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Refúgio dinamarquês

Um árabe gay num país gay friendly
Gabriel de Sá
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Said Lutein, um jovem bonito de 22 anos, estatura mediana e olhos muito grandes, negros e amendoados, lembra exatamente o momento em que a guerra civil na Síria foi bater à porta de sua casa. Os primeiros conflitos entre o Exército do ditador Bashar al-Assad e os grupos rebeldes, em 2011, não chegaram a afetar o cotidiano em Damasco. Meses depois, apesar da intensificação do combate, as coisas continuavam relativamente tranquilas na capital do país. Certo dia, porém, andando pela rua no bairro rico e elegante onde morava, Lutein testemunhou a explosão de um carro-bomba. A árvore que havia entre ele e o veículo foi fundamental para lhe salvar a vida.

“Até hoje tenho a audição prejudicada por causa do estrondo”, comentou o rapaz após quase cinco anos, no saguão de um albergue em Copenhague, na Dinamarca. Ele vive na Europa desde 2014. Enquanto contava sua história, dividia a atenção entre o interlocutor e a cadelinha Elza, a quem alimentava com batata frita do McDonald’s. A pequena shih-tzu, de pelos bem tratados, parecia adorar o repasto.

No começo de 2012, ainda em Damasco, Lutein conheceu Noor, um tradutor alguns anos mais velho do que ele. Os dois se apaixonaram. Pouco depois, decidiram se mudar para o Líbano – e não apenas em virtude da guerra. Segundo o código penal sírio, relação homossexual é crime, punível com até três anos de prisão. Não bastasse, do outro lado do conflito, o Estado Islâmico costuma arremessar gays do alto de prédios. As perspectivas em Beirute pareciam mais amenas.

Alguns meses após se transferirem para o país vizinho, contudo, a saudade fez com que o casal tomasse um táxi de volta a Damasco. Pretendiam visitar amigos e rever familiares. Pouco menos de 140 quilômetros de estrada separam as duas capitais. Lutein e o namorado estavam sentados no banco de trás do carro quando, de passagem pela cidade síria de Al Zabadani, Noor subitamente parou de falar: fora atingido por uma bala perdida.

Ele pressionava o próprio pescoço a fim de que o sangue cessasse de jorrar, enquanto o motorista os levava às pressas para um hospital nas proximidades. O tradutor morreria seis horas depois. Lutein recebeu a notícia e ligou para a família do namorado, que deveria se ocupar da liberação do corpo e do sepultamento. Sozinho, o rapaz continuou a caminho de Damasco.

Nos meses seguintes, deprimido, quase não saía da casa dos pais. Quando afinal começou a se recuperar, decidiu abandonar o Oriente Médio. Seu destino seria a Dinamarca – e não à toa. O país foi o primeiro a reconhecer a união civil entre pessoas do mesmo sexo, em 1989, e desde então não perdeu o status de uma das nações mais gay friendly do mundo. “Eu imaginava arco-íris e unicórnios nas ruas”, disse o rapaz, fazendo graça.

Na etapa final do périplo até a Europa, Lutein e seu irmão, Jihad, precisaram atravessar o Mediterrâneo de barco, com 250 pessoas, da Líbia à Itália. De lá pegaram um avião para Copenhague, onde foram alocados num campo de refugiados. Depois de nove meses de espera e inúmeras entrevistas com a polícia e os responsáveis pelo setor de imigração, os dois conseguiram o status de asilados em 2014. Mas não se falam mais. “Cada um leva sua própria vida. Ele sabe que sou gay, embora nunca conversássemos sobre isso.” Sua companhia mais constante, desde aquela época, é a cachorrinha Elza.

 

Por mais que tentasse, Lutein não conseguia desgrudar os olhos do relógio. Penteou cuidadosamente o cabelo e escolheu seu melhor perfume. Era noite de sábado e ele, recém-chegado ao país, iria se encontrar com um dinamarquês. Os dois haviam se conhecido na comunidade online de paquera boyfriend.dk. Trocaram fotografias e conversaram um pouco até que o interesse mútuo se consolidasse. Marcaram de se ver perto da estação central de Helsingør, cidade onde Lutein morava à época.

Durante o encontro, enquanto papeavam para quebrar o gelo, o sírio acabou sendo questionado sobre sua origem. O clima ameno deu lugar a um certo desconforto: o semblante plácido do dinamarquês transfigurou-se num misto de medo e descontentamento. O rapaz loiro terminou a cerveja numa só golada e foi embora sem dizer tchau.

Lutein viria a interpretar a desconcertante reação da seguinte maneira: se ele fosse italiano ou turco, por exemplo, o dinamarquês teria reagido de outro jeito. Aquela não seria a única vez que o sírio se depararia com situações desse tipo no país europeu. Acredita ter sido preterido em empregos e, disso não tem nenhuma dúvida, é comum que bancos a seu lado, no transporte público, fiquem vazios, mesmo na hora do rush.

De fato, a Dinamarca, por mais gay friendly que seja, não é exatamente foreign friendly, segundo o ativista de direitos humanos paquistanês Bashy Quraishy, que integrou o conselho sobre minorias no governo do país escandinavo e fundou a organização European Network Against Racism (Enar). “Caso um refugiado procure asilo na Dinamarca, a chance de conseguir é bem menor se ele for muçulmano ou do Oriente Médio.”

O governo local, segundo Quraishy, acredita que a adaptação de imigrantes não brancos ao país é mais difícil – e parte da população parece querer mostrar que as autoridades estão corretas. No entanto, com a grande e recente leva migratória de sírios para a Europa, a Dinamarca acabou aceitando um número maior de pedidos de asilo.

Lutein, seja como for, se diz grato à terra que o acolheu. “A Dinamarca me deu a oportunidade de me sentir humano novamente. Eu poderia encontrar racismo em qualquer país, até mesmo no Brasil, conhecido por ser tão miscigenado.” Ele não está certo, porém, de que acharia uma cadela como Elza em outro lugar. “Nós nos amamos”, desmanchou-se, enquanto fazia festa na cachorrinha.

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