O baixo crescimento crônico do mundo rico e o aumento da desigualdade podem ameaçar a democracia, diz Wolf; populismos de direita, como o 

de Trump, vieram para ficar
Ver dados da foto O baixo crescimento crônico do mundo rico e o aumento da desigualdade podem ameaçar a democracia, diz Wolf; populismos de direita, como o de Trump, vieram para ficar ILUSTRAÇÃO: @PEJAC_ART / WWW.PEJAC.ES

Sem almoço no FT

Martin Wolf alerta para os perigos da aliança entre a classe trabalhadora e a direita xenófoba
Rafael Cariello
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O baixo crescimento crônico do mundo rico e o aumento da desigualdade podem ameaçar a democracia, diz Wolf; populismos de direita, como o de Trump, vieram para ficar ILUSTRAÇÃO: @PEJAC_ART / WWW.PEJAC.ES

No dia em que o Reino Unido decidiu se separar da União Europeia, Martin Wolf foi se deitar cedo. “Nunca fico acordado esperando o resultado de eleições”, disse o jornalista, há vinte anos responsável pela principal coluna de análise econômica e política do Financial Times. Wolf é um dos mais influentes comentaristas de economia do mundo, seguido com atenção por vencedores do prêmio Nobel, presidentes de bancos centrais, grandes investidores. O tipo de influência que ele exerce tem menos a ver com o sobe e desce das Bolsas, com o frisson cotidiano de fazer ou perder dinheiro, do que com o velho adágio de que o jornalismo é o “rascunho da história”. No seu caso, por orientar a compreensão que a elite global tem do mundo, a fórmula continua a valer. “Gosto de dormir bem”, explicou. “Fui para a cama sem saber o resultado do plebiscito.”

Levantou-se na manhã seguinte um pouco antes das seis – “minha mulher ainda estava dormindo” – e ligou o computador. Havia se comprometido a escrever uma coluna sobre a decisão tomada pelos eleitores britânicos, a ser publicada na versão online do jornal. Disse ter ficado insatisfeito, mas não completamente surpreso, ao saber que 52% dos seus conterrâneos tinham preferido, na véspera, deixar de fazer parte do bloco político e econômico europeu.

Ninguém tinha clareza, naquele momento, de como exatamente se daria o Brexit – neologismo para a saída do Reino Unido da UE, a União Europeia. Na verdade, ninguém tem, ainda. Para entrar em vigor, a decisão popular precisa ser chancelada pelo Parlamento, etapa que não tem data para acontecer. Antes e depois disso, compete ao Reino Unido e à UE negociarem um novo status para a relação econômica entre o país e os seus vizinhos, do outro lado do Canal da Mancha. Não se sabe que forma ela assumirá.

A campanha pelo Leave (pela saída do bloco) havia defendido a necessidade de o Reino Unido escapar do que parecia ser um intolerável emaranhado burocrático e regulatório imposto pelo “continente” aos cidadãos e às empresas do país. Os partidários do Brexit prometiam, além disso, restabelecer o controle do governo local sobre suas próprias fronteiras, limitando o número de imigrantes e trabalhadores europeus na Grã-Bretanha – o discurso, algumas vezes próximo da xenofobia, se transformaria em ocasionais atitudes racistas em ônibus e trens de metrô, espaços públicos e redes sociais, nos dias seguintes à vitória do Leave.

Do ponto de vista estritamente econômico, contudo, era difícil entender e justificar a opção vencedora. Em 2015, a Europa foi o destino de quase metade (44%) de todas as exportações britânicas. Não espanta, assim, que muitos defensores do Brexit queiram continuar a se beneficiar do mercado único europeu, mantendo a possibilidade de vender bens e serviços aos seus tradicionais parceiros comerciais sem a imposição de barreiras tarifárias. Mas para isso Bruxelas exige, em contrapartida, que qualquer cidadão europeu possa ser empregado no Reino Unido, sem restrições. Livre movimentação de trabalhadores em troca da liberdade de comércio.

É essa a regra que vale hoje – e que deve ser modificada, de alguma forma. Se não quiser fazer concessões num dos pontos cruciais para os partidários do Brexit – o limite à entrada de imigrantes –, o Reino Unido terá que abrir mão de parte do seu acesso privilegiado ao rico mercado europeu.

 

Wolf, um senhor de 70 anos e cabelos brancos, educado nos anos 60 em Oxford, é filho de imigrantes. Sua mãe fugiu da Holanda assim que o país foi invadido pelos nazistas, em 1940. O pai, um intelectual, escritor e dramaturgo, havia conseguido escapar da Áustria em 1937, um ano antes da chegada das tropas alemãs a Viena. Apesar da barriga proeminente e dos ombros estreitos, o colunista do Financial Times passa a impressão de alguém que ainda tem bastante vigor físico – algo que combina com o semblante severo, as sobrancelhas expressivas e uma disposição, aparentemente permanente, para o embate intelectual. Numa briga imaginária num pub londrino, com pints de cerveja quente voando para todo lado, é mais fácil concebê-lo tomando parte na confusão do que fugindo.

O jornalista é também um enfático defensor dos benefícios políticos e civilizatórios de uma maior integração econômica. Abertura ao comércio e maior mobilidade de trabalhadores – algum tipo de “ordem liberal internacional”, como ele escreveu em seu livro Por que a Globalização Funciona, de 2004 – foi algo que historicamente se mostrou eficaz para impulsionar o desempenho econômico dos países, tanto ricos quanto pobres – bem mais eficaz, de toda forma, do que economias fechadas, em geral acompanhadas de excesso de intervenção e planejamento estatal, ele diz.

De resto, afirma Wolf, garantir que as economias continuem a crescer – algo que tem se mostrado cada vez mais difícil, nos últimos anos – é importante para manter a democracia viva. “Quando as pessoas são privadas da esperança de uma vida melhor para elas próprias e seus filhos, sociedades baseadas em acordos mútuos correm o risco de perecer”, escreveu o jornalista uma década atrás, tomando como lição a crise dos anos 30 e a ascensão do fascismo.

 

O nacionalismo e a xenofobia de muitos eleitores britânicos, de um lado do Atlântico, e a candidatura de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, do outro, já são em parte sintomas de um baixo crescimento crônico, associado ao aumento da desigualdade, no mundo rico, segundo Wolf. Uma situação de mal-estar econômico e social que, no entanto, nada tem a ver com o aumento das trocas comerciais ou com os movimentos migratórios de trabalhadores poloneses e mexicanos, como parece crer parte do eleitorado nos dois países.

O problema, garante Wolf, é outro. Ao que tudo indica, o atual baixo crescimento das economias desenvolvidas, quando comparado às taxas alcançadas em boa parte do século XX, resulta de uma incapacidade de repetir, na Europa, no Japão e nos Estados Unidos, os saltos tecnológicos e os ganhos de produtividade do passado. Se esse for de fato o diagnóstico – e não apenas uma demora na recuperação econômica depois da crise financeira de 2008 –, então a letargia deve continuar pelas próximas décadas, dando ainda mais força ao populismo de direita. Ideias como as de Donald Trump ou as dos nacionalistas xenófobos europeus muito provavelmente não são uma onda passageira, mas vieram para ficar, avalia o colunista do Financial Times.

“Esse é provavelmente o acontecimento mais desastroso na história britânica desde a Segunda Guerra Mundial”, Wolf escreveu sobre o Brexit na manhã do dia 24 de junho, assim que soube o resultado do plebiscito. “E o Reino Unido talvez não seja o último país a sofrer esse tipo de terremoto. Movimentos semelhantes de cidadãos raivosos têm acontecido em outras partes – em particular nos Estados Unidos e na França. O Reino Unido mostrou o caminho ao se jogar do precipício. Outros podem vir a nos seguir.”

 

Quatro dias depois de conhecido o resultado do plebiscito no Reino Unido, escrevi a Martin Wolf consultando-o sobre a possibilidade de fazer um perfil seu para a piauí. Depois de uma troca não muito longa de mensagens – as dele sempre telegráficas –, Wolf indicou que poderíamos conversar. Mas não parecia disposto a oferecer mais do que uma entrevista, uma única entrevista. Já era alguma coisa. Num dos últimos e-mails, sugeriu que nos encontrássemos numa quarta-feira, na semana seguinte, ao meio-dia.

O horário parecia promissor. Há pouco mais de duas décadas o Financial Times deu início à seção Lunch with the FT, em que semanalmente um de seus jornalistas entrevista alguma figura de destaque da vida pública – políticos, economistas, mas também artistas e intelectuais. O ambiente é um restaurante. Enquanto conversam, o repasto é servido. O formato, que combina o interesse do debate de ideias à estrutura narrativa construída por uma sucessão de pratos que parecem deliciosos, funciona impressionantemente bem. Comida fala à imaginação.

O próprio Wolf havia escrito, nos últimos anos, alguns ótimos “almoços com o FT”. Num bistrô em Nova York, em 2012, o economista Paul Krugman serviu-se de uma frugal salada niçoise, enquanto o jornalista inglês atacava uma terrine de foie gras. Com Ben Bernanke, ex-presidente do FED, o banco central americano, Wolf pedira um peixe-espada ao forno, acompanhado de batatas, couve-de-bruxelas e cebolas. Bernanke também quis peixe, mas grelhado, servido com purê de batatas.

Na mensagem seguinte, indiquei que talvez fosse uma boa ideia repetirmos a fórmula. Seria uma espécie de Lunch with the FT, só que dessa vez seria ele, Martin Wolf, o convidado. Perguntei por um restaurante em Londres. Em resposta, Wolf disse apenas que deveríamos nos encontrar meia hora mais tarde do que o horário sugerido originalmente: “Chegue às 12:30. Martin.”

 

Pontualmente às 12h30 do dia marcado, eu estava na recepção do Financial Times, na margem sul do rio Tâmisa, não muito distante do centro financeiro de Londres. Tinha atravessado a cidade de metrô, tomando o cuidado de levar uma certa quantidade de notas de 20 libras no bolso, para o caso de o cartão de crédito não passar – afinal, “não existe almoço grátis”.

Wolf foi me buscar nas catracas. Em vez de sair de uma vez, conduziu-me de volta a sua sala, na parte de trás do edifício, atravessando a redação a passos rápidos. Ao fundo do gabinete, perto da mesa onde ele trabalha, uma janela grande dava para o rio, que corria quase à altura da vista, com suas águas cor de barro. Como não bastassem as estantes numa das paredes, o chão estava coberto por pilhas e mais pilhas de livros. Era preciso achar o caminho entre eles. Na mesa de trabalho do jornalista havia um computador desktop de tela muito grande, dessas usadas por designers, e um laptop encaixado numa fresta da papelada. Três grandes pilhas de cartões de visita se equilibravam sobre a mesa. Havia livros também nas duas cadeiras para visitantes, e foi preciso que Wolf retirasse os volumes de uma delas, antes de me indicar o assento. “Tudo bem se fizermos a entrevista aqui, certo?”

“Claro”, respondi. Por um breve momento imaginei a carne branca e macia do peixe preparado no forno, bem temperada, que eu não comeria.

“Por que o voto no Leave venceu?”, perguntei.

Por causa de uma aliança inédita entre antigos opositores à União Europeia – gente que pertencia sobretudo à direita e sempre votou no Partido Conservador – e outros, novos opositores, eleitores que no passado costumavam apoiar o Partido Trabalhista, disse Wolf.

“Uma parte significativa da população britânica – algo entre um quarto e um terço – sempre foi contra a UE. Porque viam a União Europeia como uma violação da soberania nacional, viam-na como uma trama do continente para controlar o Reino Unido. Isso tem a ver com antiquíssimos estereótipos britânicos, séculos de estereótipos, remontando ao século XVI, quando os grandes inimigos eram a Espanha e a Igreja Católica. Em certo sentido, não mudou tanto. Não em relação à Igreja Católica: essa não ameaça mais.”

O jornalista estava sentado na sua cadeira de trabalho, com um dos pés apoiado sobre a lata de lixo. As suas curtas mensagens de e-mail, que me haviam feito temer um interlocutor lacônico, eram enganadoras. Wolf parecia gostar de falar.

Essa antiga fração do eleitorado, ele disse, sempre teve “uma certa ideia de soberania ligada a supostas ameaças vindas do continente e ao papel do Parlamento, uma instituição central para a identidade britânica”. “As grandes nações europeias têm jeitos diferentes de conceber suas próprias identidades nacionais. No Reino Unido, e em particular na Inglaterra, essa identidade está ligada à evolução das instituições políticas, que são bastante antigas e têm um enorme poder simbólico. Nada disso se aplica à França, à Alemanha ou à Itália, cujas instituições políticas são relativamente novas – e mudaram, têm mudado constantemente.”

Política, Parlamento e identidade nacional se confundem, para muitos eleitores britânicos. Assim, para muita gente que partilhava desse senso de identidade passou a ser particularmente preocupante, e ameaçador, o crescimento nos últimos trinta anos do poder político de Bruxelas, ele disse.

A esses eleitores se somaram, mais recentemente, os novos grupos antieuropeus, compostos sobretudo por gente da classe trabalhadora, segundo Wolf, muitos deles incomodados com a presença de imigrantes. Em 2004, dez novos países passaram a fazer parte da União Europeia, a maioria deles pertencente ao Leste Europeu. Imediatamente o Reino Unido se tornou um dos principais destinos para trabalhadores vindos de lá. Nos supermercados de Londres, passou a ser corriqueiro encontrar grandes seções de produtos poloneses, por exemplo. A imigração, de forma geral, aumentou ao longo da última década. Em 2001, 8,9% da população da Inglaterra e do País de Gales havia nascido fora do Reino Unido. Em 2011 esse grupo representava 13,4% da população dos dois países.

“O crescimento da imigração, especialmente da imigração de pessoas com menor capacitação profissional, combinada, desde 2003 ou 2004, com a relativa estagnação dos salários nesse grupo de pessoas que desempenham trabalhos menos sofisticados – algo que foi acompanhado, depois, pelo choque da crise financeira –, tornou uma parte grande da classe trabalhadora contrária à globalização, contrária à integração europeia como uma força econômica. Encontraram então uma causa comum com aquele primeiro grupo.”

A estagnação dos salários e a reação à imigração fizeram com que muitas pessoas que tradicionalmente votavam no Partido Trabalhista passassem a simpatizar com legendas de direita xenófobas, como o Ukip, o Partido pela Independência do Reino Unido, na sigla em inglês. “O Ukip acabou se tornando bastante popular entre essas pessoas. E se tornou uma ameaça ainda maior para o Partido Trabalhista do que para o Partido Conservador”, disse Martin Wolf. “Anti-imigrantes, contra mudanças, desiludidos com o presente – todo esse sentimento ultrapassa as antigas divisões entre esquerda e direita. O que se tem são pessoas que estão insatisfeitas e que historicamente eram conservadoras, de um lado, e pessoas que estão insatisfeitas que historicamente eram trabalhistas, de outro, todas reunidas. Essa mudança permitiu que o Brexit tivesse mais de 50% dos votos.”

 

Muita coisa mudou – além da proporção de estrangeiros na população britânica – desde que Martin Wolf escreveu, em 2004, seu livro Por que a Globalização Funciona. Naquela época, as principais forças ideológicas contra a intensificação dos fluxos de comércio e integração econômica global pertenciam à esquerda. O discurso podia muitas vezes parecer contraditório, opondo visões de “antiglobalistas” dos países ricos àquelas de anticapitalistas de nações pobres: do “sul”, vinham críticas de que o comércio global favorecia sobretudo as empresas multinacionais e os países mais ricos, e que por isso inevitavelmente a globalização levaria ao aumento das desigualdades econômicas. Do “norte”, o alerta de que o aumento da importação de produtos industriais vindos do Terceiro Mundo provocava a desindustrialização e a redução de salários na América do Norte e na Europa.

Era contra a esquerda, de toda forma, que Wolf argumentava então, ao afirmar que a abertura ao comércio havia beneficiado China e Índia, reduzindo a pobreza e melhorando as condições de vida de centenas de milhões de pessoas nesses dois gigantescos países asiáticos.

Pouco mais de uma década depois, vem sobretudo da direita o discurso mais eficaz contra a globalização. É verdade que a esquerda centrava suas críticas, nos anos 90 e 2000, sobretudo na livre circulação de capitais e mercadorias, enquanto a direita britânica tem como foco a mobilidade de trabalhadores. Nos Estados Unidos, contudo, Donald Trump alia um discurso xenófobo a ideias comerciais protecionistas, uma bandeira que pertencia – e de certo modo ainda pertence – à esquerda americana. A inflexão política é notável.

“Qual a razão dessa mudança?”, perguntei.

“É fascinante, e não consigo compreender completamente”, disse Wolf. “De fato, os movimentos intelectuais dominantes contra a globalização no final dos anos 90 e começo dos anos 2000 estavam na esquerda. Era um movimento de estudantes, havia o Le Monde Diplomatique, os líderes eram de modo geral marxistas, com muito apoio da América Latina. O Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, era visto como um movimento anticapitalista. Foi nesse ambiente, nesse contexto, que eu escrevi aquele livro, e tentei dar argumentos contra aquelas visões de mundo.”

O jornalista fez uma ponderação. “Essa linhagem não desapareceu completamente, ela ainda está por aí. Por exemplo, entre os eleitores de Bernie Sanders, nos Estados Unidos. Creio que o chavismo é uma forma radical desse tipo de corrente ideológica. Mas, para minha surpresa, o ataque desde a esquerda à globalização não parece mais tão forte, politicamente, quanto eu esperava que viesse a ser. Em grande medida porque toda a esquerda se enfraqueceu. A coisa mais surpreendente é que a crise financeira, uma crise gigantesca que deveria revitalizar a esquerda, tanto intelectual quanto moralmente, foi na verdade acompanhada por uma quase completa desintegração do projeto da esquerda.”

E qual a razão disso? Para Wolf, uma espécie de dinâmica interna da própria esquerda levou a esse enfraquecimento. Pouco a pouco, gestou-se uma crise na “coalizão de esquerda” que a fez perder o apoio de parte da sua tradicional base eleitoral – não à toa, o mesmo grupo de eleitores que acabou se vendo atraído pelo polo ideológico oposto. “A esquerda, assim como a direita, sempre foi uma coalizão de muitos interesses distintos, de muitas ideias distintas. A tentativa de Marx de dividir as coisas de maneira binária nunca funcionou muito bem, embora se aplicasse um pouco melhor à sua época.”

“De modo geral a esquerda tende a ser cosmopolita, aberta a mudanças sociais profundas, mesmo aquelas que são incômodas para muitas pessoas – todas as boas causas, todas as que valeram a pena. A esquerda esteve do lado do feminismo, dos direitos dos gays, das causas do Terceiro Mundo. Tudo isso, que pode ser visto como socialmente emancipador, teve como resultado a enorme alienação, a meu ver, das suas bases tradicionais nas classes trabalhadoras. Socialmente e culturalmente, essas mudanças terminaram por alienar muitas dessas pessoas – em particular os homens.”

 

Sem tirar o pé de cima da lata de lixo – ele praticamente não mudou de posição, durante quase duas horas de conversa –, Wolf foi adiante. “Aquele movimento antiglobalização dos anos 90 era sobretudo um movimento estudantil, composto por pessoas jovens e escolarizadas. Nunca foi um movimento da classe trabalhadora, que olha para essas pessoas sem ser capaz de se identificar completamente com elas. ‘Eles não são como nós.’ Assim, eles, a classe trabalhadora, têm estado ‘soltos’, do ponto de vista de filiação partidária e ideológica, nos últimos 25 anos. O que eles estavam procurando eram partidos que enfatizassem valores fundamentais para eles, para a classe trabalhadora. Quais são esses valores? Hierarquia. Ordem. Proteção contra mudanças sociais desestabilizadoras. Reafirmação de sua posição na sociedade – em particular para os homens. Nós subestimamos, creio, o grau de incômodo vivido pelos homens mais pobres, associado com mudanças sociais que afetam o seu orgulho próprio, seu senso de masculinidade. Não estou defendendo isso. Não estou dizendo que eles têm razão. Mas é o que eu vejo que está acontecendo. E muitas das mulheres desses homens da classe trabalhadora os acompanham nesses sentimentos.”

Assim, uma aliança que havia sido duradoura, entre causas progressistas – a defesa dos direitos das minorias – e os interesses dos grupos de trabalhadores mais pobres, entrou em crise. “Essa capacidade de sustentar grandes coalizões de esquerda entre as forças de cosmopolitismo progressista, de um lado, e a antiga classe trabalhadora, de outro – esse tem sido o lugar onde a esquerda tem se enfraquecido. O que eu acho que aconteceu, ao mesmo tempo, foi que homens da classe trabalhadora, procurando por redes de solidariedade, proteção contra mudanças sociais desestabilizadoras e proteção contra mudanças econômicas – que desde uma perspectiva limitada eles associam sobretudo com a liberalização do comércio –, encontraram políticos que, em essência, apoiavam uma combinação de etnonacionalismo, protecionismo econômico e conservadorismo social. Fascismo, de certa forma.”

O rio Tâmisa continuava a correr, mais rápido do que eu imaginava, para lá da janela atrás de Martin Wolf. Parecia que ia chover. “Creio que é por isso que nos Estados Unidos, no Reino Unido e também na Europa partidos etnonacionalistas da direita populista são mais atraentes para a classe trabalhadora do que costumavam ser – e as coalizões de esquerda se tornaram menos atraentes. Eu não esperava ver isso acontecer quando escrevi o livro, no início dos anos 2000, mas acho que ninguém esperava. O que estamos vendo agora é uma mudança muito preocupante – embora bastante compreensível.”

 

Já passava das 13h30. Será que Martin Wolf tinha comido um sanduíche, antes que eu chegasse? Um sanduíche iria bem, embora nem se compare a uma terrine de foie gras – ou mesmo a uma salada niçoise. Não era o caso de lamentar, claro, a disposição do entrevistado para conversar pelo tempo que fosse necessário. Ao contrário. Por diversas vezes o telefone celular vibrou sobre a mesa, sem que Wolf fizesse menção de consultá-lo ou mesmo de checar quem chamava.

Parecia absorvido pelas preocupações políticas. A chave para compreender o pessimismo de Wolf, como ele já deixara claro em textos para o Financial Times, estava na sua visão sobre as perspectivas econômicas dos países ricos. Ele havia tratado disso na véspera, numa coluna sobre o livro The Rise and Fall of American Growth [Ascensão e Queda do Crescimento Americano], do economista e historiador econômico Robert Gordon.

Na obra, Gordon defende que o padrão de rápido crescimento sustentado pela economia americana ao longo da maior parte do século XX chegou ao fim e não deve se repetir nas próximas décadas. Em seu comentário, Wolf lembrava que a economia americana, a mais inovadora do mundo – ao longo de todo o século XX na fronteira dos avanços tecnológicos globais –, apontava o caminho para o restante do mundo desenvolvido. Ganhos de produtividade – em particular na indústria – haviam permitido que se fabricasse uma quantidade cada vez maior de produtos, em menos tempo, a um custo menor. O padrão de vida e os salários da maior parte da população também cresceram, em consequência disso. Os ganhos vieram sobretudo da progressiva adoção, até os anos 1970, de invenções fundamentais feitas entre o século XIX e o início do XX, como a eletricidade, novos produtos químicos e farmacêuticos e o motor de combustão interna.

Foi esse tipo de crescimento acelerado da renda da maior parte da população, me disse Wolf no Financial Times, que por sua vez permitira avanços democráticos desde o século XIX. “Em 1800, não havia democracias com sufrágio universal em nenhum lugar do mundo. Hoje há muitas delas. E por quê? Há quem diga que é porque nos tornamos mais sábios e inteligentes. Na verdade, a principal razão, a meu ver, foram os imensos ganhos de prosperidade desde então, o desenvolvimento de uma economia sofisticada que exigia o aumento da escolarização de toda a população, maior urbanização. A transformação da nossa sociedade ao mesmo tempo permitiu e exigiu maior inclusão política. É algo completamente diferente de uma sociedade em que 70% ou 80% das pessoas são camponeses.”

“Se você tem uma economia que cresce, é possível para todo mundo melhorar de vida. Chega-se a uma situação de ‘jogo de soma positiva’, na política. Quer dizer, se todo mundo melhora, você distribui os resultados do crescimento sem fazer nenhum grupo em particular piorar de vida. É um ambiente bastante positivo, com menos conflitos, para fazer política. Era a situação que o Brasil vivia durante o boom de commodities, por exemplo – situação que o país não vive mais, agora.”

O problema, argumenta Robert Gordon em seu livro, é que nada que tenha sido inventado e adotado depois dos anos 70, como os computadores pessoais e a revolução na tecnologia de informação, teve ou terá impacto tão decisivo e duradouro nos ganhos de produtividade quanto aquelas invenções dos últimos dois séculos – e a economia não deve voltar a crescer como no passado. Essa é a parte mais controversa do argumento do economista americano. Afinal, como é possível saber?

Ele apresenta fortes indícios de que as inovações recentes, embora tenham tido algum impacto no final dos anos 90, deixaram de provocar ganhos de produtividade significativos desde 2004, pelo menos.

O economista americano cita o empresário Peter Thiel, cofundador da empresa de pagamentos online PayPal, para ilustrar as esperanças frustradas do novo século. “Nós queríamos carros que voassem, e em vez disso ganhamos 140 caracteres”, disse Thiel, em referência ao Twitter e às redes sociais.

Mas quem garante que novas invenções não possam disparar um renovado processo de crescimento, como o que aconteceu na Europa e nos Estados Unidos entre a Segunda Guerra Mundial e meados dos anos 70?

De certa forma, respondeu Wolf, as economias avançadas pagam o preço do próprio sucesso. O rápido crescimento da escolaridade de seus trabalhadores – que tanto as ajudou a crescer – ficou para trás. Famílias menores e uma maior expectativa de vida, resultados da prosperidade econômica, também trouxeram dificuldades: associado ao envelhecimento da população, o número de pessoas em idade economicamente ativa passou a crescer mais devagar. Os impressionantes avanços de produtividade na indústria, em particular, permitiram que se fabricasse muito mais e a renda total crescesse, mas empregando cada vez menos gente, proporcionalmente, e levando ao mercado produtos cada vez mais baratos. Como consequência, a participação da indústria de transformação nas economias diminuiu – representa hoje pouco mais de um décimo do Produto Interno Bruto dos países ricos.

Assim, mesmo grandes inovações industriais – novas máquinas, novos processos –, que no passado contribuíram para o crescimento acelerado, terão daqui para a frente impacto reduzido no ganho de produtividade total da economia, no aumento da renda e no incremento do PIB – porque seu impacto se dará principalmente sobre essa fração menor do total da produção. Claro que há inovações que afetam o conjunto da economia. Mas tem se mostrado bem mais difícil conseguir ganhos de produtividade expressivos em muitas áreas no setor de serviços, cada vez mais importantes. É limitada a ajuda que máquinas e computadores podem oferecer ao trabalho em creches e restaurantes, por exemplo, embora não seja inexistente. Por fim, acrescentou Wolf, não faz sentido culpar a globalização e o comércio por essa situação. A solução proposta pelos protecionistas é inútil.

“A fatia de bens industriais no produto total do Reino Unido e dos Estados Unidos, hoje, é cerca de 10%. Se eliminássemos tudo o que é importado nesse setor, e ficássemos completamente autossuficientes, a parte da indústria alcançaria uns 14% – e só. Todos aqueles postos de trabalho industriais nunca mais voltarão a existir. Nunca. Porque o crescimento da produtividade é maior no setor industrial do que em qualquer outro setor da economia, e o crescimento da demanda por esse tipo de produto é menor do que o aumento da renda. Nos países ricos, o aumento de renda não é mais gasto principalmente em produtos industriais. Todo mundo já tem mais de um carro na garagem nos Estados Unidos, mesmo os pobres. Gasta-se o dinheiro extra indo a restaurantes, pagando por melhores creches, esse tipo de coisa. Os trabalhos industriais já eram.”

A diminuição da importância da indústria no conjunto da economia também contribuiu, segundo Robert Gordon, para o aumento da desigualdade – que não à toa vem crescendo desde os anos 70 nos Estados Unidos e no Reino Unido.

“Trabalhos industriais relativamente bem remunerados desapareceram, à medida que a fatia dos postos de trabalho na indústria caiu, nos Estados Unidos, de 30% em 1953 para menos de 10% atualmente”, ele escreve, em seu livro. Assim, a composição geral dos postos de trabalho naquela sociedade mudou, com uma proporção maior de empregos criados no topo da “distribuição ocupacional” – ou seja, funções que exigem melhor formação técnica – e na base – trabalhos manuais ou que não necessitam de grande escolaridade –, em detrimento do “miolo”, dos tradicionais trabalhos da classe média. Quem estava no meio passou a ter que disputar vagas e salários com quem tem menos escolaridade, fazendo uma pressão ainda maior pela diminuição da renda de quem já ganhava pouco.

 

Se o crescimento ao longo do século XX havia ajudado a política, diminuindo os atritos sociais – a exemplo do que aconteceu no Brasil nos anos Lula, disse Wolf –, a tendência no mundo rico, daqui para a frente, é que o contrário aconteça.

“Se estamos num mundo em que o crescimento diminuiu de ritmo de maneira aparentemente prolongada, e há forças econômicas fortes trabalhando a favor do aumento da desigualdade, então estamos num mundo em que a política se torna muito difícil num contexto democrático. Pode até mesmo ficar impossível manter a democracia. Podemos testemunhar o surgimento de forças profundamente antidemocráticas. Eu não esperava que fosse acontecer tão rápido, como já aconteceu. Porque a candidatura de Trump é isso: uma forma diluída de fascismo.”

A entrevista estava chegando ao fim. “Tudo somado, uma grande parte da nossa população se sente desestabilizada, à deriva, ressentida – e eu não vejo como isso vai ser resolvido. Chego à conclusão de que esses fenômenos vão ser uma parte importante da nossa sociedade e da nossa política no futuro próximo, até onde a vista alcança.”

Já eram quase 14h30. Martin Wolf se levantou para me acompanhar até a saída, passando pelas mesas dos repórteres. No caminho, comentou que quase nunca trabalha ou escreve de casa – gosta de se encontrar com os colegas, e do ambiente de redação. “Este é um grande jornal”, declarou. Perguntei se por acaso ele já tinha almoçado. “Ainda não”, respondeu. Havia uma boa cantina no Financial Times, ele me disse, ali mesmo naquele edifício. Comeria alguma coisa por lá. “Ah, bom”, eu falei. Agradeci a gentileza da conversa e saí de lá à procura de um pub.

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