de algumas crises financeiras, morreu rico. Conseguiu acumular um patrimônio artístico de alta qualidade para, no fim da vida, negociá-lo por um preço à altura de sua dignidade. São raros os que conseguem.

Um ator da dimensão de John Gielgud só pôde existir porque havia demanda para a sua arte. Ele viveu na passagem entre o humanismo romântico do fim do século XIX e a sociedade tecnológica e midiática em que estamos agora. Havia uma enorme carência em compreender e desdizer o ser humano, e um público para o teatro educado por gerações a se interessar pela discussão.

Mas Gielgud também foi quem foi porque o teatro na Inglaterra é considerado tesouro nacional, protegido por lei e altamente subsidiado. Ouvi recentemente de um alto publicitário? – ele se ofendeu com o termo, mas não teve nenhum pudor em se referir a mim como “celebridade”? – que a palavra de ordem do momento é sustentabilidade. Dizia isso para justificar sua posição contrária ao patrocínio de projetos culturais pelas empresas com as quais está envolvido. Só que teatro não é autossustentável. Poucas artes o são. O teatro profissional em larga escala, com elenco, cenários, iluminação e som, do tipo com o qual Gielgud trabalhou, não sobrevive só com a bilheteria. E, segundo o alto publicitário, não existe mais espaço para ele no terceiro milênio.

 

1936

PARA PEGGY ASHCROFT
Nova York, 21 de setembro

Noite passada, vi finalmente o filme Romeu e Julieta.[1] Ou seja, fiquei até o encontro no baile, o que significa apenas uns dez minutos no total, pois aí a emoção se apoderou de mim e me esquivei da cena do massacre. Em matéria de vulgaridade inominável, disparates medonhos e rematada tolice, nunca presenciei nada pior, exceto dez minutos do filme O Sonho,[2] a que também não fui capaz de sobreviver por muito tempo. Esse épico, quero crer, comporta fortes reminiscências dos piores excessos da áurea época eduardiana. Eu não devia nem sonhar em caçoar da representação, mas John Barrymore, que mais parece uma velha monstruosa travestida de homem dando saltos através de um arco, devia ser abatido a tiros? – sem falar nas supressões, no desperdício imbecil de dinheiro e em toda a palermice. Bem, agora vou esperar para ver Como Gostais,[3] mas é como fazer uma operação para ver trucidado de uma forma inominável tudo aquilo que adoramos e que consideramos peças excelentes. Ou será que tenho algum preconceito? É melhor você mesma ir assistir e ver se não concorda comigo.

Esta cidade é de fato muito aprazível, me parece, exceto pelo fato de que não me agrada estar distante de meus amigos, ou morar em um hotel, ou comer a obscena comida americana? – e na semana passada fez um calor medonho e úmido demais, o que tornou muito cansativo trabalhar.

 

PARA SUA MÃE [SOBRE O SEU TRABALHO EM HAMLET]
Nova York, 26 de setembro

Cortei meu braço na cena da luta e tive que ser anestesiado com gás e levar quatro pontos, o que me deixou bastante enjoado, mas agora já estou muito bem disposto outra vez. Só estou lhe avisando para o caso de você ver alguma notícia no jornal ou algo assim, a respeito do assunto. O efeito do fantasma é muito bom, com microfones? – o “juramento” proferido num sussurro sob o palco é realmente admirável? –, é extraordinariamente divertido e há um bom efeito de uma voz desencarnada, quando o som sai do próprio ar e eu respondo. O vulto no palco, numa máscara alta, fica de pé, de costas, e não fala nada. Represento minha cena da morte em pé. No início, fui contra, mas agora estou gostando muito da ideia. Com três cadáveres no palco, é difícil representar de forma convincente a cena operística das últimas palavras ditas num leito de morte, ou se sentar em um trono que foi desocupado à custa de tanta matança. Quero crer que será um efeito surpreendente, e depois de “o resto é silêncio” tombo subitamente para a direita no chão (via Horatio), e dizem que está muito bom. O coveiro é uma verdadeira gracinha e lhe dei um rapé para cheirar! O que, tenho certeza, nunca havia sido feito antes!

 

PARA SUA MÃE
Nova York, 12 de outubro

A primeira noite foi absolutamente extraordinária. Recebi 130 telegramas e muitos aplausos na minha entrada em cena, o que foi inesperado e bastante enervante? – no final, ninguém queria me deixar ir embora e levantamos a cortina doze ou quinze vezes. Três ou quatro foram só para mim, com o elenco aplaudindo também nos bastidores, e depois as pessoas vieram me cumprimentar, com Noël Coward[4] à frente, todos muito emocionados, e recebi até telegramas enviados por pessoas desconhecidas da plateia, que me mandaram depois de terem deixado o teatro.

 

PARA PEGGY ASHCROFT
Nova York, 14 de novembro

Tenho passado a maior parte dos dias sozinho, e depois saio todas as noites, o que é bom quando não se está cansado demais. Fui a umas festas ótimas? – no Cotton Club na semana passada, onde há um maravilhoso espetáculo de negros; você ia ficar louca se visse. Fiz uma porção de amigos e é uma atmosfera de teatro absolutamente encantadora, quase tão boa quanto na Inglaterra. Todos na companhia são uns doces, exceto um rapaz revoltante que representa de forma abominável o papel de Rosencrantz e que toda noite me deixa louco. A produção é tremendamente ruim, de fato, bem como boa parte dos atores, da iluminação, do cenário etc. Nada disso é bom nem ajuda, e dificulta bastante o trabalho.

 

1937

PARA SUA MÃE
Nova York, 4 de janeiro

A noite de Ano-Novo foi um completo horror. Nosso teatro fica na rua principal e as sirenes e os apitinhos começaram a soar logo depois que começamos, e aí não pararam mais durante toda a noite – não é um fundo sonoro muito agradável para Hamlet. Fomos ontem no carro de Lillian Gish[5] para a casa de campo de Helen Hayes,[6] em Nyack? – uma festa encantadora – e ela tem uma casa vitoriana formidável, com sanefas entalhadas e espelhos, lareiras de mármore e cortinas vermelhas de pelúcia. Muito divertida e sem exageros, e com algumas pinturas excelentes? – Renoir, De Chirico, sobretudo os modernos? – que, de forma surpreendente, combinam muito bem com a casa. Quebramos o recorde de Barrymore[7] esta noite e amanhã quebraremos o recorde de uma outra montagem que foram desencavar – de um obscuro ator americano que representou a peça 102 vezes – e na quarta-feira serei o “campeão inconteste”. Segundo nosso assessor de imprensa, no sábado concluí 400 representações, incluindo as duas temporadas em Londres, portanto a essa altura já devo conhecer bem a peça.

 

PARA LILLIAN GISH

Londres, 4 de dezembro

As pessoas estão divididas a respeito de Macbeth.[8] Achei irregular, embora se trate seguramente da melhor montagem da peça que já vi e, de qualquer jeito, está claro, é sabidamente uma peça difícil e traiçoeira de montar.

Judith Anderson está muito bem, sobretudo nas cenas com Larry, e sua atuação, no geral, é requintadamente concebido numa linha contínua. Ela se saiu, acho eu, esplendidamente bem na cena de sonambulismo – nunca baixa seu lampião, como sempre fazem, e usou uma só mão para tudo, o que me pareceu muito sagaz e eficiente. Olivier é tremendamente irregular e a interpretação dele alternou-se entre o estilo clássico – como ele o concebe –, o bombástico e o moderno, no caso, nos assassinatos e nos trechos emotivos. É uma representação violenta, tensa, que se mostra cansativa de ver, e deve ser ainda mais cansativa de interpretar, mas suas cenas com ela são lindamente montadas e encenadas com autêntica harmonia e uma intenção trágica tocante.

 

1938

PARA LAURENCE OLIVIER, SOBRE O MERCADOR DE VENEZA
Londres, 22 de abril

Fiquei muito comovido e grato pelas lindas flores e por seu telegrama generoso. Não se empolgaram muito com a minha representação, no geral, mas estou resolvido a persistir neste caminho e não ceder à tentação de ter ataques de fúria em cena, como John Gielgud, em vez de tentar representar o papel de Shylock! Quem dera eu tivesse a força de vontade de Edith Evans para não ler os comentários nos jornais!

 

1939

PARA NOËL COWARD

Foulslough, 5 de setembro

Lamento ter de preocupar você quando já está tão ocupado, mas estou ansioso para saber se você acha que podemos fazer alguma coisa a respeito de Saint-Denis.[9] Ele partiu ontem para a França, onde foi convocado para o Exército, e me parece que ele é importante demais para o teatro para que se permita que vá direto para as tropas, caso isso possa ser evitado. Imaginei que talvez você pudesse usar sua influência para transferi-lo para algum tipo de trabalho no setor de comunicações, no qual o conhecimento dele do inglês e do francês possa ser útil, e onde ele poderia fazer um tipo de trabalho digno de sua capacidade. Espero que me perdoe por fazer tal sugestão, mas de fato sinto que Michel é uma das poucas pessoas que têm algo importante para dar ao teatro e deve ser objeto de certo cuidado, se isso for possível de algum modo.

Glyn[10] e eu devemos nos integrar a um regimento escocês (!) mais cedo ou mais tarde, mas creio que eles não têm nenhuma função para nós, por enquanto. Espero que os teatros possam reabrir em algum lugar, algum dia, um dia desses, e possamos, quem sabe, nos apresentar para alguns poucos admiradores mais uma vez, nem que seja por pouco tempo.

 

1940

PARA SUA MÃE
Edimburgo, agosto

Houve um alerta de bombardeio no sábado, mas felizmente só dez minutos depois que o espetáculo havia terminado. Tivemos uma plateia esplêndida, o que não aconteceria se o ataque tivesse ocorrido uma ou duas horas mais cedo – e cerca de 100 pessoas foram pegas de surpresa ainda no teatro, na hora em que estavam saindo, portanto ficamos com elas, as entretivemos, tocamos os pianos e contornamos a situação durante uma hora, até soar o aviso de que não havia mais perigo.

 

PARA ROSAMOND GILDER
Londres, 27 de setembro

Caíram algumas bombas incendiárias no teatro Globe uma noite dessas e fomos correndo até Piccadilly, enquanto o bombardeio corria solto à nossa volta – nos sentimos muito heroicos e apavorados – e fomos encontrar o incêndio já apagado e palco debaixo d’água: uma porção de vidros espalhados em volta, cenários encharcados e danificados, mas ninguém ferido e nenhum dano mais grave.

 

1941

PARA ALEC GUINESS[11]
Londres, 25 de outubro

Cidadão Kane é mesmo inimaginavelmente bom, e uma proeza admirável em todos os aspectos, da parte de Orson Welles e de seu elenco excepcional. Você não pode deixar de ver.

 

1943

PARA BERNARD SHAW
Londres, 29 de agosto

Fiquei absolutamente encantado e honrado de receber sua carta e saber que o senhor aprovaria minha indicação para o papel de César,[12] pois de fato se trata de um papel soberbo e que adoraria imensamente experimentar e representar. Mas não gosto de fazer filmes e é bem possível que me veja aterrorizado diante do risco de criar uma representação indiferente. A técnica é muito diversa e seria preciso uns bons seis meses de concentração, com nada mais para me distrair. Filmar e representar no teatro ao mesmo tempo, tenho certeza, é impossível, sobretudo agora, com as complicações de transporte e de blecautes, e Amor por Amor muito provavelmente entrará em cartaz antes da primavera do ano que vem. Portanto devo, com relutância, dizer não para o filme e esperar que o senhor permita que eu represente a peça num futuro próximo[13].

 

1944

PARA ALEC GUINESS
Bristol, 14 de agosto

Tivemos uma semana de folga na semana passada, Londres estava tão triste e vazia quanto as províncias estão abarrotadas, barulhentas e carentes de boas maneiras. Os jornais andam desvairados de otimismo com a batalha na França, e a possível ameaça das bombas V2 é a única pedra no caminho. Suponho que você saiba que Rex Whistler[14] foi morto na Normandia – trata-se de uma grande tragédia, me parece, e me deixa bastante envergonhado, pois ele era só um ano mais jovem do que eu e foi para a Guarda de Gales com todo aquele treinamento pesado e recebeu uma patente baixa, desdenhando todas as ofertas de algum trabalho especial, camuflagem etc., para o qual ele podia ter sido transferido com muita facilidade, já que conhecia todas as pessoas das altas esferas. Ele queria provar que os “artistas podem ser durões” e, que pena, ele provou – mas o mundo ficou imensamente mais pobre com o sacrifício dele.

 

PARA SUA MÃE
Bournemouth, 22 de agosto

Temos casas lotadas, mas não creio que eles entendam muito do assunto – gente vulgar, típica do período de férias.

 

PARA DADIE RYLANDS[15]

Oxford, 24 de setembro

Mandei escurecer bastante minha peruca. Muitos acharam que ela estava dourada demais e eu não quero ter uma aparência chocantemente bela em detrimento de um aspecto real. Não creio que Hamlet deva ter a mesma beleza notável que Ricardo II.

 

1946

PARA HOWARD TURNER[16]
Londres, 28 de outubro

Ando muito cansado – de fato, tive até um pequeno colapso nervoso –, tive erupções na pele, não conseguia comer, me enfurecia diante de qualquer pequena provocação etc. No fim, fui obrigado a suspender completamente as matinês e tirei uma folga para viajar para Portugal, onde passei quinze dias de férias de verdade – e, graças a Deus, de algum sol – antes de começarmos a ensaiar a montagem americana de A Importância. Embarcaremos no dia 9 de janeiro, o que não é tanto tempo assim. Larry Olivier e Vivien Leigh vão viajar no mesmo navio e espero fazer sucesso logo na chegada, me segurando com firmeza no outro braço da senhora O. assim que os fotógrafos subirem a bordo, e não deixando que se desvencilhem de mim sob qualquer hipótese.

 

1947

PARA SUA MÃE
Nova York, 15 de abril

Fui a uma festa da Grande Páscoa Russa na casa da costureira Valentina Schlee. A elite inteira, rios de champanhe, lindos quadros e flores, numa casa formidável. Tive uma longa conversa com Garbo, que é uma pessoa extraordinária – rosto de menina e agora com cabelos bem curtos e lisos, presos por um arco enfeitado com uma fitinha amarrada num laço, um vestido detestável de um tecido de algodão com lindas estamparias, que ia até as panturrilhas, e depois uns pés enormes em sapatinhos pretos sem salto. Uma adorável expressão infantil e imensa doçura. Falou sem parar um instante, mas absolutamente sem nenhum propósito – disse que sua vida era vazia, sem objetivo, mas que o tempo passava tão depressa que nunca havia tempo para fazer nada daquilo que desejava! E tudo isso com os olhos piscando e com grande animação, nem sombra do tom fúnebre de suas imitadoras – um leve sotaque encantador. Mas não consegui decifrar se a atitude dela era uma incrível pose ou pura e simples burrice – talvez uma mistura das duas coisas!

 

PARA SUA MÃE
Nova York, 27 de junho

Recebi uma carta absolutamente encantadora de Larry Olivier e também uma de Ralph. Ambos são tocantemente sinceros e generosos ao dizerem que se sentem encabulados por terem recebido honrarias maiores que as minhas[17] – e devo dizer que o fato de eles se sentirem desse modo em relação a mim, e de eu saber que tenho tantos bons amigos no teatro é uma grande satisfação. Eu gostaria de receber essa homenagem porque sei o quanto você ficaria feliz – porém, a não ser por isso, creio que o que conta de fato é mais a qualidade da obra do que as conquistas efetivas em termos de sucesso espetacular, embora, com efeito, eu gostaria de receber também meu quinhão desse último, de um jeito ou de outro. No entanto, eu era bastante invejoso – e de fato ainda serei, caso alguém como Donald Wolfit[18] receba condecorações acima das minhas –, mas já não me sinto assim nem um pouco, no que diz respeito a Ralph ou a Larry, a quem admiro e respeito genuinamente e cujas qualidades conheço por ter trabalhado com eles.

 

PARA SUA MÃE
Nova York, 8 de dezembro

Vi uma peça interessante intitulada Um Bonde Chamado Desejo, na qual Jessica Tandy[19] fez grande sucesso. Direção muito boa com um cenário criativo – três cômodos e uma escada também, mas muito diferente do nosso, com o fundo transparente, que de vez em quando deixa ver a rua por trás da parede –, ruídos sutis e música. Muito desagradável e brutal, mas tremendamente bem representada, e a direção e o texto, numa espécie de contraponto de violência, contrastam com a ternura nostálgica, muito eficiente e original. Sem o tratamento sutil que lhe deram, se resumiria a uma melancolia e a uma feiura patológicas, mas possui uma espécie de beleza e de páthos misteriosos, como na música de Debussy ou de Poulenc.

 

1949

PARA CECIL BEATON
Liverpool, 27 de abril

Muita gentileza sua se dar ao trabalho de me escrever por ocasião da morte de meu pai. Foi muito demorado e muito triste, tanto para ele quanto para minha mãe e minha irmã, que se esgotaram cuidando dele durante dois anos ou mais, de modo que não podemos deixar de nos sentir gratos por isso ter afinal terminado.

 

1950

PARA CHRISTOPHER FRY[20]
Nova York, novembro

Nova York é uma cidade aterradora, mas freneticamente bela em muitos aspectos. A gentileza e a hospitalidade são avassaladoras, mas há dinheiro demais, comida e bebida demais, e também respeito demais pelo sucesso, ao passo que o esforço e o fracasso são simplesmente ignorados, ou varridos de cena, como se não existissem nem tempo nem lugar para eles.

Caro Christopher, obrigado pela peça e por tudo o que ela me proporcionou, em prazer e em dignidade. Seu sucesso estará sempre entre minhas teorias prediletas – a de que, no teatro, as coisas boas sempre acabarão recebendo o reconhecimento – e as pessoas aqui andam ainda mais sedentas do que as nossas para novas belezas, embora às vezes o teatro-lixo, vendido e empurrado para elas em torrentes intermináveis, entupa seus espíritos de vulgaridade.

 

PARA SUA MÃE
Nova York, 23 de novembro

É interessante como hoje em dia a ação foi quase que completamente usurpada pela tela, e o teatro está cada vez mais voltado para a exposição psicológica, com diálogos constrangedoramente realistas, e a atmosfera e os personagens tomam o lugar das situações do enredo – nada das prolixas perorações de Shaw e Ibsen, mas a nostalgia, misturada com violência, o que é também tão característico de Tennessee Williams e de outros dramaturgos americanos.

 

1951

PARA SUA MÃE
Nova York, 8 de janeiro

Pamela Brown[21] e eu faremos esta semana um programa de televisão – o meu primeiro. Somos entrevistados e depois representamos a cena da proposta de A Importância de Ser Prudente e um pouco de Alice e a Lagarta com “Você está velho, pai William”. Eles filmam tudo isso e depois põem no ar alguns dias depois. Uns dez minutos, ao todo. Deve ser bem divertido de fazer, embora tenhamos que começar às nove e meia da manhã – sem maquiagem!

 

PARA SUA MÃE
Nova York, 14 de janeiro

Pamela e eu fizemos nossa entrevista na televisão na sexta-feira – coisa longa e enfadonha – quatro horas para uma breve sessão de dez minutos. Eles fotografaram, mas não consigo deixar de ter a sensação de que é abominavelmente humilhante representar com interrupções de anúncios de Pepsi-Cola!

 

PARA SUA MÃE
Nova York, 5 de março

Como você verá por meio de outras notícias, Hamlet foi encenado na noite passada e fiquei muito decepcionado. Cortei a peça para uma versão perfeitamente tolerável de uma hora e meia, mas quando o produtor fez os arremates, foram cortados mais dez minutos. E com os “comerciais” dos patrocinadores e as narrações de Horatio a fim de esclarecer o sentido da ação, restou meramente o esqueleto da peça – apenas os três grandes solilóquios e uma pincelada das outras cenas –, como a cena do convento reduzida a três ou quatro falas, e assim por diante. É impossível apresentar o personagem numa forma tão truncada como essa – não restou nenhum humor, nada de Rosencrantz, Guildenstern ou Osric, todas as situações sentimentais com ênfase excessiva etc. De fato, detestei tudo e antes não tivesse aceitado participar. Massas de música melosa eram executadas quase o tempo todo por uma orquestra numerosa, e tudo vulgarizado por um apelo popular. A paixão por entrevistas e por diminutos fragmentos, disso que chamam de representação teatral séria para encher os programas, é uma coisa nauseante, barata e não posso me obrigar a fazer isso nunca mais.

 

1952

PARA SUA MÃE
os Angeles, 9 de agosto

O clima aqui está de fato maravilhoso, quase frio depois das sete horas, e frio e enevoado pela manhã. O sol irrompe por volta das dez horas e no meio do dia faz um tempo exatamente igual a junho na Inglaterra – sem vento e magnífico. Os estúdios têm ar-refrigerado e disponho de um amplo camarim num prédio separado, e também um outro para me emperiquitar e receber visitas no local de filmagem. É possível pedir ao restaurante que traga as refeições e, sem nenhum teatro à noite para eu me preocupar, o trabalho corre calmo e relaxado.

James Mason está bastante nasal no papel de Brutus, como a um oficial do Exército super caxias. Receio que sua representação de Rommel num filme recente continue ainda presa a ele, mas tem um belo rosto e pelo menos não será pernóstico. Sem dúvida, a leitura que faz do papel é mais inteligente do que a de Harry Andrews[22]!

Marlon Brando é um rapaz engraçado, enérgico, egocêntrico, de 27 anos, nariz chato e cabeça redonda, braços e ombros enormes, e ainda dá a impressão de ser um estudante magrinho de Greenwich Village. É muito nervoso, resmunga suas falas e ensaia sozinho o dia inteiro. Muito respeitoso comigo, me arrastou para gravar dois discursos de Antônio em seu aparelho, onde ele escuta a própria voz e estuda gravações de Larry, Barrymore, Maurice Evans etc. para treinar a dicção. Creio que sua sinceridade pode levá-lo a uma atuação interessante?– seu inglês não é de todo mau e ele é obviamente muito ambicioso e inteligente. Contou-me que tem uma fazenda de gado e que, depois de mais dois anos filmando, vai estar completamente seguro financeiramente!! Faz parte de um teatro de estudantes em Nova York e é desesperadoramente sério a respeito de representar, mas acho que tem muito pouco humor e parece muito alheio a tudo, exceto ao desenvolvimento do próprio e evidente talento. Será bastante divertido observá-lo.

Joseph Mankiewicz, o diretor, é admirável – bem-humorado, sensível e sensato. Gosto muitíssimo dele. Richard Burton é um grande sucesso por aqui. Está fazendo Minha Prima Raquel, de Daphne du Maurier, com Olivia de Havilland. Noite passada, ele e a esposa me levaram de carro à praia de Malibu para jantar com os Selznick. Chaplin estava lá e tive com ele uma longa e fascinante conversa. É presunçoso, enfastiado e elegante, com o cabelo totalmente branco e mãos pequenas, expressivas e maravilhosas. Alterna generalidades filosóficas meio pretensiosas com súbitas explosões de doçura e afeição bem naturais. Esposa divertida, tímida, jovem e miúda, que obviamente o adora. Ele falou com grande nostalgia de Londres e de seus tempos de juventude, em que viveu lá. De repente, fez uma imitação fantástica de um ator italiano que foi visitar Eleonora Duse[23]. Ele inventou um diálogo entre os dois extremamente apurado e fluente que deixou a plateia fascinada – rodopiando uma cadeira, sentando nela a cavalo, com as mãos nas costas, os gestos e uma maravilhosa imitação de um diálogo italiano, pronunciado de um jeito que soava de fato como a língua italiana. De súbito houve uma agitação atrás do piano, um crisântemo enorme em cima dele se mexeu e Chaplin fez com que a velha senhora surgisse de uma porta oculta e, por ser tão natural, pela maneira como arrumou as flores, sentou-se lentamente e estendeu as mãos maravilhosas na direção da lareira, por um momento a plateia se esqueceu que ali havia um homem. Tudo isso foi interpretado de um modo tão expressivo que adquiriu uma vivacidade extraordinária.

As festas são suntuosas, mas canhestras – comida horrível, bebida demais, barulho em excesso e a mais bizarra mistura de roupas, mulheres em trajes de praia ou com vestidos de gala e os homens na mais louca variedade de roupas esporte. Mas não é difícil detectar as pessoas com quem a gente quer conversar e o resto dos convidados parece não ligar para os outros, nem esperam que os outros liguem para eles.

 

PARA SUA MÃE
Los Angeles, 30 de agosto

Assisti a algumas versões iniciais do filme, mas me senti desalentado, como sempre acontece comigo, pelo olho delator da câmera que registra de maneira fatal qualquer ínfimo escorregão, hesitação ou falta de concentração e me vi contraindo os lábios e fazendo aquilo que J. P.[24] chama de minha cara de Shylock. Tecnicamente, o trabalho é bastante difícil e fico muito contente por Mason ser tão experiente nesse ramo e me manter em equilíbrio, graças a um desempenho muito seguro e relaxado, que acho que faz um contraste muito melhor com o meu do que ocorreria no caso da ostentação retumbante de Harry Andrews, que sempre detestei. Todos estão impressionadíssimos, é claro, porque sou capaz de disparar as falas longas em alta velocidade e com grande precisão, sem que se perca o sentido, mas creio que estou interpretando de modo exagerado, e não sei absolutamente como fazer para evitar isso, sem perder a premência.

 

PARA SUA MÃE
Los Angeles, 4 de outubro

Agora estamos em nossos três últimos dias de filmagem, estou deixando a barba crescer e ficarei parecendo um assaltante, ou o 13º apóstolo. A cena da tenda ficou muito boa, embora eu ainda pisque e me remexa nas tomadas em close, e meus olhos vagueiem para os lados, como se procurassem um policial que estivesse vindo para me prender. James Mason é tão seguro e claro em sua representação facial que chego a ter inveja. Ele fez uma interpretação muito boa de Brutus e, quero crer, fará um grande sucesso nesse papel tão difícil. Se fizerem os cortes com argúcia, creio que eu consiga passar incólume, mas espero que não pensem que eu tenha feito uma interpretação teatral e veemente demais. Não vi nada das cenas de Brando, mas dizem que sua cena no Fórum ficou excelente.

1953

Em outubro, Gielgud foi detido em Chelsea por oferecer dinheiro em troca de serviços sexuais, e multado em 10 libras. Vários amigos lhe escreveram cartas de apoio.

 

PARA NOËL COWARD
Londres, 22 de outubro

Amigo sempre solícito e gentil – você me encabula com sua solidariedade e compreensão maravilhosas. Suponho que podia ter sido pior e agora devo tentar justificar a esplêndida confiança de meus amigos continuando a representar a peça como se não tivesse acontecido nada. Sei que você faria o mesmo. Obrigado.

 

PARA CECIL BEATON
Liverpool, 28 de outubro

Muito obrigado por escrever. É tão difícil dizer o que sinto por ter decepcionado a todos – o teatro, os amigos, a mim mesmo e minha família – e tudo por causa de um impulso extremamente idiota e passageiro.

O milagre é que meus amigos se puseram a meu favor de maneira magnífica, e até o público parece disposto a deixar que eu prossiga com meu trabalho. As duas coisas não teriam acontecido vinte anos atrás (embora eu também não acredite que a imprensa teria sido tão cruel).

Há muitas outras coisas pelas quais eu devo ser grato. Por exemplo, não creio que minha mãe tenha se dado conta do inteiro significado do fato, ou então ela é a atriz mais maravilhosa de toda a família Terry!

 

PARA LAURENCE OLIVIER
Londres, 21 de novembro

O fato de você pensar tanto em mim e em minhas agruras, com tudo aquilo que você tem para se preocupar, me comoveu profundamente – não tenho como lhe dizer o quanto foi importante receber a ajuda e o estímulo seu e de Viv, de Ralph e de Mu[25]? –, todos vocês mostraram um tato tão divino e tanta solidariedade, do tipo que uma pessoa jamais consegue esquecer nem agradecer o suficiente.

 

1955

PARA SUA MÃE
Berlim, 21 de setembro

Berlim é extremamente deprimente?– quilômetros intermináveis de ruínas, com uma espécie de reconstrução apática de uma cidade fantasma, cicatrizada no meio de áreas irregulares. Fomos de metrô na segunda-feira à noite ao Teatro Brecht no setor oriental, onde estavam encenando O Oficial do Recrutamento, de Farquhar, numa estranha versão de propaganda, com uma companhia algo indiferente, mas com um cenário e uma produção atraentes. Percebi que não se trata de uma das melhores peças do repertório deles, mas achei a apresentação muito interessante, embora tenha me ressentido com o entrelaçamento de uma comédia ligeira com uma sátira brutal dos métodos do Exército inglês e da opressão dos pobres.

 

1956

PARA PAUL ANSTEE[26]
Londres, junho

Eu me sinto uma puta desleal e detesto te trazer infelicidade. Não estou me defendendo – você me conhece bem demais, e todas as minhas fraquezas – e, quero crer, sabe que sou absolutamente apegado a você, e te admiro tanto pela doçura pessoal quanto pela sua altivez, inteligência e beleza física. Adoro estar com você e nem tenho palavras para te dizer tudo o que você me deu em termos de amizade, amor e lealdade. Agora cabe a você decidir se meu comportamento te trouxe infelicidade demais e quer que tudo termine. É claro que dá a impressão de que estou querendo tirar o máximo proveito de dois casos concomitantes, deixar você de lado quando me convém e procurá-lo de novo quando for minha vontade. Na verdade, não tenho intenção de fazer isso. Acho que, para você, pode parecer impossível que eu possa ter sentimentos fortes e permanentes por outra pessoa e ao mesmo tempo continuar tão ligado a você. Bem, eu simplesmente não posso deixar de escrever para George[27], receber notícias dele e ter vontade de passar um tempo com ele, uma vez por ano, porque gosto dele também. É tudo uma questão de pessoas diferentes, com personalidades completamente distintas, e tudo inapelavelmente misturado, eu receio, com uma atração sexual elementar, irresistível. Foi ridículo da minha parte sequer imaginar que você e ele poderiam gostar um do outro e acredite em mim, me arrependo infinitamente até de você ter sabido da existência dele – nada de bom resultou disso. De certo modo, se eu fosse um bom mentiroso, gostaria de ter mantido tudo em segredo.

 

PARA STARK YOUNG[28]
Londres, 22 de setembro

Há uma forte influência de Brecht, cuja companhia acabamos de ver aqui – montagem fascinante de O Círculo de Giz Caucasiano, O Oficial do Recrutamento, de Farquhar, e a famosa Mãe Coragem e seus Filhos, em que Helene Weigel (a senhora Brecht) teve um desempenho esplêndido. Infelizmente, não sei nenhuma palavra de alemão, portanto não poderia criticar com justiça, e fiquei tremendamente enfadado e irritado nas longas cenas de diálogo, mas no conjunto era tudo tão estimulante, e ensaiado e executado com tanto requinte, que foi uma grande inspiração, tudo feito a partir de 1949, quando os Brecht voltaram para a Alemanha e criaram um teatro em Berlim Oriental, amplamente financiado, receio, pelos russos! Só queria que Eric Bentley[29] não escrevesse tantas coisas maçantes e pretensiosas a respeito de Brecht e que as peças não parecessem tão propagandistas e cheias de sermões. Mas suponho que esse tipo de homem seja fanático por expor a própria visão e criar discípulos, como Shaw também fazia.

 

1958

PARA PAUL ANSTEE
Toronto, 28 de setembro

Finalmente terminou nossa longa primeira semana e hoje viajo para Kingston, depois para Ottawa e Montreal. Tive hemorroidas, uma gripe forte e fui obrigado a fechar para balanço. Portanto você pode imaginar que não ando especialmente alegre. Como se não bastasse, não consigo se quer fumar cigarro. No entanto, ganhamos 17 mil dólares aqui e mais de 7 mil numa noite em Stratford, e não houve nada senão elogios e gritos de bravo, portanto, na verdade eu não deveria reclamar.

Vou devolver a você Lolita. Puxa, que livro! Você pode achar que não tem o menor interesse por meninas de 12 anos, mas lhe garanto que você vai mudar de ideia. Os dois primeiros terços são de fato incríveis. Quase tão bom quanto Genet.

Ontem veio aqui um rapaz tão lindo – uns 23 anos de idade, está na universidade, cabelo bonito, olhos azuis, pele e dentes perfeitos, paletó esporte vermelho e pantalonas azuis, curtas e novinhas em folha, que rangiam o tempo todo a meu lado enquanto eu me apressava em conduzi-lo até meu camarim para lhe dar conselhos sobre o futuro! Tive de me conter com extrema dificuldade para não tentar marcar um encontro com ele. A cidade está inundada de criaturas encantadoras como ele, todos no melhor traje informal de universidade, que me parece tão atraente. As garotas, por outro lado, usam meias brancas até o tornozelo, tênis, e são simplesmente horrendas.

 

PARA PAUL ANSTEE
Beverly Hills, 4 de dezembro

Fomos ontem à Disneylândia. Foi simplesmente divino e eu queria muito que você estivesse conosco. A gente embarca numa lancha pequena no Jungle Cruise e vai deslizando pertinho dos crocodilos, dos gorilas, de borboletas gigantes etc., e o jovem divino no leme (de calças brancas justíssimas, feitas de um algodão grosso, camiseta e quepe de marinheiro) fazia comentários de uma banalidade maravilhosa agora segurem firme, pessoal, aqui é perigoso – enquanto passávamos nas corredeiras, ele disparou intermitentemente uma pistola para o alto quando um hipopótamo imenso empinou a cabeça para dentro do barco. Também flechas de borracha passavam voando, e surgiam incríveis animais e nativos mecânicos (eu suponho) em tamanho natural. Você nem imagina como foi divertido. Então fizemos dois roteiros incríveis – o de Branca de Neve, com bruxas que gritavam e efeitos sonoros, trechos escuros como breu; atravessamos paredes que abrem e fecham às nossas costas, vultos que saltam sobre nós quando passamos – e um outro chamado Peter Pan, em que a gente sobe uma rampa num barquinho através de janelas que abrem e de repente parece que estamos voando por cima de Londres, com uma maquete do Big Ben e tudo, e descemos numa inclinação de deixar os cabelos em pé, passando pelo Capitão Gancho, o Barrica e o Navio Pirata, todos a postos e brandindo seus punhos no ar no convés, abaixo de nós. E tinha um ridículo trenzinho de mineração com o piloto e os guardas com chapelões de cowboy (e jeans) que corre bufando através de túneis e de desertos e desce para uma reluzente caverna de pedras preciosas e cascatas. Foi de fato uma tarde hilariante. E aqui faz 30 graus durante o dia! Mais quente do que no sul da França. Portanto foi tudo muito divertido, mas também um pouco cansativo. O movimento incessante, os carros, as senhoras doidas e os rapazes sexy em toda parte. Se algum dia eu fizer um filme aqui outra vez, você tem que vir. Vai simplesmente adorar.

 

1959

PARA PAUL ANSTEE
Nova York, 1º de dezembro

Ben-Hur foi simplesmente divino, na verdade nem chegou a ser longo demais e Charlie Heston é definitivamente meu predileto, embora ele tenha um pouco de pelos demais na barriga para o meu gosto. Stephen Boyd é uma chatice, mas Hugh Griffith – o ator que eu menos gosto, em geral – está delicioso, pelo menos dessa vez. E os escravos nas galés e os condutores de bigas – ma foi!

 

PARA PAUL ANSTEE
Nova York, 6 de dezembro

Levaram-me a uma enfadonha e cretina peça beatnik no Village, intitulada A Conexão – um monte de drogados com um conjunto de jazz e uma porção de gente tomando picadas de heroína no banheiro (fora do palco) e espremendo seus furúnculos (no palco). “Caramba, olhe só todo esse pus verde nas minhas mãos”, e “merda” a cada duas palavras.

A Noviça Rebelde é tão inominável que estou mandando meu disco para Arthur M., como um presente jocoso. Se você quiser ouvir todo o horror disso, pode pular logo para a faixa 16 e tocá-la, mas tenho certeza de que não vai querer.

 

1961

PARA HUGH WHEELER
28 de setembro, Stratford-upon-Avon

Franco Zeffirelli é extraordinário – loucamente indisciplinado e mais impontual do que Peter Brook e Binkie[30] somados. Horas desperdiçadas todos os dias, começando a trabalhar com atraso, e intermináveis distrações – convites por telegrama e por telefone de Paris, Roma, Dallas, Nova York e Chicago, e ele perde tempo com todos eles, e lê (e escreve) cartas intermináveis, fica examinando à exaustão matérias da imprensa e as fotos de Romeu e Julieta em Veneza com o Vic, que aparentemente causou um furore. Elsa Maxwell, os Strasberg e mais Deus-sabe-quem do café society da Itália promoveram um baile e encheram as páginas dos jornais durante semanas com uma esplêndida publicidade para ele, o que ele adora.

Sua obra é brilhante ao extremo, mas ele enrola muito e perde tempo com discussões inúteis, e tudo acaba atrasando, cenário, figurinos, assim como a peça propriamente dita.

 

1962

PARA PAUL ANSTEE
Detroit, 19 de dezembro

O fim de semana foi extremamente divertido – uma festa enorme na cobertura de St Regis, uma multidão de gente que eu conhecia. Os cavalheiros não paravam de me dar beijinhos! Peter O’Toole, Jason Robards, Tennessee, Quintero etc. – e também algumas senhoras! Maggie Leighton[31] ficou histérica a noite inteira – atrasada, não havia táxis, dificuldades com o vestido, cansada, tempo demais sentada vendo o filme de quatro horas etc. –, mas como sempre ela foi muito amável.[32] Alec Guinness não está muito bem, parece muito uma velha senhora benevolente. É uma grande pena eu não ter participado do filme – seria um papel maravilhoso para mim. Não importa. O’Toole está maravilhoso – e também charmoso – e o filme inteiro é excelente, exceto por ser, na verdade, dois filmes – um é a história e o outro é o espetáculo. Mas é digno, de uma beleza de tirar o fôlego, comovente, empolgante e tudo mais. Apenas uma música pseudo-Rachmaninov comum e vulgar é o único senão, é o que achei. Todos os outros homens estão esplendidamente bem. Uma loucura de plateia – perucas, pedras preciosas, celebridades. De fato, adorei a noite.

 

1963

PARA PAUL ANSTEE
Toronto, 16 de janeiro

Segunda-feira à noite, duas bichas-loucas detestáveis, que conheci numa festa na semana passada, me convidaram para jantar. Cheguei à meia-noite no apartamento decorado com sórdido exagero; eles me encheram de bebida durante quase uma hora e depois comentaram: “Receio que o jantar só fique pronto daqui a 45 minutos”, com o que os dois me jogaram no chão e tentaram me possuir – juntos!! Francamente, na minha idade. Uma comida horrenda, galinha dura feito pedra, recheada com arroz selvagem, foi servida às duas da madrugada! Minha cara estava roxa e fazia um frio tão gelado que não pude sair com medo de não conseguir um táxi. Não conte para Martin e não conte para ninguém. Mas quel aventura – eles eram pretensiosos e horríveis, embora um deles tivesse um atributo bastante notável.

 

PARA PAUL ANSTEE
Melbourne, 12 de dezembro

Tempo ruim desde nossa chegada – úmido e feio. Fomos de carro até uma reserva natural com animais – foi muito divertido, apesar da terra lamacenta. Ursos coala (divinos), avestruzes, uma infinidade de pássaros maravilhosos e barulhentos, com bicos e plumagens de Hieronymus Bosch, papagaios, serpentes etc. Vi dois cangurus trepando – levaram horas, e pareciam tremendamente entediados. A senhora canguru mascava capim e olhava em volta com ar furtivo – como eu faço quando estou entediado numa festa! – e o cavalheiro canguru a mantinha segura pela barriga com aquelas duas lamentáveis patinhas dianteiras e executava sua parte sem o menor remorso.

 

1966

No final do ano, Gielgud e Irene Worth apresentaram o recital Homem e Mulher numa visita à América do Sul promovida pelo British Council.

PARA PAUL ANSTEE
Rio de Janeiro, 1º de dezembro

Parece bastante implausível estar aqui no calor tropical – úmido como Israel, Bombaim ou Melbourne. Sofrer um calor escaldante, fazer as malas, desfazer as malas, viajar de avião, almoços, entrevistas coletivas, festas, toda a chatice habitual do British Council entre as récitas e os ensaios – teatros líricos totalmente inadequados para se apresentar e uma barafunda que mistura opulência e pobreza à maneira de Graham Greene. Comida e bebida bem desagradáveis, mas todos solícitos e simpáticos, e algumas paisagens – praias, montanhas etc. – são bastante impressionantes. Estreamos na noite passada em São Paolo – só uma hora de avião – cidade medonha, com enormes buracos nas ruas, um trânsito e um barulho inacreditáveis. De fato maravilhosa vista de cima, mas pavorosa quando vista de perto – arranha-céus imensos e inacabados, e uma Galeria de Arte com uma dúzia de obras-primas num prédio soturno, as pinturas rachando, mal expostas e malcuidadas. Ao que parece, os brasileiros têm pouquíssimo interesse pela arte, embora todos, inclusive nós mesmos, estejamos empenhados em levá-los a se interessar.

O recital é longo demais e tivemos de cortar dez minutos. Irene está muito bem em seus dois vestidos fornecidos pelo Wool Board e feitos por Belinda Belleville, um branco, o outro amarelo, em estilo de túnica. Ela se saiu bem como Rosalinda, lady Macbeth e Cleópatra, mas com Volumnia, nada feito! Todos muitos simpáticos, mas toda a gentileza e as conversas superficiais são um pouco cansativas, e já passei por tudo isso tantas vezes na vida. Precisamos superar a decepção causada pelas duas visitas desastrosas de Vivien Leigh e Ralph Richardson, mas tenho esperança de que vamos conseguir.

(Clique aqui para ler a segunda parte)

[1] Filme de 1936, com Leslie Howard e Norma Shearer, dirigido por George Cukor.
[2] Versão de Max Reinhardt de Sonho de uma Noite de Verão.
[3] Filme de 1935, baseado na peça de Shakespeare, dirigido por Paul Czinner, com Elizabeth Bergner no papel de Rosalinda, e Laurence Olivier, no papel de Orlando.
[4] Noël Coward (1899-1973), dramaturgo e compositor inglês.
[5] Lillian Gish (1893-1993), atriz americana.
[6] Helen Hayes (1900-1993), atriz americana.
[7] A produção de que se apresentara mais vezes na Broadway.
[8] Montagem no teatro Old Vic, com Laurence Olivier no papel de Macbeth e Judith Anderson no de Lady Macbeth.
[9] Michel Saint-Denis (1897-1971), diretor de teatro nascido na França.
[10] Glen Byam Shaw (1904-86), ator e diretor britânico.
[11] Como muitos atores, Alec Guinness (1914-2000) havia se alistado e servia na Marinha.
[12] Na peça César e Cleópatra, de Shaw, com Vivien Leigh no papel de Cleópatra. César acabou sendo representado por Claude Rains.
[13] Ele interpretaria César somente em 1971, no Chichester Festival Theatre, na Inglaterra.
[14] Rex Whistler (1905-44), pintor e designer britânico.
[15] George Rylands (1902-99), professor e diretor de teatro britânico.
[16] Howard Turner (1928-), ator e escritor americano.
[17] Ralph Richardson foi nomeado cavaleiro em janeiro de 1947 e Olivier, em maio do mesmo ano.
[18] Donald Wolfit (1902–68), ator e agente teatral britânico.
[19] Jessica Tandy (1909–94), atriz britânica radicada nos Estados Unidos.
[20] Christopher Fry (1907–2005), dramaturgo britânico.
[21] Pamela Brown (1917–75), atriz britânica.
[22] Harry Andrews (1911–89), ator britânico.
[23] Eleonora Duse (1858–1924), atriz italiana.
[24] John Perry (1906–95), ator, dramaturgo e agente teatral nascido na Irlanda.
[25] Segunda esposa de Ralph Richardson, a atriz Meriel Forbes (1913–2000).
[26] O decorador Paul Anstee foi testamenteiro de Gielgud.
[27] George Pitcher (1925–), compositor, professor de filosofia em Princeton.
[28] Stark Young (1881–1963), escritor e crítico americano.
[29] Eric Bentley (1916–), crítico, tradutor e dramaturgo inglês naturalizado americano.
[30] Hugh “Binkie” Beaumont (1908–73), produtor teatral em Londres.
[31] Margaret Leighton (1922–76), atriz inglesa.
[32] Era a estreia de Lawrence da Arábia.

Fernanda Torres

Fernanda Torres, atriz e escritora, é autora do romance Fim, da Companhia das Letras

John Gielgud

John Gielgud (1904–2000) foi ator e diretor de teatro britânico. As cartas são trechos do livro Sir John Gielgud: a Life in Letters, licenciado por Goodman Derrick llp.

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