história pessoal

Sem lenço, sem documento

A Turquia moderna e eu

Elif Batuman
Para eles, cobrir a cabeça era um gesto feminista, porque deixava claro que a mulher exigia respeito: com ela não ocorriam mal-entendidos
Para eles, cobrir a cabeça era um gesto feminista, porque deixava claro que a mulher exigia respeito: com ela não ocorriam mal-entendidos ILUSTRAÇÃO: ANNA PARINI

Em 1924, um ano depois de fundar a República da Turquia sobre as ruínas do Império Otomano, Mustafá Kemal Atatürk, o novo líder do país, aboliu o Califado Otomano, o único califado islâmico sunita remanescente desde 1517. Atatürk introduziu uma Constituição secular e códigos civis e penais de molde ocidental, fechou os alojamentos dos dervixes e as escolas religiosas, aboliu a poligamia, instaurou o casamento civil e criou um concurso nacional de beleza. E também garantiu às mulheres o direito de votar e de se candidatar a cargo eletivo, o direito à propriedade e ao posto de juiz da Suprema Corte. O uso do lenço na cabeça foi desestimulado. A “lei do chapéu”, de 1925, proibiu o turbante e o fez (o chapeuzinho cônico em geral vermelho): os homens só poderiam usar chapéus à moda ocidental. A escrita árabe otomana foi substituída pelo alfabeto latino, e a própria língua foi “purgada” de elementos árabes e persas.

À época, meus avós ou não tinham nascido ou eram muito jovens. Só meu avô materno tinha idade suficiente para lembrar ter jogado o fez para o alto no aniversário do sultão. Meus pais nasceram num país laico. Conheceram-se na melhor faculdade de medicina da Turquia, mudaram-se para os Estados Unidos nos anos 70 e se tornaram pesquisadores e professores. Os dois eram, e continuam sendo, fervorosos apoiadores de Atatürk. Cresci ouvindo que, graças a ele, minha avó não precisou ser uma “mulher coberta”, dependente de um homem para seu sustento: ela estudou num internato, escreveu uma tese sobre Balzac e se tornou professora. Eu era grata a Atatürk por meus pais serem tão bem-educados, sem que a superstição e a religião lhes tivessem atrasado a vida, por eles serem verdadeiros cientistas, que me ensinaram a ler quando eu tinha 3 anos de idade e nunca duvidaram de que eu poderia ser escritora.

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Elif Batuman

Elif Bautman é escritora americana de origem turca e colabora com a revista The New Yorker

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