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Saci na luta

A peleja do pererê contra o grúfalo
Paula Sperb
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

O sul-mato-grossense Andriolli Costa, de 27 anos, é um estudioso dos sacis. Numa manhã quente de outubro, o saciólogo compareceu à Feira do Livro de Porto Alegre imbuído de uma missão que considera nobre. Iria tentar cumpri-la diante das dezenas de crianças que integravam sua plateia. As mais velhas não passavam dos 8 anos.

Ao lado de outros contadores de histórias, Costa participava de uma espécie de concurso de narrativas no QG dos Pitocos, espaço infantil da feira. Mal começou seu relato, o microfone que usava deu um zumbido agudo e parou de funcionar. Típica travessura da figurinha zombeteira de cachimbo na boca e carapuça vermelha, que também se compraz em embaralhar fios, fazer objetos desaparecerem e queimar o feijão da Tia Nastácia.

Resolvido o problema técnico, o pesquisador seguiu adiante. Disse às crianças que sua tataravó morava numa fazenda, no Pantanal. Ela se encarregava de caçar os animais das redondezas e, a tiros, botar comida em casa. O tataravô vivia encostado. “Era um velho muito porcaria”, resumiu o saciólogo. Cabia aos filhos e netos da caçadora ir à roça, sozinhos, para plantar e colher. Por serem muito novas, as crianças levavam os cachorros e, assim, se sentiam mais protegidas. Alguns olhinhos na plateia se arregalaram.

De repente, prosseguiu Costa, apareceu uma onça no campo e até os cachorros ficaram com medo. Quando tudo indicava que o felino iria garantir alimento para a semana inteira, ouviu-se, no meio do matagal, um assobio estranho. A fera, então, deu no pé e nunca mais voltou. O assobio era do saci, que também sabe meter medo em onça. O estudioso aproveitou o mote e explicou como fazer um barulho parecido com aquele assobio. Provavelmente não iria servir para assustar animais ferozes, mas ajudaria a chamar o saci.

A história agradou. O saciólogo, porém, tinha uma rival à altura. Luma Riella, de 22 anos, estudante de pedagogia, encantou a gurizada com seus gestos teatrais, caretas e mudanças de voz. Valia-se de recursos corporais para contar as peripécias de um ser fantástico, morador da floresta – só que, nesse caso, dos bosques europeus. Era o grúfalo, mistura de urso com búfalo. A performance revelou-se tão inebriante que, ao final da apresentação, uma menininha perguntou: “O grúfalo é real?”

 

O jovem pesquisador se descreve como um “observador de sacis”. Existem muitos outros no país – tanto que a turma fundou uma associação. A quem se interessa, Costa mostra o documento, guardado na carteira, que comprova sua filiação à Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci). Os componentes da agremiação sabem que o pererê pode ser muitíssimo real na fantasia das pessoas. Não à toa, cuidam para que continue a viver no imaginário nacional.

Apesar de cursar doutorado em jornalismo – e se sustentar, em grande medida, com uma bolsa de pós-graduação –, Costa consegue tempo para viajar pelo Brasil e fazer palestras sobre os sacis. Seu interesse pela criaturinha perneta vem desde a infância. Em Mato Grosso do Sul, escutava as histórias narradas por seu pai, professor universitário. “Ele contava que era perseguido pelo saci quando voltava da escola. Embora fosse um intelectual, dizia que tinha muito respeito por aqueles seres.”

Nas palestras, o estudioso costuma ensinar “exercícios de visualização” do pererê. Fez isso em Porto Alegre. Primeiro, recomendou às crianças que fechassem os olhos – a maioria dos pequeninos aceitou o conselho; outros tantos trapacearam. Depois, lhes pediu que imaginassem o saci e assobiassem de maneira a atraí-lo.

O pesquisador gosta de explicar o significado de cada característica associada ao pererê. A carapuça vermelha, por exemplo, simboliza a liberdade desde a Roma Antiga. Era usada por ex-escravos e por gente pobre que não queria ser confundida com os cativos. Também fez parte da indumentária de revoltosos durante a Revolução Francesa. Daí a crença de que, para prender o saci, é preciso retirar-lhe o capuz. Mas Costa se opõe a essa prática. Admira o caráter “livre, incontido, irrefreável” do personagem.

Outra tarefa que compete aos saciólogos é inventariar as expressões que se referem a seu objeto de estudo. Uma delas, “virado no saci”, indica um estado psicológico de grande agitação, característico do pererê.

Observadores não são os únicos amantes da figurinha malandra. Há um grupo de admiradores com alguns membros mais radicais, segundo Costa: o dos “criadores de sacis”. Nesse time, há até quem jure que o pererê existe de fato e anda aos saltos por aí. Alguns tentam dar fumos científicos à convicção, argumentando que o saci é uma espécie não catalogada de macaco – e o gorro vermelho, uma pelugem ruiva na cabeça.

Embora mais céticos, os observadores garantem que existem uns 300 tipos de sacis, conforme descrições que têm recolhido pelo Brasil. Nisso, fazem lembrar a histórica iniciativa de Monteiro Lobato, que promoveu um inquérito sobre o pererê em 1917, depois publicado no jornal O Estado de S. Paulo. O escritor solicitava aos leitores que enviassem cartas com “sua concepção pessoal de saci” e “causos” sobre o personagem.

 

Às tantas, em Porto Alegre, chegou a hora de as crianças decidirem qual o melhor contador de histórias daquele dia. Além de Costa e da estudante de pedagogia, outras três pessoas tinham se arriscado diante dos pequerruchos. Dois guris foram convidados a subir ao palco. Cochicharam entre si e informaram o veredicto ao anfitrião do evento. Eis que o vencedor havia sido… o grúfalo!

O saciólogo recebeu o golpe com altivez. O que lhe interessa mesmo é fazer as crianças conhecerem o pererê. Ele descreve sua atividade como uma “batalha pelo encantamento”. Em 2017, centenário do inquérito de Monteiro Lobato, a luta de Costa continua, com muitas aulas e palestras. “Vou pirar no ano que vem”, anuncia. “Quero estar virado no saci.”

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