anais da luxúria

Santo Agostinho, inventor do sexo

Como o autor das Confissões concebeu a doutrina do pecado original

Stephen Greenblatt
Antes de Agostinho, a história de Adão e Eva parecia uma alegoria confusa para muitos cristãos: por que Deus impediria os homens de conhecer o bem e o mal?
Antes de Agostinho, a história de Adão e Eva parecia uma alegoria confusa para muitos cristãos: por que Deus impediria os homens de conhecer o bem e o mal? ILUSTRAÇÃO: ADÃO E EVA, O PECADO ORIGINAL_ILUMINURA DO LIVRO COMENTÁRIOS AO APOCALIPSE, PUBLICADO NO ANO 776 PELO BEATO DE LIÉBANA_FOTO DE ERICH LESSING_LESSINGIMAGES.COM

Num dia qualquer do ano 370 da era comum, um rapaz de 16 anos e seu pai foram juntos aos banhos públicos da cidade provincial romana de Tagaste, onde hoje fica a Argélia. Em certo momento da visita, o pai talvez tenha percebido que o menino experimentava uma ereção involuntária; ou simplesmente observou, no filho, a floração recente de pelos pubianos. Algo que dificilmente poderia ser considerado um grande acontecimento, com repercussões na história mundial, não fosse pelo fato de que o rapaz se chamava Agostinho, e que mais tarde ele viria a dar forma à teologia cristã, tanto para os católicos quanto para os protestantes, explorando recessos ocultos de nossa vida interior, legando a todos nós a convicção de que há algo de profundamente errado com a espécie humana. É provável que não tenha existido pensador ocidental mais importante nos últimos 1 500 anos.

Em suas Confissões, escritas em torno de 397, Agostinho descreveu o que havia acontecido tantos anos antes, na casa de banhos. Naquele dia, Patrício, seu pai, viu nele os sinais de uma jovem masculinidade indócil, inquieta adulescentia, e ficou encantado com a ideia de poder vir a ter netos em breve. É fácil, mesmo tantos anos mais tarde, imaginar o profundo embaraço do adolescente em questão. O que ficou fixado na memória de Agostinho, porém, foi algo que aconteceu depois que ele e o pai já tinham voltado para casa: “[Meu pai] o anunciou feliz a minha mãe, como se já imaginasse seus netos, feliz da ebriedade pela qual este mundo se esqueceu de Ti, seu criador, e amou em Teu lugar Tua criatura” (nas Confissões[1] Agostinho se dirige o tempo todo a Deus). Ocorre que sua mãe, Mônica, era uma cristã devota – e reagiu de maneira muito diversa. Como Deus já havia começado a construir Seu tempo no peito dela, ela “estremeceu de trepidação e tremor”, e a maturidade sexual do adolescente pagão foi oportunidade – não a primeira e nem certamente a última – para um sério desentendimento entre seus pais.

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Stephen Greenblatt

Escritor e historiador norte-americano, é autor de A Virada – O Nascimento do Mundo Moderno e Como Shakespeare Se Tornou Shakespeare.

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