Ver dados da foto ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Sanitário gourmet

Um faxineiro a serviço da sofisticação
Roberto Kaz
Tamanho da letra
A- A+ A
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

É fim de tarde no Grand Central Oyster Bar, restaurante centenário e chique que se localiza no subsolo de uma estação ferroviária de Nova York. Do lado de fora, a multidão corre para não perder os trens que partem rumo ao norte do estado. Do lado de dentro, outra multidão – essa mais cordata, formada por executivos, advogados, turistas e aposentados – disputa um lugar à mesa, para se fartar com os mais de duzentos tipos de ostra servidos na casa.

Alheio à algazarra, Rafael Rodriguez permanece de pé em frente à pia do banheiro masculino, onde bate ponto há quase vinte anos. Ao longo desse período, o trabalho – que se resumia a limpar o chão, os vasos sanitários e o lavatório – foi ganhando em sofisticação. Inicialmente, Rodriguez passou a oferecer itens de perfumaria à clientela. Depois, sentiu a necessidade de provê-la com artigos de primeiros socorros. Por fim, intuiu que o efeito da ostra no hálito de um homem poderia azedar o destino de uma eventual investida romântica. Providenciou escova de dente e bala de menta – que alocou sobre a pia, como os demais mimos, à distância (sugerida) de um agradecimento monetário. “Alguns não usam nada e me dão 5 dólares. Outros se perfumam e vão embora sem pagar um centavo.”

Rodriguez é um sujeito baixo, de cabelo curto, nascido há 53 anos na República Dominicana. Diz ter migrado legalmente para os Estados Unidos em 1997, após se casar com uma americana. Trabalhou primeiro como mecânico e, a seguir, como faxineiro em mercado, farmácia, bar e num restaurante de Manhattan chamado All Star – onde tinha a companhia de Joan, marido de sua prima, que o introduziu na técnica milenar de adular os clientes. “Eu ganhava 300 dólares por semana. O Joan conseguia até 1 000 com essa história dos perfumes.”

Em 1999, Rodriguez começou a trabalhar no banheiro do Grand Central Oyster, com contrato terceirizado. Quando o efetivaram, cinco anos depois, lembrou-se das artimanhas de Joan e se apossou do espaço como se fosse seu. A bancada de mármore, com duas pias, transformou-se em algo próximo de uma penteadeira. Hoje, ele calcula que os agrados, adquiridos sempre em lojas de departamento, lhe consomem 500 dólares ao ano.

 

Rodriguez mora no Bronx, região pobre de Nova York, com a mulher e três dos dez filhos. Trabalha cinco dias por semana, entre meio-dia e 22 horas. Às terças e aos domingos, tira folga. Encerrado o serviço, guarda os produtos num armário, dentro do próprio restaurante. A experiência no ofício lhe deu certa sabedoria sobre a alma masculina. Concluiu que a colônia Grey Flannel e o perfume 273 são para executivos cinquentões. Essências da Calvin Klein – sua marca preferida – seduzem os jovens. Curve, da Liz Claiborne, atende a qualquer público e ocasião. “Esse, por exemplo, vai usar Curve”, diz, baixinho, sobre um cliente antigo que acaba de entrar no banheiro (dali a um minuto, o vaticínio será comprovado).

Fora os perfumes, a bancada abriga um desodorante de aerossol, cotonetes, pente, loção pós-barba e uma caixa com lenços de papel, além de gel, spray e azeite para o cabelo (“o azeite não se usa muito agora”). Há também álcool, Band-aid e água oxigenada. Três escovas de dente, ainda na embalagem, pasta, antisséptico, um copo para bochecho, fio dental, palito, balas e três tipos de chiclete respondem pela higiene bucal. Completa o arsenal um pequeno rádio de pilha da marca Emerson e – mais importante – um potinho atulhado com notas de 1 dólar. “No passado, ainda havia os cigarros, mas o Bloomberg nos proibiu de oferecê-los”, lamenta, referindo-se ao bilionário Michael Bloomberg, prefeito de Nova York entre 2002 e 2013, período em que a cidade abraçou diversas leis contrárias ao fumo em restaurantes, bares e parques abertos. “Na época do cigarro, aí, sim, a gorjeta era boa.”

Rafael Rodriguez veste sempre um jaleco branco sobre a camisa e costuma entregar o papel toalha a quem acaba de lavar as mãos. A oferta, algo inconveniente, é quase irrecusável devido ao espaço exíguo. A cada meia hora, ele faz uma ronda para limpar o banheiro. Nessas ocasiões, abre o flanco da vigília e, por vezes, tem algum item de seu acervo roubado. “Já me levaram vários Curve e Calvin Klein. Também furtaram um Pasha, da Cartier, que custava 60 dólares.” Por isso, de quando em quando, o faxineiro recolhe o dinheiro do pote e o guarda no bolso, dentro de um envelope. Ele não revela quanto ganha de gorjeta, embora se recorde, com carinho, de dois clientes que o recompensaram com notas de 100 dólares. “Um deles era chinês.” Reconhece que outros tantos se mostraram incomodados diante do assédio. “Mas não dou bola quando me ofendem ou empurram. Estou trabalhando de forma legal. Sou cidadão americano.”

À parte as gorjetas, o posto no banheiro acabou por lhe render um ganho secundário. Foi lá que Rodriguez conheceu Rudolph Giuliani (outro ex-prefeito de Nova York), Álvaro Uribe (ex-presidente da Colômbia) e Enrique Peña Nieto (atual mandatário do México). Os encontros, sempre rápidos, resultaram num misto de orgulho e tristeza. “É que nenhum deles usou os meus perfumes. Essa gente não usa essas coisas. Não sei por quê, mas não usa.”

ASSINANTE PIAUÍ

Use o mesmo e-mail e senha cadastrados no site da Ed. Abril no ato da assinatura. Esqueceu a senha ou o e-mail ?