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Segurança para 1 milhão de milionários

O pioneirismo de Muammar Kadafi faz escola na China

Dorrit Harazim
Ter uma garrafa estilhaçada contra a cabeça, e não se intimidar, faz parte do duro treinamento para guarda-costas feminino na China
Ter uma garrafa estilhaçada contra a cabeça, e não se intimidar, faz parte do duro treinamento para guarda-costas feminino na China FOTO: DAVID GRAY_REUTERS_LATINSTOCK

Quatro anos atrás, os 639 atletas que defenderam as cores da China na Olimpíada de Pequim pareciam ter o futuro assegurado – seja como professores de educação física, treinadores ou apenas bons exemplos a serem seguidos pelos jovens talentos que o país produz em quantidades industriais.

Hoje, às vésperas da Olimpíada de Londres, muitos ex-atletas ou esportistas que não conseguiram integrar a esquadra chinesa de 2012 descobriram um filão profissional mais duradouro para suas habilidades físicas. Juntaram-se às inesgotáveis fileiras de egressos do serviço militar em busca de emprego e foram povoar a miríade de centros de treinamento para guarda-costas que brotaram na China.

Cliente é o que não falta. Uma década atrás, o país não tinha produzido um único bilionário. Celebridades internacionais raramente se aventuraram por suas fronteiras e a percepção da corrupção político-empresarial em território chinês ainda era tímida. Hoje, segundo a lista publicada em março pela revista Forbes, o regime ainda formalmente comunista ostenta uma marca extraordinária: a produção de mais de 1 milhão de milionários. Tem mais: o país ocupa o terceiro lugar em número de bilionários (são 95), atrás apenas dos Estados Unidos e da Rússia.

Dado que um terço desses novos-ricões é de mulheres, a demanda por guarda-costas do sexo feminino foi a que mais cresceu, com lista de espera em quase todas as 3 mil empresas de segurança pessoal operando no país. Treinadas para nocautear assaltantes mesmo quando de salto alto e enfiadas num insuspeito terninho, as amazonas chinesas têm dado conta do recado. Para a contratante, andar escoltada por uma guarda-costas feminina chama menos a atenção, pois a “007” poderia ser confundida com uma assessora ou secretária-executiva da poderosa. Ademais, evitam-se os inevitáveis comentários e eventuais escândalos produzidos por seguranças bonitões e másculos a serviço de damas abastadas.

O treinamento das futuras agentes costuma ficar a cargo de ex-integrantes dos serviços especiais das Forças Armadas, e é duro. Uma das academias visitadas por jornalistas estrangeiros, a Yun Hai Elite Security, instalada num galpão próximo ao aeroporto de Pequim, funciona seis dias por semana, das seis da manhã às dez da noite, e mesmo a recruta recém-chegada costuma ter oferta de emprego garantida. “Para muitos milionários e celebridades chineses, ter uma escolta feminina se tornou quase uma questão de prestígio”, explica a gerente da Yun Hai.

O indiscutível pioneiro do ramo foi o ditador líbio Muammar Kadafi, com seu insólito harém de gladiadoras multinacionais. Mas, enquanto Kadafi exigia de suas contratadas, entre outras coisas, voto de castidade, uso de esmalte, rímel, uniforme de campanha e laquê no cabelo, as guarda-costas chinesas têm perfil diferente. Quase todas possuem formação universitária. Além de técnicas antiterror e artes marciais, aprendem etiqueta social (incluindo a arte de escolher vinhos e charutos).

Xiao Li, uma ex-aspirante olímpica em luta livre, tem porte atlético (1,80 metro), conhece línguas estrangeiras, poderia ser secretária e sabe nocautear um atacante armado em poucos segundos.A reportagem do Global Times, o diário em língua inglesa de maior circulação na China, informa que ela trocou o sonho olímpico pela carreira de guarda-costas e se declara feliz aos 27 anos de idade. Contratada pela agência Tianjiao Special Guard/Security Consultant Ltda., primeira especializada na formação da mão de obra exclusivamente feminina, Xiao já passou pelas quatro semanas de treinamento mais puxado – o que inclui permanecer impassível ao ter uma garrafa de vidro estilhaçada contra a cabeça e se submeter a exercícios de luta vestida apenas de biquíni. De tão requisitada, a Tianjiao precisou postar um anúncio na internet oferecendo mais 1 200 vagas para ex-integrantes das forças especiais chinesas.

Os incentivos para as candidatas mais promissoras são grandes: treinamento adicional em Israel e nos Estados Unidos, e remuneração de até 100 dólares por dia. Isso, num país em que o salário médio mensal, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), não ultrapassa os 656 dólares. O aumento galopante da desigualdade social na China – os 10% de domicílios mais ricos têm rendimento 65 vezes superior aos mais pobres – alimenta a insatisfação da população contra a nova elite e explica seus temores. O índice de sequestros e homicídios no país, até então incipientes, tem crescido.

Até nova ordem, o governo tem preferido evitar o uso do termo “guarda-costas”. Talvez por ter conotação demasiado capitalista decadente e evocar filmes de Hollywood. Nas esferas oficiais chinesas prefere-se falar em “consultores de segurança”.

Por enquanto, apenas 5% das fortunas individuais dos chineses estão investidos fora das fronteiras do país. E 60% dos milionários chineses que se declaram dispostos a morar no exterior ainda não o fizeram. Se chegar esse dia, o atual boom haverá de encontrar outra serventia.

Dorrit Harazim

Dorrit Harazim é jornalista. Foi editora de piauí de 2006 a 2012

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